O Ato “Levante das mulheres vivas” foi um sucesso? Uma resposta ao Camarada Jones Manoel

Essa consciência rebaixada é esperada, mas não podemos nos dar ao luxo de atribuir essas manifestações um caráter disruptivo que elas não possuem.

O Ato “Levante das mulheres vivas” foi um sucesso? Uma resposta ao Camarada Jones Manoel

NOTA EDITORIAL

Publicamos hoje uma importante tribuna que qualifica a caracterização dos movimentos feministas. Incentivamos a leitura crítica dos acontecimentos com objetivo de robustecer nossa compreensão sobre o movimento feminista a partir de uma perspectiva revolucionária. Ainda, entendemos que o caráter intempestivo da publicação é, em geral, danoso para afinar nossa compreensão sobre os movimentos espontâneos em curso e, em especial, prejudicial para nossa inserção nos movimentos feministas, mas publicamos, mesmo com atraso, por compreendemos que as críticas colocadas pela camarada Jaqueline não objetivam apenas uma caracterização da posição individual do camarada Jones, mas sim na compreensão mais avançada sobre o programa a ser defendido pelos comunistas no seio dos movimentos feministas.


Por Jaqueline Tavares

No dia 7 de dezembro, em resposta a uma série de episódios graves de violência contra mulher, ocorreram manifestações pelo Brasil sob o nome de “Levante das mulheres vivas”. O camarada Jones Manoel, alguns dias depois, fez um vídeo comentando o episódio e a questão da violência contra mulher de maneira geral. Apesar de já ter decorrido um tempo considerável, e de uma impossibilidade minha de ter enviado essa tribuna anteriormente, a discussão levantada no vídeo é importante e permanece de interesse do debate público. Partirei dela, então para não apenas debater esse ato de rua, mas começar a refletir sobre os desafios fundamentais da organização do movimento feminista atualmente e os caminhos que devemos tomar para reverter a maré de derrotas incessante que se coloca há décadas, rebatendo o argumento desse suposto sucesso, debatendo políticamente algumas divergências e buscando uma crítica construtiva.

Nesse meio tempo, o camarada lançou um outro vídeo, dessa vez  sobre o 8M, que traz algumas novas considerações, articulando outros elementos, mas aprofundando argumentos em relação aos pontos trazidos no primeiro vídeo. Não tive tempo hábil para reescrever toda a tribuna mediante esse novo vídeo, mas entendo que, no que toca os pontos que estou debatendo aqui, mantenho meus pontos de discordância. Entendo que essa é uma discussão bastante longa e complexa, mas trago apenas alguns comentários acerca desse segundo vídeo.

Em relação aos novos temas abordados no vídeo do 8M, considero que a reflexão sobre o controle da sexualidade feminina está correta, bem como a crítica à ideia de resumir a luta anti opressão a identitarismo. Tenho minhas discordâncias em relação à toda a sessão sobre sobre reprodução social, não no sentido de não haver uma divisão sexual do trabalho, mas a forma pela qual essa é refletida pela chamada Teoria da Reprodução Social. Esse é um tópico que tenho debatido já há algum tempo, que me parece claro e evidente seu caráter anti-marxista, mas essa não é uma compreensão difundida na militância, e que tenho tentado construir, no longo prazo, é uma crítica sistemática a essa teoria, que deve demorar ainda algum tempo para ganhar vida. Por fim, considera que falta na leitura do camarada uma crítica aos setores dos movimentos anti opressão que são de fato identitários; ainda que esse seja um tema por vezes guarda-chuva, a abordagem identitária das opressões existe e se presta como um desserviço à organização da luta, a partir de leituras meramente declamatórias, fragmentárias e, no limite, reacionárias. Como já posto, porém, esses são tópicos em si bastante longos, então vou me deter no cerne do primeiro, que me levou originalmente a escrever essa tribuna.

Antes de começarmos, é importante um “metacomentário” acerca da sensibilidade do tema e da questão do gênero como fator de relevância na condução desse debate. Estou ciente que esse tópico é um vespeiro, uma vez que se trata de um assunto ao mesmo tempo sensível e por vezes tratado de forma moralista. Porém, essa é uma discussão fundamental que não pode ser censurada, porque a consequência do nosso erro político, de leitura e de ação, é a continuidade da violência de gênero e nosso fracasso na derrubada do patriarcado e do capitalismo.

Aponto ainda que considero pouco relevante quem vos escreve, mas ainda assim, quem vos escreve é uma mulher. Que a oposição às minhas posições vinda de mulheres surja da contraposição dos argumentos, não da presunção de que há aqui um “olhar masculino”; tampouco espero que os camaradas homens que discordem da minha leitura se acanhem de criticá-la por qualquer tipo de paternalismo.

Vamos ao vídeo então. O camarada Jones inicia argumentando que os atos foram um sucesso porque, apesar de terem sido chamados de última hora, tiveram ampla adesão. Para tal, ele compara o levante com os atos contra a “PEC da bandidagem”. Os atos, porém, não são um fim em si mesmo e que para dizermos se eles tiveram sucesso ou não, precisamos olhá-los a partir de um contexto maior.

No caso das mobilizações quanto à PEC, um dos efeitos imediatos foi o recuo da pauta e o desgaste público, ainda que limitado, das figuras que haviam defendido o projeto de lei, também a serem observados de maneira mais ampla em torno da campanha de denúncia do “Congresso Inimigo do Povo”. No caso do ato das mulheres, evidentemente que não poderíamos esperar uma resposta imediata, uma vez que não se contrapunha uma medida pontual: a violência contra a mulher é um problema generalizado e que não pode meramente ser “proibido” por decreto.

