Nota política – Sobre a proibição do ato do 1º de Maio em Salvador

Isso revela um problema político mais profundo: o abandono da tarefa histórica de organizar a luta independente da classe trabalhadora e desenvolver sua capacidade de ação direta contra os patrões, os governos e o Estado burguês.

Nota política – Sobre a proibição do ato do 1º de Maio em Salvador

Nota política do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) e da União da Juventude Comunista (UJC) em Salvador (BA)

A recente decisão e de última hora da Prefeitura de Salvador de proibir a realização do ato de 1ª de Maio no local corriqueiro gerou um forte embate entre a gestão municipal e as entidades sindicais. Sob a justificativa de atender a pedidos de moradores locais por causa do barulho, a mudança foi denunciada como uma manobra deliberada para invisibilizar o movimento e restringir o acesso às áreas nobres da capital baiana. Entretanto, mesmo com tamanho descaso, as respectivas entidades resolveram não disputar o espaço, cedendo à decisão da prefeitura. O episódio evidencia uma tensão crescente entre o poder público, movimentos e organizações sociais e a luta dos trabalhadores, além de evidenciar um recuo e rebaixamento da esquerda majoritária e das suas centrais sindicais.

Criminalização do calendário de lutas dos trabalhadores

O que aconteceu em Salvador tem paralelos a nível nacional. De maneira similar, a Prefeitura de São Paulo informou as centrais sindicais e outras entidades em reunião na Sexta-feira (24/04) a indisponibilidade do espaço da Avenida Paulista para a realização do 1º de Maio, alegando que a avenida já havia sido solicitada com antecedência por outras organizações. No dia em questão, a avenida teve a faixa da direita ocupada por grupos bolsonaristas, com cerca de 100 pessoas, levantando bandeiras e como a proibição do aborto, a eleição de Flávio Bolsonaro à Presidência neste ano e a liberdade para o ex-presidente Jair Bolsonaro.

No dia 2 de Maio, no Rio de Janeiro, após atividade pelo fim da escala 6x1 e a redução da jornada de trabalho durante o show da cantora Shakira, o vereador Rick Azevedo, coordenador nacional do movimento VAT, junto de assessores e amigos, foram agredidos na saída por policiais militares e bolsonaristas.

Nesse cenário de perseguição às lutas e a celebrações históricas de conquistas dos trabalhadores, a decisão da Prefeitura de Salvador de proibir a realização do ato de 1º de Maio no Farol da Barra representa mais um episódio da criminalização da luta da classe trabalhadora e do ataque ao direito democrático de organização e manifestação popular.

Em Salvador, não faltam liberações para o carnaval milionário, para os grandes eventos privados, para os camarotes das elites e para toda sorte de atividades voltadas ao lucro. A cidade é permanentemente colocada à disposição do capital, do turismo e dos interesses empresariais. Mas quando os trabalhadores tentam ocupar as ruas para lutar por direitos, surgem imediatamente as proibições, restrições e mecanismos de repressão. A cidade é liberada para o lucro e fechada para a luta.

A justificativa apresentada pela Prefeitura, um abaixo-assinado de moradores incomodados com o barulho  (abaixo-assinado este desmentido pela presidência da CUT após consulta à associação de residentes),  não passa de cortina de fumaça para encobrir o verdadeiro conteúdo político da medida. Os mesmos setores elitizados da Barra historicamente se mobilizam contra o carnaval, contra manifestações populares e contra qualquer presença massiva do povo trabalhador naquele espaço da cidade. Transformar a vontade de setores da pequena-burguesia soteropolitana em critério para limitar direitos políticos elementares é institucionalizar a segregação social e criminalizar a mobilização popular.

Direitos históricos conquistados pela classe trabalhadora não podem estar submetidos aos interesses e ao conforto das elites urbanas.

A Prefeitura de Salvador atua como instrumento político de contenção da luta social. Busca esvaziar o caráter combativo do 1º de Maio e impedir que a indignação popular diante da superexploração, da fome, da precarização, do desemprego, do aumento do custo de vida e da escala 6x1 encontre expressão organizada nas ruas.

Mas a proibição também expôs os limites profundos da política conduzida pelas direções das centrais sindicais.

O recuo e as limitações da esquerda majoritária frente aos ataques da Prefeitura de Salvador

A decisão de convocar o ato na Barra já expressava um erro político. Trata-se de um espaço marcado muito mais pela lógica do turismo, do consumo e dos grandes eventos do que pela presença cotidiana da classe trabalhadora. Enquanto organizações combativas, movimentos populares e setores da esquerda revolucionária apontavam a necessidade de construir unidade junto aos locais de trabalho e circulação dos trabalhadores, as direções das centrais optaram por uma construção isolada, burocrática e descolada da base.

A escolha da Barra favorecia um ato-espetáculo, voltado mais para a lógica da visibilidade institucional do que para o enraizamento concreto junto aos trabalhadores mais explorados. Em vez de transformar os trabalhadores em sujeitos ativos da mobilização, reforçava sua posição como público passivo de um evento controlado de cima para baixo.

Mais grave ainda foi a postura adotada após a proibição. Não houve tentativa de transformar a medida autoritária da Prefeitura em eixo de mobilização política. Não houve chamado à resistência organizada, nem esforço concreto para defender publicamente o direito de manifestação da classe trabalhadora. A resposta foi o recuo.

