Por Teses que Falem ao Povo: o papel das teses da UJC nos congressos estudantis
As teses não são algo secundário ou meramente acessório. Elas são parte essencial da disputa política e ideológica. Precisam ser estruturadas, em formato e linguagem, de acordo com nossos objetivos políticos e público-alvo. Convencer as massas, não pregar para convertidos.
NOTA EDITORIAL
Publicamos a seguinte tribuna por acreditar que ela contribui para os acúmulos que dizem respeito aos balanços e táticas para congressos estudantis. Apresenta críticas pertinentes sobre as teses apresentadas para CONEG, CONEB e CONUNE, e a relação delas com o trabalho de agitação e propaganda. Entretanto, reforçamos que essa tribuna apresenta uma divergência com a decisão do Comitê Central sobre a tática de teses conjuntas, que são diferentes das teses de cada organização.
Por Diego Vieira
AS TESES CONGRESSUAIS
Como é de praxe em todo congresso, especialmente no tipo a que esta tribuna se refere — os congressos de entidades estudantis —, são apresentadas teses políticas que, ao final, passam por votação em uma plenária final. Nessa plenária, as teses opostas são debatidas e, ao fim do processo, uma delas é aprovada e guiará a entidade pelos próximos anos.
Essas teses costumam abordar temas variados, que dependem da natureza e do foco de cada entidade. No entanto, de modo geral, há pontos comuns que atravessam quase todos os debates, como a análise de conjuntura — uma parte presente em praticamente todas as teses, pois diz respeito à avaliação da situação política e social do momento —; à educação (se tratando de congressos estudantis) etc. Além disso, algumas entidades incluem outros eixos temáticos, também integrados às teses, de acordo com seus objetivos e sua base de representação. De forma mais ampla, as teses expressam um debate de projeto político. Elas são, assim, uma formulação de uma análise particular da realidade — seja internacional, nacional, regional ou local — e uma tentativa de construir um projeto consequente para a categoria representada. É nesse sentido que as teses constituem o núcleo do debate político dentro dos congressos estudantis: elas sintetizam diferentes visões de mundo e estratégias de ação.
No entanto, é importante fazer uma distinção fundamental entre dois tipos de teses: as teses finais, que são efetivamente votadas nas entidades, e as teses apresentadas pelas organizações que disputam a direção dessas entidades. Essa diferença é central, pois as teses finais resultam de acordos políticos firmados entre diversas organizações. Elas são fruto de longas discussões e refletem o próprio contexto em que se desenrola o processo de campanha e de eleição de delegados até o momento da realização do congresso. Em muitos casos, essas teses finais são concluídas apenas durante o próprio evento, à medida que os debates avançam e as correlações de forças se consolidam. São, portanto, documentos construídos coletivamente e em constante disputa — o produto de uma síntese política mais ampla que emerge ao longo do congresso.
Além das teses finais, há também as teses iniciais — aquelas apresentadas por cada organização política antes mesmo da realização das etapas nacionais dos congressos estudantis. Em geral, essas teses são lançadas no período pré-eleitoral para serem apresentadas nas universidades, quando se trata de congressos universitários, ou nas escolas, no caso dos congressos secundaristas. Elas servem de base para as disputas eleitorais que ocorrem durante o processo congressual, muito antes de chegar à etapa nacional ou à fase final, quando o congresso é regional ou local. Essas teses iniciais representam, portanto, o primeiro contato das bases — sejam elas quais forem — com o congresso e com a mobilização política que se constrói em torno dele. É nesse momento que se inicia o debate mais amplo entre as diferentes linhas políticas, e é por meio dessas teses que cada organização apresenta sua leitura da realidade e suas propostas.
Tratam-se, assim, de teses muito mais específicas, que expressam de forma direta a linha política e o projeto de cada organização. É importante compreender que nem todas essas teses iniciais chegarão a se tornar as teses finais do congresso.
