O Futuro: Jornal político ou jornal sobre política?

Não admira estar o partido apartado do seu jornal quando o jornal se esforça para estar apartado do Partido! Não basta informar, é preciso orientar: o jornal não deve ser apenas um portal de notícias, mas o organizador coletivo que orienta nosso exército na luta de classes.

O Futuro: Jornal político ou jornal sobre política?

NOTA EDITORIAL

Publicamos com entusiasmo a tribuna do camarada Diego Vieira, que realiza uma análise necessária sobre os rumos do nosso jornal, O Futuro. Em um esforço de rigoroso escrutínio, o autor nos convoca a refletir sobre a essência da nossa imprensa partidária: estamos construindo um jornal que orienta o exército proletário ou apenas um informativo sobre os acontecimentos da política burguesa?
Mesmo com críticas um pouco exageradas em relação principalmente às intervenções dos dirigentes nacionais sobre o caráter do Jornal O Futuro e sua aplicabilidade nas localidades, é necessário destacar que o conteúdo da tribuna trouxe uma tarefa fundamental para os comunistas: o diálogo constante sobre nossa concepção do jornal enquanto um organizador coletivo. É preciso, contudo, destacar que a ampla maioria dos recortes utilizados pelo camarada apontam para a compreensão sólida dessa concepção, que deve caminhar firme mesmo quando subordinada aos avanços técnicos jornalísticos que integram nossa produção na imprensa partidária. Reforçamos aquilo que diz o nosso próprio manual de redação (referenciado até mesmo pelo camarada como um instrumento importante): A padronização de nossa produção jornalística envolve duas dimensões, a técnica e a política. Enquanto esta diz respeito à formação nacional de nossos quadros de maneira a desenvolver um partido firmemente coeso em seus princípios e consciente das principais contribuições da teoria marxista-leninista, aquela diz respeito a sermos capazes de familiarizar nossos militantes ao trabalho jornalístico. A padronização diz respeito às nossas matérias, sua lógica básica e seus elementos textuais fundamentais. Trata-se de informações que devem ser de conhecimento obrigatório para todos aqueles envolvidos na produção jornalística. (...) A construção de um Manual de Redação é um esforço que se faz para disseminar de maneira centralizada e coesa todo o acúmulo em redação da imprensa partidária, transbordando a simplicidade técnica do jornalismo e atingindo a elevação necessária para a produção cotidiana de um jornalismo a serviço do proletariado brasileiro e internacional.
É de maior urgência, porém, desmistificar a contraposição entre dois instrumentos partidários fundamentalmente necessários: o Órgão Central e o Boletim Interno. É certo que as críticas apresentadas sobre a ausência de orientações táticas e discussões ideológicas demonstram esforço do camarada, mas a dispersão em orientações e comunicação fragmentadas no seio do partido é justamente o que o Boletim Interno combate. Os ajustes entre um e outro não necessariamente os colocam em posições antagônicas, mas inclusive reforçam a necessidade de tomarmos a tarefa de levar às últimas consequências o esforço de direção nas dimensões práticas e ideológicas. Nesse mesmo sentido, o papel das orientações, das táticas e da direção ideológica que em inúmeros exemplares conseguimos cumprir merece um destaque: o esforço em caracterizar a Constituição Federal de 1988 a partir da compreensão leninista de Estado em seu caráter inconciliável de classes; a ampla veiculação e refinamento da linha política na questões agrárias e climáticas; o reforço da perspectiva verdadeiramente marxista para o movimento feminista, etc.
A crítica apresentada não poupa as debilidades do Conselho Editorial e do próprio Comitê Central, identificando um descompasso entre o que planejamos e o que efetivamente entregamos à classe trabalhadora. O empenho da contribuição foi recebido no seu mais alto nível de necessidade e integrado à dinâmica de desenvolvimento da imprensa partidária. Entretanto, os diversos outros pontos levantados nas discussões do Comitê Central sobre os métodos de direção, divisão de tarefas e insuficiências do nosso Partido também são fatores que não podem ser apartados desse esforço, sob o risco de termos uma análise singular e pouco totalizante. O Conselho Editorial não omitiu, nas diversas atas entregues à militância, as dificuldades com o trabalho do jornal e a sobrecarga massiva de camaradas à frente dessa tarefa. De certo, aquilo que reforçamos cotidianamente no trabalho com o jornal precisa também acompanhar nossa compreensão mais avançada sobre a superação da artesanalidade nesse esforço jornalístico, algo que ainda pouco avançamos. O trabalho de revisão dos textos requer um esforço gigantesco de acompanhamento e direção ideológica centrado, ainda, em poucos camaradas. Ao resgatar a concepção leninista de Órgão Central, o texto aponta que o jornal deve ser o fio condutor que une a teoria à prática, superando o praticismo e a "anarquia informativa", e podemos ir além compreendendo como nosso jornal deve se empenhar ao máximo para desnudar nossa apreensão das lutas em suas três dimensões: luta econômica, luta política e luta teórica. Cientes de que devemos superar o caráter artesanal do trabalho com o jornal, também devemos apreender o atual estágio do trabalho que circunda todo esse esforço: a sobrecarga militante e a imensa ausência de repasses científicos sobre nosso trabalho com o jornal.
Por fim, reforçamos que esta contribuição - em conjunto com nosso trabalho de esmiuçar em notas editoriais os pontos de atenção máxima dos leitores - é um exemplo do maior grau de rigor com que devemos nos esforçar na organização da polêmica pública em nossa Tribuna de Debates: um espaço de luta ideológica franca, científica e comprometida com a construção de um Partido de novo tipo, que mesmo consciente de nossas próprias debilidades não recua um centímetro das críticas necessárias. Convidamos todos os camaradas a estudarem este texto e a utilizarem suas categorias para avaliar o trabalho em suas respectivas frentes.


Por Diego Vieira

É de fundamental importância que cada militante não apenas leia o jornal, mas que o estude pormenorizadamente. O jornal partidário não é, nem deve ser, um panfleto a ser lido uma vez e descartado, mas sim deve passar por escrutínio, sendo riscado, comentado (comentar o jornal não é propagandeá-lo, mas dialogar com ou contra ele) e isto deve ser levado aos organismos, à diretoria do Órgão Central, e até à tribuna de debates.

Desde a sua primeira edição já tínhamos isto explícito em seu editorial:

“Com esse jornal em mãos, a militância de todo o Brasil deve se reunir para debatê-lo, com ele aprender e com ele contribuir. Suas insuficiências devem ser observadas e apontadas, seus pontos fortes devem ser evidenciados e, acima de tudo, seu conteúdo deve ser debatido em conjunto, de forma que também nossa formação política orbite a partir deste veículo.” (O Futuro, nº 01, Primeiras Palavras)

Precisamos ter bem em mente para que o jornal serve, e como devemos usá-lo. Mais que isso: não só saber para que o jornal serve, mas conseguir avaliar a cada edição se ele está cumprindo sua função e, ainda, se cumpre sua função a contento.

Assim, nesta tribuna pretendemos fazer uma análise da última edição até o momento em que escrevemos: a de janeiro de 2026 — a pior até agora — para articular quais as insuficiências de nosso jornal e qual o caminho para superá-la.

JORNAL POLÍTICO OU JORNAL SOBRE POLÍTICA?

O primeiro e principal problema de nosso jornal atualmente é seu desvio de função. Não temos hoje um jornal político, mas sim um jornal sobre política.

Lazzari aponta muito bem, em seu artigo na primeira edição, que

“O jornal é a alma viva de um Partido Comunista — apenas uma ferramenta como essa poderá esclarecer, ao mesmo tempo, as forças revolucionárias e o movimento dos trabalhadores em suas concepções teóricas e práticas. Apenas uma ferramenta como essa poderá elevar cada trabalhador e trabalhadora para além do nível de sua luta mais imediata, mais local, para uma compreensão, e uma militância de toda a classe, inclusive internacionalmente.

“Sem uma ferramenta como essa, um Partido Comunista torna-se um amontoado de militantes, cada qual preocupado com seu umbigo, incapazes de agir como um único corpo nos momentos em que a classe trabalhadora mais precisará de nossa firmeza e de nossa assertividade.” (Lazzari, O Futuro: um jornal político para todo o Brasil)

Ou seja: tem de esclarecer as concepções teóricas e práticas tanto à vanguarda quanto à classe. Puxar a consciência média sempre para frente, unificar e coesionar os membros do partido num trabalho comum, que aja como um único corpo. E

“[...] não há melhor forma de desenvolver com rigor a consciência da nossa classe do que a luta ideológica entre as correntes do movimento dos trabalhadores. Também para isso serve o nosso jornal: ampliar e difundir as polêmicas necessárias e inescapáveis no seio do movimento revolucionário.

“Afinal, é para isso que serve o Partido Comunista: para preparar ideológica e praticamente todo o proletariado para a tomada revolucionária do poder. O jornal é o instrumento do PCBR para atingir esse objetivo, de estar presente em cada luta e de elevar a consciência de toda a classe trabalhadora.” (Lazzari, O Futuro: um jornal político para todo o Brasil)

O que corrobora com o editorial, onde se afirma que o jornal será “o centro de gravidade da política revolucionária da classe trabalhadora”, e que “É através da direção ideológica do Conselho Editorial e do trabalho desse estado-maior que o nosso Exército chegará às multidões”. Pois “Em torno desse jornal formaremos a organização capaz de aglutinar todos os elementos mais avançados entre os trabalhadores” (O Futuro, nº 01, Primeiras Palavras).

Isto tudo, camaradas, diz respeito a um jornal político: que não seja somente um apanhado de informações (um portal de notícias), mas que seja a voz do partido a cada mês buscando coesionar a militância em torno do nosso programa e resoluções, que busque unir ideologica e praticamente todos os comunistas e elementos avançados da classe em torno de um trabalho comum, direcionado a um mesmo fim.

