A ASSISTÊNCIA E OS NÚCLEOS

Como organizar as massas de recrutamentos que chegam até nós em categorias e localidades novas para o partido? São necessários apontamentos sobre o papel da assistência na construção dos núcleos e seu desenvolvimento para que se tornem organismos do partido.

A ASSISTÊNCIA E OS NÚCLEOS

NOTA EDITORIAL

O Conselho Editorial do PCBR publica com satisfação a tribuna "A Assistência e os Núcleos", do camarada Diego Vieira. Este texto chega em um momento crucial de nossa expansão nacional, servindo como um importante material de apoio para todos os camaradas que estão na linha de frente da organização de novos trabalhos partidários.

Como orientam nossas resoluções, o crescimento do Partido não pode se dar de forma desordenada ou puramente quantitativa. A criação de Núcleos é a ferramenta estratégica para acolher, avaliar e formar os novos interessados, garantindo que o ingresso nas fileiras da vanguarda seja precedido pela prova do trabalho prático, da disciplina e da coesão ideológica.
_

por Diego Vieira

Temos tido, em nosso processo de desenvolvimento partidário, um grande fluxo de recrutamentos em categorias ou localidades completamente novas para nosso partido, sem quaisquer militantes experientes, o que nos leva a criar e desenvolver inúmeros novos núcleos. Não há localidade no país em que não estejamos nos deparando com a criação de novos trabalhos do zero. 

Dirigir esse trabalho novo tem sido papel, principalmente, dos Comitês Locais (CLs) e, em menos casos, das UCLs e do próprio CC. Os CLs, no entanto, pelo próprio caráter da reorganização, geralmente são formados por militantes ainda pouco experimentados que estão tendo pela primeira vez tarefas de assistência.

É preciso portanto destrinchar mais rotineiramente em nossa imprensa o que significa este trabalho novo e como desenvolver nossas resoluções e diretrizes na prática [1]. Aqui nos ocuparemos de duas questões: o que são os núcleos e qual é a assistência que lhes cabe, de acordo com nossa situação real [2]. 

Os organismos do partido 

Comecemos aprofundando nossa leitura acerca do que são os organismos que assistimos:

§20 Os organismos do Partido têm como elemento essencial de coesão o trabalho que se propõem a executar, seja de âmbito interno ou externo, decorrendo disso o constante processo de aprimoramento da especialização do trabalho e de sua divisão revolucionária. O formato organizativo a ser adotado deve se orientar pela máxima flexibilidade, garantido o estabelecimento de uma comunicação efetiva entre organismos diretamente vinculados, assim como a um planejamento de trabalho comum. Esse entendimento busca garantir que consigamos aproveitar ao máximo a energia de cada militante, não desperdiçando tempo e ímpeto em aspectos secundários. Levando em consideração o trabalho a ser realizado, deve-se evitar a presença em mais de um organismo. Militantes que estão em organismos de direção devem, assim que possível, garantir sua dedicação exclusiva a essa tarefa.

§21 Em cada localidade onde o Partido desenvolva seus trabalhos, o centro de gravidade do trabalho prático de nossa organização serão os Comitês Locais (CL). Essas localidades podem abranger um ou mais municípios, contanto que exista entre eles uma conexão orgânica em termos econômicos, sociais e/ou políticos. O Comitê Local especializará a divisão do seu trabalho por meio da constituição de uma rede de células, às quais o Comitê Local prestará assistência direta. [...]

§23 As células do Partido serão organizadas prioritariamente por local de trabalho, ou seja, por fábrica ou empresa, mas podem se conformar também tendo em vista as necessidades de desenvolvimento da inserção nas lutas nos territórios ou desenvolvendo tarefas específicas. A expansão articulada do trabalho partidário se dá no desdobramento prático dos planejamentos dos comitês locais com a construção planejada de células nos locais de trabalho, moradia e estudo e para tarefas específicas, principalmente tendo em vista a entrada em espaços de atuação e a criação de aparelhos partidários definidos como prioritários.