Para procedermos de maneira justa devemos avaliar, portanto, seu impacto a partir de aspectos agitativos, propagandísticos, de disputa ideológica e potencial organizativo e o que surgiu a partir deste ato, sempre considerando os limites que uma manifestação isolada pode ter e buscando inseri-la em um contexto geral da mobilização feminista contemporânea. 

Prosseguindo na análise do vídeo, o camarada aponta que, como a defesa dos direitos das mulheres não é algo consensual, diante do crescimento de discursos reacionários, esse amplo número de pessoas nas ruas foi um sucesso. O camarada destaca o papel do movimento feminista na organização dos atos, sobretudo o chamado “Levante das Mulheres Vivas”, ressalta o papel das mulheres como uma barreira de contenção da extrema direita e as rusgas que tem emergido na sociedade diante de um ascenso de discursos em defesa das minorias nos últimos anos, o que geraria tensões em setores socialmente ressentidos e no questionamento dos privilégios relativos dos homens sobre as mulheres, além de uma tendência recente de mercantilização da misoginia através de figuras como coachs e red pills.

Analisarei cada um desses argumentos, buscando articulá-los a uma conjuntura política mais ampla e ao que se convencionou a chamar de Movimento Feminista em suas diferentes vertentes, pensando sua posição defensiva e seu histórico de derrotas recentes dentro dos marcos da crise neoliberal, a ascensão do anti-comunismo e a peculiar contradição da posição subalterna da mulher em um mundo aparentemente cada vez mais igualitário.

Comecemos então pela análise acerca do sucesso do ato. O que me parece evidente  é que a violência contra a mulher é uma pauta com amplo apelo, o que ajuda a explicar o grande número de pessoas nas ruas apesar do chamado em cima da hora. Ainda que entenda o ponto do camarada Jones acerca do crescimento da misoginia explícita e da apologia da violência contra a mulher em certos setores como uma espécie de barreira que engrandece ainda mais o dito sucesso deste ato, devemos observar esse fenômeno com sutileza.

Apesar do crescimento da extrema direita e de uma certa normalização de discursos misóginos, acredito que podemos afirmar que a maioria das pessoas, inclusive aquelas de direita, vão se dizer contra violência de gênero caso perguntadas. A violência contra a mulher não é um dado óbvio, e a expressão do machismo e da misoginia não se dá apenas através da defesa direta dessa violência. Mesmo o processo de desumanização de mulheres feito por coachs de masculinidades e influencers red pills passa primeiro por formas mais indiretas de violência, de desqualificação da mulher e de ressentimento masculino. A apologia a essa violência, na maioria das vezes, não é direta.

No senso comum - inclusive no senso comum conservador, reacionário e machista - bater em mulher é um dos maiores sinais de covardia que um homem pode dar. O que devemos nos perguntar é o que esse senso comum entende como violência contra a mulher, da onde ela vem, como pode ser combatida e em que contextos ela seria aceitável - ou, indo além, não seria nem ao mesmo reconhecida como tal.

Olhando para as mulheres em particular, apesar da presença do conservadorismo e do reacionarismo entre mulheres, a luta da violência contra a mulher é, salvo exceções, um consenso particularmente forte na parcela feminina da população - que é, apesar de minoria social, é a maioria da população. Diferentemente do aborto, por exemplo, onde o conservadorismo feminino (principalmente sob influência religiosa) é arma ideológica importante na luta anti-feminista, a violência contra a mulher é pauta, em geral, denunciada por mulheres de diferentes vertentes políticas.

Observando a movimentação da direita, e também particularmente de mulheres desse campo, apenas a título de exemplo, na página do PL Mulheres no Instagram vemos o tema ser abordado, ainda que de forma bastante despolitizada (“contra toda forma de violência”) em datas como o Dia de Conscientização da Violência contra a Mulher e no Mês de Conscientização, além de uma “denúncia” ao governo Lula por não votar contra a “repressão das mulheres ao Irã”. No site do PL Mulheres, vemos reportagens sobre parlamentares do Partido atuando por maior celeridade no cumprimento de medidas protetivas, visita à Instituições que prestam assistência à vítimas de violência doméstica e um artigo de opinião sobre a Campanha HeforShe, ressaltando o papel dos homens na luta pelo direito das mulheres e a importância de conscientizá-los.

No dia 7 de dezembro, Tarcísio de Freitas deu uma declaração sobre a crescente violência contra a mulher, inclusive utilizando o termo feminicídio e com consciência do caráter familiar desta violência. Tarcísio, é claro, é um oportunista que flutua entre um discurso de civilidade “moderada” e o Bolsonarismo, mas mesmo assim, uma figura inegavelmente de direita. Reconhecimento das informações gerais sobre esse quadro podem ser observados também em reportagem da Jovem Pan.

Na página do Senado, acompanhamos uma reportagem legislativa do ano passado em torno de medidas de combate à violência doméstica como parte da Campanha do Agosto Lilás. Figuras de esquerda e centro dividem falas com políticos do PL, denunciando a violência doméstica e propondo medidas para combatê-la. As medidas passam de conscientização sobre o problema até porte de armas para vítimas de violência.

