Eleições 2026 no Paraná: a hegemonia burguesa, o agronegócio e os desafios dos comunistas paranaenses

Eleições 2026 no Paraná: a hegemonia burguesa, o agronegócio e os desafios dos comunistas paranaenses

Nota Editorial: O Conselho Editorial publica a tribuna “Eleições 2026 no Paraná: a hegemonia burguesa, o agronegócio e os desafios dos comunistas paranaenses” por reconhecer a relevância dos problemas que ela procura levantar: a estabilidade política da direita no estado, o peso econômico e ideológico do complexo agroindustrial, a concentração da atuação da esquerda na capital e a necessidade de inserção dos comunistas entre os trabalhadores dos setores estratégicos do proletariado paranaense. Esses temas merecem investigação coletiva e possuem relação direta com as prioridades organizativas aprovadas pelo Partido.

A contribuição, entretanto, apresenta insuficiências teóricas e empíricas importantes. O texto anuncia uma análise da hegemonia burguesa no Paraná, mas não chega a demonstrar como essa hegemonia foi historicamente constituída, quais frações de classe dirigem o bloco dominante, quais contradições existem entre elas, que relações mantêm com o capital monopolista nacional e internacional e por quais mediações exercem sua direção sobre as classes trabalhadoras. A hegemonia aparece frequentemente reduzida à continuidade eleitoral de governos de direita, aos índices de aprovação de Ratinho Júnior e à circulação de uma narrativa de sucesso econômico. Esses elementos podem ser manifestações de uma hegemonia, mas não bastam para explicá-la.

Uma análise marxista da hegemonia exige investigar a articulação entre direção ideológica, poder econômico, aparelhos de Estado, coerção e organização das classes. No caso paranaense, seria necessário examinar, entre outros aspectos, as relações entre o governo estadual, as cooperativas capitalistas, o sistema financeiro, as entidades patronais, os meios de comunicação, as igrejas, o aparato repressivo, as organizações do agronegócio e as formas de controle político exercidas sobre os municípios. Também seria indispensável analisar as derrotas impostas aos trabalhadores, como a repressão ao funcionalismo público, a privatização da Copel, a precarização da educação e os conflitos fundiários e indígenas. Sem essas mediações, o conceito de hegemonia corre o risco de se tornar apenas outra maneira de afirmar que a direita é eleitoralmente forte.

A fragilidade dos argumentos demonstrados pelo camarada também aparece na seleção dos exemplos. A lista apresentada como expressão do crescimento das “grandes cooperativas” paranaenses inclui a Copersucar, sediada em São Paulo; a Aurora, sediada em Santa Catarina; e a Camil, que não é uma cooperativa, mas uma sociedade anônima de capital aberto. A presença de unidades produtivas, associadas ou operações comerciais no Paraná não permite tratá-las indistintamente como cooperativas paranaenses. O texto tampouco explica as diferenças entre cooperativas singulares, cooperativas centrais e empresas capitalistas constituídas a partir ou ao redor dessas organizações. Essa distinção é fundamental para compreender a concentração de capital, a condição dos pequenos produtores subordinados, as relações de assalariamento e a integração do cooperativismo às cadeias monopolistas do agronegócio.

Outras afirmações exigiriam maior demonstração. A caracterização de Roberto Requião como alguém simplesmente distante da direita e do neoliberalismo não esclarece o caráter de classe de seu projeto nacional-desenvolvimentista nem sua atuação como dirigente do Estado burguês. Da mesma maneira, indicadores sobre crescimento regional, desemprego, educação, custo de vida e faturamento das cooperativas são mencionados sem séries históricas, critérios comparativos ou investigação sobre a distribuição da riqueza. Os dados aparecem como ilustrações das hipóteses, quando deveriam servir para testá-las.

A sucessão de perguntas formuladas pela tribuna pode orientar uma investigação, mas não substitui a análise. Reconhecer que ainda não possuímos respostas suficientes é correto; contudo, uma Tribuna de Debates deve procurar avançar na elaboração coletiva, oferecendo hipóteses fundamentadas, confrontando-as com dados e extraindo consequências políticas determinadas.