§24 Onde já houver um Comitê Local, todas as novas células que precisem ser organizadas exclusivamente a partir de novos militantes passarão pelo processo de constituição de um núcleo. O núcleo não é ainda uma célula do Partido, mas um grupo de pessoas interessadas em ingressar no Partido, acompanhado integralmente por um membro do Comitê (assistente). Os núcleos serão a forma pela qual o Comitê, através do assistente, organizará os novos interessados e distribuirá tarefas para a inserção em um determinado espaço de luta, dando particular atenção à distribuição do jornal. O assistente deverá subsidiar o debate no Comitê para a decisão de quais membros do núcleo efetivamente recrutar para a organização de uma célula ou novo Comitê Local. Onde não for possível a formação imediata de um núcleo, ainda assim é preciso que haja um trabalho de assistência aos agentes que individualmente procuram o Partido em cada localidade onde ainda não iniciamos um trabalho organizado.” (Resoluções de Organização do PCBR, grifos nossos)

Não obstante, temos também nossas diretrizes para a construção dos organismos. Sobre os núcleos:

Nossas Resoluções congressuais previram uma ferramenta importante para que os Comitês do Partido iniciem novas organizações partidárias a partir dos recrutamentos: os Núcleos. Nos locais e categorias onde tivermos mais de um recrutamento ativo, os CLs e o CC podem optar por organizá-los em conjunto, em um Núcleo, que permitirá que os próprios recrutamentos discutam sobre sua realidade e organizem sua atividade prática, permitindo um acompanhamento mais eficiente dos dirigentes. Os Núcleos devem ser assistidos com atenção pelo CL, delegando responsabilidades e mantendo contato individual com os recrutamentos para garantir que estejam atuando e tenham responsabilidades e clareza das tarefas que devem planejar e cumprir. Devemos nos atentar para não ignorar o caráter individual do processo de recrutamento após organizá-los nos Núcleos. A partir dos Núcleos, os Comitês do Partido também devem dar especial atenção à distribuição do jornal O Futuro, especialmente em novos centros urbanos. Também é importante, com frequência, convidar todos os membros dos Núcleos para atividades públicas do Partido na localidade ou região, permitindo que estes se integrem em atos, palestras, seminários e outras atividades, reforçando sua ligação com o Partido. Os Núcleos devem ser embriões de novas células. Ao mesmo tempo, é certo que alguns membros terão tempos diferentes em seu processo de recrutamento, já que alguns entrarão mais tarde e outros demonstrarão menos iniciativa e responsabilidade no primeiro momento. É importante que os Núcleos não sejam entraves para que os membros mais destacados e capazes ingressem no Partido assim que possível. Pelo contrário, é uma boa tática para reduzir a sobrecarga do assistente e formar o militante que acaba de entrar passar a ele certas responsabilidades de direção e organização do Núcleo, que já é a base de influência na qual ele atua. (Política de Recrutamentos do PCBR, grifos nossos)

Sobre as células:

