Diante da Hegemonia Neoliberal, Construir a Alternativa Socialista: a posição eleitoral do PCBR nas eleições do Rio Grande do Sul de 2026
O Rio Grande do Sul é um estado de profundas contradições. Sede de um dos agronegócios mais poderosos do país, concentra riqueza no latifúndio exportador de soja, arroz e carne e em um setor industrial e comercial articulado ao capital financeiro. Do outro lado, a classe trabalhadora convive com o arrocho salarial, o endividamento, a precarização do trabalho e à diversas privatizações dos serviços públicos. A essa realidade soma-se a crise climática, que atinge o estado de forma cada vez mais violenta. As enchentes de 2024, que alagaram centenas de municípios, atingiram mais de dois milhões de pessoas e deixaram mais de cem mortos, não foram uma fatalidade da natureza, mas fruto de uma crise climática produzida pelo modelo de produção capitalista, pelo desmatamento, pela ocupação desordenada do solo e pela destruição ambiental em nome do lucro. Já naquele momento, o desastre mostrou quem paga a conta: o povo pobre das periferias e das áreas de risco, que perdeu casa, trabalho e vida, enquanto o poder público priorizava a recomposição dos lucros.
Em 2026, o estado voltou a sofrer com os efeitos do Super El Niño, que provocou temporais, vendavais, tornados e cheias de rios por todo o território. Em julho, o transbordamento dos rios Taquari e Caí deixou 143 municípios com danos, com famílias desalojadas, estradas bloqueadas e comércios e estruturas públicas destruídos. Novos alertas se repetiram em agosto, e a previsão é de que o fenômeno ainda não tenha acabado, com pico entre outubro e dezembro. Dois anos depois de 2024, não há reconstrução efetiva nem plano real de adaptação climática para quem vive nas áreas mais vulneráveis. A classe trabalhadora segue sofrendo com a perda de moradia e de renda, o aumento do custo de vida e o abandono do poder público, enquanto o Estado, preso ao ajuste fiscal e ao pagamento da dívida com a União, corta investimentos em saúde, educação e defesa civil. A crise é socializada com os trabalhadores, e a recuperação é privatizada em favor da burguesia.
É nesta conjuntura que em abril de 2026, a direção nacional do PT impôs ao seu diretório estadual a aliança com Juliana Brizola, do PDT, obrigando a retirada da candidatura de Edegar Pretto (PT) ao governo do estado. É a primeira vez em quarenta e quatro anos que o Partido dos Trabalhadores não terá um candidato a governador. Segundo eles, Juliana Brizola teria "melhores condições de aglutinar forças e disputar o segundo turno". Na lógica da "Frente Ampla contra o fascismo", um nome ligado ao centro seria uma opção mais viável tanto para impedir efetivamente a eleição de um nome da direita quanto para garantir o apoio de outras legendas à candidatura de Lula.
E a postura de Juliana Brizola nos primeiros debates entre os principais candidatos a governador reforça essa ideia. Ela se coloca como uma candidata moderada, que fala em acabar com a polarização, com as brigas e buscar o melhor para os gaúchos, como uma séria diretora escolar entre os malcriados Coronel Zucco (PL) e Gabriel Souza (MDB). Ao mesmo tempo, estando ligada aos esforços de campanha de Lula, sua base precisa levar essa polarização ao máximo, reforçando o pânico moral para a reeleição do atual presidente.
Entre os progressistas, o nome de Brizola foi aceito sem discussão pelas bases de PT, PSOL e PCdoB e já estampa adesivos eleitorais como a opção de Lula para o Rio Grande do Sul. Além da vinculação com o campo petista, o parentesco com uma das maiores lideranças brasileiras do século XX, Leonel de Moura Brizola, líder da Campanha da Legalidade — que impediu a primeira tentativa de um golpe militar contra João Goulart em 1961 —, tem servido como passe livre para propostas prejudiciais ao povo sul-rio-grandense, como, por exemplo, a instalação de uma "Cidade dos data centers" em Eldorado do Sul.
Ideia do governo Eduardo Leite, a intenção de construção de uma gigantesca estrutura de dados em um dos únicos pontos elevados de uma cidade castigada pelas enchentes de 2024 já foi denunciada pelo The Intercept Brasil no ano passado. Estes "galpões de IA" são uma das maiores fontes de poluição do mundo e uma verdadeira tragédia para comunidades próximas, que irão ver o custo da sua energia elétrica aumentar. Para Juliana Brizola, a instalação de um data center que em 2033 terá o mesmo consumo de energia que o estado inteiro em 2024 pode "gerar empregos, atrair novos investimentos e posicionar o nosso estado como um dos principais polos tecnológicos da América Latina".
Sobre o saneamento e o abastecimento de água, um dos principais problemas enfrentados pelos gaúchos depois da privatização da Companhia Riograndense de Saneamento (CORSAN) em 2021, a candidata apresenta uma postura fiscalista, sem comentar a possibilidade de reestatização da companhia, que foi vendida de maneira fraudulenta para a empresa AEGEA, que acumula acusações de compra de agentes públicos pelo país e que, estranhamente, no RS, tem no seu setor jurídico o ex-procurador Fabiano Dallazen. Acrescentar mais?
Chama atenção também a defesa abstrata do agronegócio como motor da economia gaúcha. Fica evidente a frágil tentativa de superar a resistência do "agro" com o PT e o desconhecimento da realidade do pequeno e médio produtor gaúcho, que está sufocado por dívidas com diferentes bancos. Em Ibirubá, no Planalto Meridional gaúcho, a cooperativa agrícola mais antiga do país soma mais de um bilhão em dívidas, incluindo as rescisões trabalhistas de 600 trabalhadores demitidos que ainda não foram pagas. Para estes setores, o bilionário Plano Safra do governo Lula não chega.