Uma figura de destaque da direita na denúncia da violência contra a mulher é a Senadora Damares Alves. Em sua página, vemos notícias sobre a legislação de proteção à mulher; denúncia da violência contra a mulher em todos os espaços, com destaque a ataques por parte de motoristas de aplicativos e os chamados “Tribunais do Crime” de facções criminosas - uma abordagem que opta por focar na violência perpetrada por setores proletarizados ou genericamente vinculada a um imaginário sensacionalista de criminalidade. Ainda esse ano, após a onda de ataques no início de dezembro, Damares de uma declaração cobrando medidas do Governo Federal:

“A gente não aguenta mais os números de feminicídios no Brasil, a gente não aguenta mais a violência contra a mulher no Brasil e a gente vai ter que continuar fazendo uma reflexão. O Ministério da Justiça investiu, tão somente, 0,1% do orçamento planejado contra o feminicídio este ano. Quero aqui fazer um apelo ao governo Lula. Queremos investimento e políticas públicas de verdade para enfrentarmos a violência contra a mulher no Brasil — argumentou.”

Como podemos observar, esse quase consenso em torno do caráter negativo da violência não implica que haja uma consciência crítica em torno dela, ou mesmo uma perspectiva feminista - imagino que seja consenso o fato de que Damares Alves é um dos maiores nomes do reacionarismo do Brasil e da perpetuação de medidas machistas e misóginas, particularmente em torno da legalização do aborto e do acesso a direitos reprodutivos de maneira geral. Da mesma forma que isso é verdadeiro para figuras de proeminência da direita brasileira, o mesmo tem que ser pensado em relação à consciência média em torno da pauta.

Não basta apenas que a maioria da sociedade se diga contra violência de gênero, é preciso que exista uma compreensão ampla dessa violência - reconhecendo padrões mais sutis e socialmente aceitáveis dela, tal como a agressão sexual marital, a violência obstétrica ou o casamento infantil. É preciso que expressões de machismo e misoginia problemáticas, mas não explicitamente violentas - como a perpetuação de padrões de gênero, ou a ausência do controle reprodutivo da mulher sobre o próprio corpo - sejam também reconhecidas. É ainda mais importante, diante da indignação com essa violência, entender suas origens e tomar as medidas que sejam de fato eficazes para combatê-la, o que demanda um afastamento do sensacionalismo e uma aproximação da análise de fatores estruturais de sua origem.

A violência contra a mulher é mobilizada de forma reacionária tanto pela direita, quanto pelos setores ditos progressistas. Ela vai surgir como trunfo, por exemplo, em discussões pró punitivismo penal, utilizando a justificativa de preocupação com a segurança feminina. Isso não significa dizer que toda discussão sobre a punição de quem comete violência de gênero seja punitivista ou preconceituosa, mas nos termos que ela ocorre a partir desse sensacionalismo penal, temos a reprodução de estereótipos e um afastamento do caráter concreto de como a maioria dessa violência se concretiza.

O criminoso que figura no imaginário desse sensacionalismo é o assediador estilo “maníaco do parque”, um desconhecido que vaga as ruas, carregado dos estereótipos de criminalidade do senso comum - negro, pobre, violento, como já bem debatido por Angela Davies. Uma imagem descolada da realidade da violência sexual e de gênero, que vem na maioria das vezes de amigos, conhecidos, parentes, namorados, esposos. Uma imagem que vai fomentar nas mulheres o medo das ruas, que vai alimentar uma paranoia com a vida fora do lar, que vai desestimular a independência, mas que não vai jamais questionar a própria família como o núcleo principal da origem dessa violência. É, afinal, uma perspectiva que apesar de surgir de cuidado e preocupação - e que é repetida pelas próprias mulheres - não condiz com a realidade majoritária dessa violência, além de servir como mecanismo de controle social feminino.

É interessante notar, porém, que mesmo em algumas figuras da direita mencionadas, há alguma consciência de como a violência de gênero funciona: referências à questão da violência doméstica e à família, seu caráter crescente, o problema da dependência financeira e a necessidade de mais recursos e legislação para combatê-la. Claro que não aqui nenhum tipo de crítica estrutural a família ou aos padrões de gênero gestados a partir dela, mas uma compreensão de que esses agressores estariam distorcendo seu sentido original.

A  crítica à negligência de atuação estatal deságua muito mais no sentido de apontar “a falta de punição”. A esse enfoque moral e abstrato sobre a punição, pouco se diz do programa econômico e dos problemas da política de austeridades na hora de financiar a criação de empregos para mulheres, a melhora das condições de moradia, o desenvolvimento de políticas sociais e mesmo a verba necessária para a melhoria de quaisquer aparatos de segurança que se considere necessários para se combater essa violência. Com esse descolamento entre política em geral e a questão da violência de gênero, qualquer promessa de melhora é mera demagogia. Além disso, muitos desses posicionamentos têm um caráter oportunista, de aproveitar situações de insatisfação pública para se promover e para desgastar adversários políticos. Apesar de tudo, porém, é inegável que o quadro é um pouco mais complexo do que poderia parecer à primeira vista.

Esse parêntese nos ajuda a observar, com mais sutileza, que a denúncia da violência contra a mulher não é exclusivamente uma pauta de esquerda, progressista, ou mesmo feminista. Ainda que o crescimento de tendências ultra-reacionárias levem a um tensionamento e polarização desse debate, a situação não é tão simples. E que, evidentemente, se esse amplo apelo popular abre flanco para que façamos uma disputa ideológica e para puxarmos essa pauta para uma esfera feminista, progressita e mesmo comunista, não podemos cometer o erro, de princípio, de considerá-la como tal.

Ao errar nessa análise, podemos superestimar de princípio o peso e o sentido político de certas mobilizações, nos abstermos da disputa ideológica fundamental e cairmos na repetição de táticas e estratégias que não respondam a nossa questão fundamental - o fim da opressão de gênero e do capitalismo, abarcando também táticas de mitigação desses problemas hoje orientadas a partir de um horizonte estratégico. 