As células são a organização de base do Partido, ou seja, pequenos grupos de militantes reunidos e organizados para tarefas específicas. O XVII Congresso (Extraordinário) do Partido estabeleceu com clareza que o modelo de células que adotaremos é regido pela especialização do trabalho político a ser realizado. Tendo em vista a centralidade do trabalho no meio do proletariado onde os conflitos com os patrões são mais acentuados, a forma prioritária de célula a ser estabelecida é a organizada por local de trabalho. Em cada fábrica ou empresa, nossas células devem ser fortalezas do Partido, atuando no sentido de desenvolver a unidade e organização dos trabalhadores no local para a luta econômica e política. Onde tivermos camaradas que podem se dedicar ao trabalho político em seu local de trabalho e com sua categoria, devemos priorizar organizá-los em células por local de trabalho. Transitoriamente, em algumas categorias, pode ser interessante organizar antes células “setoriais” ou de “categoria”, como célula da saúde, dos bancários, etc., o que pode permitir desenvolver mais rapidamente um trabalho coordenado entre os militantes da área. Porém, com a entrada de mais militantes de determinados locais de trabalho, essas células devem ser divididas, evitando que um local de trabalho, com mais militantes, receba toda a atenção das discussões, enquanto os outros sejam ignorados. Porém, além destas modalidades, outras formas de célula devem ser desenvolvidas com os militantes que não podem atuar politicamente em um local de trabalho. A regra geral é a especialização de cada célula e militante de acordo com seu trabalho político. Devem ser abolidas todas as células “genéricas”, ou seja, células que congreguem trabalhos políticos diversos e separados que apenas ocorrem no mesmo território. Estas outras células podem ser dedicadas a trabalhos políticos específicos, por exemplo, inserção/solidariedade em determinado território, movimento estudantil universitário em determinado campus, trabalho secundarista em determinada escola, etc., ou podem ser dedicadas ao estabelecimento de trabalhos necessários para o funcionamento dos Comitês: finanças, logística, audiovisual, etc. É dever de cada Comitê Local desenvolver as células de acordo com as necessidades partidárias e experimentar diferentes formas de organização que funcionem de acordo com as necessidades partidárias. (Diretrizes para construção de UCLs)

Portanto aí temos uma categorização aprofundada do que são nossos organismos. Em primeiro lugar, reunimos os recrutamentos espontâneos que chegam até nós e, onde não houver já uma organização do partido que os absorva, nós os organizamos em núcleos, que virão a se tornar células (no caso de onde já temos CLs estabelecidos) ou CLs/UCLs (no caso das localidades que estamos iniciando trabalhos apenas com recrutamentos). Em ambos os casos, os núcleos são organismos de teste ou avaliação para tornarem-se organismos do partido ou não (assim como seus integrantes ainda estarão em fase de recrutamento, avaliados individualmente até estarem aptos a se tornarem membros ou não do partido). 

Tendo em mente este caráter provisório, avaliativo, dos núcleos — a lembrar: avaliação a partir do trabalho prático —, o que queremos com eles? Queremos ter certeza que o organismo tem capacidade de existir e caminhar por seus próprios pés, ou seja, que os seus integrantes tenham a disciplina necessária para estar em nosso partido, que cumpram com suas tarefas estatutárias e mostrem que são dirigidos por nossa doutrina marxista-leninista com um grau elevado de autonomia. Um organismo do partido deve ser um organismo vivo, dirigido ideologicamente por nosso Órgão Central (OC) e controlado hierarquicamente por nossa estrutura partidária, que corrigirá os desvios e manterá essa coisa viva no caminho reto e de acordo com os planejamentos superiores. 

Ora, não é possível considerar um organismo do partido aquele que não se reúne regularmente, não colabora com a estrutura financeira do partido (seja por repasses via caixa próprio, seja cotização individual de seus membros) e não executa trabalhos práticos, prioritariamente tendo o jornal como ferramenta principal (ou servindo a trabalhos variados de toda ordem de necessidades que o CC ou CL venham a ter). Sem uma constância de reuniões, não é possível que os camaradas consigam avaliar sua localidade ou categoria e planejar uma atuação de acordo com nosso programa, ou mesmo que possam ter em constante debate o trabalho partidário em geral e nossa linha; sem uma colaboração com a estrutura financeira, o partido todo vai abaixo e o próprio organismo não tem bases para executar sua atividade — sem isso, não consegue custear jornais, panfletos, equipamentos, viagens…; e, por último, sem um trabalho prático em sua categoria, localidade ou tarefa designada, o organismo seria apenas um círculo de estudo, fechado em si mesmo, sem capacidade de intervir ativamente na luta de classes.