As direções do PT, PCdoB, Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, e as respectivas centrais sindicais optaram por transferir o ato para o Jardim de Alah, um espaço ainda mais distante da realidade concreta dos trabalhadores e da dinâmica cotidiana da classe.

Essa postura expressa anos de adaptação das direções sindicais ao institucionalismo, à lógica eleitoral e à política de conciliação de classes. Em vez de organizar a luta direta dos trabalhadores, fortalecer comitês de base, impulsionar greves e desenvolver formas permanentes de organização operária, as direções sindicais têm substituído a construção independente da classe por atos controlados, burocráticos e esvaziados de enfrentamento real.

Essa adaptação também se expressou no conteúdo político apresentado pelas direções sindicais neste 1º de Maio. Em vez de utilizar a data para organizar a indignação da classe trabalhadora contra os ataques em curso, predominou um tom festivo, conciliador e marcado por elogios ao governo federal, mesmo diante do aprofundamento da precarização das condições de vida da população trabalhadora.

Enquanto milhões de trabalhadores seguem submetidos ao desemprego, à informalidade, aos baixos salários, à terceirização e às jornadas exaustivas da escala 6x1, as direções das centrais evitaram qualquer enfrentamento consequente à política econômica aplicada pelo governo.

Segundo dados da PNAD Contínua do IBGE, o Brasil encerrou 2025 com cerca de 37,6% da população ocupada na informalidade, o que representa dezenas de milhões de trabalhadores sem estabilidade, sem direitos garantidos e submetidos às formas mais brutais de exploração. Na Bahia, a taxa de desocupação permaneceu entre as maiores do país, alcançando 8% no quarto trimestre de 2025, enquanto a subutilização da força de trabalho chegou a 25,4%, uma das mais altas do Brasil.

Isso significa que milhões de trabalhadores sobrevivem entre o desemprego, os “bicos”, a uberização, os contratos precários, a ausência de direitos trabalhistas e jornadas cada vez mais intensas e adoecedoras.

Mesmo diante desse cenário devastador para a classe trabalhadora, predominou nas falas das direções sindicais a tentativa de preservar a conciliação política com o governo federal e evitar críticas mais profundas ao arcabouço fiscal, política que mantém os interesses do mercado financeiro acima das necessidades sociais da população trabalhadora e impõe limites permanentes aos investimentos públicos, aos serviços essenciais e aos direitos sociais.

Da mesma forma, o debate sobre o fim da escala 6x1 apareceu de maneira limitada e insuficiente, sem transformar a reivindicação em eixo permanente de mobilização nacional junto aos locais de trabalho e às categorias mais precarizadas do país. Enquanto a classe trabalhadora enfrenta arrocho salarial, aumento do custo de vida, adoecimento mental, desemprego estrutural e intensificação da exploração, as direções das centrais insistem em transformar o 1º de Maio em palco de shows, festividades e atos sem conteúdo combativo.

O 1º de Maio não nasceu como comemoração. Nasceu da luta operária internacional, das greves, da repressão e do sangue derramado pelos trabalhadores que enfrentaram patrões e o Estado para conquistar direitos elementares. Esvaziar seu conteúdo de luta e reduzir a data a um ritual festivo significa colaborar com a desorganização política da classe trabalhadora.

Mesmo diante da proibição na Barra, existia uma alternativa concreta: fortalecer e unificar o ato convocado por organizações combativas, VAT, PCBR, PSTU e setores do PSOL, em  frente à Atento e ao Atacadão do Cabula, locais marcados pela superexploração do trabalho, pelas jornadas exaustivas e pela precarização brutal das condições de vida dos trabalhadores.

Haviam condições reais de construir um ato enraizado na classe, diretamente ligado aos trabalhadores explorados e às suas condições concretas de existência. As direções das centrais recusaram esse caminho e preferiram preservar uma política de isolamento, fragmentação e controle burocrático da mobilização.

Isso revela um problema político mais profundo: o abandono da tarefa histórica de organizar a luta independente da classe trabalhadora e desenvolver sua capacidade de ação direta contra os patrões, os governos e o Estado burguês.

Diante disso, afirmamos:

• A denúncia do caráter autoritário e antipopular da Prefeitura de Salvador, que criminaliza a luta dos trabalhadores enquanto serve aos interesses das elites e do capital;

• A denúncia da política de conciliação das direções das centrais sindicais, que substituem a organização independente da classe por atos burocráticos, festivos e controlados;

• A denúncia da política econômica de ajuste fiscal e conciliação com o mercado financeiro, que mantém a precarização do trabalho e impede avanços reais para a classe trabalhadora;

• A defesa da independência de classe, da mobilização direta e da reorganização combativa do movimento operário;

• A necessidade de construir unidade real junto à base trabalhadora, impulsionando greves, mobilizações e formas concretas de enfrentamento contra os patrões, os governos e suas políticas de ajuste.

Não haverá avanço para a classe trabalhadora através da conciliação, do recuo ou da adaptação às instituições da burguesia. A política que fragmenta a mobilização, evita o enfrentamento e transforma o 1º de Maio em um ritual vazio não fortalece os trabalhadores: os desarma politicamente diante dos patrões, dos governos e do Estado.

É necessário romper com essa linha e reconstruir um movimento operário combativo, enraizado na base, organizado de forma independente e disposto a enfrentar a exploração capitalista e seus representantes políticos.

O 1º de Maio não é festa.
É luta.
É organização.
É combate de classe.