Boletim sobre as greves estudantis no estado de São Paulo - Nº5

Em meio a intensificação dos ataques das Reitorias e do governo estadual, greve dos estudantes aponta para novo momento de luta unificada.

Boletim sobre as greves estudantis no estado de São Paulo - Nº5
Registro da manifestação em Franca durante a inauguração do Hospital Três Colinas com presença do Governador Tarcísio de Freitas. Reprodução/Foto: Rhyan Carvalho.

Ainda que em momentos diferentes, a greve dos estudantes das universidades estaduais se mantém e passa por um momento de intensificação dos debates. Na USP, a greve e as reivindicações dos estudantes são constantemente atacadas, com a demonstração da completa indisposição por parte da Reitoria e todo o Conselho Universitário, com a mudança de local repentina e o silenciamento dos estudantes. Na Unesp, o momento é de uma ofensiva articulada por parte da Reitoria e das direções. A desocupação do Instituto de Artes, as diversas ameaças de represálias, faltas, perdas de matérias e até mesmo da matrícula são na prática um não reconhecimento das reivindicações dos estudantes, e uma postura que busca criminalizar e deslegitimar a luta dos estudantes.

Um dos aspectos mais relevantes da greve vem sendo a disputa pública em relação às reivindicações e aos ataques sofridos pela educação pública. As mobilizações de rua realizadas até o momento conseguiram pressionar e arrancar de Tarcísio de Freitas uma série de posicionamentos em relação à greve dos estudantes. Se em um primeiro momento o governador adotava uma postura de não reconhecer a greve dos estudantes, seus posicionamentos mais recentes afirmam que a greve é justa, mas que todos os problemas seriam resolvidos diretamente com as Reitorias.

É importante reforçar esse debate e superar as mentiras colocadas pelo governador. Desde 1995 o financiamento das universidades estaduais se mantém o mesmo, apesar da profunda expansão das universidades. Com o mesmo financiamento, em conjunto, as universidades estaduais passaram de 98.367 estudantes para 173.081, um crescimento não acompanhado pelas condições de permanência estudantil.

O movimento grevista não pode se iludir. Não existe diferença alguma entre o governo do estado de São Paulo e as Reitorias das universidades estaduais. Ambas as partes articulam um mesmo projeto de austeridade aplicado à educação pública. A responsabilização das Reitorias por parte de Tarcísio nada mais é do que uma forma de desvincular sua imagem do atual cenário de subfinanciamento que ataca a educação.

USP

Após duas reuniões de negociação com a reitoria da USP, que não trouxeram avanços para as pautas da greve, os estudantes grevistas focaram seus esforços em garantir que as pautas da greve discente fossem votadas no Conselho Universitário (CO) do dia 26 de maio. Nesse sentido, o DCE construiu uma mobilização das bases estudantis com o objetivo de marchar até o local da reunião, apoiando a representação discente.

Durante o Conselho Universitário ficou exposta tanto a intransigência da reitoria como a disposição do reitor em usar estratégias que driblassem a democracia universitária. O local do CO foi remarcado em cima da hora (apenas os docentes foram informados), a reunião não foi transmitida sob a alegação de uma suposta queda no sistema e, por fim, quando os representantes discentes conseguiram intervir no espaço, evocando o direito de colocar em votação a inclusão de suas pautas, foram ignorados pela reitoria.

Com o posicionamento e os descontentamentos do corpo discente, a reitoria se provou incapaz de mediar o espaço e fugiu da reunião, encerrando o conselho às pressas para que os estudantes não fossem ouvidos.

A postura adotada pela reitoria dentro do CO é a mesma de toda gestão de Aluísio Segurado durante a greve dos estudantes. As tentativas de cercear o diálogo aparentam a desordem de uma gestão despreparada, mas compõe uma tática mais ampla de explorar o desgaste nas bases grevistas enquanto se sustenta forçosamente uma aparência de normalidade.

Durante a última semana de greve a Polícia Militar manteve presença quase diária na universidade, com foco para a Escola Politécnica (Poli), Instituto de Física (IF) e Conjunto Residencial da USP (CRUSP). Essa movimentação, impulsionada pelas diretorias da Poli e do IF, unida às constantes ameaças contra os grevistas, coloca os discentes em posição de defesa incessante na manutenção da greve. As diretorias dos institutos seguem sustentando a posição da reitoria com intransigência contra os estudantes, em uma postura de sempre criminalização do movimento grevista.

Como resultado de uma votação online instaurada no dia 25/05 a greve na Poli chegou ao fim, tendo mais de 1.000 votos pela manutenção da greve e a conquista de uma sala de estudos 24h, demanda histórica do instituto.