Portanto o objetivo dos núcleos, resumidamente, é reunir este grupo disperso de pessoas que nos procuram e, com elas, criar um organismo vivo e com pleno espírito de partido. Uma mistura de curso prático de formação e avaliação para desembocar num organismo partidário.

A assistência

Tratemos então daqueles que irão direcionar o núcleo, com o jornal e a literatura partidária, rumo a se tornarem organismos vivos:

“O Comitê [Local, mas também o Central] deve distribuir entre seus membros a responsabilidade por manter a assistência, i.e. a comunicação e a direção política de cada organismo e militante atuando na localidade. Essa divisão de responsabilidade deve ser feita levando em consideração a especialização do trabalho dos membros, a capacidade de cada um e a maior eficiência em atender as necessidades de cada organismo, não devendo seguir fórmulas desnecessariamente rígidas. Às vezes, um organismo demandará atenção especial de um ou até dois membros, enquanto outros demandam menos atenção e um mesmo membro O assistente deve, sempre que possível, ser militante que ou conhece de fato a realidade da localidade assistida ou que se comprometa a conhecê-la para a melhor condução da direção política da instância. A tarefa da assistência deve funcionar com a proximidade com o organismo assistido, mantendo um ritmo e qualidade adequados de repasses e orientações que garantam que os organismos de base estão conduzindo seus trabalhos dentro das orientações das demais instâncias. Nesse sentido, o ideal é trabalhar com repasses periódicos, em formatos de relatórios ordinários entregues mensalmente e extraordinários caso haja necessidade, e presenças nas reuniões dos organismos como formas fundamentais de organização da assistência. A assistência é a comunicação política do organismo, devendo estar sempre atenta às recentes orientações e pautas do Comitê Local e do Comitê Central.” (Diretrizes para a construção de UCLs)

Aí temos o cerne do trabalho de assistência, complementar ao de direção ideológica (este exercido, em termos gerais, em primeiro plano pelo OC, em segundo pela assistência), e principalmente exercendo o controle partidário.

No início dos trabalhos — em núcleos especialmente —, o assistente invariavelmente terá em si a responsabilidade de organizar aquele organismo rumo à sua autonomia relativa. O primeiro passo e mais fundamental é garantir que a literatura partidária esteja chegando regularmente ao organismo: principalmente o nosso OC, que dirige nosso partido periodicamente com todas as orientações para nosso exército na luta de classes, e também quaisquer outros materiais à medida das necessidades do núcleo: manuais, cartilhas, brochuras, tribunas, notas políticas, boletins etc. Não só que esse material chegue ao núcleo, mas que seja regularmente lido, debatido e posto em movimento pelos seus membros.

Isso significa que a atividade mais basilar dos núcleos (e organismos em geral de nosso partido) é a leitura coletiva dos materiais produzidos pela nossa imprensa partidária e discussão a partir deles: é o feijão com arroz das nossas reuniões. Não uma leitura pela leitura, pelo "prazer" de discutir, pois não somos um grupo de estudos. Mas os lemos porque nossa imprensa partidária fornece os subsídios para as deliberações que tiramos e as ações que fazemos; são meios elementares para qualificar e coesionar nossa atividade, não fins em si mesmos. Coesionar ideologicamente a militância para, assim, coesionar suas ações: para garantir uma unidade de ação. O assistente (em conjunto com o secretário, quando houver) deve estar regularmente selecionando e indicando aquilo que é mais relevante para o momento atual do núcleo e/ou que seja orientação dos organismos superiores para estar na pauta de cada reunião.

Além disso, o assistente estará agindo provisoriamente como um secretário: ter contato no privado dos camaradas para convocar reuniões, entender ausências, dinâmica de vida pessoal, se estão cotizando, se estão cumprindo com as tarefas do partido, garantir que se tenham atas das reuniões etc. 