Fazer essa distinção é fundamental para entender o que se pretende discutir aqui. O ponto central desta tribuna é justamente abordar o papel e o significado das teses iniciais — aquelas que são apresentadas por cada organização. No caso específico da União da Juventude Comunista (UJC), trata-se de refletir sobre as teses que nós apresentamos, sobre como formulá-las e, sobretudo, sobre o porquê de fazê-las.
Um aspecto que reforça a importância dessa discussão é o fato de que ainda carregamos viva a experiência dos últimos congressos estudantis dentro do processo de reconstrução revolucionária. Essa memória recente permite que façamos um balanço mais consistente e uma avaliação crítica das nossas próprias formulações, com o objetivo de avançar politicamente nos próximos congressos que se aproximam. Nossos militantes e aproximados, que participaram diretamente dessas experiências, estão com a memória fresca sobre como se deu o trabalho em torno das teses e qual foi o significado político que elas tiveram. Isso nos coloca em uma posição privilegiada para aperfeiçoar o modo como formulamos nossas teses e como utilizamos esse instrumento de disputa política nos espaços estudantis.
Essa reflexão se torna ainda mais necessária diante da proximidade do Encontro Nacional de Grêmios (ENG) e o CONUBES — o Congresso Nacional da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas —, que ocorrerá já no primeiro semestre do próximo ano. É certo que a UJC apresentará suas próprias teses para o congresso, e, por isso, é importante promover dentro da organização um debate qualificado sobre esse momento fundamental. As teses iniciais são o instrumento por meio do qual apresentamos às bases o que defendemos, o que propomos e o projeto político que queremos construir.
O PONTO DE PARTIDA: PARA QUEM E PARA QUÊ?
Para começar, precisamos entender para quem estamos escrevendo teses e o que queremos com elas. É impossível pensar em formular qualquer tese sem antes ter essas reflexões iniciais. Na verdade, todas as nossas ações políticas precisam partir de um objetivo claro, previamente definido. A militância não pode se mover no improviso, no automático, sem direção. E é justamente esse o ponto central: não podemos simplesmente repetir mecanicamente o que já foi feito, da mesma forma e com os mesmos métodos, sem uma avaliação crítica. Falta ainda, em muitos casos, um entendimento mais profundo sobre o papel e os objetivos das teses que produzimos.
Como todo texto político, elas precisam responder a duas perguntas fundamentais: primeiro, quem é o público-alvo; e segundo, qual o objetivo que queremos atingir com elas. Só depois de sabermos para quem estamos escrevendo e o que queremos alcançar é que podemos definir o formato, a linguagem e o próprio conteúdo da tese.
O erro comum é achar que é o conteúdo em si — ou a “linha política” — que define o texto. Na verdade, é o contrário: é o público e o objetivo político (a tática submetida à nossa estratégia geral de disputa da entidade) que orientam a forma como nossa linha se expressa no texto. Se a gente não sabe para onde está indo, o que quer dizer ou quem vai ler o que estamos escrevendo, o resultado será inevitavelmente ineficaz. E isso vale não só para as teses, mas para qualquer produção política: uma matéria para o jornal, uma nota pública, um panfleto. Tudo precisa ser pensado a partir de quem queremos alcançar e o que queremos provocar. Esse tem que ser o entendimento mínimo de toda militância. Não é uma tarefa apenas para quem redige as teses, mas para cada camarada, em cada célula, em cada organismo de base. A clareza de objetivo e de público é o que transforma um texto político em uma ferramenta real de luta e convencimento.
E aqui é importante fazer uma crítica direta, que mais à frente vai ser desenvolvida, sobre nossas teses anteriores. Se a gente acha que é só o conteúdo que define o texto, sem levar em conta para quem ele é feito e com qual objetivo, o que acontece é exatamente o que temos visto há anos: textos chatos, sem conexão real com o público, que se resumem, em grande medida, a uma pregação para convertidos. E olhe lá, porque nem mesmo para os próprios militantes esses textos têm sido tão eficazes. O que se repete muitas vezes é um bê-a-bá automático, reproduzido como se por papagaios, sem reflexão, sem ligação viva entre o que está escrito — o conteúdo, a linha política — e o movimento real, concreto, do dia a dia das bases e dos camaradas, salvo raras exceções.
