Eleições 2026 na Bahia: o esgotamento do petismo, a violência de classe e as tarefas dos comunistas
O que se expressa na conjuntura baiana é o aprofundamento de um projeto de gestão da barbárie, no qual a classe trabalhadora é administrada entre a repressão direta e o abandono estrutural.
NOTA EDITORIAL
Publicamos hoje com entusiasmo a tribuna elaborada pelos camaradas Maíra Nery e Mikuchan.
O texto aborda temas centrais que constam no recente direcionamento da elaboração das tribunas de debate, impulsionado pelo Conselho Editorial. A análise minuciosa sobre o esgotamento do ciclo petista na Bahia, a letalidade policial recorde e a precarização dos serviços públicos sob a lógica das Parcerias Público-Privadas (PPPs) constitui um tema fundamental para a nossa intervenção política.
Ao denunciar o caráter genocida do Estado baiano, que combina fuzis israelenses na segurança pública com filas de morte na regulação da saúde, a tribuna oferece ferramentas concretas para que os comunistas rompam com o cerco da conciliação de classes. Este debate não é apenas eleitoral; é um chamado à organização independente do proletariado, da juventude negra e dos povos indígenas contra a gestão da barbárie.
Convidamos toda a militância, especialmente na Bahia, a ler e utilizar este acúmulo como base para discussões.
Por Maíra Nery e Mikuchan
Introdução e sentido do debate
Este texto se apresenta como uma primeira contribuição para um debate que precisa ser aberto com urgência no interior do Partido e entre as forças da esquerda radical baiana. Não se trata de uma formulação acabada, mas de um esforço inicial de sistematização da conjuntura e de apontamento das tarefas colocadas para o próximo período.
A complexidade do cenário exige que essa reflexão seja coletiva, aprofundada e orientada por critérios políticos rigorosos, de modo a permitir a construção de uma linha de intervenção à altura dos desafios históricos colocados à classe trabalhadora na Bahia.
Mas é preciso dizer com clareza, camaradas: não estamos diante de um momento comum. O que se expressa na conjuntura baiana é o aprofundamento de um projeto de gestão da barbárie, no qual a classe trabalhadora é administrada entre a repressão direta e o abandono estrutural.
O esgotamento do petismo e a integração ao Estado burguês
“O parlamento burguês deve ser utilizado como tribuna de denúncia e agitação revolucionária.”
[Vladimir Lenin, Esquerdismo: doença infantil do comunismo (1920)]
A conjuntura eleitoral de 2026 deve ser compreendida como expressão concentrada do esgotamento de um ciclo político marcado pela conciliação de classes. Após quase duas décadas de governos do Partido dos Trabalhadores, o que se evidencia não é uma alternativa à ordem vigente, mas a consolidação de um projeto que se integrou plenamente à gestão do Estado burguês.
Desde Jaques Wagner até a atual gestão de Jerônimo Rodrigues, passando por Rui Costa, observa-se um processo contínuo de adaptação às exigências do capital, no qual o Partido dos Trabalhadores abandona qualquer perspectiva de transformação estrutural para operar como mediador da crise social.
Do ponto de vista do marxismo-leninismo, é necessário reafirmar que a participação eleitoral não pode significar adaptação à institucionalidade burguesa.
A trajetória dos governos petistas na Bahia revela, com nitidez, os efeitos dessa adaptação. A promessa inicial de ruptura com o carlismo deu lugar à incorporação de suas bases materiais. O partido estabeleceu alianças com frações das oligarquias regionais, consolidou relações com partidos do centrão e estruturou sua presença no interior por meio de mecanismos que reproduzem práticas tradicionais de controle político.
Não houve superação das formas históricas de dominação no estado, mas sua reconfiguração sob nova direção.
Essa integração se expressa também na política econômica. A ampliação das Parcerias Público-Privadas constitui um dos eixos centrais da gestão petista na Bahia. Projetos como a concessão do metrô de Salvador e a gestão do Hospital do Subúrbio demonstram a centralidade da transferência de recursos públicos ao capital privado.
Sob o discurso da eficiência, o que se estabelece é um modelo no qual o Estado garante a rentabilidade do capital, ao mesmo tempo em que limita sua capacidade de investimento direto e aprofunda sua dependência financeira.