É preciso desde já, contudo, apresentar uma discordância com o próprio Lazzari quando, em seu artigo citado, afirma também que “Se ele [o jornal O Futuro] for apenas outro ‘jornal de um partido’, fracassará rápida e tragicamente”. Não, camarada: o jornal O Futuro é um jornal de partido, e será sim só mais um jornal de partido enquanto o PCBR for só mais um partido. E, pelo contrário, é quando se esquece desse pressuposto (ou se tenta escamoteá-lo) que se dá seu fracasso, como veremos na edição de janeiro.

O sucesso do nosso jornal está ligado ao sucesso do nosso partido em penetrar no seio das massas. Não devemos tirar o partido do jornal — tentando pintá-lo como apenas um jornal “contra-hegemônico”, um jornal “de esquerda” ou semelhante — para torná-lo mais palatável para as camadas médias ou mesmo as camadas atrasadas do proletariado. Não devemos tirar o partido do jornal — evitando sequer mencioná-lo em nossas matérias, deixando de fora notas políticas e declarações importantíssimas, orientações táticas etc. para vender melhor.

Devemos querer que as pessoas comprem o jornal porque é o jornal do PCBR — e que a elas interesse o que o PCBR pensa ou tem a dizer. Não só notícias ou questões do nosso  país e de cada localidade, mas que as massas trabalhadoras se interessem por todas as questões que envolvem o partido: suas táticas, sua organização, suas contribuições teóricas, que se preocupem e acompanhem as polêmicas do partido com outras organizações, as polêmicas internas etc.

Negar seu caráter partidário em prol de um caráter “jornalístico” ou “noticioso” é declarar que nosso partido não interessa às massas; é aceitar o senso comum e as camadas atrasadas e médias e tentar se adequar a elas, “comer pelas beiradas” tentando sorrateiramente inserir o programa comunista (e nem isso em várias matérias) deslocado do partido que o põe em prática. Isto não nos ajudará, de forma alguma, no trabalho partidário, e aprofundará o cisma atual entre o trabalho com o jornal e o trabalho partidário. Não queremos só que venda melhor, mas que sirva para disputar a consciência e a direção da classe.

Se virarmos apenas um jornal contra-hegemônico, pouco ajudaremos o partido. Não seremos capazes de fazer nada que Lazzari cita nesse seu artigo. Se negamos o partido para nos afirmar, então nem deveríamos gastar forças partidárias nisto: já há mídia contra-hegemônica e ao redor dela nada consegue se construir.

Já, desde a abertura das tribunas, dois camaradas se propuseram a escrever sobre o jornal, a importância de incorporá-lo na atividade partidária em geral. O CC se debruçou sobre isso em algumas reuniões e constata que o jornal não consegue se integrar completamente no trabalho partidário e no cotidiano de grande parte da nossa militância, terminando por aprovar algumas resoluções de centralização da agitação e propaganda, que sempre parecem repetir resoluções anteriores que não são seguidas.

Porém, olhar para o problema somente observando os militantes é insuficiente (embora não necessariamente incorreto); temos que também observar o jornal: este cumpre sua função para o Partido?

A resposta é um não retumbante. Não admira estar o partido apartado do seu jornal quando o jornal se esforça para estar apartado do Partido!

Citar o partido lateralmente quando se dá notícias (o PCBR esteve ali, o PCBR esteve lá) não muda em nada a situação. Se em nossos artigos sequer mencionamos nosso programa, sequer apresentamos a estratégia congressual, se não nos esforçamos para na polêmica e com base nas situações concretas desenvolver nossa política teoricamente, desnudando a falência de outras correntes no proletariado; se não, em nosso jornal, buscamos a cada edição direcionar nossa militância para o que fazer naquele período; se o jornal não fala pelo partido (mas apenas o cita), então não é um jornal do partido. Não é um jornal político, mas sim um jornal sobre política.

O jornal deve ser entendido como Órgão Central porque tudo que é mais central em relação ao partido estará lá. Porque quem quiser saber para onde o partido está indo deverá ler nosso jornal; quem quiser saber, a cada novo período, o que o partido pensa, como o partido é, o que irá fazer, buscará o nosso jornal. Ele é exatamente o movimento das nossas resoluções na conjuntura de cada mês para guiar toda a organização.

É fundamental investigar a fundo as proposições leninistas acerca da organização partidária, não somente para reproduzi-las, mas entendê-las. Descobrir, de acordo com o contexto, cada um de seus porquês, cada um de seus desdobramentos mais práticos. Mais que repetir fórmulas e citações, que em teoria consensuais por todos os comunistas, precisamos resgatar seus conteúdos e apresentá-los no que se mantém atual em nosso tempo.

Há camaradas que conhecem de cor as passagens de Lênin sobre o jornal político, porém ao ver nosso jornal, que hoje é apenas um jornal sobre política, parece que ficam cegos por seu brilho e não conseguem ligar os pontos. A aparência (o jornal diz: veja, sou um Órgão Central! Veja: sou um jornal impresso! Veja: eu existo, olhe como isto é bom!) é tomada como essência.

Faremos aqui apenas uma introdução à esta discussão, o suficiente apenas para irmos aos fatos concretos. Ao longo do ano, publicaremos ainda mais outros artigos aprofundando a concepção leninista da imprensa partidária.

O que é um Órgão Central (OC) e o que é um Órgão Popular (OP)?

Temos que ter em mente primeiro o que é 1) conteúdo ideológico, o que é 2) a forma material e sua relação com a forma organizativa e o que são 3) os meios de comunicação em massa da época em questão. Todos os 3 fatores estão correlacionados e, nas discussões hoje sobre o jornal, ora pendem mais prum lado, ora para outro. Só conectando-os é que conseguiremos captar melhor seu significado.

O conteúdo ideológico, se simplificarmos grosseiramente para fins esquemáticos, pode ser entendido da seguinte forma: o OC é um orientador, e o OP é um informador. O meio material do órgão — se será impresso ou digital, por exemplo — determina ou fortalece como será a organização em torno dele — as conexões orgânicas que o jornal impresso proporciona, por exemplo. É possível ter um Órgão Central que não seja um jornal impresso, mas isso causa sérios prejuízos à centralização leninista e à organização revolucionária, pois um órgão digital só pode sustentar conexões virtuais.

O OC leninista é uma fusão do conteúdo ideológico como orientador partidário + o meio jornal impresso e sua estrutura organizativa de conexão e distribuição, se pudermos simplificar. Nem é só seu conteúdo, nem é só o jornal impresso. Ou seja: não é por ter um jornal impresso que se tem um Órgão Central, isso deve ficar claro.

No caso dos bolcheviques, o OC à época também estava em harmonia com os meios de comunicação em massa, mas isso não era o seu definidor. Já o Órgão Popular (ou os variados OPs que tiveram) estava diretamente ligado aos meios de comunicação em massa da época como característica definidora (por isso era também um jornal impresso) e tinha conteúdo não de orientar, mas de informar (mas também republicava as orientações do OC). Em geral separados, é sob condições especiais que eles foram fundidos num só. Sua frequência e forma devem sempre depender desta análise concreta dos fatores, assim como da necessidade política de cada momento.

Nosso Jornal O Futuro hoje é, em conteúdo, um Órgão Popular, ou seja, meramente informativo, buscando noticiar o que acontece no país e no mundo. Enquanto isso, nosso Boletim Interno (BI) hoje é, em conteúdo, muito mais próximo do que seria o OC, buscando orientar o trabalho revolucionário. Sem saber (ou sabendo, como veremos abaixo nas atas do CC), temos hoje dois órgãos no partido. Nenhum dos dois é tratado como tal e, por essa confusão, nem um dos dois funciona bem.

De tal modo que, ideologicamente, é muito mais fácil se aglutinar em torno do nosso BI do que do nosso jornal. Porém organizativamente é o contrário. Pois O Futuro, por ser impresso, dá uma forma organizativa leninista, mas não consegue cumprir plenamente nem seu papel de OC, pois ideologicamente não consegue dirigir trabalho nenhum, nem o de ser OP, por uma incompatibilidade do jornal impresso com os meios de comunicação em massa atuais. Daí surge a dificuldade que se tem hoje de trabalhar com ele. O Boletim Interno como Órgão Central consegue direcionar o partido (apesar de com alguns obstáculos por ser excessivamente interno), mas há uma incompatibilidade do meio digital com a forma organizativa leninista, portanto ele não consegue criar conexões físicas adequadas.

Observemos dois tipos de organismos para ilustrar o que dizemos:

  1. aqueles que recebem regularmente apenas o Jornal O Futuro e tentam se organizar e iniciar seus trabalhos em torno dele;
  2. aqueles que recebem regularmente o Boletim Interno e tentam se organizar e guiar seus trabalhos em torno dele.

O primeiro recebe fisicamente os pacotes de jornal, e precisa fazer reunir presencialmente os seus membros para distribuir o jornal entre si. Quanto mais crescerem, quanto maior o volume de jornais, terão de criar mais e mais formas de distribuição entre os integrantes. Terão sempre consigo uma ferramenta para dialogar diretamente com as massas em suas atividades presenciais, e que serve inclusive como método de arrecadação financeira para o grupo. Podem realizar consignações e enviar lotes de jornais para entidades que contatem e criem vínculos... Ou seja: com o jornal, o grupo consegue ter relações reais, que os conectam presencialmente e auxiliam na sua atividade. Isso tudo já é muito bem apreendido pela nossa militância: seu papel como organizador coletivo.

Porém a qual conteúdo terá acesso? Algumas notícias da conjuntura, podendo acompanhar as discussões sobre os eventos que influenciam nosso país sob um viés mais ou menos comunista, saberá que seus membros podem financeiramente contribuir com o jornal (sem necessariamente entenderem sua importância), mal sabendo que podem (e devem!) escrever matérias para ele, pois em página nenhuma há sequer esse chamado (diferentemente de jornais como A Verdade que convidam a classe a colaborar e entrar em contato) — para isso precisarão da assistência ou ler as resoluções de organização, sequer necessárias para o recrutamento. Se quiserem acompanhar as declarações do partido, só o farão pelo EDC e redes sociais, porque no jornal em si pouco sai. Como se organizar praticamente? Ficarão no escuro enquanto o assistente não disser. Como incidir, ter contatos com e nas massas? Não encontrarão no jornal. Experiências doutros locais, orientações táticas? Terão no jornal apenas notícias sobre essas experiências, radicalmente menos práticas do que os repasses que temos no BI. Que belo dirigente ideológico!