Quando a gente não pensa essa relação entre forma, público e objetivo, o resultado é esse: uma comunicação que não comunica. Um discurso que circula apenas entre os já convencidos e que não chega a tocar ninguém fora do nosso círculo. E se a gente não se conecta com as pessoas, não há como disputar. O nosso trabalho, afinal, é disputar corações e mentes, como se repete tantas vezes. Mais do que isso, é elevar a consciência de classe, travar a disputa ideológica contra as posições mais atrasadas, aquelas que arrastam para trás o movimento e a consciência dos trabalhadores. Mas para disputar, para elevar a consciência, é preciso se conectar. É preciso que a nossa palavra chegue de forma viva, compreensível e convincente. Sem isso, não há avanço político, não há enraizamento real — apenas repetição estéril.
Mas, afinal, quais são os objetivos das nossas teses? Ou melhor, para que servem as teses que apresentamos?
PARA QUE SERVEM AS TESES?
Elas servem, antes de tudo, para demarcar a nossa posição política. E é preciso ter clareza de que nós não estamos escrevendo (somente) para os quadros mais avançados de um partido marxista-leninista, com parágrafos numerados e formulações teóricas densas (tal qual vemos em congressos partidários). As nossas teses têm um caráter essencialmente agitativo. Elas são instrumentos de agitação e de formação política, voltadas para mobilizar e orientar a militância.
O primeiro objetivo, portanto, é agitar dentro da nossa própria militância, especialmente entre a base. As teses precisam dialogar com os camaradas que estão no chão da escola, das universidades, nos locais de atuação cotidiana. Elas precisam garantir que esses militantes compreendam nossa linha política — e não apenas de forma abstrata, decorada —, mas que consigam fazer as conexões concretas entre a linha geral e a realidade particular. Mais do que papagaios que repetem, precisamos formar quadros orgânicos, capazes de formular, interpretar e desenrolar a nossa linha política na prática.
Em segundo lugar, as teses servem para apresentar nossa posição às massas independentes. E, mais do que apresentar, é preciso convencer. As teses têm que ser compreensíveis e persuasivas, de modo que, ao lê-las, os estudantes e trabalhadores percebam nelas uma proposta mais avançada, mais coerente e mais consequente do que as demais posições políticas em disputa. É isso que deve se expressar no conteúdo e na forma das nossas teses: a clareza de que o direcionamento correto para nossa classe está ali.
O terceiro objetivo é o diálogo com outras organizações políticas. As teses cumprem o papel de declaração pública — uma forma de mostrar às demais forças políticas quais são nossas diferenças e também nossas convergências. É um passo inicial importante para a construção posterior das teses finais e, mais amplamente, para qualificar o debate político entre as organizações que disputam o movimento estudantil e os congressos.
Esses, portanto, são os objetivos fundamentais das nossas teses, numa visão inicial: agitar a militância, disputar as massas e dialogar politicamente com outras forças. Se a gente entende para que servem as nossas teses, então daí também conseguimos tirar como elas devem ser construídas: qual o formato, qual a linguagem, qual o modo de apresentar o conteúdo.