Esse modelo, camaradas, não opera de forma isolada em um setor ou outro. Ele organiza o conjunto das políticas públicas, inclusive aquelas diretamente ligadas à reprodução da vida. No campo da educação, a rede estadual permanece marcada por problemas estruturais persistentes: precarização das condições de trabalho, insuficiência de infraestrutura, sobrecarga docente e ausência de investimentos estruturantes. Trata-se de uma política que subordina o investimento social às prioridades da acumulação capitalista, reproduzindo desigualdades e limitando o acesso da juventude trabalhadora ao conhecimento.
A política de morte: repressão, abandono e gestão da população excedente
“O Estado é uma máquina para a opressão de uma classe por outra.”
[Vladimir Lenin, O Estado e a Revolução(1917)]
No entanto, é na articulação entre segurança pública e saúde que esse projeto revela seu caráter mais profundo. A Bahia não apenas figura entre os estados mais violentos do país, como consolidou um padrão de atuação estatal baseado na produção sistemática da morte.
O estado registra mais de 7 mil mortes violentas anuais e mais de 2.300 mortes por intervenção policial entre 2023 e 2024. A maioria absoluta das vítimas é jovem, negra e periférica.
Um de seus marcos mais emblemáticos foi a chamada Chacina do Cabula, ocorrida em 2015, em Salvador, quando 12 jovens foram mortos pela Polícia Militar durante uma operação. À época, a versão oficial tentou caracterizar o episódio como confronto. No entanto, denúncias de familiares, organizações de direitos humanos e investigações independentes apontaram indícios de execução sumária, incluindo relatos de rendição e ausência de troca real de tiros em vários momentos da operação.
A resposta do então governador Rui Costa não apenas legitimou a ação, como revelou a lógica que orienta essa política. Ao comentar o episódio, afirmou que a polícia havia agido como “um artilheiro em frente ao gol”, comparando a execução de jovens à finalização de uma jogada de futebol. Essa declaração, camaradas, não é um deslize retórico. Ela expressa, de forma aberta, a naturalização da morte como instrumento de ação estatal. Matar deixa de ser um problema e passa a ser compreendido como eficiência.
Vejam o que isso significa: não estamos diante de excessos ou desvios de conduta, mas de uma orientação política que legitima o uso da violência letal como método de gestão social. A permanência e o aprofundamento dos índices de letalidade policial ao longo dos governos petistas demonstram que essa não foi uma exceção, mas um ponto de inflexão que se consolidou como prática.
As sucessivas operações policiais em bairros populares de Salvador e da Região Metropolitana, em áreas como Periperi, Plataforma, Fazenda Coutos e Engomadeira, reproduzem esse mesmo padrão: incursões violentas, múltiplas mortes em um único dia, denúncias recorrentes de execução e nenhuma responsabilização efetiva. A baixíssima taxa de investigação desses casos evidencia que o Estado não apenas mata, mas garante a impunidade.
Percebam, camaradas: isso é método. O Estado baiano não falha em proteger; ele é eficaz em matar.
E não podemos tratar esses números como abstração, camaradas, como o Estado faz. Essas mortes têm nome, têm história, têm família. São jovens negros, trabalhadores, arrancados da vida por essa política de extermínio que se reproduz cotidianamente na Bahia. É o caso de Davi Fiuza da Silva, de 16 anos, desaparecido em 24 de outubro de 2014, no bairro de São Cristóvão, em Salvador, após ser levado por policiais militares e nunca mais visto; de Ana Luiza Silva dos Santos de Jesus, de 19 anos, morta em 13 de abril de 2025, na Engomadeira, atingida pelas costas durante uma ação policial, enquanto voltava para casa; de Caíque dos Santos Reis, de 16 anos, morto em São Marcos, em 28 de agosto de 2025, mesmo após obedecer à ordem policial para colocar as mãos para cima; e de Pedro Henrique Santos Cruz, de 31 anos, morador de Tucano, no interior da Bahia, morto em 27 de dezembro de 2018, cujo “crime”, aos olhos dessa ordem, foi organizar caminhadas da paz na cidade.
Esses casos, entre tantos outros que sequer chegam ao conhecimento público, revelam um padrão que permanece marcado pela impunidade: juventude negra como alvo, territórios periféricos como cenário e ausência de punição como regra. Vejam, camaradas, o que isso significa: não se trata de episódios isolados, mas de uma política que escolhe quem deve morrer e, depois, tenta apagar seus nomes. Por isso, lembrar cada uma dessas vítimas é mais do que um gesto de memória: é um ato político de enfrentamento contra um Estado que mata e silencia, algo indispensável quando denunciamos o caráter genocida do governo petista na Bahia.