Também permaneceu, no texto do camarada, pouco elaborado o problema anunciado pelo título: as eleições de 2026. A tribuna identifica corretamente que as candidaturas da direita, da extrema-direita e da centro-esquerda não representam projetos antagônicos do ponto de vista dos interesses históricos do proletariado. Entretanto, não examina como a falsa polarização nacional se manifesta no Paraná, quais candidaturas socialistas podem servir à agitação revolucionária, quais critérios devem orientar eventuais apoios proporcionais ou como a campanha pode ser utilizada para organizar os trabalhadores dos setores estratégicos mencionados. A afirmação de que a denúncia da falsa polarização “não basta” é verdadeira, mas não pode servir para relativizar essa denúncia: combater tanto a extrema-direita quanto a Frente Ampla e preservar a independência política do proletariado são pressupostos da tática, não obstáculos à ampliação da influência comunista. Entendemos, entretanto, que muitas dessas questões só poderão ser melhor apresentadas a partir do desenvolvimento das discussões partidárias sobre as eleições e, por isso, achamos que é necessária a publicação do esforço teórico do camarada João em iniciar essa discussão para toda militância paranaense.

A publicação desta contribuição deve ser entendida como um chamado ao aprofundamento do debate, e não como uma mera validação de suas caracterizações. Conhecer concretamente o Paraná é, de fato, uma tarefa urgente. Isso exigirá superar formulações impressionistas, realizar uma investigação rigorosa da formação econômico-social do estado, estudar as condições de vida e de trabalho do proletariado e transformar esse conhecimento em orientação organizada para a luta de classes.

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Por João Oliveira

Qual é o problema político do Paraná?

As eleições de 2026 colocam diante dos comunistas paranaenses uma questão que merece reflexão cuidadosa. Diferentemente de estados onde os blocos políticos dominantes enfrentam desgastes profundos ou crises evidentes de legitimidade, o Paraná parece apresentar uma situação distinta. Após dois mandatos consecutivos, estando à frente do executivo paranaense por quase uma década, Ratinho Júnior (PSD) encerra seu governo com índices elevados de aprovação e mantém forte capacidade de influenciar sua sucessão. Ao mesmo tempo, figuras como o senador e pré-candidato à governador Sérgio Moro (PL-PR) continuam ocupando um espaço relevante na política estadual, enquanto a esquerda permanece eleitoralmente minoritária na maior parte do estado. 

Esse cenário levanta um questionamento que considero fundamental para o debate: como explicar a estabilidade política da direita paranaense em um período marcado por crises econômicas, polarização social e desgaste institucional em escala nacional?

Responder a essa questão é indispensável para qualquer elaboração séria sobre as tarefas dos comunistas no estado.

O objetivo desta tribuna não é apresentar respostas definitivas. Ao contrário, busco levantar hipóteses e abrir um debate que me parece insuficientemente desenvolvido no interior do nosso Partido e do conjunto da esquerda revolucionária paranaense.

O Paraná e a construção de uma hegemonia particular

Uma primeira hipótese é que o Paraná não pode ser compreendido apenas como um estado conservador. Só para citar alguns exemplos no campo institucional, o estado foi governado por Roberto Requião em três momentos distintos, no início da década de 1990 e durante boa parte dos anos 2000. Apesar de suas limitações, Requião está longe de ser um político da direita ou alinhado ao ideário neoliberal. Somado a isso, nas eleições de 2010, as duas vagas do Senado foram preenchidas por candidatos progressistas: uma por Requião e outra por Gleisi Hoffmann. 

Todo estado brasileiro possui setores conservadores, em maior ou menor medida. O que distingue o Paraná é a capacidade histórica das classes dominantes de construir uma hegemonia relativamente estável. Desde 2010 o estado é governado por políticos alinhados ao programa neoliberal, passando por dois mandatos consecutivos de Beto Richa (PSDB) e chegando nos dois mandatos, também consecutivos, de Ratinho Júnior (PSD).

Ao longo dos últimos anos, consolidou-se um bloco econômico e político baseado na articulação entre agronegócio, cooperativas industriais, setores industriais vinculados à exportação, capital financeiro e aparelhos ideológicos conservadores e neoliberais. Em relação à esse último elemento, importante destacar que um dos principais meios de comunicação do Paraná, a Rede Massa, vinculada ao Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), é de propriedade do pai do atual governador, o apresentador Ratinho. 