Se voltarmos, portanto, para a análise do sucesso do ato, o apelo popular da pauta não é, em si, evidência desse sucesso. A ampla presença indica tão somente uma indignação ainda vaga com essa violência, cujo sentido político ainda está muito em aberto. Em todas as pautas que observamos, em qualquer área da política, a presença de um “senso comum” a ser disputado e elevado, as diferentes correntes e suas perspectivas vão estar presentes. Isso não é exclusivo do debate feminista. A presença de pessoas de direita e despolitizadas não é justificativa para não construirmos mobilizações ou largarmos a pauta, muito pelo contrário. Mas devemos constatar corretamente qual o grau de consciência médio em torno de uma pauta se quisermos fazer intervenções bem sucedidas e calcadas na realidade, não em um senso comum ou na auto imagem de um movimento.

Na maioria da população, sobretudo da feminina, me parece que observamos um consenso contra a violência de gênero, mas uma compreensão rasa de porque ela acontece, soluções equivocadas e uma tendência à reiteração de consensos reacionários sobre criminalidade. Por vezes, há mesmo uma compreensão mais sofisticada da situação, mas a demanda por mais políticas públicas aparece descolada, por exemplo, do debate sobre austeridade fiscal, pleno emprego e financiamento da saúde e segurança públicas que garantam a implementação dessas políticas. Esse descolamento é resultado de uma divisão sexual da política, em que grupos oprimidos são relegados a uma posição secundária no debate, focando-se em sua condição de forma isolada e negligenciando a atuação e o estudo de temas transversais e estruturais, como economia política, teoria política, história geral ou estratégia e tática. Uma separação alimentada tanto pelas parcelas masculinas desses espaços, mas também pela leitura hegemônica do próprio movimento feminista sobre a atuação da mulher.

Em setores mais mobilizados do movimento feminista, essa tendência reacionária diminui (ainda que não desapareça), mas há pouco debate tático-estratégico para sua superação, muita reticência em disputar essa consciência média e análises moralistas, que limitam a denunciar o machismo a partir de uma perspectiva rasa de “homens que odeiam mulheres”. Essa leitura gera um eterno ciclo de surpresa diante de uma violência que enfrentamos desde o dia em que nascemos, e sobre a qual não conseguimos desenvolver uma reflexão mais profunda do que apelo moral contra o agressor, a repetição de táticas falhas e a recusa em sair de uma defensiva derrotista.

Essa reflexão sobre os fracassos da mobilização de luta pelos direitos da mulher não é de forma alguma “culpa as vítimas”, mas termos uma preocupação cuidadosa de reflexão, crítica e autocrítica que temos em outros setores da mobilização popular, porque é impossível que haja avanços sem que façamos essa reflexão, que passa não apenas por uma denúncia vaga desta ser uma pauta negligenciada, mas um balanço de que tipo de leitura de mundo, que tipo de atuação e qual perspectiva de classe tem guiado o que são os setores majoritários do Movimento Feminista.

 Ao mesmo tempo, no interior do próprio movimento, muitas vezes de forma velada, ocorrem disputas partidárias, ideológicas, de concepções de mundo completamente diferentes. Mesmo em espaços com uma análise mais aprofundada e perspectivas anti-capitalistas, o Movimento Feminista não é o espaço imaculado que por vezes se apresenta, sendo cortado tanto por contradições da conjuntura mais ampla quanto por problemas específicos do próprio movimento.

Os vemos nas interpretações teóricos-políticas equivocadas, como o deslocamento do debate de classe, a reiteração de uma visão essencial-identitária sobre gênero, a recusa a fazer um balanço pragmático das formas de atuação do movimento e a internalização de sensos comuns patriarcais-burgueses nos marcos da nossa atuação: a fragilização da figura feminina, o afastamento político-teórico de temas vistos como “masculinos” e por isso negativos - política partidária, debates teóricos densos, teoria militar, ciência, atuação sindical, em suma, qualquer lugar que não a guetificação de gênero dos coletivos ou “espaços seguros”, que em via de regra são muito mais difíceis de se atuar, mas são os espaços onde a grande política realmente é feita.

Em termos gerais, a dificuldade em conduzir balanços realistas, o paradgima neoliberal e a subestimação do debate da econômia política são problemas difundidos na esquerda brasileira hoje, mas o moralismo e a recusa a polêmica é um traço particularmente marcante no debate anti-opressões, sobretudo no debate feminista. A partir da reiteração de uma concepção burguesa de feminilidade, ocorre uma fragilização da mulher na política, que é considerada a partir de um olhar condescendente e paternalista, onde apontar críticas, divergências e insuficiências é visto como um ataque ao movimento, mesmo que esse esforço seja feito no sentido de analisar nossas derrotas e buscar novos caminhos para revertê-las. O rigor crítico metodológico aceito como parte do jogo em outras discussões é visto como ataque, perpetuação de um “olhar masculino”, ódio às mulheres, descaso com a violência sofrida por elas.

A acriticidade desse senso comum vê a “perspectiva feminina” sobre a violência  como a “posição da vítima”, uma posição pura, desprovida de disputas, de influências, de posição de classe e de ideologia, ironicamente, alheia à própria violência e aos padrões de gênero. O resultado é uma reiteração desses mesmos padrões no próprio debate da violência. 

