Eleição não é um fim em si mesma: Nota política do PCBR no Rio de Janeiro

Eleição não é um fim em si mesma: Nota política do PCBR no Rio de Janeiro
Nota política do PCBR no Rio de Janeiro

De dois em dois anos a classe trabalhadora é confrontada com as disputas eleitorais, cujas dinâmicas são dominadas pelos interesses da burguesia. Dos diversos  partidos apresentados aos trabalhadores, a vasta maioria é composta pelos defensores do capital, cada um com uma infinidade de candidatos. Essa diversidade esconde, com falsas respostas às necessidades da população, os interesses de cada sigla dessas. No jogo da democracia burguesa, as eleições parecem não depender de nada além da quantidade de santinhos, carreatas, adesivos e tempos de TV. Enquanto isso,  por trás dos palcos eleitorais e das das performances de campanha, o que se tem são partidos financiados por diversos setores das classes dominantes. 

Em meio aos ataques da direita e as confusões ideológicas que surgem nas esquerdas, cabe aos comunistas sair das análises feitas com base nas aparências e nas autoproclamações, examinar os vínculos econômicos e a atuação concreta das forças políticas na luta de classes para criar as condições subjetivas e objetivas para a tomada do poder. Eleições devem ser vistas como tática para elevar o grau de organização e consciência do proletariado, e não como horizonte estratégico.

As disputas e guerras imperialistas reverberam no cotidiano da classe trabalhadora impactando no aumento do custo de vida, na privatização das empresas, na precarização do trabalho, no rebaixamento das lutas sindicais e populares - todos esses ataques às condições concretas de vida da população são sustentados através das mídias hegemônicas, da burocracia e da violência de Estado. Essa é a norma do capitalismo e do imperialismo, e fica ainda mais intensa e evidente a atuação durante calendário eleitoral, quando se desdobram oportunismos variados para garantir determinadas linhas políticas que atuam direta ou indiretamente com setores da burguesia.

O governo federal justifica o novo teto de gastos, a reforma administrativa, o plano de privatizações, o congelamento do salário mínimo e o ataque aos pisos constitucionais da saúde e educação sob o véu de “acabar com privilégios” e supostas necessidades em evitar desperdícios financeiros. Ao mesmo tempo em que tem financiado o agronegócio, negociado o monopólio das terras raras, deslocado verbas por fora do ajuste fiscal para gastos militares, além de acatar a estratégia de fortalecimento das “guerras às drogas”, que justifica chacinas em favelas e aumento de gastos em operações policiais. 

No Rio de Janeiro, o PT  historicamente adota a tática de aliança  com a direita, seja nos apoios às candidaturas bolsonaristas no interior estado ou em seu projeto conciliatório através da construção da campanha de Eduardo Paes (PSD) - o prefeito que promoveu ofensiva contra os trabalhadores da educação na cidade, se utilizou da emenda-pix para captação de eleitores, possui alianças com o racismo genocida dos sionistas e apoio nas megaoperações policiais, e tem como estratégia recorrente a entrega de espaços públicos para grandes obras privadas e projetos de gentrificação de bairros históricos em áreas visadas para especulação financeira .

Ao colocar Benedita da Silva na disputa ao senado, o PT apela à lógica da representatividade para tirar o foco das manobras e articulações políticas de seu partido. Benedita da Silva integrou o governo de Sérgio Cabral como Secretária de Assistência Social e Direitos Humanos entre 2007 e 2010 e apoiou sua reeleição, aderiu ao perdão das dívidas das igrejas de 1 bilhão de reais através da Emenda ao Projeto de Lei 1581/2020 e, hoje, anda lado a lado do candidato ao senado Pedro Paulo (PSD), que trabalha na ampliação da militarização, agrediu fisicamente sua ex-esposa, além de ser o relator da reforma administrativa na Câmara dos Deputados (propondo o ataque a saúde, educação e outros direitos básicos). No jogo das alianças, ora o PT anda de mãos dadas com Pedro Paulo, ora PT abraça Mônica Benício (PSOL), na tentativa de angariar votos.