Porém ressaltamos novamente o caráter provisório da coisa: somente no início ele deve ser a cola aglutinadora do organismo — o mais rápido possível essa função deve ser delegada aos próprios camaradas até ser exercida por um secretário devidamente eleito ou instituído; e a necessidade de direção ideológica geral substituída pelo contato regular com o OC. Assim, um trabalho fundamental que a assistência deve fazer desde o início é testar os recrutamentos dando-lhes responsabilidades de todo tipo. A chamada delegação de tarefas é o método mais importante para construirmos militantes (e quadros) com espírito de iniciativa. Colocar, em determinado dia, a responsabilidade de puxar uma reunião e convocar os membros em um camarada; depois, noutro. Delegar para um camarada que num mês cobre as cotizações vendo se daria um bom tesoureiro; deixar outro camarada responsável por organizar uma roda de leitura do jornal ou atividade de venda; pedir para um camarada entregar os jornais aos outros... 

Enfim: todas as tarefas, antes de oficialmente elegermos os secretários, tesoureiros e quaisquer outras funções necessárias, podem e devem ser repassadas aos membros de modo a ir verificando cada um: se é responsável, se é organizado, se é bom nisto ou se é bom naquilo. Tanto isto tira um peso das costas da assistência quanto desenvolve os membros do núcleo.

Desde cedo o assistente deve conseguir inculcar no núcleo a noção que este deve ser capaz de se organizar e tocar os trabalhos por conta própria, e indicar para eles o que fazer. É claro que, ao delegar a tarefa, é necessário ter o cuidado sempre de não só preparar e ensinar anteriormente (idealmente ensinar o grupo inteiro) como acompanhar a sua execução. Nosso partido hoje dispõe de ampla literatura — uma série de manuais ou orientações para todas as principais tarefas nos organismos: manual básico do tesoureiro, do secretário, de planejamentos, orientações sobre panfletagem, venda de jornais, leitura dos documentos internos, reuniões… Todos devem ser planejadamente utilizados — lidos coletivamente em reunião e consultados quando necessário.

Os elementos contingentes

É necessário, neste momento, alertar brevemente sobre os elementos contingentes que teremos que lidar, pois eles, especialmente em momentos iniciais, tendem a ser mais determinantes que determinados.

Os tipos mais fáceis de lidar são os núcleos em determinada categoria ou empresa, numa localidade onde já atuamos. Esses camaradas facilmente estarão em contato direto com as atividades partidárias gerais, com outros núcleos e outras células e podemos estar presencialmente com eles nas mais diversas atividades. Ou seja: eles têm a vantagem de que podem aprender na prática com os militantes já mais experientes. Conseguem, ao mesmo tempo, se aproveitar da presencialidade e conhecer pessoalmente uns aos outros. Mais que isso: estando na mesma categoria ou, melhor, na mesma empresa, lidam com os mesmos problemas, em geral, e, digamos, falam o mesmo dialeto na luta de classes. Quando na mesma empresa podem ter até mesmo a facilidade logística de se encontrar com maior frequência para suas atividades e reuniões.

Os mais difíceis são aqueles núcleos que formamos em cidades ou regiões novas. Especialmente regiões (ou grandes municípios) tendem a ser os mais difíceis: reunimos categorias e classes heterogêneas que meramente se encontram na mesma localidade. Por vezes, especialmente quando regiões inteiras são compreendidas no mesmo núcleo, não conseguimos (com facilidade) que haja encontros presenciais, assim como as atividades são tanto fragmentárias, com cada camarada fazendo a sua isoladamente; quanto sem companhia de militantes experientes. Pois por mais que possamos (e devamos) sempre ir às localidades que assistimos fazer conferências ou ativos que reúnam a militância, aproveitando para compartilhar o máximo de experiência possível no pouco tempo, com nossos recursos sabemos que essas atividades são esporádicas. Quase tudo tem que ser feito do zero e dependemos ainda mais da desenvoltura natural-espontânea de quem nos procura. 