Esse bloco político não governa apenas através das instituições do Estado burguês. Ele organiza parte significativa da vida econômica e social do Paraná. 

O crescimento das grandes cooperativas é um elemento central desse processo. Grandes empresas como Copersucar, Coamo, Aurora, C.Vale, Lar, Camil, Cocamar, Copacol, Frimesa, Frísia e Integrada não atuam apenas na comercialização agrícola. Elas organizam cadeias produtivas completas, oferecem crédito, assistência técnica, armazenagem, industrialização e exportação. Em diversos municípios, seu peso econômico supera o orçamento das próprias prefeituras. 

De acordo com a Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), o cooperativismo representa 64% do Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio, sendo que o estado é responsável por 13% de toda a produção de grãos do Brasil, ficando atrás apenas do Mato Grosso. Em termos de faturamento, o cooperativismo paranaense saltou de R$ 45 bilhões em 2013 para R$ 186 bilhões em 2022.

Mas a questão talvez não seja apenas econômica. 

As cooperativas ajudaram a construir uma determinada visão de mundo. Uma visão segundo a qual o desenvolvimento regional decorre da colaboração entre grandes empresários, produtores e trabalhadores, onde, a partir dessa perspectiva, os conflitos sociais seriam obstáculos ao crescimento e o sucesso do agronegócio representaria automaticamente o sucesso de toda a sociedade paranaense. 

É possível que uma parte importante da estabilidade política da direita paranaense esteja associada a essa construção ideológica. 

Se essa hipótese estiver correta, ela possui consequências importantes para os comunistas paranaenses. Significa que nossa tarefa não é apenas denunciar a exploração econômica. É compreender os mecanismos concretos através dos quais o consenso é produzido. 

O mito do “Paraná que deu certo” e a luta de classes no estado

Outro aspecto que merece reflexão é a força da narrativa do chamado “Paraná que deu certo”.

Os indicadores sociais e econômicos frequentemente utilizados pelo governo estadual não são fictícios. O estado ocupa posições relevantes na produção agropecuária, apresenta taxas de desemprego inferiores à média nacional em diversos momentos, está em 1º lugar no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e possui uma estrutura econômica relativamente diversificada.

A questão não é negar esses dados. A questão é compreender os seus limites.

Quem se apropria da riqueza produzida no estado? Como se distribuem os ganhos do crescimento econômico? Quais são as condições de trabalho nos frigoríficos, nas cooperativas, nos centros logísticos e nas indústrias?

As trabalhadoras e os trabalhadores que sustentam o complexo agroindustrial paranaense experimentam o mesmo “sucesso” celebrado pela propaganda oficial?

Talvez uma das dificuldades da esquerda de forma geral, e da esquerda revolucionária em particular, seja justamente responder essas perguntas de forma concreta. Em muitos casos, limitamo-nos a denunciar genericamente o agronegócio sem investigar suficientemente as contradições que existem no interior do próprio modelo de desenvolvimento paranaense.

Uma consequência desse debate é a necessidade de repensar onde procuramos a luta de classes no estado. 

Historicamente, a esquerda paranaense concentrou boa parte de sua atuação em Curitiba, nas universidades e em setores organizados do funcionalismo público, em especial com as trabalhadoras e os trabalhadores da educação. Esses espaços continuam sendo importantes e devem ser preservados.

Mas será que eles são suficientes para compreender a realidade atual em nosso estado? 

O Paraná de 2026 não pode ser analisado apenas a partir da capital.

Noroeste, Centro Ocidental, Norte Central, Norte Pioneiro, Centro Oriental, Oeste, Sudoeste, Centro-Sul e Sudeste do estado concentram parte significativa da dinâmica econômica e política que sustenta a hegemonia burguesa no Paraná. Dados do Instituto Brasilerio de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que o maior crescimento proporcional foi registrado no Noroeste, com os 86 municípios da região representando juntos 11,2% da participação no PIB, ficando atrás apenas da Região Metropolitana de Curitiba (RMC), que registrou uma participação de 34,6%.