Isso vai se expressar desde questões mais amplas, como a recusa dos setores majoritários do movimento feminista ao debate urgente da violência revolucionária - classificando-o como “masculinismo” - até exemplares mais pontuais, como a ausência de debate crítico acerca do sucesso de um ato a partir de uma posição condescendente, na qual a mobilização de mulheres vai ser considerado sem tanto rigor crítico e teórico quanto o destinado a outros setores. Simplesmente mulheres estarem na rua é visto como algo positivo, apesar da ausência de perspectiva estratégica, debate ideológico e do acúmulo de fracassos de mobilizações feministas de mera denúncia do fato óbvio que vivemos em um mundo que nos odeia.

A crítica a ausência de rigor no debate feminista não é destinada ao vídeo do camarada Jones Manoel em específico, mas eu diria que essa é a posição esmagadora dos homens de esquerda no debate público - o camarada pelo menos fez o esforço de debater e trouxe reflexões importantes. A maioria dos homens talvez nem ao menos o fizesse, considerando que o tópico não seria “problema seu” ou que não estarei em seu “lugar de fala”. Diria ainda que essa recusa ao debate franco e a naturalização desse paternalismo acrítico é algo aceito pela maioria esmagadora das mulheres articuladas em torno do que se chama hoje de Movimento Feminista, em uma posição reforçada pela perspectiva reacionária e estanque de identidade e confortável pela manutenção do quase monopólio do debate exercido por essa perspectiva liberal-burguesa do feminismo.

Há um duplo problema, portanto, de uma forte influência liberal, moralista e identitária na visão dominante no movimento feminista, calcada em conceitos essencialistas como “lugar de fala”, “vivências” e além, que vetam qualquer discussão e a consideram qualquer análise fria da violência como “revitimização” - além de dançarem perigosamente próximos a transfobia ao tomar o gênero como algo em si, a partir da perpetuação de uma série de estereótipos de gênero ligados à sensibilidade, à irracionalidade, à passividade e ao caráter reprodutivo e maternal da mulher, que serão ressignificados como “positivos” pelo discurso feminista, mas raramente questionados como construções sociais cujo principal papel é o controle da força de trabalho feminina.

Por outro lado, há a condescendência masculina e uma espécie de política de boa vizinhança, que acatando essa censura moral, se esquiva facilmente do risco de ser chamado de machista por expressar uma opinião divergente, se livra da obrigação de se debruçar sob o tema e ainda perpetua sua posição dominante no debate político ao tomar a posição das mulheres a partir de uma perspectiva infantilizada e resumida ao lugar da vítima a ser protegida e endossada, não como uma posição complexa de um ser político que deve ser tratado como um igual. Reitero, não me refiro aqui ao vídeo especificamente, mas ao contexto geral desse debate,a maioria dos homens de esquerda, ao menos da parcela que não meramente descarta qualquer debate anti-opressão como meramente “identitário”, ou que usa desses argumentos justamente para perpetuação de privilégios advindos da sua posição como homem.

Voltando ao ato, não me parece que esse Levante foi um movimento que alterou qualitativa ou quantitativamente a situação da mobilização pelos direitos das mulheres. Não espero - e não seria justo esperar - que uma mera manifestação o fizesse, mas a problematização desse sucesso é candente justamente porque é a repetição das táticas e da leitura ideológica dominante nesse ato, majoritária nas mobilizações das últimas décadas, é central para entendermos a coleção de fracassos que temos acumulado. Não é apenas que esse ato em si não teve nenhum saldo positivo, mas as visões dominantes na sua organização, seu conteúdo, sua forma e a concepção de Movimento Feminista presentes nele são basilares nos fracassos da mobilização pelo combate à opressão de gênero das últimas décadas. O ato é sintoma do problema, não sua origem.

Pensando na análise do episódio em si, quando comparamos com a análise do próprio Jones sobre outras mobilizações de rua em seus vídeos, o camarada tende a apontar o caráter construtivo desses outros atos em relação a um quadro mais amplo, o que não ocorre aqui. Depois de dizer que o ato foi um sucesso, o Camarada Jones vai tratar da suposta barreira das mulheres no crescimento do conservadorismo, do ressentimento masculino e do mercado red pill, mas não uma análise conjuntural do que porque esse movimento deve ser considerado bem sucedido, da relação entre o evento e a conjuntura ou mesmo o caráter desse suposto progressismo feminino - mesmo porque se considerarmos que as mulheres em abstrato são uma barreira para o crescimento do conservadorismo e o que o ato foi composto majoritariamente por mulheres, o suposto sucesso pelo grande número de pessoas não se justifica.

Afinal, se mulheres em abstrato são uma barreira ao crescimento do conservadorismo, mulheres em abstrato obviamente estariam nas ruas para denunciar a violência contra elas próprias, e no final das contas pouco importam os que dizem os red pills. Em um contexto que a condição feminina em abstrato é uma barreira ao crescimento do reacionarismo, a disputa de sua consciência é irrelevante, sua posição pode ser majoritariamente deduzida a priori e qualquer mobilização feminista está em si correta, precisando apenas ser valorizada e amplificada. A conclusão dessa leitura é o abandono da disputa ideológica do Movimento Feminista, ou ao menos o conforto a uma disputa rasa, na qual afirmamos um Feminismo Popular, Classista ou para os 99% é suficiente para tomá-lo como revolucionário, só abstendo do rigor teórico, ideológico e político que destinaremos a discussões mais sérias.

Quando pensamos mesmo na ideia de que as mulheres seriam uma barreira para o crescimento da extrema-direita, isso precisa ser matizado. Primeiramente, o fato das mulheres votarem menos em candidatos reacionários não significa que não haja apelo dessas ideologias para esse grupo - podemos apontar reacionarismo inclusive dentro do campo da esquerda revolucionária em termos do debate de gênero. Isso pode ser observada na postura reacionária mesmo das candidaturas progressistas analisadas, como a posição do governo Lula sobre o aborto, para citar apenas um exemplo.

