'Por um balanço crítico da nossa atuação na UNE' (Bruno Guará)

A UNE, UEE, UBES e semelhantes não são ferramentas adequadas para a construção do poder popular e o esforço magnífico que fazemos para nos manter nesse disputa é desproporcional ao ganho político real que temos ao final de cada biênio.

'Por um balanço crítico da nossa atuação na UNE' (Bruno Guará)
Autoria da Imagem: UNE. Fonte: https://www.instagram.com/p/C5_ZW1xLZP7/?igsh=MWo0YW9haW5ncmpjdg==

Por Bruno Guará para a Tribuna de Debates Preparatória do XVII Congresso Extraordinário.

Camaradas,

As recentes denuncias sobre o que foi efetivamente um boicote da ala majoritária da UNE - Juventudes do PCdoB e do PT - à realização de uma caravana da entidade séria, que dialogasse com a base estudantil e pautasse mudanças no sistema universitário brasileiro, devem inspirar nas nossas fileiras uma série de questionamentos que estamos nos negando a fazer

Quão qualitativo é seguirmos despendendo esforços hercúleos para disputar a UNE, UBES, UEE, etc? Quais os ganhos reais que temos para a construção do poder popular no Brasil fazendo isso? Trarei breves considerações pessoais, mas meu intuito principal com essa tribuna é convidar outres camaradas a escreverem sobre as suas, para que as delegações da etapa nacional tenham matéria suficiente para debater esse assunto com qualidade

Camaradas, nosso caminho para a revolução é a construção do poder popular: a construção de estruturas políticas controladas pela classe trabalhadora através das quais ela detenha o controle sobre cadeias produtivas em territórios sob sua jurisdição e possam efetivamente decidir sobre os rumos políticos desse território. Em que a disputa da UNE nos faz avançar nesse caminho?

A UNE é uma ferramenta incapaz de realizar trabalhos consolidados e de longa duração por sua própria natureza, ela não se instala nas universidades e não acompanha a luta cotidiana des estudantes por melhores condições de estudo, trabalho e permanência nelas. Na maioria das vezes sequer os DCEs de universidades conseguem fazer esse trabalho, quem dirá a UNE ou a UEE do estado. O que acontece na maioria das vezes é que quando há uma grande ebulição social ocorrendo em uma universidade pública, como foi o caso das greves na Unicamp e na USP no segundo semestre de 2023, alguém que o corpo estudantil jamais viu aparece na primeira e/ou na mais lotada assembleia geral com a camiseta da UNE ou da UEE e faz uma fala agitativa. Depois vira as costas e vai embora.

Há quem diga que "essa é a prática da UJS" e isso é verdade. Contudo, utilizando uma ferramenta que a UJS transformou em um cadáver putrefato daquilo que um dia já foi, ao longo de 40 anos de hegemonismo, burocratização e literalmente fraude eleitoral, o que nós poderíamos fazer de diferente? As diretorias da UJC na UNE e na UEE são capazes de desempenhar uma outra prática? A meu ver, não. Por que ao fazer a disputa da UNE em si estamos nos rendendo à lógica do ME tradicional, que é avessa à nossa estratégia revolucionária

Exemplo disso é a crítica que a UJC Unicamp muitas vezes já fez: nós tínhamos a cadeira de extensão da UEE e nunca foi feito 1 contato sequer com o coletivo Dínamo, que realiza um trabalho de engenharia popular em acampamentos do MST, FNL e outras localidades que efetivamente fortalece o poder popular – econômico e político. A nossa cadeira poderia ter sido usada para inspirar grupos de engenheires em outras universidades a fundar iniciativas semelhantes, ou para aprofundar as relações do próprio Dínamo com a base estudantil na Unicamp. O que fizemos? Nada.

A UNE, UEE, UBES e semelhantes não são ferramentas adequadas para a construção do poder popular e o esforço magnífico que fazemos para nos manter nesse disputa é desproporcional ao ganho político real que temos ao final de cada biênio.

Nós somos comunistas e, por conta disso, não podemos nos dar ao luxo de 

fazer transposições mecânicas a partir de nossas análises históricas. Não é porque a UNE foi fundamental na Campanha do Petróleo é nosso, nos anos 50 e na denúncia doa crimes da ditadura militar, nos anos 60 - 70, que ela servirá hoje da mesma forma para a organização da juventude trabalhadora.

Se queremos seguir uma tática de construir entidades gerais representativas de estudantes, mais vale transformarmos o MUP em uma nova entidade geral, que aglutine os setores mais pobres des estudantes e da juventude trabalhadora em torno da pauta de democratização do acesso aos debates sobre a universidade pública, para fazermos avançar concretamente o debate sobre acesso, permanência universitária e extensão popular, justamente fazendo a denúncia do peleguismo enraizado na UNE.

De toda sorte, a meu ver o ideal seria abandonarmos a disputa acrítica do ME tradicional e nos apresentarmos ae estudantes como a força política que leva a universidade pro povo e traz o povo pra universidade. Não podemos nos contentar a ser mais um coletivo universitário, devemos acolher as críticas de quem estuda e trabalha sobre como o funcionamento do ME não contempla seu ritmo de vida para conquistar a legitimidade dessa demografia e radicalizar a juventude trabalhadora de fato que está nas universidades em direção ao projeto revolucionário. O giro operário-popular e o poder popular são mais importantes do que qualquer ConUNE.

Venceremos!