Este primeiro caso é o de todos os novos núcleos e até células, em que priorizamos o envio e distribuição de jornais, onde os interessados no partido ainda não foram recrutados e portanto não recebem o BI, mas já estão envolvidos em trabalhos práticos (ou queremos que estejam). Para sua direção ideológica, dependem exclusivamente da assistência. Este momento de franca expansão do partido, atingindo muitas novas localidades sem qualquer experiência prévia e, mesmo onde já há organização, com inúmeros novos membros e categorias pode ser (e em determinados casos de fato será) mais do que os poucos dirigentes intermediários conseguem dar conta — especialmente se não forem recrutamentos vindos de setores estratégicos, que demandarão muito mais atenção dos quadros.

Quaisquer fatores contingentes na assistência serão fatais para o grupo: sobrecarga, doença, afastamento ou desligamento, abandono de tarefas, enfim; pesa inteiramente sobre os ombros da assistência dirigir cada um de seus núcleos, o que nem sempre será possível.

O segundo grupo recebe digitalmente o Boletim Interno, e seus membros todos não precisam se reunir uma vez sequer para que possam distribuir o material. Não se preocuparão em nada com a logística local e seguirão muito bem assim. Não terão qualquer material básico para dialogar com a classe trabalhadora a não ser que comecem a enviar o BI nos grupos, o que não é permitido por ser um órgão interno — e, sendo assim, sequer podem imprimi-lo para distribuir ou vender. Ou seja: são conexões virtuais apenas que são construídas pelo BI.

Seu conteúdo, entretanto, pode até não ter tantas análises conjunturais nem notícias (que mesmo que não tivéssemos nossa imprensa contra-hegemônica, poderiam ver noutros lugares e jornais), mas terá sempre a prioridade partidária daquele mês, uma posição política acerca do que é mais importante — que vem juntamente com um direcionamento prático do que fazer. Terá orientações políticas, assim como experiências de outros estados para aprender com eles e ainda terá acesso aos documentos partidários que guiam nosso trabalho, canais de contato etc. Estão muito mais coesos, agirão muito mais de acordo com os interesses do partido a nível nacional que o grupo 1.

Em geral, os grupos que recebem o BI já recebem também os jornais, o que diminui os problemas virtuais causados pelo BI (embora mantenha o problema da duplicidade de órgãos).

Pode parecer um exemplo hipotético, fantasioso, mas sabemos que está longe disso. Vários organismos passaram e passam por períodos em que a assistência está prejudicada, por fatores diversos, e dependem muito mais da comunicação formal e dos órgãos partidários para direcionar seus trabalhos. Pois com o crescimento acelerado do partido, mais e mais a direção ideológica precisa ser pela imprensa, que supera a capacidade individual de direção que devemos dar a todos que cheguem até nós. Precisaremos que o jornal nas mãos de qualquer interessado seja uma ferramenta de direcionamento do trabalho comunista.

Para que nosso jornal seja de fato um OC, ele deve absorver o Boletim Interno e expandir o seu caráter ideológico: não basta ser um portal de notícias, é preciso também ser onde se reúnem artigos ideológicos, organizativos, táticos — políticos no sentido prático. Que sirvam como, também, guia de ação e discussão comunista, pois sem isso não é possível se organizar em torno dele nem construir a coesão necessária.

A EDIÇÃO DE JANEIRO

“Nós não desejamos exagerar a gravidade da situação, mas seria imensuravelmente mais danoso fecharmos os olhos para ela.” (Lênin, Declaration of the Editorial Board of Iskra)

Passemos então ao escrutínio do O Futuro nº 17, de janeiro: a edição do oportunismo.

O editorial “Um ano novo de velhos problemas” é uma listagem de fatos da conjuntura, e não passa disso (similar ao balanço das lutas de 2025 feito pelo CC, até hoje não publicado). Qualquer um que acompanhou O Futuro durante o último ano e os últimos meses já sabe do que está apontado ali. No máximo há uma tentativa de compreender alguns fenômenos à luz do marxismo e nossas resoluções: afirma-se como a política atual de combate ao crime e as facções é não apenas ineficaz como serve à continuação do problema; a pobreza como fator diretamente responsável pelo crescimento da violência policial; a relação entre estado e crime organizado e a ineficácia do endurecimento penal. Mas não dá um pio sobre como então isto deve ser combatido — nem o faz a matéria principal sobre o tema. Os problemas não são novos, e têm suas origens “na luta de classes”. O que fazer então?

“Frente a uma esquerda que, de governismo em governismo, apenas entregou os mesmos problemas que bem conhecemos, a nossa política só pode ser a independência de classe do proletariado e o combate classista ao oportunismo.”

O editorial é essa coisa descritiva, mas que não leva para lugar nenhum, não aponta direção a não ser estas poucas linhas finais, que são só um “Pelo Poder Popular e pelo Socialismo!” repaginados. O editorial deveria se desdobrar no resto do jornal, pois é ele o ponto de partida, mas também o ponto de chegada de todo o conteúdo que colocamos. A síntese não só do que está acontecendo, mas também do que é para ser feito naquele mês. Nosso editorial não tem cumprido sua função.

Seguem-se a ele duas matérias sobre a crise dos Correios. A primeira busca discutir como a privatização é negativa para os correios. Ao explicar as razões da crise, fala sobre a taxação, a concorrência com empresas guiadas pelo lucro e as medidas neoliberais na gestão, embora não faça qualquer esforço para explicar quais nem como afetaram a estatal. A segunda avança em esmiuçar quais são as dificuldades econômicas enfrentadas pelos trabalhadores, a resposta do TSE à greve e reforça a importância das empresas públicas. Temos, fechando a terceira página, uma matéria sobre o Saúde Caixa, que traz os problemas da categoria dos bancários em seus acordos coletivos e as medidas de austeridade na empresa, assim como as traições da direção sindical cutista. São três matérias de luta econômica, apontando reformas imediatas.

Em seguida temos o que provavelmente é a melhor matéria da edição, tratando-se da fraude no banco Master: nela, além descrever o problema, coloca-se por que isso acontece no capitalismo, suas relações com o Estado e, o que é impressionante, como será a superação deste problema no socialismo. Não só descrição, mas compreensão e superação. Depois temos uma matéria sobre os feminicídios no Brasil, que aqui tenta fazer uma polêmica com as soluções liberais do problema e articular a superação da violência de gênero com a ditadura do proletariado (embora pouco fale sobre como isso poderia acontecer, diferentemente da matéria anterior). Há um salto aqui abrupto (sem as mediações táticas ou mesmo em mais detalhes como se dará essa superação na ditadura do proletariado, convencendo o leitor da sua necessidade), mas há pelo menos a tentativa de uma compreensão do fenômeno e sua superação, condensada apenas nos últimos 3 parágrafos.

Temos então a matéria sobre a Marcha das Mulheres Negras, que serve somente para noticiar, dar um “contexto” e fazer uma crítica simplesmente à estrutura e organização do evento. Reproduz-se os 11 pontos da Carta das Mulheres Negras, mas nada se diz sobre eles! Qual nossa posição sobre cada um? O que achamos da criação de fundos de compensação como forma de equiparar as condições socioeconômicas — é uma reforma viável que vale a pena lutar? E sobre a distribuição das vagas nos Tribunais Superiores por gênero e raça — não é uma ilusão enquanto não falarmos de mandatos eleitos e revogáveis pelo povo nos tribunais? Queremos paridade de cargos parlamentares como meio de reformar o sistema racista e patriarcal brasileiro ou defender isto é uma ilusão que não nos fará sair do lugar? O que nosso partido pensa, não temos programa e resoluções? 

Nosso jornal deveria esclarecer para nossa militância nossa posição sobre cada ponto, utilizando a oportunidade para avançar na compreensão geral sobre o movimento negro, o feminismo negro, nossa inserção política e as divergências estratégicas e táticas que temos. Focar a crítica e polêmica meramente na questão organizativa não faz avançar o partido, nem nos coesiona: no que isso ajuda agora os militantes em cada canto do país que estarão entrando em contato com o movimento negro? Orientaremos nossos militantes negros a ingressarem no movimento e disputarem suas direções? Construíremos novamente esta marcha? Ela fez sentido dentro da conjuntura, foi uma resposta tática correta?

Mesmo a crítica é feita temendo pisar em ovos: há várias organizações que lutam e

“a crítica não visa questionar sua legitimidade [se têm estratégias e táticas que não concordamos, não seria o óbvio questioná-las para cooptá-las pelo convencimento ou isolá-las da direção?], mas sim reivindicar seu caráter de classe, bem como denunciar os aspectos liberais reproduzidos pelas instituições burguesas também envolvidas na organização”

Quais são as organizações burguesas (além do Ministério da Igualdade Racial), que vamos nos opor e não fazer alianças, e quais são as proletárias, que buscaremos nos aproximar? A matéria não serve para seu desenvolvimento prático partidário.

Depois vem a matéria sobre o ranking da Folha de universidades. Ela expõe os resultados do ranking e busca, timidamente, fazer algum sentido mais ou menos comunista deles afirmando que três obstáculos existem para acessar um ensino superior de qualidade: vestibular como barreira, falta de vagas e limitação financeira (dos alunos) que os faz estudar em uniesquinas. E a pergunta que fica nesta matéria (mas em quase todas) é: e aí? Temos esses dados da pesquisa, o que fazer com isso? Nossos militantes são quem tem de descobrir, são quem tem de responder.

Este não é o papel de um Órgão Central. Qualquer um pode ler essa notícia e dela tirar suas conclusões, que podem ou não estar de acordo com nossas resoluções e podem ou não estar de acordo com nossas táticas e prioridades. O Órgão Central deveria já fazer essa transformação da informação em orientação. Aí sim teríamos um OC.