Enquanto fogem da reforma agrária e confortam o agronegócio, os governistas ignoram o fato de que este modelo, além de prejudicial, está falindo. Nos próximos anos, a China, hoje a principal compradora da soja brasileira, pretende depender cada vez menos das commodities agrícolas brasileiras, o que certamente afetará ainda mais o agricultor gaúcho, forçado pela dinâmica capitalista a ingressar na economia do "fazendão" desde os anos 1970.
Do outro lado, mas não muito longe, Luciano Zucco (PL), o candidato da extrema-direita que vem liderando as pesquisas, também apostou numa mudança de estratégia na campanha para o governo do estado.
Oficial reformado do Exército Brasileiro e defensor ferrenho das pautas bolsonaristas, ele aposta numa versão moderada de si mesmo, com campanhas publicitárias bem produzidas e um plano de governo extenso que fala de "mais saúde, mais educação, mais segurança" enquanto defende a participação mínima do estado, o corte de secretarias não especificadas e a desburocratização.
E se Brizola tenta provar que é uma defensora da propriedade privada, Zucco se esforça para provar que não difere em nada do liberal Eduardo Leite (PSDB): a vice de Zucco, Silvana Covatti, é do Partido Progressista (PP), que integrava o governo do estado até o início de 2026. Seu marido, Vilson Covatti, foi secretário estadual de Desenvolvimento Rural no governo Leite, e um dos filhos do casal, Covatti Filho, foi secretário de Agricultura do estado, também durante a gestão Leite. Para o agronegócio gaúcho, que no primeiro trimestre de 2026 bateu recordes históricos de lucro, Zucco e políticos como os Covatti são a certeza de continuar lucrando sem riscos, enquanto as mudanças climáticas causadas pelas suas atividades se agravam.
No fim, Juliana e Zucco se oferecem para continuar o projeto neoliberal de Eduardo Leite enquanto contam histórias diferentes para justificar a manutenção desse modelo.
Privatização da Corsan? Para Zucco, o problema não é ter vendido a água de milhares de pessoas, mas como e, de forma mais leve, para quem. A velha história da privatização mal feita versus bem feita procura ocultar o fato de que outros governos de direita pelo país também fecharam contratos com a AEGEA, superando a ideia de que privatizações de serviços públicos essenciais são sempre um golpe corrupto para lucrar sobre as necessidades básicas da população e não deveriam nem ser consideradas como alternativas em primeiro lugar.
Um data center no estado que vai acabar com o restante do setor energético depois da privatização (também no governo Leite) da Companhia Estadual de Distribuição de Energia Elétrica? Zucco também apoia. E, assim como Juliana, ele também apoia a instalação da empresa chilena Companhia Manufatureira de Papéis e Cartões (CMPC), uma indústria de celulose na Barra do Ribeiro, na Região Metropolitana de Porto Alegre, ignorando o Rio Guaíba, o bioma dos Pampas e os protocolos de consulta ao povo Guarani Mbyá que mora nesses territórios.
Esses exemplos pontuais, escolhidos entre muitos outros que aproximam as duas principais candidaturas ao governo do estado, mostram que a disputa Zucco versus Juliana é, na verdade, a imagem de um cenário sem alternativa que represente os interesses da classe trabalhadora e aponte na direção da superação dos problemas do Rio Grande do Sul.
Diante deste cenário eleitoral, fica evidente que não há, entre as principais candidaturas do estado, uma alternativa que represente os interesses da classe trabalhadora. Diante disso, fugindo de uma noção de voto útil que entrega os interesses de cada trabalhador e trabalhadora na mão da conciliação com a direita, nos voltamos para as candidaturas da esquerda revolucionária em nossa cidade, apresentadas pela UP e pelo PSTU.
Ao longo dos últimos quatro anos, buscamos construir as bases de uma sólida unidade de ação entre todas as organizações em nossa cidade, em cada ato, cada reunião e em cada ação combativa, estivemos unidos numa unidade que se forjou na luta. Nesse sentido, nós consideramos e apoiamos amplamente as candidaturas dos dois partidos, que vem, neste momento, apresentando alternativas diante de um processo profundamente dominado por diferentes formas do neoliberalismo, isto é, que em maior ou menor grau, não buscam enfrentar ou sequer resistir à ofensiva burguesa no Rio Grande do Sul.
Porém, entre as candidaturas da esquerda revolucionária que estão postas, avaliamos que o apoio à candidatura estadual do PSTU, na figura de Rejane Oliveira é a posição que deve ser adotada por cada comunista gaúcho. A candidatura de Rejane e Adão apresentam propostas como o fim do pagamento da dívida pública com a União, a defesa de um projeto de reindustrialização no nosso estado, a reestatização da CEEE, Corsan e da Sulgás, etc. São propostas que interessam a cada trabalhador do nosso estado, mas, ao mesmo tempo, são invisibilizadas mesmo no âmbito da esquerda.
Por isso, avaliando que o programa eleitoral apresenta propostas que dialogam com as angústias dos trabalhadores de nosso estado, dá nome aos inimigos da nossa classe e rejeita a conciliação com estes e que consegue, com muita clareza, apresentar o quão fundamental é a independência de classe neste momento, é que apoiamos o PSTU neste momento.
A construção, porém, não se encerra nas eleições. Devemos assim que possível construir desde a base a unidade do campo da esquerda revolucionária, conseguindo dialogar e construir uma alternativa para que nos próximos anos a independência de classe das nossas organizações possibilite a construção de uma alternativa socialista para toda a classe trabalhadora e povos oprimidos do Brasil!