O Fetiche da Vitória Eleitoral a Todo Custo

As controvérsias da Bancada da Esquerda Radical: do manifesto antineoliberal ao apoio a Haddad em São Paulo e à submissão à Frente Ampla

O Fetiche da Vitória Eleitoral a Todo Custo
Reprodução/Foto: Instagram Sâmia Bomfim

Por VI

Esta tribuna tem por objetivo analisar as contradições que permeiam a “Bancada da Esquerda Radical”, com enfoque na aliança com a Frente Ampla, manifestada principalmente pelo anúncio do apoio a Fernando Haddad para o governo de São Paulo. Embora esse apoio tenha sido anunciado na convenção do Partido dos Trabalhadores, em 25 de julho, não consegui concluir o texto em um momento mais oportuno. As mazelas sofridas por todo trabalhador brasileiro, das quais não pude escapar por minha condição de classe, e a dramática conjuntura enfrentada pelos comunistas, que tem sugado meus esforços e afetado minha saúde, atrasaram sua finalização. Ainda assim, o aprofundamento das contradições a cada nova aliança da Esquerda Radical mantém a atualidade desta crítica. 

A Bancada da Esquerda Radical e suas alianças: um projeto antineoliberal pode se aliar a Fernando Haddad?

Após o lançamento do ‘Manifesto por uma Bancada da Esquerda Radical’ que trouxe novos contornos ao debate nacional sobre as eleições e provocou disputas no movimento comunista brasileiro, parte do nosso movimento passou a depositar nesse “novo” projeto a expectativa de superar as insuficiências estruturais da esquerda revolucionária, sobretudo no terreno eleitoral, e criar condições para avanços da classe trabalhadora a partir das chamadas “condições reais” da conjuntura. 

No entanto, o próprio conteúdo programático da Bancada já revelava uma inconsistência profunda e um caráter  caráter etapista. As “10 medidas econômicas para enfrentar o neoliberalismo” não mencionam Lula, Haddad ou a Frente Ampla, atuais gestores do neoliberalismo, nem identificam claramente a contradição entre burguesia e proletariado. A disputa acaba reduzida ao orçamento público, sob a expectativa de que o Estado burguês possa ser convertido em indutor do bem-estar social, como apontou o jornal  O Futuro, nº 24.

Se para P. Togliatti, aquele que erra na análise, erra na ação, aqui não poderia ser diferente. Um programa “antineoliberal” que exclui de sua análise os responsáveis  pelo atual estado de coisas, só poderá produzir uma tática assimilada ao projeto burguês em vigor, confundindo a consciência das massas e contribuindo para novas derrotas. Se para alguns, é possível construir um programa e conduzir uma tática eleitoral completamente dissociados das alianças , a prática demonstra que não. 

Por isso, concentro esta análise na tática da Bancada da Esquerda Radical, mais precisamente em sua política de alianças, campo em que se manifestam de maneira mais evidente suas relações com a Frente Ampla e suas principais contradições.

O apoio de Sâmia Bomfim (PSOL), signatária do manifesto, a Fernando Haddad (PT) na disputa pelo governo de São Paulo, assim como sua adesão à campanha de Simone Tebet (PSB) para o Senado, expõe concretamente os limites desse projeto. Uma política de alianças que já se delineava em outros estados, como veremos adiante, assume contradições ainda mais agudas em São Paulo. Diferentemente do que ocorre em boa parte do país, a esquerda revolucionária chegou a somar 13% nas pesquisas para o governo estadual, superando a condição de irrelevância eleitoral. Portanto, o pretexto da suposta inviabilidade das candidaturas revolucionárias, usado pela Esquerda Radical, não se aplica nesse quadro. Ainda assim, mesmo diante da possibilidade de apoiar uma candidatura revolucionária, Sâmia, o PSOL e a Bancada optaram por Haddad, o arquiteto do Arcabouço Fiscal (Novo Teto de Gastos).

A adesão de Sâmia à campanha de Tebet, justificada pelo “combate à extrema direita”, torna ainda mais visível a distância entre o programa da Bancada e sua tática, que parece priorizar a manutenção da Frente Ampla. Sendo assim, é importante questionar: como derrotar o Novo Teto de Gastos enquanto se trabalha para eleger os seus principais articuladores? Como combater os ataques ao Benefício de Prestação Continuada (BPC) aliando-se a quem os idealizou? E como combater o imperialismo, que, segundo o próprio manifesto da Bancada, “pretende manter o país de joelhos, apoiado pelas frações rentista, mineral e latifundiária da burguesia brasileira”, enquanto se apoia uma candidatura associada ao rentismo e ao agronegócio? A consequência dessa orientação é submeter os trabalhadores, mais uma vez, a um projeto neoliberal de gestão do capitalismo.