As teses precisam, antes de tudo, ser coesas e acessíveis. Isso significa que elas têm que estar escritas em uma linguagem que faça sentido para quem vai ler. Todos os pontos que aparecem nelas precisam estar amarrados entre si, conectados de forma lógica e compreensível. Não dá para falar, por exemplo, do arcabouço fiscal de maneira abstrata, e logo em seguida mudar de tema bruscamente, como se a ligação entre uma coisa e outra fosse óbvia. Para quem já está acostumado com o debate, essas conexões parecem naturais. Mas para quem está sendo apresentado a esses temas pela primeira vez — ou pelas primeiras vezes com mais firmeza —, essas passagens precisam ser construídas dentro do próprio texto, não ser uma listagem de pautas mecanicamente articuladas. Por isso, é fundamental que cada ponto tenha encadeamento e sentido político. Não basta afirmar que algo é ruim e pronto: é preciso explicar por que é ruim, quais são as consequências concretas e como isso afeta a vida real das pessoas. Essa explicação precisa estar sempre ligada à experiência prática das bases.
Se estamos falando, por exemplo, das universidades, temos que mostrar de forma direta como o arcabouço fiscal impacta cada estudante: o corte de verbas, a piora nas condições de ensino, a precarização dos serviços, o sucateamento das estruturas. Não é necessário entrar nas particularidades de cada universidade, mas é essencial abordar as generalidades concretas, aquilo que é comum a todas — o que permite que qualquer estudante reconheça sua própria realidade ali. Essa conexão entre o geral e o particular, entre a política nacional e a vida prática, é o que dá força às nossas teses. É isso que torna o texto capaz de convencer, de elevar a consciência e de mobilizar à ação. O nosso objetivo tem que ser esse: que mesmo o leitor mais leigo, o mais atrasado politicamente, consiga compreender e se identificar com o que está sendo dito. Que ao final da leitura, ele não apenas concorde, mas entenda por que está concordando — e sinta-se parte dessa luta.
Outro ponto fundamental é que as nossas teses precisam ter um caráter polemista. Elas não podem ser textos neutros, descolados do confronto político real, como meras apresentações do que acreditamos e uma espécie de “deixemos que as outras organizações apresentem suas opiniões”, cada uma vivendo num vácuo. Devem ter também um caráter prático, capaz de instruir tanto os nossos militantes quanto os independentes que vão ler sobre as diferenças entre as diversas posições políticas que estão em disputa nos congressos.
É verdade que, muitas vezes, quando publicamos as nossas teses, outras organizações ainda não tornaram públicas as delas. Mesmo assim, esse caráter polemista precisa existir. E, caso não caiba completamente dentro das teses em si, devemos produzir materiais complementares — algo que, inclusive, já foi aprovado em resoluções do partido e que precisamos colocar em prática. Há, sim, espaço para isso dentro das próprias teses, como vimos no CONUNE (Congresso da UNE), onde se expressou, ainda que de forma limitada, uma polêmica entre o campo majoritário e a oposição. Esse tipo de confronto político precisa ser aprofundado, e não de maneira genérica, mas com base em experiências concretas. Não basta dizer “há imobilismo” ou “há oportunismo” em abstrato — precisamos dar nome aos bois, apontar diretamente as outras organizações, citar práticas concretas e contrastar com a nossa própria experiência de direção nas entidades — inclusive fazendo a autocrítica quando reconhecermos que estamos aquém do ideal. Só assim conseguimos demonstrar, de forma viva e concreta, o que diferencia o nosso método, a nossa política e a nossa prática das demais. E se os outros partidos ou coletivos não concordarem com as críticas, que se justifiquem. Esse é o terreno em que a disputa ideológica deve ser travada.
Inclusive dentro da oposição de esquerda, a polêmica é necessária. Ela tem outro caráter, é verdade — seu objetivo é contribuir para a construção da síntese das teses finais, que são apresentadas coletivamente. Ainda assim, precisa acontecer, porque as disputas têm sido construídas, em geral, em chapas solo, com cada organização atuando sozinha durante o processo de campanha e eleição.