Se não, qual a diferença para o Brasil de Fato ou qualquer outra mídia contra-hegemônica?  De que adianta ser o jornal do partido se o partido some nas matérias, se não há nada do partido no jornal? Notas, resoluções, orientações, nada disso. Restaria apenas que a diferença que esse jornal é oposição ao governo, “mais crítico” e, às vezes, comunista. O sentido de todos eles é o mesmo: informar.

O sentido do OC é orientar.

Continuemos a reflexão: em que essa matéria ajuda a organizar um trabalho universitário? Lendo-a, chega-se a duas conclusões: o vestibular é uma barreira e a universidade pública é superior à privada em qualidade. Apesar de serem constatações importantes, são mais ou menos já dadas em nossa militância. Mesmo entre a população em geral. Nem tenta chegar às conclusões (como na matéria do Banco Master) de que isso só será superado com o fim do vestibular (convencer de que é possível) ou com o fim da universidade privada, sendo expropriada e tornada pública (e popular!).

Se organizarmos uma leitura com independentes ou conversamos na venda, seu máximo de utilidade é ser uma ponte para falarmos sobre a Universidade Popular — que ainda sim depende do militante ter lido nossa brochura ou já estar minimamente formado para conseguir desenvolver o assunto, pois a matéria mesma não fala. Fora isso, em reunião da célula ou para o militante individual, é inútil. Muito se diz que não queremos que nosso jornal seja tratado como um “panfleto ampliado”. Como tratá-lo de outra forma se, em conteúdo, sua única utilidade é ser ponte de diálogo, exatamente como um panfleto? (E, em consequência da venda, política de finanças?)

Queremos universidade pública sendo universal. Como vamos chegar lá, qual é o caminho? Frente a esses dados, qual é nossa tática? O que deve ser feito neste mês para alcançar nosso programa de universidade popular? Se nosso CC não sabe responder, quer dizer que estamos em maus lençóis, porque nossa estratégia então é um sonho infantil; se nosso CC sabe responder e consegue visualizar os passos necessários para construí-la, por que não diz? E, ao dizer, por que não diria justamente no Órgão Central do nosso partido, que será lido por todo militante?

Isto não é, como talvez possa se dizer, o trabalho de mediar o nacional com o local; não é uma questão de mediação, mas de sentido. Podemos muito bem mediar a informação a nível local e ainda sim não teríamos “o que fazer” aparecendo magicamente. É uma orientação nacional que deveria ser mediada para ser aplicada localmente.

A tarefa dos militantes é conseguir mediar a orientação nacional, esta que é submetida às táticas e prioridades gerais do partido, à realidade local, tendo em vista também as táticas e prioridades locais. Não negamos a informação, porém em nosso jornal ela deve ser o subsídio para a orientação, ensinando o militante a replicar o método localmente, tirando a tática local da conjuntura local. Não deve-se esperar do militante de base que consiga ver o apanhado de informações a nível nacional e descobrir por conta própria a tática daquele momento a nível nacional e depois ainda fazer a mediação desta tática a nível local. Isto é responsabilidade dos quadros mais bem preparados para fazê-lo, eleitos para tal.

Após isto temos a curta matéria sobre a greve dos Petroleiros, que mostra como a Petrobrás recorrerá a toda “prática antissindical para manter os privilégios dos acionistas”.

Vem então a matéria sobre o PL Antifacção. Como toda notícia do jornal acerca de segurança pública e facções, em todas as edições, conseguimos até compreender como é incorreta a solução apresentada pela extrema-direita e endossada pelo governo petista, mas somos repetidamente incapazes de dar qualquer alternativa. De mostrar então o que nossa classe deve fazer, o que nosso partido deve construir. Esta matéria é talvez uma das melhores sobre segurança pública, no sentido que ela consegue arranhar a superfície de alguma reforma (pelo menos isso), ao dizer que “Não há qualquer enfrentamento ao regime econômico das mercadorias que cruzam o mercado legal e ilegal — base financeira das facções”. “Sem atingir o núcleo funcional das organizações, o projeto” de combate ao crime não funciona. Boa análise, mas e aí? Nossa palavra de ordem para o combate às facções será qual? Iremos lutar pela fiscalização financeira? Quais táticas utilizaremos para conquistá-la, qual é o planejamento?

Ela é, pelo menos, melhor do que aquelas soluções “comunistas” que afirmam que se deve aprimorar a inteligência do Estado burguês (isso, fortalecer nosso inimigo declarado em seu poderio repressivo e de controle). Ou seria melhor, se ela ao menos fosse pronunciada claramente.

Como articular isto com nosso programa sobre segurança? Onde entra, digamos aqui um ponto “polêmico”, o armamento geral do povo, como diz nosso programa. Vão cair as armas do céu?

Não é questão de ser algo “sensível”. Se não temos nem como dizer nossa estratégia claramente com medo de “repressão”, estamos perdidos. Nosso Órgão Central deve ser capaz de dizer tudo que acreditamos sem quaisquer papas na língua, sem censura alguma. É exatamente por isso que os OCs bolcheviques eram ilegais; e por isso que mantinham estes órgãos separados mesmo quando tinham possibilidades de publicar jornais legais dentro da Rússia.

Nossa organização, de tipo leninista, tem por objetivo final a atuação clandestina (preparação da revolução nos meios que forem necessários) ou a atuação legal (temos que tomar cuidado com qualquer coisa que falemos porque não podemos ir contra a lei burguesa)? Se estamos tanto na legalidade quanto na ilegalidade, porém, qual dos dois é o polo central, em torno de qual dos dois todo nosso partido funciona? Quem serve a quem? Só uma das respostas ainda tem esperança de fazer uma revolução socialista…

A matéria sobre a greve geral na Itália volta a dar um fôlego na edição, trazendo à tona o internacionalismo, discutindo tática para lutar contra o fascismo, as relações da austeridade lá que se aproximam da situação cá.

Chegamos na matéria sobre a invasão dos pistoleiros à TI em Iguatemi. De uma análise profunda das relações entre estado, agronegócio e suas milícias, a única conclusão teórica é vista somente no último parágrafo:

“Fundos, incentivos e o apoio a créditos de carbono não irão interromper o colapso que o planeta sofre. Não há possibilidade de se alcançar uma sustentabilidade real no sistema capitalista, um modo de produção no qual o lucro se coloca à frente da própria finitude da Terra. Nele, “as soluções” serão sempre mascaradas e articuladas pelas burguesias imperialistas com apoio de suas “sócias menores” nos países dependentes, que lucram com o petróleo, mineração e demais formas de exploração predatória da natureza. No Brasil, poucas famílias detentoras de terras continuarão lucrando com o agronegócio e com o garimpo, com a apropriação da terra e o envenenamento do solo.”

É impressionante como o mínimo que deveria aparecer aqui, consequência aliás lógica de tudo que foi dito, seria a nacionalização de todas as terras, expropriando o latifúndio. A matéria morre na praia: lista as impossibilidades de superação liberal, mas não consegue dizer aquilo que nosso partido já decidiu em seu congresso! Nossas resoluções sobre o movimento indígena, aliás, dizem que nos inseriremos na luta “por propostas táticas para resolução de problemas imediatos” (§ 121). Onde estão estas propostas se sequer conseguiremos falar o caminho estratégico?

Devemos avaliá-la junto com a seguinte, sobre a exploração de potássio e o povo Mura. A começar pelo título (“O triste destino dos Mura e a inevitável exploração de potássio em Autazes”), mais derrotista impossível, que já sela a sentença de vitória do Capital sobre o povo. Um jornal comunista jamais pode decretar que a exploração é "inevitável", que não é possível impedir o “triste destino”. Estaremos enterrando a luta ao invés de atuar como seu organizador. Que espécie de general é este que vaticina a derrota para seu exército?

A matéria trata de como a permissão para exploração do potássio é jogada de um lado para o outro da burocracia estatal, sempre em detrimento do povo e a favor do agronegócio. Explora a relação disso com o imperialismo e a burguesia estrangeira; a conivência da universidade pública com o Capital. É claro, ao lê-la, o quanto o Estado burguês é falho em promover mesmo aquilo que está em sua constituição e como o capitalismo é predatório para a vida do povo: ambas as matérias deveriam ser um manifesto contra o Estado burguês.

Porém o que temos é uma oportunidade perdida de demonstrar essa falência do Estado e sua burocracia para garantir direitos indígenas. É absurda sua finalização: não há qualquer conclusão política, nada. Nem se aproveita, do mesmo jeito que a anterior, para falar das nossas resoluções sobre o latifúndio nem o movimento indígena. Não há nenhuma tentativa de sequer compreender o fenômeno, apenas relatá-lo. O máximo que se faz aqui é criticar o atual governo e mostrar sua contradição.

Por fim, chegamos à última e pior matéria de todas: a matéria sobre o trabalho escravo e os auditores fiscais. O ministro Luiz Marinho paralisou as investigações e impediu que a JBS entrasse na lista suja do trabalho escravo. Vamos dissecá-la por partes:

Nós, como comunistas, acreditamos no combate ao trabalho escravo no Brasil, feito pelo Estado burguês? Obviamente que não. Portanto, qual deveria ser a função da matéria? Reforçar como é impossível este combate por meio do Estado burguês, e não tentar defendê-lo e tratar esta ação do ministro como uma exceção, como um ponto fora da curva no trabalho exemplar, entre aspas, do Estado. Utilizar o fato como ele se mostra: a movimentação explícita dos interesses da burguesia dentro e por meio da burocracia estatal. A conclusão, de acordo com nossas resoluções, deveria ser: é necessário derrubar o Estado, não basta só reclamar o caráter técnico da fiscalização. Este era o artigo perfeito para aprofundarmos nossa concepção, enquanto partido, da bandeira programática de inspetores eleitos (não concursados!!!) pelos trabalhadores em todos os ramos da economia (ponto 10 do item C). E nada disto é feito.

O artigo é do puro oportunismo: nem aponta ao socialismo nem às nossas medidas programáticas, toma a luta como está e as táticas dos setores reformistas como dadas, sem tentar disputá-las e elevá-las.