Apesar dessas contradições, o apoio a Haddad passou praticamente sem críticas e foi sendo naturalizado entre leitores e apoiadores da Bancada.

Jones Manoel, antes opositor de Haddad e hoje apresentado apenas como “crítico”, e seu canal Farol Brasil, que se consolidou como uma das principais mídias da Esquerda Radical, não deram destaque ao caso. Claro, tornar público que o projeto político apoiava aquele que, até pouco tempo antes, era apontado como um dos principais agentes do neoliberalismo no país poderia provocar indignação entre seu público e, sobretudo, entre seus eleitores.

Fato é, a tática da Bancada, nesse sentido, pouco se diferencia daquela do chamado “campo progressista”. E essa semelhança não se limita aos apoios a Haddad e Tebet.

No Rio Grande do Sul, para “derrotar” o bolsonarismo representado por Zucco (PL), Fernanda Melchionna (PSOL) faz firme campanha por Juliana Brizola (PDT) ao governo do estado. Juliana se apresenta como uma democrata no sentido mais burguês da palavra, sem nenhum histórico radical ou “combativo” (para adaptar a linguagem psolista). Em debate na RBS TV, respondeu a um representante dos latifundiários, se colocando contra  as ocupações de terra e às “invasões” de propriedade privada, defendendo a coerção policial nesses casos. No Distrito Federal, Fábio Félix apoia Erika Kokay (PT) e  no Pará, Vivi Reis apoia Araceli Lemos (PSOL).

A expansão da Bancada, com a adesão de Thiago Ávila (Rede), candidato em São Paulo e ativista pela causa palestina, sem histórico conhecido de atuação comunista; de Tuanne Almeida (PSOL), candidata pelo Espírito Santo que, em entrevista de 40 minutos ao Farol Brasil, sequer mencionou o socialismo ou a revolução e se limitou a defender a democracia em abstrato; e de Heloísa Helena (Rede), cuja trajetória inclui oposição à legalização e à descriminalização do aborto, não apenas aprofundou a inconsistência política da Bancada, como também contribuiu para restringir a agitação revolucionária aos limites da Frente Ampla e para construir o chamado “time com Lula” pelo país. 

Além dos signatários, Tuanne Almeida e Vinícius Machado apoiam Helder Salomão (PT) para o governo do Espírito Santo, enquanto Maria da Consolação apoia Patrus Ananias (PT) para o governo de Minas Gerais. Com exceção de Juliana Brizola, que não atua no âmbito federal, e de Araceli Lemos, que atualmente não ocupa cargo eletivo, os demais nomes citados votaram a favor do Novo Teto de Gastos. Helder Salomão e Patrus Ananias também foram favoráveis aos cortes no BPC por meio do PL 4.614/2024.

A conformação da Bancada em torno do campo liberal costuma ser justificada pelo sectarismo da esquerda revolucionária, que supostamente se recusaria a apoiar candidaturas desse projeto. É necessário reconhecer a existência do sectarismo entre os comunistas, mas também identificar o uso retórico dessa crítica pela Esquerda Radical e a relação com o PCB ajuda a compreender essa contradição.

O PCB, que mantém ótimas relações com o PSOL e que, por sinal, não parece ver problema algum em se colocar a seu reboque, tem apoiado diversas candidaturas do partido pelo país, inclusive candidaturas da Bancada, sem receber, em contrapartida, um único apoio da Bancada às suas candidaturas. Mesmo em disputas nas quais o PCB se apresenta como alternativa a outra candidatura liberal, como na eleição para o Senado em São Paulo, a Bancada opta pelo apoio à candidatura liberal. A conciliação parece ter espaço apenas quando se trata de candidaturas liberais. 

Os integrantes e apoiadores da Bancada poderão responder que não seria possível apoiar candidaturas comunistas “amadoras”. Porém, esse argumento expressa uma concepção liberal de tática eleitoral, na qual o potencial eleitoral da candidatura se sobrepõe ao programa revolucionário e ao seu conteúdo de classe.