Esse modelo de chapas solo (ou chapas puras), isoladas durante todo o percurso, e que só se juntam em uma chapa conjunta no momento final do congresso nacional, é problemático. A diferença entre uma mera soma de partes separadas e uma totalidade construída na relação entre as partes é decisiva: quando as forças trabalham juntas desde o início, dividindo tarefas e construindo uma campanha coletiva (como o faz a majoritária), os resultados são muito mais sólidos e produtivos, tal como ocorre na evolução histórica do capitalismo com a manufatura e a fábrica — onde a divisão do trabalho e a cooperação produzem avanços muito maiores do que o trabalho fragmentado. O resultado não é a soma de forças, mas a perpetuação de uma esquerda fracionada, que se torna incapaz de apresentar uma alternativa hegemônica e crível. É um ponto que merece uma crítica mais detalhada que apenas um parágrafo — que ainda pretendemos desenvolver futuramente numa tribuna específica.
De toda forma, independentemente da tática adotada — se vamos atuar com chapa conjunta desde o início ou chapas separadas no começo —, o elemento polemista tem que estar presente. Ele é didático para a militância, porque ajuda os camaradas a entender, desde as teses, quais são as diferenças políticas reais em jogo.
É pouco provável que todos os militantes consigam, no ritmo da campanha, ler não só as nossas teses, mas também as de todas as outras organizações em disputa. Por isso, é importante que já nas nossas próprias teses — especialmente no nível nacional — essas diferenças estejam colocadas com clareza. Depois, cada militante, em cada região ou localidade, pode aprofundar e desdobrar essas polêmicas conforme as particularidades regionais e locais.
NOSSAS TESES PASSADAS
A partir dessa compreensão, podemos passar para a análise das nossas últimas teses, tanto para o CONUBES quanto para o CONEB e CONUNE. O que fica claro, inclusive a partir de discussões com os camaradas que dirigiram estes processos no Ceará, é que nossas teses não cumpriram praticamente nada daquilo que foi apresentado acima. Na prática, elas foram o suprassumo da pregação para convertidos.
Elas apresentam elementos importantes, sim, mas de forma pouco interessante, carecendo de conexões que tornem o texto compreensível. Muitas vezes os pontos aparecem soltos, gerais e desconectados, em uma apresentação que não está organizada de modo que faça sentido. Na verdade, elas funcionam como um agregado de leituras e posições políticas, mas sem coerência ou coesão, sem uma preocupação concreta com quem vai receber e ler essas teses. Não há, na escrita dessas teses, uma reflexão sistemática sobre público, linguagem ou objetivo. Isso transparece na forma como foram produzidas: colagens mecânicas da nossa linha política. Mesmo que o conteúdo seja o mais avançado que se há — se não acreditássemos nisso, não estaríamos neste partido ou daríamos todo nosso suor, dedicação e esforço para levá-las ao máximo de impregnação no debate político —, não basta o conteúdo ser bom para convencer.
O problema é que uma linha política excelente, quando apresentada de forma ruim, com linguagem academicista, formato confuso e apresentação desorganizada, tem seu poder de convencimento drasticamente reduzido. Não se sustenta por si só; não consegue convencer. Para que nossas teses cumpram seu papel político, elas precisam unir conteúdo de qualidade com forma eficaz, linguagem acessível e conexões práticas com a realidade das bases.
Vamos pensar no público-alvo das nossas teses, que, na prática, é grosseiramente ignorado. Quem é esse público? São estudantes, mais ou menos politizados, abrangendo inclusive uma massa de estudantes não politizados, mas que se relacionam com suas entidades estudantis.
É importante diferenciar o movimento universitário do movimento secundarista. Começando pelo universitário, a experiência mostra que existe uma certa facilidade de entendimento. Em geral, estamos lidando com pessoas adultas, acostumadas a leituras, linguagens mais densas e a debates políticos mais elaborados (estes aqui pelo menos nos cursos de humanidades). Elas tendem a acompanhar melhor as discussões e a estar mais por dentro da política. Mesmo assim, a prática revela que isso não garante o convencimento. Há um desconhecimento generalizado sobre vários pontos fundamentais que discutimos. Por exemplo, quando se fala sobre o arcabouço fiscal e privatização, mesmo dentro da universidade, muitos estudantes não têm clareza sobre o que isso significa de fato e suas consequências.