Mas é preciso avançar ainda mais na análise, camaradas. Esse projeto de morte não se expressa apenas pela ação direta da polícia ou pela ausência de políticas sociais. Ele também se manifesta na forma como o Estado organiza o território e garante a expansão do capital sobre áreas historicamente ocupadas por povos indígenas e comunidades tradicionais.
No sul e extremo sul da Bahia, a violência contra o povo Pataxó e o povo Pataxó Hã-Hã-Hãe não pode ser tratada como uma sucessão dispersa de episódios locais, mas como expressão de uma correlação de forças em que o agronegócio, o latifúndio, as milícias rurais e os aparelhos repressivos do Estado operam, de formas distintas e complementares, para impedir a demarcação e esmagar os processos de retomada.
Em 21 de dezembro de 2023, o cacique Lucas Santos Oliveira, de 31 anos, do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe, foi assassinado em uma emboscada quando retornava de Pau Brasil para a Aldeia Caramuru-Catarina Paraguassu. Pouco depois, em 21 de janeiro de 2024, Maria de Fátima Muniz de Andrade Pataxó Hã-Hã-Hãe, a Pajé Nega Pataxó, foi assassinada durante um ataque armado de fazendeiros ligados ao movimento Invasão Zero contra a retomada na Fazenda Inhuma, em Potiraguá; no mesmo ataque, o cacique Nailton Pataxó Hã-Hã-Hãe foi baleado. Em julho de 2024, organizações indígenas voltaram a denunciar que esse assassinato se somava a outros ataques letais, entre eles as mortes de Gustavo Silva da Conceição, de 14 anos, em 2022, e de Nauí Brito de Jesus, de 16 anos, e Samuel Cristiano do Amor Divino, de 25 anos, em 2023, todos em contexto de violência ligada ao conflito territorial no extremo sul baiano. Esses fatos foram denunciados pelo Cimi como parte de uma escalada de violência associada a fazendeiros, milícias rurais e à atuação ou omissão da Polícia Militar baiana.
Vejam, camaradas, o que isso revela com nitidez: o mesmo Estado que reprime nas periferias urbanas é o Estado que assegura, pela omissão cúmplice ou pela presença armada, a expansão do agronegócio e da grande propriedade sobre territórios indígenas. Não se trata de um conflito “entre particulares”, como tantas vezes se tenta apresentar, mas de uma engrenagem política em que a violência privada do latifúndio se articula com a violência pública do Estado. Quando o Cimi registra que o ataque que matou Nega Pataxó ocorreu numa ação de “reintegração” sem ordem judicial, convocada por fazendeiros e acompanhada por policiais militares, o que está em questão é justamente o conteúdo de classe da ação estatal: o aparelho repressivo aparece, mais uma vez, como garantidor da ordem da propriedade e da acumulação, e não da vida dos povos originários.
Essa mesma lógica se expressa na política de armamento levada adiante pelos governos petistas na Bahia. A própria Polícia Militar da Bahia informou oficialmente a aquisição de fuzis israelenses e, posteriormente, a apresentação de 740 carabinas IWI Arad calibre 5,56, da empresa Israel Weapon Industries (IWI), além de outras compras de material bélico. Em outra divulgação institucional, a PM baiana afirmou contar com R$ 58 milhões em investimentos em material bélico, mencionando expressamente os “fuzis israelenses” entre as novas aquisições. Ou seja, não estamos diante de uma denúncia abstrata, mas de uma política pública assumida e celebrada pela própria estrutura estatal. Isso significa que o governo baiano, ao mesmo tempo em que sustenta um discurso de direitos humanos e solidariedade internacional, reforça internamente sua máquina de guerra com equipamentos fornecidos por uma indústria diretamente vinculada ao aparato militar israelense. A relação entre a militarização da segurança pública baiana e esse mercado internacional de armas não é acessória: ela integra o mesmo projeto de repressão interna, dirigido sobretudo contra a população negra e pobre.