Em segundo lugar, as mulheres votam menos, mas elas ainda votam na extrema-direita. Retomando alguns dados eleitorais, a pesquisa de Intenção de Voto para Presidente no 2º Turno do Instituto Datafolha de 2022, Lula liderava entre as mulheres, tendo 51%; Bolsonaro tinha 42%. Uma vantagem para Lula, mas uma pequena, 9%. O gênero tampouco é o maior fator de diferenciação no percentual de intenção de votos: raça (25% de vantagem para Lula entre pretos e 10% para pardos); região do país (41% de vantagem para Lula no Nordeste); renda (22% de votos a mais em Lula para 2 salários mínimos): escolaridade (20% de vantagem de eleitores com Ensino Fundamental) e religião (20% de vantagem de Lula entre católicos e 34% de vantagem de Bolsonaro entre evangélicos) são fatores de maior peso na diferenciação dos votos do que o gênero. Isso somado a nuance de considerarmos quanto de esquerda o governo Lula é, ainda mais na questão de gênero de maneira específica.

Saindo do Brasil, nas últimas eleições dos Estados Unidos, a diferença de votos de mulheres entre Trump e Kamala foi de 8 pontos percentuais (45% a 53%). Como nos dados da eleição brasileira, outros fatores foram bastante mais relevantes na diferenciação dos votos, com destaque para o fator racial, que se combina aqui com o gênero para gerar um quadro complexo: negros em geral votaram nos democratas, brancos em geral nos Republicanos, mulheres latinas em Kamala e homens latinos em Trump. Foram os votos das mulheres não-brancas que constituíram uma barreira a Trump, não das mulheres em abstrato.

A ideia de que o gênero é o fator fundamental de barreira política do crescimento da extrema-direita virou um senso comum repetido pelo campo progressista como um elogio às mulheres que simplesmente não condiz com a realidade. E errando na análise, erramos na atuação, ao presumir um caráter eminentemente de esquerda ou mesmo revolucionário às mulheres, subestimando outras variáveis e sendo incapaz de disputar o caráter burguês e reacionário da consciência das mulheres trabalhadoras, ao simplesmente negar a existência desse caráter. Nessa consciência idealista, todo eleitor da direita é um homem branco de classe média bolsonarista, e toda mulher é uma revolucionária em potencial que só ainda não se rebelou porque nós comunistas somos misóginos e ignorando o Movimento Feminista e as mulhere de maneira - e ignorando o caráter reacionário que setores também desempenham.

Cabe ainda apontar que o fenômeno dos Red Pills tem sido tomado de maneira um tanto quanto superestimada, e que a relação do crescimento do machismo com o reacionarismo e a conjuntura tem sido analisada de maneira invertida. O Camarada Jones faz uma análise acerca do caráter mercadológico do crescimento desses coachs e argumenta que eles seriam resposta a maior difusão dos debates anti-opressão nos últimos anos. A primeira afirmação está correta; a segunda demanda uma digressão.

Primeiramente, considero que não podemos cair no erro de superestimar a ascensão dos debates anti-opressão que ocorreram em meados da década passada. Na falta de um nome melhor, as mobilizações em torno a partir dos atos Fora Temer - o bem chamado Temer Core - e a sua continuidade nas manifestações Ele Não tiveram um papel, mas não o geralmente atribuído, de um grande rompante ou ruptura estrutural nas mentalidades, de forma profunda, ainda que nichada.

Esses foram de fato momentos de explosão no debate público de algumas pautas anti-opressão, um espaço para mobilização política generalizada na juventude e um local de experimentação política. O caráter dessas mobilizações, porém, ainda que estivesse em disputa, e que tenham sido gestadas ali algumas novas militâncias, foi uma linha dominada pelo progressismo liberal genérico e, em muitos sentidos, mercadológico. O uso do cabelo crespo, as hashtags corpos reais, as camisetas da Frida Kahlo, as páginas de redes sociais com frases de efeito, tudo isso teve um sentido real e foi uma porta de entrada para a radicalização de muita gente.

Mas não foi apenas isso. A principal implicação do caráter mercadológico é que o debate anti-opressão se tornou uma trend. Não apenas sem profundidade e sem possibilidade de radicalização, calcado de sensos comuns e sem perspectiva estratégica, mas eminentemente passageiro, consumido, de forma que parte da massa crítica que estava dizendo Eu não me Kahlo em 2016 hoje defende o direito das mulheres de serem TradWifes, a partir de um debate raso sobre escolha feminina que não consegue pensar o feminismo para além de uma liberdade individual abstrata.

Esse movimento de virada que o Camarada Jones apresenta nos últimos anos, portanto, teve um caráter muito mais raso do que pode parecer em um primeiro momento. Não se trata aqui, então, de um efeito rebot, de uma polarização reacionária de reação diante do avanço e da conquista de direitos - concretamente, nada foi conquistado nesse período. Não conseguimos constatar grandes melhoras em termos de direitos adquiridos. Trata-se simplesmente da permanência do senso comum depois que a onda passageira e mercadológica de progressismo foi embora. E o senso comum é machista.

Nós podemos observar alguns avanços, mas esses avanços não podem ser compreendidos a partir de um olhar raso sobre os últimos anos como um momento de conquista que gerou uma espécie de efeito rebote. Me parece que temos, na mobilização das pautas anti-opressão, uma certa espiral contraditória. Em primeiro lugar, o avanço do capitalismo pelo mundo, o desenvolvimento industrial das nações, a modernização das relações de trabalho, tendem a esgarçar algumas das contradições concretas postas a esses grupos, sobretudo no caso das mulheres.