Além disso, Londrina, Maringá, Ponta Grossa, Cascavel, São José dos Pinhais, Foz do Iguaçu, Colombo, Guarapuava, Fazenda Rio Grande e Paranaguá talvez sejam hoje espaços tão estratégicos quanto Curitiba para compreender a formação social e econômica paranaense. 

É justamente nessas regiões que se concentram frigoríficos, cooperativas, complexos agroindustriais e importantes contingentes de trabalhadoras e trabalhadores assalariados.

Uma questão que merece investigação é se os comunistas paranaenses conhecem suficientemente a realidade dessas trabalhadoras e desses trabalhadores ou se a nossa compreensão do Paraná continua excessivamente marcada por uma perspectiva metropolitana, especialmente em relação à capital do estado. 

Limites do modelo paranaense e a falsa polarização de 2026

Reconhecer a força da hegemonia burguesa no Paraná não significa ignorar suas contradições. 

A privatização da Companhia Paranaense de Energia (Copel), por exemplo, abriu debates relevantes sobre patrimônio público, soberania energética e papel do Estado. Os conflitos envolvendo comunidades Avá-Guarani e Kaingang demonstram que a expansão econômica frequentemente entra em choque com direitos territoriais indígenas e de povos tradicionais. O aumento do custo de vida - o Paraná possui o 2º maior custo de vida do Brasil -, a precarização do trabalho e os problemas habitacionais também produzem tensões sociais importantes. 

A questão é compreender o peso político dessas contradições.

Estamos diante de problemas localizados ou de fissuras mais profundas no modelo de desenvolvimento estadual? 

Existe potencial para que esses conflitos se articulem em uma crítica mais ampla à ordem capitalista existente? 

Ou a burguesia continua conseguindo administrar essas tensões sem comprometer sua direção política?

Não me parece que essas perguntas possuam respostas óbvias. 

Mas justamente por isso precisam ser debatidas pelo nosso Partido e pelo conjunto da esquerda revolucionária paranaense. 

Outro tema que merece atenção é a disputa eleitoral de 2026.

Independentemente dos nomes que venham a ocupar o centro da corrida eleitoral - seja Sandro Alex, apoiado pelo grupo de Ratinho Júnior; seja Sérgio Moro, o candidato oficial da extrema-direita paranaense; ou seja representantes da centro-esquerda institucional -, parece difícil identificar projetos efetivamente antagônicos do ponto de vista dos interesses históricos da classe trabalhadora. 

Mas essa constatação não resolve automaticamente a questão tática de nosso Partido no estado. 

A simples denúncia da falsa polarização não basta para ampliar a influência comunista no Paraná. 

É necessário compreender por que amplos setores da população paranaense continuam identificando seus interesses com projetos neoliberais e conservadores. Sem responder a essa questão, qualquer intervenção eleitoral corre o risco de permanecer restrita a círculos já convencidos de nosso programa. 

Talvez a principal conclusão provisória deste debate seja que os comunistas paranaenses precisam conhecer melhor o Paraná. 

Conhecer melhor seus trabalhadores, suas cidades médias, suas cooperativas, seus sindicatos, seus conflitos territoriais e suas formas específicas de dominação ideológica.

A construção de uma alternativa revolucionária exige inserção real nos locais onde a hegemonia burguesa é produzida e reproduzida cotidianamente. 

Isso significa fortalecer a presença junto às trabalhadoras e aos trabalhadores dos frigoríficos, da logística, das cooperativas e da indústria (setores esses, inclusive, estratégicos para a inserção do Partido, conforme disposto em nossas resoluções congressuais). Significa ampliar o trabalho nos locais de trabalho, estudo e moradia. Significa desenvolver uma análise própria da formação social paranaense, sem importar mecanicamente categorias produzidas para outras realidades. 

Mais do que oferecer respostas prontas, esta tribuna pretende levantar uma questão estratégica: o principal desafio dos comunistas paranaenses é compreender como a burguesia conseguiu construir uma hegemonia tão duradoura e quais caminhos podem ser percorridos para romper essa hegemonia.

A resposta a essa pergunta não será construída individualmente. Ela dependerá da elaboração coletiva da militância, da investigação concreta da realidade e da experiência prática da luta de classes em nosso estado.

E é precisamente por isso que este debate precisa começar agora.