Essa política de morte se completa, ainda, pela negação sistemática do acesso à saúde. O sistema de regulação da Bahia tornou-se símbolo desse processo: filas intermináveis, demora no acesso a exames, cirurgias e leitos hospitalares, pacientes aguardando meses e, em muitos casos, morrendo antes de conseguir atendimento. A falta de investimento estrutural, combinada com a lógica de terceirização, parcerias, gestão indireta e expansão das organizações sociais, produz um sistema incapaz de responder às necessidades da população.
O próprio Tribunal de Contas do Estado da Bahia registrou, em documento oficial, que a Sesab possuía 18 unidades sob gestão indireta por organização social já em 2014. Em auditoria posterior, o TCE/BA apontou que, em 2017, havia 22 unidades de saúde sob gestão indireta, sendo 21 por contratos de gestão, 20 com organizações sociais e uma com empresa privada, além de uma unidade gerida por PPP, o Hospital do Subúrbio. O mesmo Tribunal assinalou problemas relevantes nesse modelo, inclusive a celebração de contratos com empresas privadas para gerenciamento de unidades públicas de saúde sem fundamento legal adequado e fragilidades no acompanhamento, controle de resultados e fiscalização. Em notícia publicada em 2025, o próprio TCE/BA voltou a situar a Bahia como referência em modelos de PPPs e contratos de gestão com organizações sociais na saúde, ressaltando que essas modalidades seguem centrais na estrutura da rede estadual.
Sabemos que a expansão das organizações sociais não é um detalhe administrativo, mas parte constitutiva do projeto petista de gestão da crise. Ao transferir a administração de hospitais e serviços para OSs e PPPs, o Estado não se fortalece; ele se reconfigura para operar cada vez mais como financiador, contratante e garantidor de fluxos para agentes privados.
O resultado político disso é conhecido: fragmentação da responsabilidade pública, opacidade na gestão, enfraquecimento do controle social direto e aprofundamento da lógica empresarial sobre serviços que deveriam responder exclusivamente às necessidades da população trabalhadora. Quando essa dinâmica se combina com a letalidade policial, com a omissão diante da violência no campo e com a precarização do acesso à saúde, o que se desenha não é uma soma casual de problemas setoriais, mas um regime de gestão da vida e da morte profundamente marcado por classe, raça e território.
Diante de tudo isso, camaradas, é preciso dizer com todas as letras o que está em jogo na Bahia. Não estamos diante de contradições pontuais, nem de erros de gestão que possam ser corrigidos dentro dos marcos existentes. O que se consolidou ao longo dos governos petistas no estado foi um projeto político de administração da barbárie, no qual a conciliação com o capital se combina com a repressão direta e com a negação sistemática das condições de vida da classe trabalhadora.
A política de segurança pública que executa a juventude negra nas periferias, a política territorial que permite, quando não viabiliza, o assassinato de lideranças indígenas em meio ao avanço do agronegócio, e a política de saúde que deixa morrer nas filas da regulação não são dimensões separadas. Elas compõem um mesmo projeto de classe: um projeto que, incapaz de oferecer saídas estruturais para a crise, passa a gerir populações inteiras como descartáveis.
É isso, camaradas, que precisa ser compreendido com profundidade: o petismo na Bahia não representa uma contenção da barbárie. Ele é, hoje, uma das formas concretas de sua administração.
E é exatamente por isso que não há espaço para ilusões políticas. Não há possibilidade de apoiar, direta ou indiretamente, um projeto que se sustenta sobre esse nível de violência. Não há justificativa, em nome de qualquer cálculo eleitoral, para legitimar uma política que combina ajuste, repressão e morte.
A falsa polarização e o papel do voto nulo
“§45 A posição do PCBR frente aos governos burgueses de conciliação de classes (que se escamoteia sob discursos progressistas e fomentam em meio à classe trabalhadora a crença na democracia burguesa e ilusão na possibilidade da realização por meio exclusivamente dela das lutas pela elevação de suas condições de vida) é uma oposição por princípio político estratégico. Os comunistas não devem apoiar nenhuma expressão da gestão do capitalismo em seus países, porque nossa tarefa é a organização da classe trabalhadora para a derrubada da burguesia e do seu Estado e a instauração da ditadura do proletariado.”
[XVII Congresso (Extraordinário) do PCB-RR, 2024]
Diante desse quadro, a polarização entre o governo petista e a oposição liberal-conservadora não representa uma alternativa real para a classe trabalhadora.