Qual nossa leitura enquanto partido do ministério do trabalho e dos próprios auditores fiscais? São claramente limitados, senão não quereríamos tomar o poder de Estado e não teríamos colocado em nosso programa a eleição de inspetores laborais.

A perspectiva dos auditores é de que devem protestar contra a “subordinação da técnica ao interesse político”. O problema é a subordinação da técnica à política ou é a subordinação à política burguesa? Acreditamos nesta técnica pura operando no capitalismo? O sindicato quer a independência técnica para aplicar a lei de forma isonômica; e qual nossa posição sobre isso? Achamos sequer que a lei é suficiente ou tomaremos ela como está?

A resposta e “mobilização” dos auditores fiscais frente a isto: sair de postos-chave de comando e desorganizar a cadeia de comando. O que achamos desta tática? Como isso ajuda no problema — uma tática muito melhor não seria vazar informações? É difícil ver como a paralisação destes trabalhadores prejudica a burguesia e sua influência no governo federal…

O sindicato quer que haja uma blindagem técnica, pois sem isso seu trabalho “deixa de ser uma ferramenta de Estado” e torna-se volátil de acordo com circunstâncias e interesses. Nós replicamos acriticamente a mesma posição estratégia e tática.

Se a autonomia dentro do Estado ou a tecnocracia é uma bandeira que, aqui neste contexto, significa os interesses dos trabalhadores contra os interesses do capital, nós não devemos nunca esquecer de suas limitações. Nem, novamente, de que estes são, de qualquer forma, membros do Estado. Sua autonomia, para nós comunistas, deve refletir uma amputação progressiva do Estado burguês e uma vinculação na mesma medida ao poder popular — pois ambos são inconciliáveis. Esquecer disso nos porá em problemas quando o funcionalismo público — e mesmo o mais “consciente” — se sentir dependente (e de fato o for) do poder burguês para existir e não tiver coragem para dar o passo revolucionário.

Se fazemos nosso trabalho entre os servidores públicos é para que sejam nossos aliados na derrubada do Estado, vendo que nele não há futuro; podem sê-lo destacando-se completamente, ao surgirem as possibilidades — e nos trazendo sua técnica — ou servindo como boicotadores, infiltrados etc.

Pois não devemos, de fato, ser contra (como “princípio”) a palavra de ordem da autonomia dos fiscais, mas entender ela em seu contexto e função. Se não sabemos os motivos certos pelos quais chegamos a esta palavra de ordem, seus limites e consequentemente quais são as palavras de ordem mais adequadas ou seguintes; então não estaremos tocando luta comunista. Não estaremos sendo comunistas também se sabemos o caminho (e de acordo com nosso programa sabemos sim!), mas não dizemos — seja por achar que as massas não estão preparadas, seja para não assustá-las.

O problema que se põe mais às claras que nunca nestas últimas matérias é: a política que defendemos é a política estadista. Queremos romper com o Estado, em teoria e em nosso programa, mas na prática hesitamos em convocar este rompimento. Na prática o defendemos mortalmente e nos apegamos a seu aparato burocrático. Amamos a burocracia e sequer nos damos conta. É isto que nosso jornal diz sobre nós.

Tivemos uma série de oportunidades impressionantemente perdidas de aprofundar nossa concepção do Estado e da sua necessidade de dissolução. O papel do jornal leninista é articular tudo isto numa tática coerente que desemboque na estratégia final para esta etapa: destruir o poder burguês e tomar o poder.

Temos resoluções e simplesmente não as seguimos em nosso Órgão Central. Abandonamo-las para “mediações táticas” inconscientes e assim caímos nos braços do oportunismo. Fazemos uma campanha do “jornal sem partido”: em todas as matérias do mês de janeiro, não há uma única menção ao PCBR ou à UJC. O partido, de maneira bizarra, simplesmente não existe no nosso jornal!

Não podemos deixar que isso aconteça, e por isso é fundamental transformar, finalmente, o jornal O Futuro num jornal político.

O DESCOMPASSO ENTRE O PLANO E O RESULTADO

Discutimos os problemas ideológicos, de concepção e entendimento do jornal como Órgão Central, assim como a tendência ao oportunismo que isto gera. Vamos agora aos problemas organizativos:

São debatidas uma série de matérias (muito interessantes e de acordo com as tarefas do partido) nas reuniões do Conselho Editorial (CE), mas na maior parte das vezes elas não entram no jornal impresso (e entram matérias que não foram debatidas e menos importantes que aquelas definidas).

Por exemplo, o editorial de Juventude de janeiro tinha matérias importantíssimas para nossa atuação política: a lei de estágio da UNE, que dialogaria com nosso ponto do programa sobre entender os estágios como trabalho; e o ENG, que dialoga com o trabalho que temos feito com os secundaristas.

Mas no jornal impresso, veio uma matéria sobre o ranking da Folha, uma matéria que não dialoga em nada com as necessidades políticas do partido, e que tem papel meramente informativo.

Vários outros exemplos poderiam ser tirados da ata do CE comparando-a com o jornal impresso. Um grave é a não existência de matéria de luta ideológica, que havia sido definida como sobre o socialismo cubano. Afinal, com o que foi exposto acima, vemos que conceber a luta ideológica como uma “editoria” à parte é ridículo para o jornal leninista. Todas as matérias, ou a maioria, deveriam fazer a luta ideológica. Imagine então ter apenas uma e nem ela sair no jornal, que desastre!

Em mais detalhes, vejamos o que foi realizado sobre o que foi planejado:

Editorial Agronegócio e Clima: ¼; Editorial de Segurança Pública: ⅔; Editorial Sindical: ⅔; Editorial internacional: ⅓; Editorial de Juventude: 0/2; Editorial de Cultura e Mov. Sociais: ½; Luta ideológica: 0/1.

Desconsiderando capa e editorial, planejavam-se 18 matérias. Destas, apenas 7 foram realizadas no jornal impresso. É uma taxa de 38% de realização, camaradas, menos da metade. O jornal, ao final, saiu com 13 matérias, onde 6 foram tapa-buracos!

Chovendo no molhado: temos certeza que todos entendem o quanto é grave este quadro. Reflete uma debilidade gigantesca de nosso partido e passam-se os meses e ainda sim o Órgão Central continua a respirar por aparelhos. Se não conseguimos nem realizar as matérias que planejamos para o jornal impresso, quer dizer que o jornal impresso não segue as necessidades do partido, mas existe por existir. Sem ser planejado, ele não pode cumprir razoavelmente sua função no partido, qualquer que seja.

Se os camaradas destacados para escrever para o Órgão Central, que deve ser nossa direção ideológica, não estão conseguindo dar conta, devem ser imediatamente trocados ou liberados de outras funções para dedicar-se ao que é principal. É preciso priorizar a prioridade, camaradas.

Nunca conseguiremos nunca ter o jornal como prioridade para nossa militância se ele não é prioridade nem para nosso CC!

O BOLETIM INTERNO

O que é nosso BI? Deixemo-lo responder em sua primeira edição, com grifos nossos:

"O Boletim Interno do Comitê Central será a partir de agora e em cada quinzena a ferramenta privilegiada de comunicação do Comitê Central para todo o Partido, uma forma organizada e periódica para propagar a voz do Comitê Central à toda a militância, garantindo que cada militante saiba sempre quais as principais tarefas do Partido no momento e o que está acontecendo a nível nacional. O Boletim será a principal referência de cada militante para as orientações do Comitê Central e, ao mesmo tempo, uma forma da direção nacional prestar contas e repassar sua atividade a todo o Partido, uma via de mão dupla que buscará desenvolver em toda a organização uma consciência unificada do trabalho coletivo sendo desenvolvido, reforçando o Espírito de Partido necessário para rompermos as cadeias do federalismo e dos pequenos círculos.” (BI #1)

É a ferramenta que busca unificar os trabalhos, as experiências, as orientações, tudo isso dirigido nacionalmente para acabar com o localismo… Isto é, quase que ipsis litteris, a definição de um Órgão Central leninista.

Façamos uma análise concreta. Como ele hoje funciona mais como Órgão Central — ideologicamente — que o jornal? Peguemos a edição de dezembro/janeiro, nº 19, que está diretamente paralela ao jornal que analisamos acima.

Sua capa é sobre o último pleno do CC e as importantes resoluções que foram aprovadas nele, sintetizando-as: o balanço de lutas de 2025, sobre a agitação e propaganda, a normativa de expulsão e os eixos de planejamento. Tudo isto serve justamente para orientar a militância e serve inclusive como demonstração de método para os organismos replicarem: fazer balanço do último ano e em seguida planejar este ano. Todos os documentos ali, inclusive, nada têm de sigiloso, e poderiam ser muito bem publicados no jornal (ao invés de sínteses, os documentos na íntegra).

Temos então a parte de tarefas, parte repetitiva porque traz quase nada de novo a cada boletim. Poderia facilmente ser 100% incorporada pela assistência ou circulares e inserida como caixinha especial no jornal, apenas no que fosse mais essencial.

A próxima parte é a de orientações. A primeira é sobre o ativo de finanças, que poderia ter sido uma simples circular aos CLs apenas (já que só eles irão participar, por que enviar para todos?), ou uma mensagem dada diretamente pela assistência. A segunda é uma orientação sindical do que fazer tanto na greve dos ecetistas e petroleiros quanto no 35º Congresso Nacional da CNTE: uma orientação que não faz nenhum sentido não estar no nosso jornal impresso! Se nós temos orientações políticas, por que elas não apareceram justamente nas matérias que falam sobre essas questões concretas? As 2 matérias dos Correios e a matéria dos Petroleiros poderiam ser muito mais úteis à militância se tivessem essas orientações incorporadas à elas.

Depois temos nosso balanço sobre atuação internacional, com definição de tática para a solidariedade à palestina e com orientações (!!) para os CLs. Além do claro erro de local (não é balanço, é orientação), é óbvio como isto é muito útil para todos os camaradas lerem e se apropriarem da tática, e deveria estar no jornal impresso. A mesma coisa para o balanço seguinte sobre algumas bilaterais e participações internacionais, que com alguma alteração na forma da escrita, seria importantíssimo para toda nossa militância conhecer quais são os partidos irmãos pelo mundo e nossas relações com eles.