O PSOL, por sua vez, tem se posicionado de forma apequenada com seu alinhamento ao social-liberalismo petista. No Rio, apesar da apresentação de candidaturas próprias com Willian Siri à governador do estado e Mônica Benício ao senado, o partido tem colocado seus esforços na propagação da conciliação de classes. A contradição pessolista de tentar se colocar como alternativa crítica ao PT ao mesmo tempo que propagandeia que Lula e Benedita formam o cordão sanitário contra a extrema-direita, faz com que o partido não avance na consciência e organização da classe trabalhadora para tomada do poder. Ao ser incapaz de fazer a devida crítica ao petismo, o PSOL fomenta, mesmo que indiretamente, a candidatura de Eduardo Paes (PSD). Sua adesão à frente ampla, também composta por setores da burguesia, tem se provado um erro político fundamental, fazendo com que o “Socialismo” de seu nome se torne cada vez mais apenas uma palavra vazia e que se expressa também na redução significativa das suas intenções de voto . Mesmo com todos os seus filiados e militantes, Wilian Siri possui apenas 1% das intenções de voto no estado.

Desta forma, vemos que o fortalecimento da extrema-direita é fruto das políticas entreguistas e de austeridade fiscal assim como de uma esquerda que, de forma oportunista, coloca as disputas institucionais e eleitorais como fins em si mesmas ao invés de construir um projeto que verdadeiramente ataque o capitalismo.  Ações deste tipo fortalecem os laços entre o estado, a burguesia nacional e internacional, reafirmando a posição do Brasil no capitalismo dependente através da superexploração da força de trabalho e do papel primário exportador. 

Se temos a finalidade de criar as condições subjetivas para a tomada do poder pela classe trabalhadora, não é plausível por parte dos revolucionários uma tática que rebaixe a consciência da população e que induza a conciliação através dos discursos abstratos de soberania nacional ou democracia. Compreendemos que o combate à extrema-direita e seu reacionarismo não se dá limitando o horizonte do proletariado à gestão do capitalismo. Neste sentido, o PCBR no Rio de Janeiro reafirma o que consta em nossas resoluções e colocamos nossos esforços na construção da unidade de ação entre distintas organizações partidárias, naquilo que nos une, à despeito de nossas divergências ideológicas. Nossa atuação nestas eleições deve seguir com independência de classe e priorizando a construção da Frente Anticapitalista e Anti-imperialista. 

Hoje, os partidos e organizações que trabalham para revelar as contradições criadas pelo capitalismo são minoria. Apesar dos esforços do PCBR na tentativa da unidade da esquerda revolucionária, esta posição foi derrotada. Nacionalmente, apresentaram-se 3 possibilidades de apoios críticos: PCB, PSTU e UP. Avaliou-se a compreensão do caráter tático eleitoral desses partidos, as compatibilidades programáticas, a independência de classe e o trabalho de oposição explícita à política da Frente Ampla. Em todos os casos apresentados, compreendemos que, apesar das diferenças qualitativas dos nomes das candidaturas, todas elas se submetem ao partido e não nos cabe o apoio tático com base em uma análise personalista que descola o candidato dos interesses partidários. 

Neste sentido, o PSTU, com a candidatura de Hertz Dias (16) à Presidência da República e Cyro Garcia (16) ao Governo do Estado do Rio de Janeiro se apresentam como as melhores alternativas de perspectiva socialista independente para as eleições. Nas candidaturas para o senado, câmara dos deputados e assembleia legislativa, apoiamos e indicamos voto nas(os) candidatas(os) do PSTU Paula Falcão (160), Elias José (1616) e Lorran (16123), respectivamente. 

Adicionalmente, apoiamos as candidaturas da UP. Para a segunda vaga ao senado, indicamos o voto em Vinícius Benevides (808), e apoiamos as candidaturas feitas para deputadas(os) federais e estaduais. 

Alertamos que nossa posição, além de rejeitar o social-liberalismo, também repudia as autoproclamações sectárias. Criticamos as posições sectárias que o PCB e a UP/PCR têm tomado de rejeição à construção conjunta das lutas da classe trabalhadora em suas diferentes representações no campo da esquerda revolucionária, dificultando a unidade de ação de nosso campo em prol de interesses de autoconstrução.

Priorizamos, sempre, a unidade de ação com as forças independentes e anticapitalistas do proletariado. Isto não significa descartar a possibilidade de compromissos pontuais com forças reformistas quando estas não atuarem de forma a limitar nossa liberdade de crítica e independência política. Saudamos o trabalho de diversos companheiros de luta, e não encerramos diálogo e unidades táticas em nossas batalhas cotidianas. 

Em 2026 e nos anos que virão, é tarefa dos comunistas construir a Frente Anti-imperialista e Anticapitalista, combater a extrema-direita e sua linha auxiliar, a frente ampla, e apresentar à classe trabalhadora respostas às suas necessidades através da construção da revolução socialista brasileira.