No cenário concreto que se desenha para 2026, a tendência é a reprodução de um segundo turno entre Jerônimo Rodrigues (PT) e ACM Neto (União Brasil). Essa polarização, camaradas, não expressa projetos antagônicos, mas uma disputa entre frações da burguesia pela gestão do mesmo modelo econômico e social.
De um lado, um governo que administra a barbárie sob a forma da conciliação de classes, combinando ajuste, repressão e abandono. De outro, um bloco que expressa de forma mais direta os interesses das oligarquias tradicionais e do neoliberalismo clássico.
Mas, vejam, camaradas, o essencial é isto: ambos compartilham os mesmos pilares fundamentais: defesa do agronegócio, manutenção das PPPs, subordinação ao capital financeiro e política de segurança baseada na militarização e no extermínio da juventude negra.
Aqui, não há escolha real para a classe trabalhadora. Falar em apoio crítico ao petismo, nesse cenário, camaradas, é pedir que a classe trabalhadora legitime sua própria condição de alvo.
Importante ressaltar que essa convergência não se expressa apenas no nível abstrato dos programas, das alianças ou dos discursos eleitorais. Ela se materializa, de forma concreta e cotidiana, no funcionamento real do parlamento baiano.
Na Assembleia Legislativa da Bahia, não são episódios isolados, mas prática recorrente, as votações em que base governista e oposição caminham lado a lado na aprovação de medidas centrais para a reprodução desse modelo de sociedade.
Vejam, camaradas, o que ocorre, por exemplo, na aprovação dos orçamentos estaduais. A aprovação da Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2024, votada em 2023, que define as prioridades do gasto público, foi aprovada com ampla maioria, reunindo votos tanto da base do governo quanto de setores da oposição. E o que esse orçamento expressa, na prática? A manutenção de contratos com organizações sociais, a ampliação de Parcerias Público-Privadas e a limitação sistemática do investimento direto em políticas sociais estruturantes. Ou seja: quando se trata de definir para onde vai o dinheiro público, as diferenças desaparecem.
Outro exemplo revelador foi a aprovação ao longo de 2023 de autorização e ajustes vinculados à Parcerias Público-Privadas no sistema metroviário de Salvador e Lauro de Freitas, incluindo reequilíbrios contratuais que garantem a rentabilidade do capital privado envolvido na concessão. Essas medidas passaram sem enfrentamento real entre governo e oposição. Sob o discurso da modernização e da eficiência, o que se aprova é a transferência contínua de recursos públicos ao capital privado, com garantias estatais de rentabilidade. Aqui também, camaradas, não há conflito, há convergência de interesses.
E não poderia ser diferente quando olhamos para a segurança pública. Em 2024, a Assembleia aprovou também com ampla maioria, projetos que ampliam o orçamento das forças policiais, autorizam a aquisição de armamentos e reforçam a lógica da militarização avançam com apoio transversal no parlamento. Mais uma vez camaradas, quando o tema é repressão, quando o tema é controle violento dos territórios populares, quando o tema é a gestão armada da pobreza, não há divergência real entre aqueles que, no período eleitoral, se apresentam como adversários.
Percebam, camaradas, o que isso revela com toda a nitidez: a chamada polarização eleitoral se dissolve completamente diante das necessidades concretas da reprodução da ordem. Aqueles que disputam votos como se representassem projetos distintos se unem, sem hesitação, quando se trata de votar aquilo que sustenta o modelo econômico, garante a acumulação do capital e legitima a violência de Estado.
Isso não é contradição. Isso é coerência de classe.
O parlamento baiano não expressa um conflito real entre projetos antagônicos. Ele funciona, naquilo que é essencial, como espaço de convergência entre diferentes frações políticas comprometidas com a manutenção da ordem existente.
E é exatamente por isso, camaradas, que a ilusão do “mal menor” precisa ser combatida com firmeza. Porque, na prática, aqueles que pedem voto em nome de uma suposta contenção da barbárie são os mesmos que, dentro das instituições, votam cotidianamente pela sua reprodução.
Por isso, a defesa do voto nulo em um eventual segundo turno não pode ser tratada como uma posição secundária ou defensiva. Trata-se de uma posição ativa de enfrentamento político.
Não votar em nenhum desses projetos significa recusar-se a legitimar um modelo que produz morte nas periferias, violência no campo e abandono nos serviços públicos. Significa afirmar, de forma clara, que a classe trabalhadora não reconhece nenhuma dessas alternativas como expressão de seus interesses históricos.