Em seguida há o primoroso repasse sobre a atuação sindical no DF, sua articulação com o jornal, que é uma socialização de experiência, ainda que demasiado longa, fundamental para todos os trabalhos sindicais no país. É um repasse que deveria com toda certeza ser lido e discutido (numa versão editada para ser menor, imagino) por todo organismo sindical: ou seja, não faz o menor sentido que nosso jornal, Órgão Central, não sirva para socializar a experiência. Um militante que pega o jornal de janeiro sabe que a Caixa ataca seus funcionários para agradar os acionistas, mas não faz a mínima ideia de como organizar a ação prática com os bancários! Pois nem é essa seção do BI obrigatória de ser lida e discutida como, se pensarmos também os núcleos e organismos em estágios iniciais, teremos vários camaradas que não recebem o BI porque não foram recrutados ainda. Deixamos isso de fora do nosso jornal, sendo que não há nada de sigiloso, para colocar uma matéria meramente informativa. O outro repasse é também sindical e se trata da tentativa dos camaradas de participar da CIPA da prefeitura de Osasco, tendo uma avaliação sobre o processo, o que fizemos e sobre a CIPA. Outro que deveria, com alguns ajustes, ter sido publicado no OC, pois esses dois repasses são melhores orientações que dez matérias informativas! Mas infelizmente são deixadas no canto, na seção semifinal do BI, que lê só quem quer.

Por último temos os informes, onde um é uma obviedade (o jornal do mês saiu!) e o outro não deveria nem ser divulgado no BI para qualquer militante recém-ingresso: é uma ata do Conselho Editorial do Jornal.

Um militante em janeiro com o BI consegue estar muito mais inteirado no que o PCBR está pensando, decidindo, a conjuntura atual, nossas relações internacionais, o que fazer no trabalho sindical (nossa prioridade!!!) do que um militante com o jornal.

Queremos ainda buscar outro BI para aprofundar essa comparação, porque isto não é um ponto fora da curva.

O BI nº 18, de novembro, em comparação com O Futuro nº 16 (ainda que seja de dezembro, são mais ou menos paralelos), é ainda mais impressionante:

A capa de ambos é sobre a violência policial e o massacre ocorrido no RJ. Mas vejamos a diferença da matéria principal do jornal, que é unicamente informativa e, pasmem, não chega a nenhuma conclusão política além de: 

“[...] os episódios contra a classe trabalhadora moradora das favelas não são casos isolados, mas demonstrações permanentes da violência de Estado e do controle social imposto pela classe dominante às parcelas mais pobres do proletariado brasileiro.”

O CE quer que a militância leia o jornal, mas insiste em colocar as conclusões mais óbvias possíveis nele, que só seriam grande novidade para as camadas atrasadas do proletariado! Sim, sabemos que o Estado mata pobres: não precisa ser comunista para chegar a esta inovadora conclusão. Se isso é tudo que podemos oferecer — podar nossa linha para estar de igual para igual com a consciência média —, coisa que está em qualquer página de esquerda, em qualquer álbum de rap, na simples experiência empírica de qualquer morador de favela, então estamos muito longe de ser vanguarda. Nunca isto poderá ser útil, nem mesmo interessante para um militante ou para um trabalhador avançado.

Não é como se nosso jornal conseguisse sequer dar a notícia primeiro ou melhor, porque ele já estava atrasado em semanas em relação ao acontecido e todos os militantes, assim como a população, já haviam tanto participado de atos a respeito, lido matérias etc. Portanto informar sobre o acontecido era simplesmente inútil. Mesmo atrasada, nossa nota política seria 10 vezes mais útil de ser publicada (talvez tirando apenas o chamado aos atos, que já havia passado), porque tenta compreender o fenômeno e pensar sua superação!

Abram os jornais de dezembro e comparem a matéria com a nota política. Repetindo o que já dissemos em relação a outras notícias: a matéria em nosso jornal poderia ter saído no Brasil de Fato, na Agência Pública… Mesmo a informação sobre as táticas utilizadas (as redes de apoio e mais), se não pensadas criticamente no que são boas e no que são ruins, as palavras de ordem utilizadas, não avança em nada o movimento comunista. É absurdo que se tenha preferido publicar esta matéria e do que nossa nota política. Comparemos a diferença de conclusão:

“Os responsáveis por essa gestão da barbárie, sustentada pela democracia burguesa e seus aparatos repressivos, devem ser responsabilizados. É urgente construir uma nova concepção de segurança pública, forjada pelas mãos do povo, e não pelos generais, políticos e empresários que lucram com o sangue da favela.

“Não há saída dentro dos muros do capitalismo, tampouco nas promessas vazias da gestão conciliadora do Estado burguês. Exigimos investigações independentes, o afastamento do Secretário de Segurança, Vitor Santos, a prisão e o impeachment imediato de Cláudio Castro. Além disso, urge a necessidade do desmantelamento completo do COE, CORE e BOPE. Que as favelas organizem sua autodefesa comunitária, que o povo una sua dor à revolta, e que de cada vida arrancada pelo Estado nasça a semente da luta por um novo mundo. Nossa solidariedade é incondicional às famílias das vítimas.”

No BI, na mesma direção que a nota, existe tanto um aprofundamento teórico quanto uma orientação clara sobre o que é necessário fazer e qual a palavra de ordem que devemos puxar.

A seção de tarefas novamente é inútil e poderia ser feita por um assistente ou circular, então pulemos ela.

A primeira orientação, seguindo, é importantíssima para o partido no próximo período, que se trata da nossa política eleitoral para 2026. São colocadas as resoluções do X Pleno. Foi publicada uma nota política que resume alguns pontos chave das resoluções em nosso site. Todos devem concordar que esta é uma decisão importantíssima que deveria ser lida e discutida por todo militante e por todo aproximado de nosso partido. Que cada célula deveria se apropriar e tomar para si desta que será uma das maiores movimentações do ano, concordando ou não com o que foi tirado. Está lá no BI.

Porém não há um parágrafo sequer sobre as eleições nos jornais desde então! Nada. Nem matéria, nem nota de rodapé, nadinha. Se pegarmos os jornais de novembro, dezembro e janeiro, parece que nosso partido nem sequer sabe que tem eleições vindo aí. Parece que nem sequer decidimos qualquer coisa. Como pode uma das orientações mais importantes do ano, inclusive mais polêmicas, simplesmente não estar em nosso jornal — em nosso “Órgão Central”?!

Poderíamos continuar dissecando cada BI em comparação com seu jornal paralelo, e o mesmo se repetiria.

Por isso retomamos a afirmação: nosso jornal hoje se esforça para estar apartado do partido. Tem vergonha de ser um jornal partidário e quer ser, talvez, um jornal “científico”, um jornal “respeitável”. Quer um jornal de jornalistas; quando precisamos é de um órgão central de comunistas. Só retomando o jornal para o partido e fazendo-o ser nosso porta-voz é que ele servirá para alguma coisa em nossas mãos.

AS RESOLUÇÕES DE IMPRENSA DO PCBR

Se queremos seguir nossas resoluções e, com o entendimento exposto acima do que é um OC e um OP, é necessário fundir os dois no mesmo instrumento: o jornal partidário. Os §42, 45 e 46 delimitam claramente um OP; já o §41 e 43 (e em alguma medida o §44) delimitam um OC:

“§41 O jornal partidário é o trabalho publicístico mais importante no atual período. Sobretudo, ele é indispensável para a profissionalização da agitação e propaganda. Entre outros motivos, porque ele supera a artesanalidade dos panfletos e pequenos jornais locais, quase sempre realizados com poucos camaradas e com resultados limitados, em direção a uma produção nacional, regular, centralizada pela direção do Partido, e que atue como dirigente ideológico de toda a militância, com uma rede de distribuição própria e financeiramente sustentável.
“§42 Ele tem como objetivo o diálogo com o povo trabalhador. A linguagem utilizada, a escolha das matérias, a diagramação, enfim, todos os aspectos devem ser definidos com esse objetivo em vista. Devemos lançar todos nossos esforços em criar um jornal que seja visto pelos trabalhadores como algo seu, como sua tribuna para denunciar as mazelas do capitalismo, e sua referência para elaborar coletivamente uma nova forma de sociabilidade. 
“§43 A visão de totalidade da luta de classes só é possível através de um instrumento que compartilhe os acúmulos, as formas de luta forjadas nos mais variados locais, e seja capaz de sintetizar isso em táticas e estratégias cada vez mais bem definidas. Devemos fazer do jornal, nas suas mais variadas facetas, esse instrumento.
“§44 Todo comunista é um correspondente do nosso jornal. É tarefa de toda comitê ou célula escrever para o jornal, discuti-lo e distribuí-lo em seus locais de atuação. Os estados ou regiões onde estamos organizados devem ter camaradas destacados para operar o diálogo com o órgão central, e toda célula pode se corresponder diretamente com a diretoria do órgão central.
“§45 O contato do jornal com a classe não pode se dar apenas no momento de venda. É preciso que nossos militantes, no processo de produção de conteúdo para o jornal, busquem estabelecer relações diretas e pessoais com os trabalhadores que pretendem representar. Uma matéria cobrindo um desastre ambiental, por exemplo, deve almejar enviar militantes para conversar diretamente com os afetados. 
“§46 Distribuir o jornal impresso e criar momentos de diálogo mais aprofundados com as massas em um dado local é insubstituível. Podemos dizer que essa é uma das formas mais efetivas de propaganda, em nível pessoal. Por sua vez, sem uma atuação planejada e coordenada nas mídias digitais, ainda não estaremos no nível de profissionalização necessário para o jornal cumprir de fato seu papel de dirigente ideológico. Existem experiências bem sucedidas de inserção de grupos comunistas e de trabalhadores conscientes nas mídias digitais. Devemos nos apropriar dessas experiências e planejar uma inserção própria que nos dê credibilidade nesse meio. Há a possibilidade de boletins locais para trabalhar suas pautas imediatas submetidos à linha editorial do órgão central.
“§47 O nome do jornal do Partido será ‘O Futuro’.” (Resoluções de Organização do PCBR)

A função de um “boletim interno” não se confunde com a função de Órgão Central. Servem para determinados repasses técnicos ou especificamente internos. Nem mesmo são obrigatórios de existir, pois são somente uma das alternativas de socialização de informações partidárias: sínteses públicas ou boletins internos (§37). E a primeira alternativa, de sínteses públicas, é, via de regra, superior para a função de direção leninista.