Mas, se a política de alianças da Bancada se orienta pela necessidade de combater o amadorismo e a irrelevância eleitoral dos comunistas, além de priorizar candidaturas com chances de vitória, como explicar o apoio de Jones às candidaturas de Ivan Moraes (PSOL) ao governo de Pernambuco e de Paulo Rubem Santiago (Rede) ao Senado, ambas sem ultrapassar 1% nas pesquisas, senão pelo compromisso com a Federação PSOL-Rede em detrimento dos objetivos revolucionários? São Paulo e Pernambuco, embora não sejam os únicos exemplos, tornam evidente que os argumentos do amadorismo e da irrelevância eleitoral não explicam, por si sós, a opção pela aliança com os liberais. 

A política de alianças da Bancada revela, assim, três aspectos centrais. Primeiro, os apoios se concentram no campo social-liberal (PT, PSOL, Rede e PDT). Sem romper com o lulismo ou com a hegemonia neoliberal dentro da esquerda, a Bancada acaba se constituindo como uma ala à esquerda da Frente Ampla. Segundo, a preferência por candidaturas liberais, “profissionais” e com “chances de vitória”, em detrimento das candidaturas comunistas, revela uma tática eleitoral cujo conteúdo de classe e compromisso programático ficam em segundo plano. O objetivo deixa de ser eleger representantes do proletariado e passa a ser preservar o Estado burguês sob a direção de representantes tradicionais da classe dominante. Terceiro, críticas a problemas reais dos partidos comunistas — como sectarismo, falta de unidade, amadorismo e irrelevância eleitoral — deixam de servir à sua superação e passam a funcionar como justificativa para as próprias contradições da Bancada. Desse modo, o projeto apresentado como novo reproduz práticas velhas e tradicionais da política burguesa.

Segundo, a preferência por candidaturas liberais, “profissionais” e com “chances de vitória”, em detrimento das candidaturas comunistas, revela uma tática eleitoral cujo conteúdo de classe e compromisso programático são despriorizados.

Em todos os sentidos, a Bancada da Esquerda Radical se limita a reproduzir a tática eleitoral do PSOL. Por isso, não surpreende que repita o mesmo movimento observado na eleição passada: uma oposição situacional no primeiro momento, que a separa por uma distância mínima da ala direita do partido, seguida de uma capitulação completa ao petismo no período eleitoral. Nesse sentido, o que fica mais evidente em sua tática é a tentativa do PSOL de superar o quociente eleitoral, mascarada, desta vez, como um projeto revolucionário. 

“Não importa quem vai ajudar a empurrar o caminhão, mas sim quem vai sentar na boleia”

Francisco Martins Rodrigues, em *Anti-Dimitrov* (1985), critica a unidade política construída a qualquer custo em torno do mínimo denominador comum:

Raspemos a casca do bom-senso unitário, para lhe procurar o miolo de classe. ‘Unidade a todo o custo em torno de objetivos comuns’, ‘valorizar aquilo que une, pôr de lado tudo o que divide’, ‘democracia, paz, independência, primeiro, a revolução virá depois’, ‘democracia popular, um degrau para o socialismo’ — o que significa? Significa procurar, em cada situação, o máximo divisor comum das forças populares. Ou seja, alinhar o povo pelo nível mais moderado, comum a todos. Ou seja, pôr de lado os objetivos revolucionários da classe operária, que, obviamente, não são comuns.

Essa crítica ajuda a compreender como se consolida a unidade entre a Esquerda Radical e a Frente Ampla. Os objetivos revolucionários ou antineoliberais ficam em segundo plano, enquanto a prioridade passa a ser a manutenção da Frente Ampla e a viabilidade eleitoral. Assim, a contradição entre um projeto que se apresenta como antineoliberal e a aliança com forças neoliberais é atenuada porque os primeiros se adaptam ao nível mais moderado da aliança e passam a seguir os limites estabelecidos pelos liberais.

No vídeo “Humberto Matos debate a crise da esquerda Radical”, Jones Manoel afirma que é possível fazer aliança com qualquer força que se comprometa a apoiar um projeto comunista. À primeira vista, essa posição parece afastar o principismo e retomar uma compreensão de Lenin: “Só podem temer as alianças temporárias, mesmo com elementos inseguros, os que não possuem confiança em si próprios”. No entanto, a citação precisa ser compreendida em seu contexto. Lenin acrescenta que uma condição necessária para a aliança é a plena possibilidade de os socialistas revelarem à classe operária a oposição entre seus interesses e os interesses da burguesia: “[...] Mas uma condição necessária para tal aliança é a plena possibilidade de os socialistas revelarem à classe operária a posição hostil entre seus interesses e os interesses da burguesia”. 