O ponto central, portanto, é que precisamos conectar o discurso geral com o discurso de base, de forma que faça sentido para quem está recebendo a mensagem. Hoje, os documentos e teses que produzimos não nos preparam adequadamente para disputar com outras organizações, nem nos dão instrumentos eficazes de convencimento.
Quando vamos para o movimento estudantil secundarista, o problema se agrava ainda mais. É insano que a forma como escrevemos nossas formulações políticas — que, novamente, são pensadas praticamente só para os quadros mais avançados — não tenham qualquer conexão com os secundaristas, que em geral são menos politizados ainda. Só existe essa conexão quando estamos presencialmente explicando, convencendo e fazendo o próprio esforço de vincular essas ideias à realidade dos estudantes.
Aqui vale um parêntese sobre as nossas teses para o CONEF (Congresso dos Estudantes de Fortaleza), que aconteceu em outubro. Para esse congresso, escrevemos teses levando em conta os fatores mencionados acima, apesar de não até suas últimas consequências por questões de tempo e disponibilidade. Reconhecemos que essas teses não são perfeitas e ainda há muito espaço para melhorias. Mesmo assim, essas teses para o CONEF foram provavelmente as melhores que a UJC já escreveu para um congresso desde o racha (possivelmente até de anos anteriores, porém não temos tempo para realizar a crítica adequada).
Basta observar os primeiros parágrafos de cada uma de nossas teses anteriores que a diferença fica patente:
Nas teses do CONEF, já na primeira frase temos sua razão de existir: "Nossas escolas estão precarizadas". É um fato que qualquer estudante imediatamente consegue concordar e é por isso que nos mobilizamos em primeira instância. Mas não basta somente falar de precarização em abstrato, o parágrafo prossegue dando alguns exemplos concretos, ressoando o que vivemos e o que ouvimos em praticamente todas as escolas que visitamos: falta de estrutura, abandono escolar. E então a resposta que ouvimos do governo e a causa destes problemas: falta de verbas, cortes na educação. Expomos então as contradições de não ter verba para o povo, mas verba para uma série de outros gastos. E por que isto acontece? Porque esta é a política do capitalismo dependente brasileiro: isto que que é o projeto da burguesia, que quer ter os lucros acima de tudo. Privatizando a energia, que todo estudante consegue reconhecer como não está boa, desmatando as florestas, fazendo guerras, nos matando de trabalhar. Há uma linha de desenvolvimento que é: nossas escolas estão precarizadas – e isso não é natural; pelo contrário, é culpa do capitalismo. Logo em seguida fazemos todo o esforço para explicar e conectar estes problemas imediatos ao Arcabouço Fiscal, à conciliação de classes, às privatizações, reforma administrativa etc. Um esforço limitado, é claro, mas louvável.
Comparemos com as teses para o CONUBES: a primeira vez que a palavra educação é sequer citada só se dá no 7º parágrafo (!), e lateralmente para explicar o Arcabouço Fiscal, e não o contrário; e só na segunda seção (educação) que se começa a finalmente falar sobre as escolas brasileiras (em um congresso secundarista!), e num tom bastante deslocado do dia a dia do estudante. Discutem-se as medidas neoliberais, a precarização capitalista, a história e função da escola no capitalismo apenas em termos abstratos e teóricos. Isto para estudantes que justamente estão nessas mesmas escolas precarizadas e, no mais das vezes, estão ouvindo pela primeira vez falar de neoliberalismo, escola burguesa e toda a ladainha de jargões que repetimos!
Nas teses do CONEB, é só no 14º parágrafo (!!) que aparece a palavra "educação", também somente para explicar o Arcabouço Fiscal. A deterioração das condições de vida permanece abstrata. "Estudantes" aparece somente no 20º parágrafo, para dizer que o capitalismo os afeta. Como? Faça você a conexão. Novamente, é só na segunda seção (educação) que vemos a situação das nossas universidades. Essas teses, ao menos, já são bem melhores ao fazerem o esforço de explicar o que estão mencionando e o por que são ruins determinadas políticas.