As outras duas únicas outras menções a boletins, em nossas resoluções, são como boletins locais (funcionando, sem rodeios, como órgãos ou jornais do centro local), submetidos ao OC, no §46; e no §48, como uma das formas de comunicação e agitação e propaganda, tratado lado a lado com as circulares.

Os boletins podem ser úteis quando cumprem função de boletim, não de Órgão Central: são os boletins específicos, como atualizações, relatórios, informes, prestação de contas (reports em geral) periódica de alguma atividade ou setor organizativo. Boletim de uma campanha política como disputa sindical, CONUNE etc., com periodicidade e servindo para mostrar o que já fizemos e o que falta; o que conseguimos ou não fizemos; ou boletins de finanças, boletins de comunicação, que foquem em reportar suas atividades.

Um boletim de um organismo inteiro (e não um de seus setores de trabalho) é exatamente um relatório periódico, como um relatório de assistência. Quando este boletim tem esse caráter geral, compreendendo uma série de atividades diferentes, dando um sentido totalizante às partes, temos que tomar cuidado, pois já pode começar a se confundir.

Sendo a sua direção horizontal (como de um setor para outro) ou de baixo para cima (de uma célula para um CL; deste para o CC), é mais fácil mantê-lo com o caráter de relatório (report), pois a própria hierarquia trava seu desenvolvimento como outra coisa: o organismo inferior não orienta nem tem poder sobre o superior.

É quando este “boletim” totalizante toma a direção vertical de cima para baixo, quando sai do organismo superior e vai aos seus organismos subordinados, que temos de ter total atenção: ele deixa de ser um mero repasse, passa a ser orientação, a voz do organismo dirigente aos dirigidos: vira o instrumento que aglutina as orientações, os trabalhos, os setores num todo coeso, explicando-o e direcionando-o. Torna-se um órgão — porta-voz, aparelho, veículo, se quisermos outras palavras — daquele organismo.

Esta é a sua tendência, quer ela se realize ou não. Ao não entender o papel dos órgãos como vozes do organismo e não diferenciá-los dos boletins, o mais comum é um meio termo: claramente a coisa é mais que um boletim, mas é subutilizado enquanto órgão.

Não são boletins os meios para coesionar, integrar ou orientar a militância subordinada: somente o são ao se tornarem e assumirem o conteúdo de órgãos.

Portanto, a única forma possível de seguir as nossas próprias resoluções, no momento atual, é incorporar o BI no Jornal O Futuro.

Só assim o jornal será o dirigente ideológico da militância, compartilhando os acúmulos, as formas de luta forjadas nos mais variados locais e será capaz de sintetizar isso em táticas e estratégias cada vez mais bem definidas. O nome do jornal do Partido, como diz o §47 é O Futuro, não Boletim Interno.

Em nossa perspectiva, inclusive, deveríamos ter seção própria, de 4 a 8 páginas (1 caderno), que tenham diagramação diferenciada: comprimir o máximo de informação possível, assim como era o Iskra e demais jornais bolcheviques; sem imagens ou qualquer elemento não essencial. Não é a parte “popular” do jornal, mas sua parte destinada à vanguarda (seja aquela que já está no partido, seja aquela que será dirigida pelo jornal sem ainda ser do partido), e para arrastar pra frente as camadas médias. Comprimir tudo de importante que há no BI (e que não é tediosamente técnico ou excessivamente interno) para esta seção que verdadeiramente será o coração do nosso Órgão Central. E esta seção ser aquela que será lida e discutida obrigatoriamente em reunião por todos os organismos a cada nova edição.

O SIGILO E INFORMAÇÕES PARTIDÁRIAS

Os camaradas poderiam perguntar, chocados: mas se o BI entra no jornal, então publicaremos orientações e informações internas?

A resposta simples (e bolchevique!) é simplesmente: sim.

Mas precisamos então diferenciar o que é “interno” do que é sigiloso. Atas do CC, relação completa dos seus membros, valor do caixa do CC, tudo isso hoje é sigiloso (não entraremos no debate se deveriam ser ou não). Sínteses e resoluções dos plenos do CC, planos de ação, balanços, normativas, manuais etc. não são nada sigilosos, embora sejam “internos”.

Muito se resolve sobre a questão do sigilo se escrevermos mais notas públicas e deixemos o que é sigiloso somente para os dirigentes. Deve haver pouca ou nenhuma diferença entre as orientações gerais que passamos e podem ser acessadas pelos militantes de base e aquilo que será publicizado. E isto por razões bem simples: dado o nosso processo facilitado de recrutamento e a nossa perspectiva de crescimento exponencial, é impossível conhecer a base (rotativa, que entra com grande facilidade e inicia rapidamente trabalhos práticos — como queremos), sendo, portanto, tolo confiar na base em termos de sigilo. Não são (ainda) revolucionários, isto é nítido, pois por revolucionários devemos entender os já provados pela prática.

Isto não significa, entretanto, excluir as bases da discussões táticas, organizativas ou ideológicas, mas incluí-las de maneira cada vez menos comprometedora de nossas informações. Novamente: com documentos públicos, notas e posições políticas, discussões organizativas, táticas e teóricas possíveis, com orientações práticas do que fazer. Nós iremos conhecendo a base na prática, à medida em que quadros forem despontando, estes serão alocados em funções em que vão recebendo cada vez mais informações sigilosas.

Ou seja, é um movimento duplo: restringir mais o acesso de informações às camadas dirigentes (na prática até os CLs ou UCLs somente); ao mesmo tempo publicizar muito mais nossas orientações, balanços e posições. O mesmo vale para os documentos produzidos pelos CLs e sua relação com suas células.

O COMITÊ CENTRAL E O JORNAL

Aproveitamos a oportunidade para tentar mapear a concepção do nosso CC sobre o jornal e a evolução do debate feito em seus plenos. Buscamos abordar somente a sua concepção ideológica, que é o central deste artigo, abstraindo de outras grandes discussões sobre outros aspectos do jornal.

Por questões de sigilo, nesta versão para publicação aberta não apresentaremos os nomes dos membros do CC nem citações diretas, apenas siglas e citações indiretas do conteúdo das atas dos plenos do CC, para que o leitor possa acompanhar mesmo sem acesso aos documentos.

Começaremos pelo pleno do início de setembro de 2024, concomitante à primeira edição do jornal impresso. Na pauta de Diretrizes Gerais do Plano de Ação, ainda há uma compreensão do jornal como, de fato, OC, que é o que majoritariamente se passa nas falas. Camaradas como LM, DMi, AN, AV e NP todos ressaltam o jornal como esqueleto que ensina à militância quais questões centrais, síntese entre ação e pensamento, fio condutor da influência ideológica sobre as bases, espaço onde mostraremos nossas posições e ensinaremos as táticas para cada lugar, instruindo a militância sobre as questões centrais etc.

Tudo isso é consenso em teoria, mas que na prática poucos irão continuar a se atentar durante o progresso do jornal. É neste pleno que, sem saber, os camaradas vislumbram exatamente o que hoje o jornal veio a ser: um comentador da luta de classes (expressão de GT). À época não era o que parecia se tornar (muito menos o que se planejava).

Já no pleno realizado em novembro de 2024, onde apenas poucas edições do jornal já haviam saído até então, as coisas começam a degringolar, especialmente por já termos o Boletim Interno em circulação, que confunde tudo. É a pauta sobre o balanço das primeiras edições do jornal que nos interessa. VO e LO já comentam que em nossa militância há uma leitura pobre sobre o papel do OC no direcionamento do partido — seu papel dirigente.

LM traz novamente a questão ideológica: critica ainda estarmos falando pouco da conjuntura de forma a dar respostas políticas às questões centrais do proletariado; diz ser necessário que se produzam mais notas e posições públicas. Noutro momento defende que nosso jornal deve fazer a luta ideológica pelo socialismo-comunismo em suas colunas — coisa que, a nosso ver, deveria ser óbvio, mas mostramos já que na prática não acontece sempre.

Aqui aparece, cremos pela primeira vez nos plenos, a “linha” jornalística sobre o jornal quando SA apresenta a preocupação que nosso jornal siga normas técnicas como linha editorial, critérios de noticiabilidade, manual de redação etc. Chamamos de “linha” essa forma de pensar o jornal a partir do jornalismo, e não das necessidades e dos problemas partidários, organizativos e políticos em geral (porque isto, a essa altura, já estava apartado e se consolidando no Boletim Interno).

Buscando uma aproximação com a técnica e o desenvolvimento do jornalismo, o trabalho com o jornal toma completamente o sentido de Órgão Popular. Porém reafirmamos (e posteriormente em artigo próprio iremos desenvolver melhor): não se pode apoiar-se nas técnicas dos meios de comunicação em massa sem lembrar dos outros dois pilares, o conteúdo ideológico e o meio material com suas conexões organizativas; sem lembrar o sentido do OC versus o do OP.

Este é um problema que aparece no Manual de Redação: ele serve para fazer jornalismo (e é muito bom para isso), não para dirigir um partido. Não negamos de forma alguma sua utilidade, vejam bem, mas é necessário situá-la. Ele é perfeito para a parte popular do jornal — onde iremos querer toda a experiência jornalística, pois a função do OP é de fato se comunicar em massa —, mas não serve para a parte central, que dirige o partido como OC. Nenhuma nota política, artigo ideológico, orientação tática será feita a partir do Manual de Redação.