Isso suscita algumas questões: como expor a oposição entre os interesses do proletariado e os interesses burgueses do governo Lula enquanto se mantém uma aliança com esse governo? Basta afirmar que os interesses dos trabalhadores vão além de Lula, mas que é necessário apoiá-lo no momento? É possível combater o aprofundamento do neoliberalismo aliando-se a quem promove seus ataques ao proletariado? Não é necessária uma verdadeira oposição de esquerda, hoje abandonada por Jones e por parte dos marxistas? E os liberais que ocupam a posição dominante nessa aliança ajudarão a “empurrar o caminhão” ou farão o possível para mantê-lo parado?

Esses questionamentos, cujas respostas serão facilmente encontradas por quem os analisar sob uma perspectiva revolucionária, ajudam a concluir que Jones atualmente recorre a uma concepção burguesa de tática, alheia ao leninismo, onde a estratégia revolucionária é jogada para segundo plano. Essa posição se manifesta de forma ainda mais clara em sua mudança de postura em relação ao voto no primeiro turno, tema que abordaremos mais à frente.

Mesmo no interior da Bancada, há diferenças importantes. Alguns integrantes ensaiam uma oposição circunstancial ao governo, que só viria depois de sua reeleição; outros demonstram alinhamento mais direto ao governo Lula. Vivi Reis, por exemplo, declarou em entrevista ao Faixa Livre não ter uma palavra contra o governo e condenou quem decidiu não apoiar sua reeleição no primeiro turno. A mesma questão aparece nas posições de Fábio Félix, Tuanne Almeida, Maria da Consolação e outros membros com vínculos políticos com o petismo.

A entrevista de Vinícius Machado ao Farol Brasil também expôs divergências com o programa da Bancada e dúvidas sobre o compromisso de seus integrantes com a realização de uma oposição de esquerda posterior ao governo. Para Vinícius, essa oposição seria fundamental para viabilizar a agitação revolucionária, mas não é acompanhada por alguns de seus pares.

As contradições são justificadas pela promessa de avanço organizativo do movimento revolucionário, que, segundo os integrantes da Bancada, só seria possível por meio dessas alianças. A lógica seria “primeiro cedemos, depois conquistamos”. Mas que avanço organizativo está sendo prometido? Trata-se apenas da eleição de um mandato a “serviço do proletariado”? Como submeter a classe trabalhadora a um projeto liberal e, ao mesmo tempo, afirmar que isso fortalecerá sua independência política? Sem respostas concretas, a promessa de avanço organizativo se transforma em justificativa abstrata para uma política de conciliação.

Ao defender uma tática supostamente livre de sectarismo e orientada pelo avanço eleitoral, a Bancada parece ignorar o conteúdo de classe de suas alianças, contrariando o conselho de Lenin em Esquerdismo: doença infantil do comunismo: 

"É preciso aprender a distinguir o homem que entregou aos bandidos sua bolsa e suas armas para diminuir o mal causado, por eles e facilitar sua captura e execução, daquele que dá aos bandidos sua bolsa e suas armas para participar da divisão do saque".

De timbu a rubro-negro?

Antes de avançar, peço que esta crítica seja compreendida como aquilo que é: uma crítica, não um ataque. Faço esse adendo, pois a crítica à esquerda revolucionária costuma ser tratada como legítima, enquanto as críticas à atual tática eleitoral de Jones são frequentemente classificadas como ataques sectários e infantis.

A mudança de posição de Jones Manoel em relação ao governo Lula tornou-se um dos principais pontos de divisão no debate eleitoral entre os comunistas. Como alguém que defendia que construir um programa antineoliberal em torno de Lula era autoengano passou a defender não apenas esse projeto, mas também o voto “tático” em Lula no primeiro turno? O que justificou essa mudança?

