Nota política - Fortes chuvas sobre Pernambuco: A tragédia como negócio
O Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), a partir da compreensão que o Estado burguês nunca oferecerá a solução definitiva para os problemas da classe trabalhadora, convoca a militância de todo o país a fortalecer as redes de solidariedade que já estão em ação.
Nota política do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) em Pernambuco
Nas últimas 24 horas, as chuvas sobre a Região Metropolitana de Recife e a Zona da Mata de Pernambuco ultrapassaram os 100 mm, com alagamento generalizado, inundações e deslizamentos de terra. As águas que já ceifaram ao menos seis vidas e deixaram mais de 2.600 pessoas fora de suas casas não podem ser tratadas como mera fatalidade climática.
O temporal que desabou entre os dias 1 e 2 de maio elevou rapidamente o nível de rios, provocou o deslizamento de barreiras e inundou bairros inteiros. Centenas de famílias estão desabrigadas, postos de saúde danificados e o abastecimento de água interrompido em diversas localidades. Contudo, o dado mais alarmante é que ainda não estamos no período de maior pico de chuvas no estado. A Agência Pernambucana de Águas e Clima (APAC) emitiu alerta vermelho, sinalizando que o solo saturado e as precárias condições de moradia podem transformar os próximos meses em um cenário ainda mais grave para quem vive nas encostas e palafitas.
Esses dados não surpreendem, as notícias sobre milhares de trabalhadores afetados pelo volume de chuvas se repetem todos os anos. Em 2022, o estado enfrentou seu maior desastre ambiental do século, foram 133 mortos e 120 mil desalojados. Passados quatro anos, mais de 2.099 pessoas ainda não retornaram às suas casas e seguem dependendo do auxílio-moradia. Em fevereiro de 2025, novos temporais deixaram 7 mortos em 24 horas. Mesma tragédia, mesmas vítimas: a classe trabalhadora que reside em áreas de risco, nos mocambos e nas palafitas, sem qualquer segurança e infraestrutura.
Nada disso acontece por acaso e tampouco se trata de um desastre natural. Enquanto a população se afoga, o governo federal e os cofres estaduais escolhem favorecer os diversos setores da burguesia. Em 2024, o orçamento federal destinou míseros 0,09% do total das despesas para a Defesa Civil, responsável pela prevenção e resposta a desastres. Em contraste, os gastos com publicidade e gerenciamento de imagem dos governos seguem na casa dos bilhões. As obras de contenção de encostas prometidas pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), anunciadas para nove cidades, seguem em ritmo lento ou completamente paralisadas, enquanto a comunidade de Jardim Monte Verde, onde mais de 20 pessoas morreram em 2022, ainda aguarda qualquer intervenção.
As enchentes deste ano intensificam um cenário já extremamente preocupante: Pernambuco apresenta um déficit habitacional estimado em 326 mil moradias. No Recife, enquanto 207 mil pessoas vivem em áreas de risco (13,4% da população), há 95 mil imóveis desocupados na cidade, muitos destes deteriorados, servindo apenas à especulação imobiliária. A mesma prefeitura que não destina recursos à moradia popular, se prepara para leiloar, na Bolsa de Valores, o direito de construir “moradias sociais”, entregando patrimônio e dinheiro público para que o setor privado lucre com a miséria habitacional.
Em pleno ano eleitoral, os dois principais representantes da ordem burguesa no estado, João Campos (PSB) e Raquel Lyra (PSD), se revezam em cenas de solidariedade televisionada. Enquanto tiram fotos em áreas alagadas, a política que implementam aponta na direção contrária. O marco mais perigoso dessa gestão é a privatização da Companhia Pernambucana de Saneamento. O leilão da Compesa transfere um bem público essencial ao controle de corporações que visam o lucro, e não a universalização do serviço para a população, como afirma a governadora.
A privatização da Compesa é um atentado direto à possibilidade de construir sistemas de drenagem eficientes nas periferias. Um serviço de saneamento gerido pela iniciativa privada não investe em áreas de baixa rentabilidade, exatamente os morros e palafitas que mais sofrem com as chuvas. O mesmo ocorreu no Rio de Janeiro, com a Cedae, e em São Paulo, com a Sabesp, e resultou no aumento das tarifas, na redução de investimentos em regiões pobres e na fragmentação da responsabilidade. Ao privatizarem a Compesa, João Campos e Raquel Lyra condenam milhares de famílias a um futuro de esgoto a céu aberto e alagamentos permanentes.
Em Pernambuco, a catástrofe ambiental se tornou oportunidade de negócios. As crises geradas pelo próprio sistema, como as enchentes, tornam-se janelas para aprofundar privatizações, precarizar direitos e transferir fundos públicos para grandes corporações. A tragédia é, portanto, duplamente lucrativa: para o setor imobiliário, que valoriza terrenos à custa do despejo das famílias de áreas de risco, e para o capital financeiro, que se apropria dos serviços públicos essenciais.
O Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), a partir da compreensão que o Estado burguês nunca oferecerá a solução definitiva para os problemas da classe trabalhadora, convoca a militância de todo o país a fortalecer as redes de solidariedade que já estão em ação. A calamidade dos últimos dias escancara a necessidade da classe trabalhadora organizar suas próprias formas de luta. É nos momentos de crise que percebemos o limite da ação burguesa. Só a organização permanente da classe rumo à Revolução Socialista, poderá garantir saneamento básico universal, zerar o déficit habitacional com moradias populares e, assim, permitir que todas as famílias durmam em paz em noites de chuva.