Além disso, os núcleos, em geral, dependem de fatores fora do nosso controle: são os recrutamentos que nos procuram. Não temos como medir o grau de disposição, de capacitação e de retidão de cada um que chega. Vamos conhecendo na prática, o que nos leva a caminhos tortuosos que ora prosseguem, ora regridem. Há um limite do quanto podemos transformar o material que nos chega quando estamos longe (e em geral até quando estamos “perto”), e é com base nesse material contingente que se dará o desenvolvimento do trabalho partidário novo.

Podemos ter um núcleo que tenha camaradas muito bem dispostos, que rapidamente apreendem a ideia de autonomia, e que então se lançam aos trabalhos práticos. Seus desvios são de outra ordem que não a apatia: podem até fazer mal as tarefas, mas fazem. Corrigir é mais fácil do que criar. Somados a bons assistentes (ou aqueles com disponibilidade para se dedicarem), são os que progridem mais rápido.

Também podemos ter núcleos com camaradas paralisados, dominados pela inércia e que só se movem se alguém os empurrar. Podem ser muito capazes, com “potencial”, mas por variados motivos não desenvolvem autonomia (sobrecarga, problemas financeiros ou de outras ordens, baixa formação e entendimento, pouco convencimento, desinteresse de fato…). No que for possível, tentaremos contorná-los: organizando as tarefas às capacidades de cada um, redes de apoio, formação... Mas, por essa necessidade de intervenção e criatividade para superar os desafios, estes, se somados a maus assistentes (ou aqueles com pouca disponibilidade para se dedicar), são os que não irão para frente de forma alguma, afogados em estagnação.

E, na prática, vemos que entre os dois extremos aparecem inúmeras colorações: em núcleos estagnados, um ou dois camaradas são um potencial. Em núcleos autônomos, ainda terão camaradas apáticos ou paralisados. Assistentes capazes, mas sobrecarregados e pouco disponíveis; ou assistentes disponíveis, mas que fazem um mau trabalho… 

Para cada camarada que está em um núcleo, ele deve avaliar concretamente sua própria atuação e seu organismo: qual é a situação particular? O que falta para conquistar essa autonomia? O que e como cada camarada pode contribuir para superar o quadro de estagnação ou para não arrefecer o quadro de progresso?

Para cada camarada que está sendo assistente, ele deve avaliar concretamente também sua própria atuação e seu organismo: qual é o grau de prioridade estratégica daquele organismo, o quanto podemos dedicar de nossa força? Como dedicá-la de modo a termos o melhor resultado com o menor esforço (em termos de tempo)? E, principalmente, qual o perfil dos militantes que estão ali, quais estão se desenvolvendo e quais estão se deteriorando? É possível trazer estes de volta à militância orgânica?

O papel do assistente (e do Comitê Local) deve estar ancorado nas condições concretas dos militantes, organizando as forças para obter os melhores resultados e não desperdiçando-as em trabalhos infrutíferos nem deixando os bons militantes serem “estragados”. E, isso tudo, em estreita relação com as condições concretas da própria categoria, localidade ou tarefa para a qual aquele organismo existe. Ou seja: levemos em conta, a cada momento, os fatores objetivos e subjetivos daquele organismo partidário.

Assim, nem sempre um organismo se desenvolverá rapidamente ou bem e isto não é, necessariamente, culpa da assistência: no começo de um organismo, os fatores contingentes, que não controlamos, tendem a ser muito mais determinantes.

Membros do Partido e Simpatizantes

Nosso partido, desde o XVII Congresso, tem se modificado organizativamente para conseguir incorporar em suas fileiras a classe trabalhadora, de forma cada vez mais rápida e cada vez mais qualificada: retomamos como objetivo formar células por empresa (ou com atuação específica já delimitada), coletamos a cotização progressivamente (quem ganha mais, paga mais), simplificamos o recrutamento e temos nos utilizado da formação de núcleos, evitamos sempre que possível a participação em mais de um organismo etc. Ainda que várias das medidas ainda precisem ser melhor assimiladas e desenvolvidas (em determinados aspectos deixam a desejar), temos nos movido numa direção positiva desde o PCB.