Antes de anunciar seu apoio a Lula no primeiro turno, Jones sugeria, nas entrelinhas, que apoiaria uma das candidaturas revolucionárias à Presidência. Essa posição seria mais coerente com sua trajetória de militância e de oposição de esquerda ao governo. No início de 2026, em um de seus vídeos, defendeu a unidade da esquerda revolucionária e rechaçou a posição de Valério Arcary, apresentada no artigo  “A esquerda radical deveria apoiar Lula desde o primeiro turno. Por quê?”. Em outro vídeo, chegou a insinuar que um dos três partidos marxistas talvez não lançasse candidatura própria e se subordinasse a Lula desde o primeiro turno, algo que, naquele momento, considerava inaceitável.

A mudança se tornou pública após sua filiação democrática ao PSOL. Primeiro, Jones evitou expor sua posição sobre Lula em seu canal e em entrevistas. Depois de ser pressionado pela base petista por causa de uma colinha eleitoral que não indicava voto para a Presidência, anunciou seu apoio a Lula em um vídeo que soou como um pedido de desculpas. No dia seguinte, os programas do Farol Brasil passaram a abordar o tema, reforçando o apoio de Jones e do canal. O que inicialmente pareceu uma resposta à pressão da base petista passou a integrar a tática para viabilizar sua eleição, e a defesa do voto em Lula tornou-se cada vez mais recorrente.

A justificativa para essa mudança combina dois argumentos: o de que “devemos todos votar em Lula para derrotar o fascismo” e o de que o movimento comunista é amador, sectário e está fragmentado. Assim, talvez sem perceber, Jones reedita a posição de Valério Arcary:  “A esquerda revolucionária está muito fragmentada e, muito provavelmente, deverá se dispersar em diferentes candidaturas à presidência [...] A esquerda radical deveria apoiar Lula desde o primeiro turno em 2026”. Sem perceber, ou apostando na não percepção de sua base de influência, torna-se igual aquele contra quem travou duríssimas lutas contra seu oportunismo no passado. 

As justificativas apresentadas para o “voto tático” também não parecem estabelecer uma diferença substancial em relação à posição de Arcary. Seja ao apontar as deficiências da esquerda revolucionária, seja ao destacar o avanço de Trump e do imperialismo sobre a América Latina, a conclusão é a mesma: primeiro eleger Lula para derrotar eleitoralmente a extrema-direita e, depois, retomar a construção do partido comunista e da revolução socialista, em algum momento futuro e condicionado pela correlação de forças.

Em uma de suas manifestações mais recentes em apoio a Lula, Jones orienta sua ampla base a votar no atual presidente como forma de viabilizar uma candidatura revolucionária à Presidência em 2030. Essa posição mobiliza o medo da extrema-direita e a despolitização para direcionar os votos dos trabalhadores à polarização entre a extrema-direita bolsonarista e a Frente Ampla social-liberal. Ao mesmo tempo, Jones se apresenta como a única referência revolucionária confiável para o futuro, mas pede que sua base se submeta, no presente, a uma alternativa liberal. 

A mudança de oposição de esquerda ao governo para uma posição de simples crítica também ajuda a atenuar essa ruptura. Em um cenário no qual existe a possibilidade de agitação em torno de candidaturas revolucionárias, o chamado “voto tático” em Lula funciona, na prática, como voto útil, semelhante à bandeira mobilizada pelo PT. Já a condição de “crítico” do governo se assemelha à posição atualmente adotada pelo PCB e não equivale à oposição de esquerda: até setores reformistas do próprio PT podem criticar medidas governamentais sem romper com o lulismo. A oposição de esquerda, ao contrário, exige romper com o lulismo e demarcar a política do proletariado revolucionário em relação à hegemonia burguesa sobre o movimento de massas. Nesse sentido, tanto o “voto tático” quanto a posição de simples crítico contribuem apenas para viabilizar eleitoralmente esse projeto. 

Da mesma forma, o pretexto de que a esquerda revolucionária não conseguiu construir uma candidatura presidencial unificada também é usada para legitimar a subordinação à conciliação de classes. Como afirma Lazzari:

“O pretexto de que “não foi possível construir uma candidatura unificada dos revolucionários” e isso justificaria o apoio à conciliação de classes é, com o perdão da comparação dura, como dizer que “se não temos comida boa o suficiente, nosso papel é deixá-la de lado e comer lixo”.