Mas isso, camaradas, exige consequência.
Não basta declarar voto nulo. É preciso organizá-lo como linha de agitação, levando à classe trabalhadora a compreensão de que não há saída dentro dos limites apresentados por esse sistema político. É necessário ir às bases, às periferias, aos locais de trabalho, às escolas e às universidades, e demonstrar concretamente por que essas candidaturas representam a continuidade do mesmo projeto.
Trata-se de disputar a consciência política, evidenciando que a escolha colocada não é entre projetos distintos, mas entre gestores de uma mesma ordem.
É preciso dizer com todas as letras: não se trata de escolher o “mal menor”, mas de recusar o projeto que nos mata.
As tarefas dos comunistas: unidade, organização e ruptura
“Gostaríamos, assim, de fazer um apelo e um chamado aos partidos e organizações revolucionárias para as eleições de 2026: comecemos agora um debate programático para construir essa alternativa! Sabemos que há diferenças entre nós, mas entendemos ser possível um programa bastante avançado para uma candidatura unificada!”
[A posição do PCBR nas eleições burguesas de 2026]
A nossa principal tarefa colocada para o período é a construção de uma alternativa política independente e revolucionária. A fragmentação das forças da esquerda radical tem limitado sua capacidade de intervenção e favorecido a reprodução da hegemonia burguesa. É necessário avançar na construção de um bloco de esquerda radical na Bahia, baseado na independência de classe, na defesa de um programa de ruptura e na articulação entre as lutas sociais e a intervenção eleitoral.
Vejam, camaradas: se não formos capazes de construir essa alternativa, não haverá vazio político. O que se seguirá será o aprofundamento do que já está colocado ou o avanço de forças ainda mais reacionárias. A crise do petismo não abre, por si só, caminho para a esquerda revolucionária; ela pode, ao contrário, abrir espaço para setores ainda mais reacionários, caso a classe trabalhadora permaneça sem direção política organizada.
Não estamos diante de um problema de gestão, mas de um problema de projeto. E esse projeto, baseado na conciliação de classes, na submissão ao capital e na repressão como forma de controle social, já demonstrou seus limites de forma trágica e concreta na realidade baiana.
Por isso, este texto não é apenas mais uma análise. Ele precisa ser entendido também como um chamado direto às organizações da esquerda radical na Bahia: PCBR, PCB, PSTU, UP, setores independentes do PSOL e movimentos populares, para que assumam, com responsabilidade histórica, a tarefa de iniciar imediatamente um processo real de debate programático e construção de unidade.
Percebam, camaradas: não se trata de unidade abstrata, nem de acordos superficiais, mas de unidade baseada em critérios políticos claros, programa e intervenção concreta. Uma unidade que se expresse nas eleições, mas que não se limite a elas. Uma unidade que se enraíze nas lutas reais da classe trabalhadora.
A recusa em avançar nesse sentido não é neutra. Ela contribui para a manutenção da hegemonia burguesa e para a continuidade da violência que denunciamos.
Sem independência de classe, só há barbárie
A tarefa está colocada de forma objetiva: transformar o processo eleitoral em instrumento de organização, utilizar o voto nulo na Bahia como ferramenta de denúncia e, sobretudo, avançar na construção de um bloco político independente de classe.
Sabemos que isso exige coragem política. Exige romper com o conforto das posições intermediárias, com o medo do isolamento e com a pressão permanente pela adaptação. Exige assumir que a independência de classe não é uma palavra de ordem abstrata, mas uma linha concreta de atuação.
Se não fizermos isso, camaradas, estaremos contribuindo, ainda que indiretamente, para a continuidade do que denunciamos. Se o fizermos, abrimos a possibilidade de transformar a indignação difusa em organização consciente e a denúncia em força material.
E a conjuntura não permite hesitação.
A política petista na Bahia mostrou, na prática, até onde pode e quer ir.
Ou se rompe com esse projeto, ou se é arrastado por ele. Aqui, camaradas, não há terceira via.
Cabe a nós, a esquerda radical, decidir se continuaremos orbitando em torno dos projetos burgueses existentes e assistindo à continuidade das mortes, da repressão e do abandono, ou se seremos capazes de construir, com firmeza, uma alternativa revolucionária à altura da história.