Nas teses do CONUNE, educação aparece somente no parágrafo 12, como uma das áreas que a privatização ataca (como? Descubra). No 16º parágrafo, finalmente, temos algumas das formas de como uma das pautas (no caso a escala 6x1) afeta justamente quem está lendo o texto: os estudantes. É um avanço, ainda que tímido, fazer essa ligação.
Podem dizer: “mas as teses são assim porque são feitas pensando em apresentá-las como teses finais, caso saíssemos sozinhos, e por isso seguem a divisão estrita das entidades e a forma da plenária final”. E entretanto não saímos sozinhos. Não apresentamos essas teses ao final para votação — mesmo que fizéssemos, sabemos que ninguém lê as teses finais, principalmente não os delegados. Ou seja: são feitas para um fim inútil ou que de antemão sabemos que não irá se concretizar? Então nem sequer devíamos fazê-las. Mesmo que fossem apresentadas e lidas, nada muda o fato de que, em essência, não dialogam em nada com a base estudantil que queremos mobilizar — não sem um intermediário “traduzindo” as teses. E os seus verdadeiros fins enquanto teses da UJC: são elas que baseiam nossos panfletos, nossos posts, nossa formação militante e nossos diálogos com as bases. Assim, somente as teses do CONEF representam um esforço claro de coesão e de aproximação com a realidade prática dos estudantes. Elas já servem como um norte sobre como devem ser nossas teses no futuro.
E, mesmo com essas teses, tivemos dificuldade em dialogar com muitos grêmios, nos quais era necessário explicar o be-a-bá da política, totalmente desconectados de certas coisas que tomamos como dadas. Essa situação decorre da realidade de despolitização do MES, em que muitos grêmios e escolas se encontram hoje. Nesses grêmios, que inicialmente não compreendem a situação, é possível perceber que, com uma explicação, eles podem assumir posições mais avançadas. Isso é diferente de simplesmente lidar com um operário atrasado que, por divergência política, ainda mantém concepções reacionárias ou burguesas.
ALGUMAS QUESTÕES
Pois é importante esclarecer, nesse ponto, que quando falamos de setores com consciência mais atrasada ou de dificuldades com secundaristas, não estamos nos referindo a setores conscientemente atrasados, no sentido de adotar posições políticas reacionárias. Estamos falando de grupos que, muitas vezes, desconhecem sequer a possibilidade de políticas revolucionárias.
Aqui é preciso combater uma crítica que pode surgir: não estamos rebaixando nossas teses para adequá-las às camadas mais atrasadas. Muito pelo contrário. O objetivo é que nossas teses sejam acessíveis às camadas de consciência média e, quando possível, também às mais atrasadas, mas sempre puxando para frente, estimulando o avanço da consciência política.
O foco de alteração está na linguagem e na apresentação, não no conteúdo em si. Não se trata de rebaixar a linha política; ao contrário, o conteúdo continua firme e avançado como deve ser. Podemos até selecionar os pontos mais estratégicos para cada contexto, recortar o conteúdo sem nunca rebaixá-lo, guiando os objetivos do congresso e avançando a consciência geral das categorias de estudantes ou trabalhadores. Em resumo, tornar as teses acessíveis não significa comprometer a linha política; significa transformá-la em instrumento de convencimento e formação política efetiva.
Por outro lado, também pode vir uma crítica ao destacar que as teses só servem quando complementadas pelo trabalho cara a cara, pelo contato direto, pela conversa e pela explicação de um militante real. Essa crítica pode vir no sentido de que estaríamos querendo negar o trabalho prático, como se teses bem escritas resolvessem sozinhas o problema do convencimento.