Ainda que a greve no Instituto Politécnico tenha chegado ao fim, a manutenção de uma longa greve que se manteve por sucessivas assembléias evidencia um avanço na consciência de um dos institutos mais elitizados da USP. Para além das conquistas, a greve tem como um de seus saldos a qualificação do movimento estudantil politécnico, que sustentou a greve apesar dos constantes ataques de grupos de estudantes anti-greve, impulsionados pela diretoria do instituto.

A greve se sustenta em outros institutos das exatas, como no Instituto de Física (IF) e no Instituto de Matemática e Estatística (IME), com bastante fôlego e convencimento dos estudantes.

UNESP

Registro do primeiro dia de ocupação do Instituto de Artes, 22 de abril. Reprodução/Foto: Arquivo próprio da ocupação.

INSTITUTO DE ARTES (SP): O Instituto de Artes, que marcava um mês de ocupação, avançou nas negociações locais e construiu uma das mobilizações decisivas para ditar o rumo da greve foi desocupado mediante um mandato de reintegração de posse nesta quinta-feira (28 de maio). No dia anterior o DCE se reuniu com o Vice-reitor, discutindo as pautas da greve, a indicação de uma mesa de negociação, e os rumos da ocupação do IA, ao qual o Vice-reitor afirmou não haver necessidade de intervenção direto ou uso da força, priorizando o dialogo. Menos de 24h após a afirmação, foi solicitada a reintegração de posse do IA por parte da direção, com auxílio da reitoria. A intervenção previa uso de força policial e fixação de multa de R$1.000 aos estudantes a cada dia de ocupação a partir da data da reintegração. Os estudantes do IA decidiram desocupar o prédio voluntariamente prezando pela segurança do corpo grevista e evitando o embate direto. A desocupação foi realizada de forma tranquila e organizada. Poucos minutos depois a Polícia Militar e a Tropa de Choque já estavam dentro do IA buscando pelos estudantes.

O DCE e as entidades estudantis do IA moveram uma nota de repúdio à reintegração de posse que conta com mais de 50 assinaturas de entidades estudantis de toda a Unesp.

Registro da manifestação em Botucatu, 26 de maio. Foto: JornalO Futuro.

UNESP BOTUCATU: Botucatu esteve em paralisação durante essa semana, focados principalmente na FCA, onde os estudantes tiveram que lidar com a interrupção das aulas que furavam a paralisação, realizando piquetes. Em assembleia do campus a direção apresentou uma postura de ameaça aos estudantes que estavam na atividade e nesse momento o DA e o DCE estão articulados para a publicação de uma carta de repúdio à fala do Diretor.

Os estudantes de Botucatu organizaram no dia 25 uma grande Marcha pela cidade com adesão de cerca de 1000 estudantes, ⅓ de todo o campus. A manifestação expressiva demonstra um grande fortalecimento da mobilização local e um passo fundamental para politização do campus e seu envolvimento nas pautas estaduais.

Nos demais dias foi seguido o calendário de paralisação até o dia 28 com a realização de Assembleias de Curso para adesão à Greve. Tivemos como resultado:

  • Assembleia de Medicina: Greve aprovada com 50,8% dos votos: cerca de 170 a favor e 150 contra
  • Assembleia de Medicina Veterinária: Greve aprovada com 161 favoráveis, 17 contrários e 16 abstenções.
  • Assembleia de Enfermagem: Greve aprovada com 60 votos favoráveis, 5 contrários e 4 abstenções
  • Assembleia dos docentes: Paralisação aprovada por 3 dias (29, 1 e 2) por unanimidade.
  • Assembleia do Instituto de Biociências (IBB): Greve aprovada com 392 favoráveis e 1 abstenção.

Botucatu, campus da Unesp que abriga a maioria dos cursos da saúde, com destaque para a Medicina, é também aquele que recebe maiores repasses orçamentários, e o de maior centralidade para os interesses da burguesia, do Estado e para a Unesp institucionalmente. Vimos durante essa semana um grande avanço do Movimento Estudantil de Botucatu rumo à organização da luta, historicamente reprimida no campus, mas que possui papel fundamental na conjuntura do Estado: representa uma força de fomento às mobilizações dos demais campi da Unesp e um grande peso de pressão sobre a Reitoria.