Diferentemente do que argumenta a teoria reacionária de Silvia Federici, o trabalho assalariado e o desenvolvimento do capitalismo foram passos importantes para uma melhora relativa da posição das mulheres na sociedade, principalmente a partir da sua emancipação da família patriarcal como espaço fundamental de socialização e o gradativo acesso ao trabalho assalariado e à construção de uma independência financeira, que fortaleceram sua posição econômica, mesmo que a mulher permanecesse como trabalhadora explorada. Essa nova posição impulsionou o sufrágio - que, ainda que limitado, foi um passo de grande relevância para a participação feminina na política - e a inserção no mundo do trabalho assalariado, da vida em sociedade e à conquista gradativa de alguns pouco direitos que as colocou em contato mais próximo com as contradições centrais da sociedade capitalista, catapultando sua politização e seu potencial revolucionário. Clara Zetkin debateu brilhantemente esse tópico ainda no final do século, mas é sumariamente ignorada por esse feminismo anti-comunista supostamente marxista.

Em segundo lugar, porém, esses avanços não implicaram no fim de superestruturas patriarcais, fossem elas existentes desde antes do capitalismo e transformadas por ele, fossem elas novidades trazidas pelo mundo contemporâneo. A família, as religiões, os padrões de gênero, o veto de certos espaços, a perpetuação de estereótipos postos de fora para dentro (como normas sociais) e de dentro para fora (como a formação subjetiva da feminilidade como mecanismo de submissão), continuaram a existir, e a exercer poder coercitivo e persuasivo na manutenção de uma sociedade estratificada a partir de padrões de gênero, classe, raça.

A permanência desses padrões entram em contínua contradição, porém, não apenas com setores mais avançados do movimento social, que tecem críticas às origens e sobretudo aos sintomas dessa superestrutura, ora mais superficiais, ora mais radicais. Mais do que a contradição com esses setores, porém, essas tendências se esgarçam em contato com o desenvolvimento das próprias forças produtivas, que ainda que não sejam plenamente incompatíveis com o reacionarismo, o colocam em xeque a partir da própria realidade social e econômica.

O papel da mulher no mercado de trabalho é um exemplo latente dessa contradição. O discurso em torno da sacralidade da família, os contínuos esforços ideológicos de domesticação da mulher, o modelo ideal-burguês de feminilidade, contrastam com a realidade da inserção da mulher no mercado de trabalho, com a realidade monoparental da maioria das famílias e com o lugar da mulher no desenvolvimento capitalista contemporâneo - o de trabalhadora assalariada. Ainda que tenhamos uma disparidade clara de gênero em termos do lugar da mulher no lar e a sobrecarga gerada a partir dele, na estrutura capitalista o papel fundamental da mulher é o mesmo do homem: geração da mais-valor no trabalho produtivo através da extração de mais-valia.

A esse mar de contradições, somam-se as questões conjunturais, a maneira pela qual o contexto político influenciam desde o potencial de mobilização do Movimento Feminista até o lado para onde a balança burguesa vai pender, entre o pseudo-feminismo de mercado e o mais puro suco de reacionarismo religioso. Vemos então que há uma tendência, com o desenvolvimento do capitalismo, de uma contradição entre a estrutura ideológica de dominação patriarcal e as condições concretas do lugar da mulher na estrutura produtiva capitalista.

Enquanto os mecanismos políticos ideológicos de dominação patriarcal reforçam seu caráter de subordinação e afastamento de mecanismos políticos e sociais, seu papel como trabalhadora assalariada proletária e sua condição econômica esgarçam as diferenças formais de seu lugar social, resultando em uma disputa entre não apenas os interesses proletários e aqueles da classe dominante, mas as próprias estratégias burguesas de submissão e dominação da mulher trabalhadora.

Em outras palavras, enquanto as mulheres compõem mais e mais a força de trabalho assalariada, ganham direitos de igualdade formal e jurídica perante à lei e são colocadas em disputa no cenário público discussões sobre a proteção da mulher, permanecem discursos reacionários, divisão sexual das funções desempenhadas mesmo nesse trabalho assalariado, e a segregação informal das mulheres mesmo dos espaços nos quais, formalmente, seus direitos são mais igualitários do que jamais foram. Em termos de histórico legal, nunca houve tanta igualdade de gênero. Em termos de participação na força de trabalho assalariada, nunca tivemos tantas mulheres trabalhadoras. Ainda assim, no parlamento e em qualquer sindicato, elas são minoria, e mesmo quando estão lá presentes, seu papel é muito mais de enfoque nesse mesmo debate de gênero do que de sujeito político universal.

Com uma visão mais ampliada desse fenômeno, cabe considerarmos os Redpill e seus semelhantes não como a causa do crescimento da violência contra a mulher, nem tampouco como resultado reacionário a uma profunda melhoria das condições concretas de grupos oprimidos. Eles antes são uma mistura de uma tendência de mercantilização de discurso de ódio na internet, um setor específico de uma tendência generalizada de discursos de extrema-direita fortalecidos pela crise do capital e uma expressão específica e contemporânea de um discurso misógino que é a regra da história da sociedade, não a exceção.