Ora, se a esquerda revolucionária carece de estrutura, profissionalismo e capacidade de mobilização, e não consegue construir unidade eleitoral, a tarefa de um leninista deve ser superar essas limitações por meio da construção do partido. As eleições precisam estar subordinadas a esse objetivo, e a participação comunista no pleito não pode se reduzir à busca por uma estrutura eleitoral mais competitiva que substitua o trabalho de organização como muito bem apontado por Rhuan Maciel em sua tribuna “Para que participamos das eleições? Programa, Partido e independência de classe”

Ao desconsiderar a influência que exerce sobre a vanguarda, Jones também deixa de considerar o impacto de seu apoio à Frente Ampla sobre a consciência das massas e sobre a visibilidade eleitoral dos comunistas. Se, de um lado, a esquerda revolucionária enfrenta enormes dificuldades e, de outro, a possibilidade de eleger um projeto revolucionário é apresentada como dependente da eleição de Lula, a conclusão oferecida à base é que só há uma alternativa. Essa influência se manifesta tanto nos argumentos de setores da vanguarda atraídos por esse projeto quanto nos comentários de eleitores que passaram a apoiar Lula após o anúncio de Jones em suas postagens. 

Façamos um exercício de imaginação: uma candidatura com o alcance de Jones, cuja agitação chega a milhões de brasileiros, não poderia impulsionar uma candidatura comunista como a de Hertz Dias (PSTU) e, quem sabe, torná-la mais competitiva, caso defendesse seu voto com o mesmo vigor com que defende Lula? Do ponto de vista tático, não seria mais coerente apoiar uma candidatura comunista comprometida com o enfrentamento ao capital do que uma candidatura liberal? E essa escolha não poderia contribuir mais para o desenvolvimento da consciência política das massas, em vez de confundi-la? 

Nesse sentido, a crítica às insuficiências da esquerda revolucionária torna-se destrutiva quando não busca superá-las por meio da construção partidária, mas se limita a deslegitimar os comunistas como alternativa eleitoral e organizativa. Forma-se, assim, um “sectarismo contra o sectarismo e o amadorismo”: rejeita-se a construção do partido comunista e recorre-se aos liberais burgueses.

Uma expressão desse fenômeno aparece na posição de Gustavo Gaiofato que, em entrevista ao podcast 'Iron Talks', defendeu o voto nulo no primeiro turno e o voto em Lula no segundo para derrotar Flávio Bolsonaro. Gaiofato se recusa a apoiar uma candidatura revolucionária, mas aceita as contradições do governo Lula em nome da derrota de Flávio, sem demonstrar a mesma disposição para lidar com as insuficiências dos comunistas. Trata-se de um exemplo claro do sectarismo desse projeto, que se manifesta na intransigência com os revolucionários e na complacência com os liberais. A crítica de Heribaldo Maia ao “pathos da linha correta” também pode ser aplicada a essa postura, já que, nesse caso, estar certo vale mais do que derrotar o capital. 

“Mas qual seria a contradição em apoiar Lula agora, se os comunistas já não irão apoiá-lo no segundo turno? Que diferença faria?” 

Esse argumento revela uma compreensão limitada da tática eleitoral comunista. Apoiar Lula no primeiro turno significa abrir mão de agitar uma alternativa revolucionária e de disputar o debate eleitoral a partir de uma perspectiva independente, assim, contribuindo para que o debate eleitoral seja nivelado pelos termos liberais. Na prática, significa, em última instância, aceitar que o fim da escala 6x1 continue sem avançar ou que o governo Lula seja reeleito sem pressão à sua esquerda, com maior liberdade para manter sua política de austeridade. Essa crítica que apresento aqui, vale lembrar, retoma preocupações que o próprio Jones expressava até meados de março de 2026. 

Abandonar a oposição de esquerda e apoiar Lula desde o primeiro turno significa deixar de demarcar a política do proletariado revolucionário em relação ao democratismo abstrato da pequena burguesia reformista. Significa abrir mão da independência política do proletariado e aceitar a hegemonia burguesa sobre a esquerda, mantendo o movimento de massas a reboque do petismo.

As consequências não se limitam ao campo eleitoral. Esse movimento, na prática, atenua as disputas da classe trabalhadora, desarticula suas táticas de luta, confunde os sindicatos, associações e movimentos sociais e a submete a conciliação com a burguesia. 