UNESP FRANCA - Franca mantém suas atividades de greve desde o início de maio. A semana foi marcada pela vinda do governador Tarcísio de Freitas ao município para a inauguração do Hospital Estadual Três Colinas. O evento faz parte da caravana de Tarcísio pelo interior em sua agenda eleitoral, mesma caravana que esteve em Bauru na última semana, registrada no Boletim 3°. Os estudantes de Franca junto aos docentes e servidores que também se encontram em greve organizam uma manifestação próxima ao Hospital. Na noite anterior ao evento, Tarcísio exigiu a expansão do perímetro de segurança, que contava com mais de 1km entre os dois lados do Hospital. Vemos nessa reação um crescente intimidação de Tarcísio pelo Movimento Estudantil, que tem organizado manifestações expressivas ao longo de todo mês e que mantém sua capacidade de articulação mesmo nos interiores. Apesar do forte policiamento e da grande extensão do perímetro de segurança exigido por Tarcísio, a manifestação se manteve coesa e consciente das denúncias contra o governo, a política de austeridade e a Polícia Militar. Denunciamos neste boletim novamente a postura de intimidação da PM orientada por Tarcísio, que, frente a uma manifestação pacífica de pouco mais de 150 estudantes, mobilizou a tropa de choque e a manteve preparada para uma possível intervenção.

UNESP ARARAQUARA: Em Araraquara, a greve já está estabelecida há algumas semanas e teve, recentemente, adesão dos servidores docentes e Trabalhadores Técnico-Administrativos (TA’s) que estão agora em estado de greve. No dia 26/05, foi realizada uma plenária entre os 3 setores: docentes, discentes e TAs na FCLAr. O espaço debateu o andamento da greve e deliberou pela organização de um Grupo de Trabalho (GT) unificado. A primeira reunião do GT ocorreu no dia 27 com repasse dos setores informando reivindicações, e apresentando denúncias das direções e docentes. Os docentes demonstraram preocupações em relação à perseguição por parte dos departamentos e da própria Reitoria, e apresentaram que, em alguns institutos, estão orientados a furar a greve e prejudicar os estudantes com faltas.

UNESP PRUDENTE: Em Prudente a greve continua, ainda que com dificuldades de organização, sobretudo devido à falta de alimentação para os estudantes grevistas, visto que o RU oferece refeição apenas para o almoço. A demanda por segurança alimentar no campus é antiga no campus e compõe a pauta de reivindicações locais, tanto para aumento das refeições no horário de almoço, quanto para criação do RU noturno.

No dia 27 foi realizada assembleia da geografia com intuito de reorganizar a condução da greve, que suscitou o debate de recuperação do prédio do D.A há muitos anos abandonado pela gestão do campus. Com a proposta de reapropriação do espaço para que sirva como uma área de convivência durante o período de greve em especial, no dia 28 os estudantes reabriram o prédio, o limparam, organizaram a cozinha, garantiram cestas básicas e cestas verdes. A retomada do prédio é uma enorme conquista do Movimento Estudantil e sua capacidade de auto-organização.

Para sustentar as atividades, os estudantes organizam também uma campanha de arrecadação, pedindo doações para o pix: 18997868491

UNESP JABOTICABAL: O DCE esteve presente em reunião junto ao DA e estudantes, para fomentar a mobilização dos estudantes e orientar a participação do campus no cenário estadual de greve.

Durante a reunião os discentes passaram a relatar as demandas do campus, como problemas de infraestrutura. Foi denunciado que o RU, e Moradia do campus foram demolidos por pressão vinda da Reitoria, e os computadores entregues aos estudantes de permanência para estudo haviam sido recolhidos sem maiores justificativas.

A reunião teve como resolução uma manifestação dentro da faculdade na semana que seguinte, além de algumas atividades de mobilização como produção de cartazes e passagens em sala para dar início às mobilizações locais como caminho para a realização de uma assembleia geral para deliberar sobre a adesão do estado de greve no campus.

UNESP RIO PRETO: No dia 21 de maio, em Assembleia Geral, os estudantes do Ibilce aprovaram sua adesão à greve com amplo convencimento. O calendário de greve abordou rodas de conversa sobre estratégias de enfrentamento a ataques ao campus pela extrema-direita, cine debates, oficina de cartazes, plenárias e assembleias para tratar sobre a interrupção das atividades docentes de professores substitutos.

Sendo um quadro bastante geral da Unesp, que reflete a falta de contração, o debate sobre os professores substitutos avançou na maioria dos campi. Com preocupações que dizem respeito principalmente à precarização da atividade docente, sendo esta uma categoria que sofre com piores condições empregatícias, incertezas e assédio devido à mobilização, os substitutos não possuem direito à greve. No entanto, a manutenção de suas atividades compromete a greve em si, que tem como pressuposto a paralisação de todas as atividades. Não sendo possível prolongar os contratos, o debate deve ser encaminhado com auxílio da Adunesp, indicando desde já a intervenção dos estudantes para paralisação das atividades e pressionando para a articulação entre departamentos, congregações, diretorias e a própria reitoria para que não haja ônus empregatícios aos professores e nem acadêmicos aos discentes.