Nossa flexibilidade organizativa e adaptação à realidade de cada local significa que os núcleos (os organismos em geral) vão se adaptar às condições objetivas e subjetivas em que atuam: à empresa/categoria/localidade e também aos militantes que o compõem. Tanto as reuniões (frequência, horários, locais…) quanto as atividades são pensadas com isso em mente. Se, porém, há flexibilidade na forma, o que não pode haver num partido leninista é flexibilidade na disciplina. Inevitavelmente, organismos do partido deverão realizar atividades práticas [3] — e, no fim das contas, ninguém vai fazer o trabalho dos organismos senão seus próprios membros [4]. 

O Órgão Central orienta e indica quais são as tarefas naquele momento, e a assistência deve garantir a assimilação dele pelos núcleos, direcionando suas tarefas (muitos novos recrutamentos têm muita disposição para ajudar, mas não sabem como), explicando sobre as reuniões, os métodos básicos de trabalho — tudo o que já vimos acima. 

No entanto, se mesmo após a orientação da assistência o núcleo não se mobiliza para realizar reuniões, não cumpre com suas pendências financeiras e não executa tarefas práticas, ele demonstra claramente que ainda não está apto para se tornar um organismo do partido. Como regra geral, devemos consolidar a noção de que não é e não deve ser papel da assistência estar sempre correndo atrás dos organismos ou dos militantes especialmente onde não é um local ou categoria estratégica [5]

Estar no partido significa estar submetido ao controle partidário e à disciplina partidária; qualquer um que não queira ou não tenha condições de ter acordo com estas condições ainda sim pode e deve (se convencido ideologicamente) auxiliar o partido na consecução de suas tarefas, à medida de suas possibilidades e vontades particulares (enquanto que ao militante, o fará à medida dos interesses e decisões coletivos — partidários).

Pois em nossos organismos devemos ter apenas forças com as quais podemos contar. Não encher artificialmente seus números: mais vale um pequeno núcleo com todos os militantes orgânicos (à medida de suas condições concreta, novamente) do que um grande núcleo com uma série de inconstâncias entre seus membros. 

Quando um núcleo vira um organismo do partido?

Portanto, o que deve ser feito num início de núcleo (ou início de célula)? Tanto os camaradas que querem entrar em nosso partido quanto os assistentes devem garantir o mais rápido possível (e isto varia de acordo com os elementos contingentes: cada organismo, cada grupo de militantes, cada assistente…) que seja forjada esta disciplina e espírito de partido. Que os camaradas do núcleo sejam formados sobre, sem ordem de prioridade ou cronológica: i. o que é o órgão central e como utilizar nosso jornal; ii. a cotização e importância das finanças em geral; iii. como tocar recrutamentos que chegam e buscar novos; iv. formações nos cursos básicos e documentos partidários; v. produção de atas e repasses regulares; vi. constituição de secretário e de tesoureiro; e vii. atuação específica

Este último (vii. atuação específica) diz respeito ao tipo de organismo que estamos tratando: um núcleo numa localidade pode por exemplo estudar a própria localidade (sua história, economia, política etc.) para ser capaz de definir cientificamente sua atuação; um núcleo numa universidade pode dar conta de iniciar a leitura da nossa cartilha de entidades ou brochura da universidade popular e organizar atividades de acordo; um núcleo de operários ou de professores pode iniciar pela leitura das diretrizes sindicais e nossas resoluções sindicais, realizando as tarefas indicadas… De qualquer forma, é exatamente o sustento ou o início do trabalho efetivo, particular, que aquele núcleo tocará.