Isso não significa dizer que o fenômeno redpill não seja um problema e que não é preciso combatê-lo, mas que não devemos superestimar seu impacto e por tabela, vê-lo como uma exceção. Estou mencionando aqui o vídeo do Camarada Jones, mas apontar os influencers Red Pill e os discursos de ódio da internet contra mulheres como o grande responsável pelos problemas de violência de gênero é um discurso de fácil mobilização, mas que não encontra lastro na realidade. Não apenas porque sobre calcula o efeito da propaganda ideológica direta no crescimento de certa ideologia, como descola o desenvolvimento dessa ideologia de seu contexto político, econômico e social, mas sobretudo porque subestima quão violenta já era a sociedade patriarcal antes desse fenômeno, que encontra lastro fácil em um séculos de senso comum misógino.

O mesmo deve ser dito em relação à violência contra a mulher. Os dados em relação a esse problema no Brasil são sistematizados desde a aprovação da Lei Maria da Penha e indicam um crescimento nos últimos 10 anos, mas me parece ingênuo projetar para o passado anterior a essa coleta de dados que a situação fosse muito melhor. Basta lembrar que o crime contra a honra, a tipificação do adultério feminino como crime foi revogada apenas em 2005 - antes disso, o Estado basicamente dava aval para o homem assassinar a esposa que o tivesse traído. Tudo isso sem entrar na reflexão jurídica complexa de que, em que medida, a violência contra a mulher de fato aumentou, ou se esse é um dado derivado também do maior registro e tipificação, bem como um sensacionalismo de divulgação dessas notícias no último período. E nada disso significa dizer que a situação da violência contra a mulher não seja absurda e não precise ser combatida, mas refletir em que medida, de fato, ela é uma novidade.

Retomo ainda o risco de superestimamos o impacto social dos movimentos pró grupos oprimidos das últimas décadas, e de descolar a relação entre o progressismo e o reacionarismo do contexto econômico e político que o enseja. O fortalecimento da extrema direita a nível global não é resposta a ondas pontuais de levante progressista, mas uma resposta do capitalismo à crise que se aproxima.

Isso não significa dizer que há, nesses intelectuais da misoginia, uma intencionalidade de responder a essa crise, mas se separarmos esse debate político ideológico social de suas origens na economia política e na luta de classes, corremos o risco de retornar a um debate moral ou ahistórico dessas opressões. No caso das mulheres, especificamente, essa não é uma condição opressiva que nasce com o capitalismo - diferentemente, por exemplo, da questão racial, gestada a partir do processo de colonização que é fundante na história de formação do capital - mas a partir do surgimento do capitalismo, seu funcionamento é alterado. Tradições patriarcais pré-capitalistas permanecem, resignificadas e embrenhadas a esse novo contexto.

Observando, por fim, o caráter desses atos, e o caráter dominante da ideologia do chamado Movimento Feminsita hoje, o que observamos: um movimento de linha majoritariamente burguesa e liberal, quando não reacionária, profundamente anti-comunista; conduzido no Brasil, muitas vezes sem perceber, pela hegemonia conciliatória do campo democrático popular; frequentemente transfóbico, com uma concepção estereotipada de gênero, excessivamente focada em aspectos biológicos e flertando perigosamente com a perspectiva de essência feminina; universalizante da condição da mulher branca de classe média e subestimando pautas de caráter proletário, superestimando discussões representativas e secundarizando pautas econômicas, políticas e dos grupos mais marginalizados da população feminina; que debate o machismo a partir de uma perspectiva moralista, ahistórica e que desarma teórica e politicamente as mulheres para enfrentar sua condição de opressão.

Essa caracterização parece muito dura porque não há polêmica organizada hoje no Movimento Feminista, e porque o senso comum desse debate coloca nós mulheres, como na condição de irmãs oprimidas a se unir contra um opressor homem abstrato, não como sujeitos dinâmicos da luta de classes que apresenta opiniões diferentes e têm interesses a partir de diferentes perspectivas de classe.

O Movimento Feminista hoje, como outras pautas anti-opressão, hegemonizados por um debate liberal, burguês e pós-moderno, se coloca acima da luta de classes, universalizando, na maioria dos casos, um programa burguês ou pequeno-burguês para os grupos oprimidos, e tratando o aspecto de classe como apenas mais um aspecto a ser somado, de forma mecânica, ou compreendido de maneira abstrata como dos 99%, sem um debate de programa, de relação com a forma partido, de conexão com o Imperialismo, de reflexão das táticas e estratégias de balanço. Muitos dos problemas apontados aqui, é claro, não são exclusivos desse movimento, mas essa é uma pauta em que realizar essa discussão é muito difícil, porque qualquer pergunta é vista como ataque, em que qualquer divergência é misoginia.

Esse não é um balanço, tampouco, que considera que esses atos de indignação são negativos, ou que vê que o Levante das Mulheres Vivas, ao qual tenho tentando conhecer e me debruçar sobre, não são locais importantes para estabelecemos diálogos, trocas e debates, mas que consiga observar como tudo isso está muito longe de ser o suficiente. O grau de politização à esquerda do debate da violência contra a mulher hoje é baixíssimo, e quando presente, em geral se resume a uma discussão despolitizada sobre misoginia e machismo abstratos, e que arranha a demanda por políticas públicas, mas o faz de maneira descolada da economia política e do debate sobre luta de classes. Essa consciência rebaixada é esperada, mas não podemos nos dar ao luxo de atribuir essas manifestações um caráter disruptivo que elas não possuem.

Quando em grandes debates e pautas políticas, conseguimos observar o que há de positivo, mas também afirmar a necessidade de avançarmos, de desenvolver balanços, traçar táticas, estratégias, refletirmos criticamente como faríamos com outras pautas. Só assim poderemos vencer.

Escrito entre Dezembro de 2025 e Março de 2026