Sem uma distinção adequada do que é o OC e o que é o OP, o objetivo de cada órgão e como dirigimos ideologicamente o partido por meio da imprensa, essa “linha” vai cada vez mais se aprofundar e permear todo o conselho editorial, querendo ou não — conscientemente ou não. Ao não ter clara a diferença entre os órgãos, a “linha” jornalística generaliza o que deveria ser somente uma parte para ser o todo. A própria existência do BI objetiva essa separação, mesmo que não seja a intenção de nossos camaradas.

Ao final da pauta, aprova-se que devemos ter artigos de luta ideológica nas edições. No geral, é um balanço muito mais sobre o caráter organizativo do que sobre seu caráter ideológico, muito mais sobre forma do que sobre conteúdo; e sobre a logística e divisão de tarefas na diretoria.

No pleno realizado em fevereiro de 2025, apenas destacamos que camaradas como AV e LM apelam mais uma vez para a necessidade do Conselho Editorial se tornar o diretor ideológico do partido.

No pleno realizado em agosto de 2025, já temos várias e várias edições do jornal rodando, e todos os militantes práticos já esbarram com os problemas dele. No diagnóstico de um ano desde o congresso, são elencados os problemas da época e a falta de clarificação ideológica do partido. Nisto entra o papel do jornal: LM reforça uma de suas avaliações que concordamos integralmente: a melhor forma de dirigir o partido é através do jornal — que inclusive é essa diferença do jornal partidário de um simples jornal de esquerda. Tanto LM quanto MA ressaltam que ainda não conseguimos chamar nosso jornal de dirigente político, que o Conselho Editorial ainda não conseguiu realizar esta sua função.

Então GP diagnostica brilhantemente o problema, pela primeira vez nos plenos, afirmando categoricamente que temos dois centros de orientação tática-ideológica. Temos dois órgãos — o que não seria um problema em si caso a) isto fosse consciente; e b) nosso congresso o permitisse.

GP defende que devemos abrir espaço no jornal para debater balanços, avaliações, táticas para que nossa militância tanto se aproprie mais do jornal, debata nossas ações quanto seja mais coesa ideologicamente. Que os debates do CC decantem em nosso jornal.

Foram diagnósticos perfeitos, mas que não modificaram o resultado, pois não são “pequenos ajustes” (expressão de LM) que faltam, mas sim um grande ajuste. Continuemos.

No pleno realizado em setembro de 2025, é feita uma discussão sobre nossa agitação e propaganda (em geral, mas certamente entra o jornal na conta): os problemas diagnosticados antes continuam sem resolução.

Vai sumindo a defesa de um dirigente ideológico, e aqui temos a aceitação do jornal como é: um comentador da luta de classes. Os problemas da militância com o jornal são apontados novamente, e foca-se em questões outras, embora importantes. Tiragem, nº por militante etc… Muito se fala da venda do jornal, e nada sobre seu conteúdo.

Ou melhor: alguns camaradas (DMa, VO e GP) meramente constatam novamente que o jornal não está sendo a espinha dorsal do partido, mesmo que devesse sê-lo. E param aí, infelizmente, neste pleno.

Parece cômica, depois de todas as constatações que vimos antes e as discussões feitas, a posição de GLz: que o jornal está ótimo, todas as edições estão boas, e o problema é os militantes incorporarem o trabalho prático. Antes fosse um problema apenas pela militância indisciplinada, que se resolve com um bom puxão de orelha!

No pleno realizado em novembro de 2025, continuam as discussões, sem necessariamente adentrar no conteúdo dos jornais. Vale mencionar apenas que LM aponta, em uma de suas falas, a diferença entre um Órgão Central e um “jornal” na tradição bolchevique, que vai de acordo com nossa categorização acima entre OC e OP.

Portanto, o grosso das discussões que trouxemos durante a tribuna não é novidade — nem mesmo dentro do CC —, nem sequer é uma posição minoritária dentro partido. É exatamente como as resoluções indicam e como os camaradas haviam refletido sobre o OC durante seus plenos. Porém no percurso do jornal, com as dificuldades, alterações de camaradas responsáveis (e não podemos esquecer como o OC, assim como o CC e o partido como o todo, foi fortemente afetado e prejudicado por fatores contingentes como afastamentos, desligamentos, sobrecargas e problemas diversos no último período), gradualmente isso foi se perdendo e se aceita hoje o jornal como mero jornal, não mais como Órgão Central. Só lembram-se do seu caráter de OC quando se fala nos números, na sua função de conexão, em resumo, na sua forma de um jornal impresso.

É um grande problema que a maior parte das discussões mais recentes dos camaradas nos plenos seja simplesmente se o jornal está vendendo ou não, se está tendo repasses ou não. É claro que isso é importante (e muito!), mas no CC os camaradas passam ao largo de discutir o conteúdo do jornal (a própria camarada AV já apontou esta ausência) e se apegam simplesmente à forma, em todo pleno: veja como temos o jornal funcionando, saindo todo mês, que beleza! E não se discute que jornal é esse que está saindo. Os militantes não estão utilizando o jornal nem dando repasse! Mas é o nosso jornal útil à militância?

CONCLUSÃO

O que precisamos hoje, como já apontado na primeira edição d’O Futuro, mas tristemente esquecido (assim como se esquecem nossos redatores das nossas próprias resoluções partidárias), é de um jornal político para todo o Brasil.

Mas nem tudo está horrível. Na edição de dezembro, tivemos duas matérias (1 página) que faz lembrar que O Futuro é do PCBR: nossa nota sobre a prisão de Bolsonaro e sobre a Revista Comunista Internacional. Na edição de novembro o artigo de luta ideológica é primoroso. Nossas notas políticas têm sido boas e o Boletim Interno é a prova cabal que o nosso CC consegue, se quiser, fazer um Órgão Central com muita qualidade, tendo chegado no seu auge a uma edição quinzenal.

Portanto não é questão de capacidade, nem estamos fadados ao oportunismo (se honrarmos nossas resoluções); é uma questão de direcionamento correto sobre o que é o Órgão Central. Ao invés de nos dividir em dois Órgãos, deveríamos — como dizem nossas resoluções — ter apenas um, que seja Central: o Jornal O Futuro (quem sabe, redirecionando sua rota, logo logo conseguíssemos dobrar a periodicidade, como já foi com o BI…).

Como síntese geral de tudo que foi argumentado, reproduzimos aqui a resposta aprovada pela Coordenação Regional do Ceará às resoluções do XI Pleno do CC sobre a centralidade da agitação e propaganda, encaminhada diretamente ao CC:

1. Para que o Jornal O Futuro "seja consolidado como Órgão Central de Imprensa do Partido", que "todas as localidades do Partido compreendam o jornal como instrumento central de organização e direção ideológica", é necessário que nosso jornal deixe de ser apenas um jornal sobre política (Órgão Popular), como é hoje, e se torne efetivamente um jornal político (Órgão Central), como defendido por Lênin e posto em prática pelos bolcheviques sucessivas vezes.
2. Isto envolve publicar mais, muito mais artigos ideológicos, orientações táticas, notas políticas, socializações de experiências e outros documentos similares no jornal impresso. Este não pode ser apenas um apanhado de notícias sobre o que está acontecendo no mundo, mas tem que ser o farol que ilumina para onde navegar. O jornal, a cada mês, deverá ser a voz do partido indicando à classe e a si mesmo o que fazer. Devem ser incluídos excertos das nossas resoluções e programa no jornal, de acordo com seu conteúdo.
3. Grande parte de nossas normativas, resoluções dos plenos do CC, planos de ação, que são tratadas como documentos internos, também poderiam ser publicados – preferencialmente no jornal impresso --, sem qualquer prejuízo à segurança partidária. Pois se são enviados a milhares de pessoas e mesmo àqueles que pouco conhecemos e acabaram de ser recrutados, então sabemos que não contém informações que sejam sensíveis e que nos prejudiquem em caso de tornarem-se públicas.
4. A maior parte, senão tudo, que sai hoje no Boletim interno poderia ser incorporado em a) seção específica no jornal impresso, com pequenos ajustes, e b) orientações por parte da assistência. Incorpora-se a parte política do BI no jornal e a parte repetitiva e meramente técnica do BI no trabalho regular da assistência. Assim, ao invés de termos dois momentos (1. a leitura do BI em reunião, que diz a tática; e 2. a leitura do jornal em rodas de conversa, que serve apenas para agitação geral), teríamos ambos condensados no mesmo meio – o jornal O Futuro – fazendo com que cada célula os apropriasse em conjunto, fortalecendo assim sua utilização como guia ideológico.
5. As orientações específicas, mais urgentes ou sigilosas, continuariam a ser repercutidas tanto pela assistência, quanto pelos Comunicados Internos e circulares.
6. Isto não envolve transformar nosso jornal por completo em somente um jornal político, ignorando as matérias populares como já existem. E sim transformar o jornal impresso em uma mistura de ambos: principalmente um Órgão Central, mas também um Órgão Popular. Esta é a forma mais adequada às nossas resoluções congressuais.

É necessário, portanto, que cada camarada leve esta discussão ao seu organismo. Leve a edição respectiva de cada mês ao organismo e identifique todas as insuficiências, também os acertos. Compare-o com o Boletim Interno e o estude também, discuta sua utilidade e sua forma. Que isto seja então levado ao partido em declarações e cartas dos CLs e organismos ao CC, publicação de artigos de opinião ou nesta própria tribuna de debates.

Por fim, deixamos a cada um que tem lido regularmente o jornal e o utilizado em sua atividade prática as seguintes perguntas: precisamos de um portal de notícias comunista ou precisamos de organizador coletivo? Precisamos de informação superficialmente tratada por comunistas (ou adicionando meros “pelo Poder Popular e pelo Socialismo”, agora na versão “pela Ditadura do Proletariado e o Socialismo-Comunismo!” ao final) ou precisamos de orientação para guiar nosso exército na luta de classes?

Precisamos de um jornal nacional sobre política ou precisamos de um jornal político para todo o Brasil?