Assim que o núcleo tiver entendido todos estes pontos, conseguir organizar suas reuniões, seu trabalho, suas finanças por conta própria na direção geral do partido, então podemos dizer que tornou-se um organismo vivo. 

Organismos vivos não necessitam, por exemplo, de um assistente para garantir que hajam reuniões nem trabalho prático; o assistente então ficará mais restrito a pautas importantes ou não ainda resolvidas por nosso OC e documentos partidários; assim como ao papel de controle da hierarquia partidária (garantir a comunicação, execução de ordens e planejamentos superiores, crítica de ações erradas etc.).

Não pretendemos listar aqui tudo que o assistente deve fazer, pois a flexibilidade é fundamental: o princípio é que, uma vez que o organismo respire com pulmões fortes, o assistente apenas assiste o organismo. Torna-se sequer absolutamente necessária a sua presença em toda reunião (especialmente nas mais ordinárias), por exemplo. Nesse momento, chega-se a uma nova fase de assistência, que não cabe mais aqui porque é ainda mais adaptativa às necessidades de cada atividade: planejamentos, tarefas, formações a mais etc. 

Aí sim poderá ser considerado um organismo do partido.

Notas

[1] Este artigo foi desenvolvido a partir de uma contribuição regional enviada à Coordenação Regional do Ceará quando alguns camaradas foram cooptados e tiveram que se deparar com a assistência pela primeira vez. 

[2] Sobre a assistência, na extensão de nosso conhecimento, não há uma literatura aprofundada em nosso partido (nem artigos gerais nem orientações específicas como normativas, cartilha ou manuais), e seguimos com este trabalho majoritariamente a partir dos costumes, que variam de local a local e necessidade a necessidade (a “cultura política” consuetudinária e as condições objetivas de cada luta e cada organismo). Isto não é de todo mau, afinal não há coisas como princípios técnicos imutáveis (cada forma-partido é dada pelo seu período histórico e necessidades objetivas) e nossa principal característica deve ser a capacidade de análise da situação atual e nos mobilizarmos adequadamente para direcioná-la ao movimento revolucionário. Existem hoje no CC discussões sobre o papel da assistência, fruto de polêmicas recentes, e imaginamos que a partir de agora novos aprofundamentos devem surgir e serão devidamente problematizados na imprensa.   

[3] Isso com qualquer tipo de organismo: para além dos organismos de empresa, uma célula de distribuição pode transportar os materiais partidários; uma célula de redação pode redigir as notas e matérias ou escrever livretos e propaganda em geral; uma célula de finanças pode gerir empreendimentos financeiros para arrecadar fundos; um CL delibera sobre o partido, cria ou desfaz organismos de base, prepara atividades locais; uma fração organiza uma política em determinada categoria, define táticas, prioridades… Não existem organismos do partido que sejam simplesmente espaços de reunião não deliberativa.

[4] Os dirigentes, os membros em geral do partido podem e vão, claro, orientar e auxiliar cada organismo partidário: a assistência e muito da nossa produção partidária gira em torno disso (manuais, repasses…). Porém não há orientação, diretriz, manual ou qualquer receita médica que resolva a inatividade de um organismo se seus próprios membros forem inativos; qualquer auxílio, ajuda ou apoio é  apenas um auxílio, ajuda ou apoio: não suplantam nem se confundem com as forças do próprio organismo. 

“Vocês não inventarão nada, cavalheiros! Se vocês mesmos são inativos, se permitem que cisões ocorram debaixo de seus próprios narizes e então soltam suspiros e fazem reclamações — nenhuma receita ajudará vocês.” (Lenin: Some Reflections on the Letter from '7 Ts. 6 F.')

[5] Por óbvio, tudo que falamos aqui são considerações gerais, que serão mediadas em cada caso específico. Núcleos estratégicos podem (e devem) envolver assistências diferenciadas, com esforços maiores para pôr a mão na massa e acompanhamento mais particular pelos CLs.