Sobre o boicote de Bruno Reis às votações em Salvador no 2° turno da Eleição Presidencial
Diante de qualquer tentativa de golpe ou restrição aos direitos democráticos, a resposta precisa ser a organização e a mobilização dos trabalhadores.
Comitê Local de Salvador e Região Metropolitana25 de outubro de 2026
A obstrução das votações nas eleições não é exceção em um Estado Burguês. Não é exceção no Estado brasileiro atual. Em todos os anos eleitorais, é estimado o número de pessoas que deixaram de votar devido ao boicote das prefeituras e/ou governos dos estados federados, que, representando “um dos lados”, interferem no sentido de dificultar e inviabilizar que o eleitorado do candidato adversário tenha condições de votar. Chamamos a atenção para como o bolsonarismo amplia essa tática de forma escancarada.
Em 2022, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) realizou blitzes por todo o país, coincidentemente, nas áreas onde seriam somados mais votos para Lula ao invés de Jair Bolsonaro. A operação fez com que mais de 2 mil ônibus fossem parados nas rodovias, e, posteriormente, a Procuradoria Geral da República (PGR) incluiu essa operação como parte dos planos de Golpe de Estado.
Em 2026, o bolsonarismo mobilizou todo o seu capital político e econômico para barrar as votações em todo o país, mas sobretudo na região nordeste. Do final do primeiro turno até o dia 25 de outubro, foram alteradas 431 seções eleitorais no país, com 71 delas nos 9 estados que compõem a região. Além dessa interferência, viralizaram vídeos em todo o país em rodoviárias e aeroportos se recusando a garantir o transporte para o eleitorado acessar seus locais de votação.
Em Salvador, essa tática não foi diferente. Bruno Reis (União Brasil) e Pablo Souza (Secretário de Mobilidade Urbana) inviabilizaram que mais de 500 ônibus circulassem pela cidade durante as primeiras horas do domingo. O prefeito, ligado ao grupo político de ACM Neto, ambos apoiadores de Flávio Bolsonaro, justificou que estava sendo realizada a limpeza da frota, culpabilizando os rodoviários sindicalizados, que supostamente colocaram adesivos da campanha de Lula.
Em resposta a essa obstrução deliberada da prefeitura, e de maneira correta, Jerônimo Rodrigues (PT), Governador do estado da Bahia, acionou o judiciário, que emitiu um mandado de prisão em flagrante para o secretário Pablo Souza, que está em Paris. Além disso, Jerônimo colocou a Polícia Militar, policiais e viaturas à disposição para realizar o transporte dos eleitores enquanto a situação não se normalizava.
O desembargador Maurício Kertzman Szporer, presidente do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA), determinou a recomposição imediata de 100% da frota do transporte público municipal de Salvador, sob multa de R$ 1 milhão por hora de descumprimento à Secretaria Municipal de Mobilidade (SEMOB). Nacionalmente, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), estendeu as votações até às 19 horas.
Apesar das ações, entendemos a insuficiência do que foi feito para a garantia dos votos por parte do TRE-BA, do governo do estado e do STF. Na prática, milhares de trabalhadores brasileiros e soteropolitanos enfrentaram dificuldades durante todo o dia para acessar as seções eleitorais.
Ao todo, foram registradas reclamações de falta de ônibus em bairros como Itapuã, Stella Maris, Cabula, Liberdade, Cajazeiras, São Marcos, São Rafael, Arenoso, Mussurunga, Santa Cruz, Mares, Calçada, Lobato e Plataforma, áreas que em geral contabilizam muitos votos para Lula na capital baiana. Militantes do PCBR, de outros partidos e trabalhadores sem vinculação partidária gravaram vídeos mostrando o descumprimento da decisão judicial em diversas seções eleitorais em toda a capital baiana.
Nesse sentido, deve ser elogiada a capacidade de mobilização dos trabalhadores ao longo do dia. Diversos grupos foram improvisados, oferecendo caronas com seus próprios veículos ou por meio do pagamento de táxis ou Uber para as pessoas que estavam nos pontos de ônibus da cidade.
As atividades de apoio ao presidente Lula no segundo turno, somado a tantas outras mobilizações ativas e orgânicas recentes dos trabalhadores, provaram mais uma vez que a força da classe não se expressa unicamente na esfera institucional, mas sim nas ruas, dialogando, explicando e convencendo a nossa classe. É preciso mais do que as pontuais intervenções do STF, do TRE e dos governos estaduais, que não estão fora da manipulação da frágil democracia burguesa em prol das BigTechs e do imperialismo estadunidense. É necessário continuar ocupando as ruas e mostrando as nossas insatisfações com os representantes do bolsonarismo, do que há de mais cruel do projeto entreguista, contra a soberania do país.
Em Salvador, esses representantes possuem nome, sobrenome, partidos políticos e interesses de classe. Hoje, ocupando a prefeitura da capital baiana, é Bruno Reis, envolvido em escândalos de corrupção, de falta de participação popular na gestão da cidade e amigo íntimo de especuladores imobiliários, que ajudam a deteriorar ainda mais as condições de vida dos trabalhadores soteropolitanos.
Contra esse representante local do bolsonarismo, foi convocado um ato no dia 26 de outubro, às 14 horas, em frente ao prédio da prefeitura. O objetivo é denunciar a obstrução nas eleições para impedir que o eleitorado pudesse acessar as seções eleitorais.
Acreditamos, no entanto, que o resultado positivo deste segundo turno das eleições, reelegendo o presidente Lula ao quarto mandato, abre novas possibilidades para o ato. É necessário constranger Bruno Reis, Pablo Souza, ACM Neto e todos os representantes dessa intervenção contra as votações, mas é necessário ampliar o constrangimento.
A nosso ver, é o momento de evidenciar a ligação de ACM Neto com Daniel Vorcaro, inclusive de como ele é apontado pela Polícia Federal como líder da organização criminosa investigada na “Operação Overclean”. É também necessário criticar a falta de participação popular nos processos de revisão da legislação urbanística da cidade, bem como as ligações entre o grupo político carlista e a concessionária Integra.
Em síntese, é necessário desidratar a imagem pública deste grupo político, que pela primeira vez apoiou abertamente um candidato bolsonarista à presidência, e agora está enfraquecida aos olhos da classe trabalhadora de Salvador.
A partir de espaços como este ato, devemos fortalecer a crítica à esquerda e apresentar aos trabalhadores soteropolitanos a organização revolucionária de classe, germinando o poder popular, e garantindo que este grupo político seja finalmente derrotado. O bolsonarismo não será derrotado nos próximos quatro anos sem intensa organização da classe trabalhadora, em seus locais de moradia, trabalho, cultura, etc. E nós estaremos em Salvador e em todas as cidades do Brasil apresentando a perspectiva da revolução brasileira!
Entendemos que a mobilização dos trabalhadores demonstrou que a força da nossa classe está na organização independente e na luta coletiva. A disposição de luta expressa nas ruas não pode ser reduzida aos limites da conciliação de classes, nem confundida com apoio irrestrito ao programa do governo Lula. É nas conquistas arrancadas pela mobilização popular, e não na confiança nas instituições ou nos acordos com a burguesia, que reside a possibilidade de avançarmos na garantia de direitos e na defesa das liberdades democráticas.
Diante de qualquer tentativa de golpe ou restrição aos direitos democráticos, a resposta precisa ser a organização e a mobilização dos trabalhadores. Não podemos delegar a defesa do nosso futuro às instituições da burguesia: é a força coletiva da classe trabalhadora que pode barrar os ataques da extrema direita e abrir caminho para novas conquistas sociais.