O setor da vanguarda que hoje segue o projeto da Bancada da Esquerda Radical, amparado por um possibilismo antileninista que busca, a todo momento, seguir aquilo que apresenta como “as condições concretas de vitória”, por mais cosmético que isso seja, reduz a postura dos comunistas que se recusaram a se curvar à Frente Ampla a uma posição meramente principista. Assim, incorre em um erro central do oportunismo, como aponta Rosa Luxemburgo em “Oportunismo e a Arte do Possível”:

“Precisamente porque nós não concedemos nem um centímetro de nossa posição, nós forçamos o governo e os partidos burgueses a nos conceder os poucos sucessos imediatos que podem ser ganhos. Mas se nós começamos a perseguir o que é ‘possível’ de acordo com os princípios do oportunismo, sem nos preocupar com nossos próprios princípios, e por meios de troca como fazem os estadistas, então nós iremos logo nos encontrar na mesma situação que o caçador que não só falhou em matar o veado, mas também perdeu sua arma no processo.”

A tese do “fetiche da derrota” de Heribaldo Maia

Em julho de 2026, Heribaldo Maia publicou no blog da Boitempo o texto  “O movimento comunista e o pathos da linha correta”, no qual diagnostica insuficiências do movimento comunista e critica o que chama de principismo e “fetichismo da derrota”: a postura de quem “prefere ostentar a linha correta e a derrota à vitória”. O texto teve repercussão entre setores da vanguarda e passou a também a oferecer uma base teórica para a tática eleitoral de Jones e da Esquerda Radical.

As críticas às insuficiências dos revolucionários partem de problemas reais e devem ser estudadas e debatidas, não simplesmente negadas. No entanto, Heribaldo parece estabelecer uma falsa dissociação entre “o que fazer?” e “qual a posição correta?”. Na sua formulação, “o que fazer?” aparece como aquilo que orienta a ação concreta, enquanto “qual a posição correta?” é reduzida à satisfação de estar certo sem agir. Essa oposição é artificial. Na política revolucionária, uma coisa está necessariamente ligada à outra. 

Se, a partir de uma análise comunista da conjuntura, entendemos que a hegemonia burguesa na esquerda, liderada pelo lulismo, anestesia e despolitiza o proletariado, a posição correta deve ser a defesa de sua independência política. Essa conclusão está diretamente ligada ao “o que fazer?”: romper politicamente com o lulismo e construir uma alternativa revolucionária. Da mesma forma, se identificamos uma polarização entre alternativas burguesas de gestão do capitalismo, incapazes de oferecer uma perspectiva de ruptura com essa lógica, tanto a análise quanto a ação apontam para a construção de uma candidatura revolucionária.

Separar essas questões e esvaziar seu conteúdo conduz a um “o que fazer?” abstrato, indiferente às consequências políticas da ação: se ela fortalece ou despolitiza a classe trabalhadora. A questão não é escolher entre a posição correta e a ação concreta, mas compreender qual ação decorre de uma análise adequada da realidade.

Ao debater a concepção tático-estratégica dos comunistas, Heribaldo afirma: “A consequência mais importante dessa dinâmica é o enfraquecimento da dimensão tático-estratégica da política. Estratégia implica mediação entre linha e prática, conjuntura, correlação de forças e capacidade de ação. Implica também flexibilidade diante das condições concretas, porque é nelas que se atua. O horizonte estratégico pode permanecer relativamente estável, óbvio, mas a tática exige constante adaptação”. Ao final, ironiza: “(Complicado quando alguém ligado à teoria crítica tem que falar o óbvio do leninismo)”.  

Entretanto, se Heribaldo se propõe a contribuir para a reconstrução de uma política comunista, é necessário confrontar sua formulação teórica com a prática política que hoje se expressa na Bancada da Esquerda Radical. Semanas após a publicação do texto, Heribaldo participou de uma transmissão ao vivo do Farol Brasil, na qual defendeu o apoio a Lula no primeiro turno. Além de anunciar seu próprio voto e o apoio da equipe e de seguidores do programa, justificou as alianças de ordem burguesas da Bancada como necessárias para viabilizar um projeto eleitoral comunista que, segundo afirmou, demonstraria “capacidade de conciliar para garantir vitórias à classe trabalhadora”

Quando comparamos o texto de Heribaldo com esse discurso e com as alianças de seu projeto político, vemos uma concepção de tática que subordina os princípios e objetivos estratégicos do proletariado às circunstâncias imediatas e às vantagens, reais ou supostas, de cada momento, quase como uma releitura do princípio de que “o objetivo final não é nada, o movimento é tudo”. A tática passa, assim, a determinar o programa, em uma concepção que se afasta do leninismo. 