UNESP GUARATINGUETÁ: O campus esteve paralisado entre os dia 26 e 20. No dia 26 houve assembleia de docentes e discentes em que ambas aprovaram a adesão à greve, e em seguida, entre os servidores, que aderiram no dia 28. Os estudantes tem encontrado empecilhos em relação a discentes e docentes furando greves, e também a direção que vem ameaçando o acionamento da PM para desobstrução dos piquetes. Apesar no cenário de intimidação, os estudantes mantêm o calendário grevista.

UNESP ARAÇATUBA: O campus realizará assembleia na terça-feira (02/06) e já possui greve aprovada para o dia 10.

UNESP ILHA SOLTEIRA: O curso de Biologia de Ilha Solteira realizará assembleia no dia 30 e pretende deliberar sobre o início de uma paralisação.

Unicamp

A última semana foi marcada por uma série de ataques da extrema-direita à Universidade. No dia 23, sábado, 6 membros do Movimento Brasil Livre (MBL) invadiram o Centro Acadêmico da Linguagem (CAL), enquanto dois estudantes dormiam no espaço. Eles bloquearam a saída e ameaçaram os dois alunos, até um deles conseguir sair e acionar a segurança do Campus.

Na terça-feira, 26 de maio, ocorreu um ato unificado das três categorias, em frente à reitoria onde estava sendo realizada a reunião do Conselho Universitário (CONSU), que tinha como uma de suas pautas a proposta de reajuste em 3,7% do salário dos servidores técnico-administrativos. O ato tinha como uma de suas principais reivindicações a reabertura das negociações no CRUESP e contou com uma forte presença dos trabalhadores, representados pelo STU, além da participação dos estudantes e professores que se somaram ao ato. Graças à mobilização conjunta das categorias, a pauta do reajuste foi retirada, demonstrando a força da greve e da ação em unidade dos estudantes, trabalhadores e docentes.

Na quarta-feira, 27 de maio, os invasores do MBL retornaram. Agora, o objetivo era atacar o acampamento dos estudantes no Ciclo Básico 2 (PB), no meio da madrugada. Eles ameaçaram verbalmente e fisicamente os estudantes grevistas, e atacaram fisicamente os estudantes e trabalhadores, que cuidavam da segurança do local. Com ajuda do Serviço de Vigilância do Campus (SVC), os agressores foram retirados do campus e medidas institucionais e jurídicas já estão sendo tomadas pelos estudantes. Esses ataques não são casos isolados, eles estão inseridos em uma série de ofensivas e ataques da extrema-direita à Unicamp, a fim de gerar conteúdo para as redes sociais, promovendo discursos reacionários contra a universidade pública.

Na quarta-feira, 27 de maio, após 3 reuniões de alinhamento com a Reitoria, a primeira mesa de negociação foi realizada. Desde o início, é nítido a falta de compromisso da Reitoria que apresentou aos estudantes uma carta feita por Inteligência Artificial que resumia as reivindicações elaboradas pelos grupos de trabalho e movimentos sociais. A carta da inteligência artificial, além de distorcer e alterar as propostas presentes nas reivindicações dos estudantes, utilizava termos e expressões de cunho racistas. Efetivamente, não houve uma negociação e uma nova mesa foi marcada para a próxima terça feira.

Por fim, em um cenário em que a reitoria não abre um espaço real de negociação e os ataques do MBL se intensificam, a fortificação da greve torna-se cada vez mais necessária. Somente através da organização dos estudantes e a maior adesão do corpo discente à greve, que as demandas e reivindicações dos estudantes, trabalhadores e docentes serão conquistadas.

Próximos passos

Os últimos acontecimentos da greve foram marcados por um novo momento do debate público. As mobilizações de rua realizadas em São Paulo, Bauru, Botucatu e Franca demonstram a força da greve em pautar o debate e convencer a população da necessidade de mais orçamento para a educação pública. Com as mentiras e a negação da situação de subfinanciamento se faz ainda mais necessário reforçar a disputa e as mobilizações pela base.

Nesse sentido, o Fórum das Seis e todas as suas entidades fazem um chamado para a construção de um calendário unificado de lutas com mobilizações em cada uma das faculdades e cursos que estão em greve. O objetivo é construir mobilizações locais no dia 09 de junho, apontando para uma construção estadual unificada que toma forma de uma nova marcha, com indicativo de acontecer no dia 17 de junho na capital. As mobilizações devem se apoiar nas principais contradições que levam cada categoria a mobilizações, e apontar para uma luta unificada por mais financiamento para as universidades estaduais.