Mas essa crítica foge completamente do ponto. Em nenhum momento se está dizendo que devemos parar de fazer o convencimento prático — de conversar presencialmente com cada pessoa, com cada entidade, com cada grêmio, centro acadêmico ou diretório central. Isso é óbvio, é a força motriz da nossa política, e não há qualquer contestação possível quanto a isso.
Contudo: não é porque o trabalho prático é essencial que as nossas teses devam ser secundárias, fechadas em si mesmas ou servindo somente a nossos quadros. Seria burrice ignorar como as teses se espalham para muito além do que conseguimos alcançar presencialmente. Mesmo sem falar em redes sociais, a simples publicação das teses em jornais, sites ou panfletos já garante um alcance muito maior do que o das conversas individuais. Seria insensato ignorar que os textos, por si só, também têm poder de convencimento. E, mais do que isso, um bom texto ajuda a formar militantes com maior capacidade de convencimento, porque oferece uma base sólida, uma linha argumentativa coerente e estruturada, que dispensa ter que reinventar tudo a cada conversa.
Portanto, não se trata de ignorar o trabalho cara a cara, mas de entender que as teses não são algo secundário ou meramente acessório. Elas são parte essencial da disputa política e ideológica. São o norte político que guia a nossa atuação nos congressos, servindo para instruir, formar e direcionar os próprios militantes que depois farão o trabalho prático de convencimento. Mesmo que, no contato direto, as teses escritas não sejam o instrumento principal, elas são a base teórica e política que sustenta todo o processo de formação e atuação da militância.
POR TESES QUE FALEM AO POVO
Para alguns comentários finais, acreditamos que as nossas teses carecem de uma introdução. Uma introdução que explique o que são as teses e o que é o congresso. Muitas vezes, temos que fazer esse trabalho presencialmente, explicando para cada pessoa ou entidade. Se isso estivesse de forma clara nas teses, facilitaria muito o processo. Não se trata de detalhar o regimento ou aspectos técnicos, mas sim de apresentar um panorama de como avaliamos a UNE, a UBES e as entidades gerais que estão sendo disputadas. Hoje, as teses seguem uma estrutura muito mecânica: conjuntura direta, seca, falando do Brasil e do mundo sem conexão com o congresso que está acontecendo, e depois pulando para algumas pautas específicas. Não guiam o leitor pelo seu conteúdo. Falta pensar as teses também com um caráter didático — didático tanto para a nossa militância quanto para pessoas que estão se aproximando da nossa linha política pela primeira vez. A introdução precisa explicar o que é o congresso, como se dá a disputa e o decorrer das teses. Não podemos falar da conjuntura apenas pela conjuntura; é preciso mostrar por que falamos dela e sua relevância, conectando o debate internacional e nacional à realidade local, de forma coerente e compreensível.
Portanto, é necessário repensar a estrutura das próximas teses: todo o formato, a linguagem, sempre com os objetivos políticos previamente estabelecidos e considerando o público-alvo, especialmente no CONUBES que se aproxima, onde estaremos lidando com estudantes secundaristas que muitas vezes não têm contato com entidades estudantis ou com a luta política organizada.
A didática não é apenas uma questão de forma; ela potencializa nosso trabalho em todas as etapas: desde a apresentação inicial até a formação dos delegados, garantindo que estes compreendam com clareza o que defendemos e por quê.
Em síntese, nossas teses não são apenas documentos ou peças formais; elas são instrumentos políticos fundamentais. Devem ser coesas, acessíveis, conectadas à realidade e didáticas, permitindo que tanto militantes quanto estudantes compreendam e se engajem com nossas posições. A função delas vai além da exposição de conteúdo: orientam a atuação da militância, estruturam o convencimento e sustentam o diálogo com as bases e outras organizações. Pensar, construir e apresentar as teses de forma clara e estratégica é, portanto, essencial para o sucesso político em qualquer congresso estudantil. Precisamos de teses que falem ao povo.