Ao procurar ensinar aos marxistas o que considera o óbvio de Lenin, Heribaldo parece deixar de lado outra advertência do revolucionário sobre a aliança com os liberais: “A experiência das alianças, dos acordos, dos blocos com o liberalismo social-reformista no Ocidente e com o reformismo liberal (democratas-constitucionalistas) na revolução russa, demonstrou, de maneira convincente, que esses acordos não fazem senão embotar a consciência das massas, não reforçando mas debilitando o significado real da sua luta, unindo os lutadores aos elementos menos capazes de lutar, aos elementos mais vacilantes e traidores”.

A contradição também aparece quando se compara essa posição ao próprio livro de Heribaldo, ‘Cinismo e a morte da esquerda brasileira’. Nele, o Heribaldo afirma que : “No realismo capitalista, imposto pelo neoliberalismo, somos constantemente subjetivados para desistir de tentar; e, se tentarmos, que seja no máximo por meio de uma versão de esquerda desse mesmo neoliberalismo, cujo exemplo mais bem acabado é o terceiro mandato do governo Lula e seu Ministro Fernando Haddad”. 

[..]

“O cinismo desse tipo de argumentação evidencia um dos efeitos da adesão ao neoliberalismo: uma crescente despolitização, em que a imaginação política é limitada no máximo a um progressismo de cunho liberal”.

Diante de tais justificativas utilizadas por Heribaldo, cabe perguntar: se, para alcançar a vitória, é necessário unir-se a um projeto neoliberal, por que não participar diretamente de seu governo ou apoiar seus pacotes de austeridade? Isso não aumentaria as chances de eleger ainda mais representantes radicais? Não é esse o caminho defendido pelo PSOL, com os "vanguardistas" como Boulos, Juliano Medeiros e Valério Arcary ao longo dos anos, sem que essa aproximação tenha produzido a transformação revolucionária prometida? Ora, se essa é a tática correta, a adaptação total ao campo liberal se torna a etapa natural desse processo.

Na tentativa de superar o “fetiche da derrota” e construir um movimento comunista vitorioso, Heribaldo decai no “fetiche da vitória eleitoral a todo custo”, priorizando a vitória eleitoral imediata e reproduzindo a política de alianças que contribuiu para as recorrentes derrotas do proletariado nos últimos anos: a conciliação com a burguesia. (Complicado quando alguém ligado à teoria crítica erra mais uma vez ao tentar indicar os caminhos para o proletariado).

Diagnostica a doença, mas prescreve o tratamento errado. Em outras palavras: “propõe para curar essa doença copiar pura e simplesmente a última receita alemã para o tratamento da forma alemã de tal doença!” Lenin, O que fazer?, 1902. 

Unidade entre a  Esquerda Revolucionária

Não pretendo, a partir desta tribuna, defender que a esquerda revolucionária se isole, naturalize suas insuficiências ou desenvolva aversão a toda e qualquer aliança em nome da linha correta. É necessário reconhecer os limites do nosso trabalho e buscar superá-los. Mas as respostas devem ser procuradas no conteúdo de classe e na construção do partido, não na subordinação a estruturas eleitorais ou às supostas “vantagens reais” do momento, por meio de alianças burguesas que atenuam o potencial revolucionário do proletariado. 

Os revolucionários devem identificar suas limitações no curso da luta de classes e submetê-las à polêmica pública e aberta, com o objetivo de superá-las e ampliar sua capacidade de convencer as massas. O sentido desse processo deve ser o avanço, e não o retrocesso ou a adaptação aos interesses da burguesia.

A resposta do PCBR, expressa em sua atual tática eleitoral, procura caminhar nessa direção. Mesmo com suas limitações, o partido buscou construir a unidade dos revolucionários em torno de um programa voltado a toda a classe trabalhadora. Se a prática é o critério da verdade, somos nós que levamos a defesa dessa unidade até suas últimas consequências, sem recorrer a justificativas que terminam no apoio a Lula.

Por fim, retomo a posição defendida pelo próprio Jones em outro momento:Por fim, retomo a posição defendida pelo próprio Jones em um passado tão recente, mas já tão esquecido: 

Existem várias táticas eleitorais em disputa no caminho para derrotar Bolsonaro. Respeito quase todas e sigo, por óbvio, a tática definida pelo PCB. Agora não é possível respeitar ilusão. Falar em programa antineoliberal em torno de Lula é só autoengano.