Organização partidária no âmbito produtivo: a intervenção do PCTE na Conferência da Ação Comunista Europeia

Discurso de abertura do PCTE na Teleconferência da ACE, realizada em 6 de maio de 2026 com o tema: “As tarefas dos comunistas na organização do Partido Comunista nos locais de trabalho e nos bairros operários”

Organização partidária no âmbito produtivo: a intervenção do PCTE na Conferência da Ação Comunista Europeia
Contribuição do PCTE na Conferência da Ação Comunista Europeia". Foto/Reprodução: PCTE

Disponível em: Organización partidaria en el ámbito productivo: la intervención del PCTE en la conferencia de la Acción Comunista Europea

Primeiramente, em nome do PCTE, gostaria de agradecer a todos os Partidos presentes pelo comparecimento e quero, também, dedicar um momento para relembrar o nosso camarada Tibor Zenker, presidente do Partido do Trabalho da Áustria, de quem, sem dúvida, sentiremos falta nas atividades da Ação Comunista Europeia. Lamentamos profundamente seu falecimento e transmitimos nossas mais sinceras condolências aos camaradas da Áustria.

Quero começar esta teleconferência e nossa intervenção assinalando que, para o Partido Comunista dos Trabalhadores da Espanha, o tema que abordamos hoje tem um caráter estratégico de primeira ordem. Consideramos que a troca de experiências entre nossos Partidos é uma ferramenta fundamental para o desenvolvimento de nossa prática política. A experiência acumulada do movimento comunista internacional é uma condição necessária para corrigir erros, elevar nosso nível de intervenção e avançar no desenvolvimento das posições revolucionárias em nossos respectivos países. Por isso, a intervenção de nosso Partido hoje tem como objetivo expor aos nossos camaradas as dificuldades que enfrentamos no desenvolvimento partidário nos locais de trabalho.

No caso da Espanha, como em outros países europeus, a influência do eurocomunismo marcou uma etapa histórica cujas consequências ainda se fazem sentir. O eurocomunismo representou, dentre outras coisas, um afastamento progressivo do Partido em relação aos espaços fundamentais da vida da classe trabalhadora. Em particular, a renúncia a construir e sustentar uma organização própria nos locais de trabalho e nos bairros operários significou, na prática, a desaparição da presença comunista nos locais onde se expressam de forma direta as contradições do capitalismo. Nossa reflexão a esse respeito é clara e compartilhada com os demais Partidos da ACE: quando o Partido deixa de estar presente onde a classe está, deixa de atuar como uma vanguarda organizada da classe e se transforma em uma estrutura com um caráter predominantemente institucional, separada da luta cotidiana.

Nós partimos do princípio de que a centralidade dos locais de trabalho é inquestionável. É no processo produtivo que se concretiza a relação de exploração entre capital e trabalho, sendo ali onde a classe trabalhadora pode desenvolver sua consciência através da experiência coletiva da luta. Portanto, a reconstrução da organização comunista em fábricas, centros logísticos, oficinas e outros espaços produtivos não é para nós uma questão tática, mas o núcleo de uma estratégia revolucionária coerente. A existência de células e estruturas partidárias nesses espaços permite não apenas intervir em defesa das condições imediatas da classe, mas também elevar esses conflitos a um entendimento político mais amplo, orientado à superação do sistema capitalista.

Da mesma forma, os bairros operários constituem espaços decisivos para a organização da classe trabalhadora. Neles se desenvolvem relações de solidariedade, formas de vida coletiva e também as consequências diretas da exploração: problemas de moradia, acesso à serviços e precariedade da vida. A perda da presença comunista organizada nesses espaços facilitou o avanço de dinâmicas individualistas, clientelistas ou até mesmo reacionárias. Por isso, a reconstrução da organização nos bairros operários não pode ser entendida como uma tarefa separada do trabalho nos locais de trabalho, mas como uma dimensão complementar e necessária da mesma estratégia.

Justamente a partir dessa análise e compreensão, nosso Partido formulou a orientação que denominamos de “giro operário”. Com este termo nos referimos a uma reorientação consciente e sistemática de nossas forças para a intervenção partidária na esfera produtiva, acompanhada da reconstrução da organização nos espaços de moradia da classe trabalhadora, de modo a superar as dinâmicas nocivas do eurocomunismo.

O giro operário é uma linha de trabalho que busca restabelecer a conexão orgânica entre o Partido e a classe. Neste sentido, não falamos em intervir na “sociedade em geral”, mas de concentrar esforços naqueles setores e territórios onde a classe operária tem um peso determinante e onde a relação entre local de trabalho e bairro é mais direta.

O giro operário, além disso, pretende superar outra tendência que durante muitos anos esteve presente na Espanha e, também, em nosso Partido. Me refiro à concepção do trabalho partidário como uma presença passiva nos conflitos operários. Nossa convicção é que não basta “estar” nas lutas da classe, mas que é necessário construir uma organização própria capaz de dar a esses conflitos continuidade, direção e perspectiva política. Somente por meio de estruturas comunistas estáveis é possível desenvolver a consciência de classe, articular as distintas lutas parciais e vincular as reivindicações imediatas com um horizonte socialista-comunista.

No entanto, o desenvolvimento desta orientação não está isento de dificuldades. Nosso Partido enfrenta condições objetivas e subjetivas que condicionam a sua aplicação prática. Em primeiro lugar, devemos levar em consideração a configuração atual da produção capitalista na Espanha. A estrutura produtiva se caracteriza por altos níveis de precariedade, rotatividade de mão de obra, subcontratação e fragmentação da força de trabalho. Somam-se a isso fenômenos como o teletrabalho ou a dispersão geográfica dos centros produtivos. Essas condições dificultam enormemente a criação de núcleos estáveis de militância nos locais de trabalho e exigem formas de intervenção mais complexas e contínuas ao longo do tempo. Nos locais onde contamos com grandes centros de trabalho, nos deparamos com a existência de fortes organizações sindicais que nos geram problemas distintos.

Em segundo lugar, partimos de uma debilidade acumulada durante décadas. A reconstrução da organização comunista nos espaços de vida e trabalho da classe não é imediata. Requer quadros formados, experiência prática e uma capacidade organizativa que deve ser desenvolvida progressivamente. Enfrentamos, portanto, a necessidade de recuperar o terreno perdido ao longo de várias décadas, o que exige um esforço contínuo e planificado.

Outra área de especial complexidade é a relação com o movimento sindical. Na Espanha, a intervenção nos locais de trabalho é fortemente mediada por grandes organizações sindicais, que contam com estruturas consolidadas e dinâmicas próprias. Para nosso Partido, a questão não é se devemos ou não intervir no âmbito sindical, mas como fazê-lo. É necessário encontrar um equilíbrio que permita participar nas lutas concretas sem diluir o próprio perfil político, evitando tanto o isolamento como a subordinação a lógicas alheias à estratégia revolucionária.

Soma-se a essas dificuldades um problema de caráter político e ideológico. Formular a centralidade da classe operária é relativamente simples. O que é realmente complexo é manter essa orientação na prática cotidiana. As pressões do contexto político, sejam elas de natureza institucional, midiática ou vinculadas a outras dinâmicas sociais, podem levar à dispersão de esforços ou a confusão de prioridades. Manter uma linha coerente de intervenção nos centros de trabalho e nos bairros operários exige, portanto, um alto nível de disciplina organizativa e clareza estratégica.

Diante dessa situação, nosso Partido considera que as tarefas imediatas devem orientar-se, em primeiro lugar, a concentração de forças. Frente à dispersão, é necessário priorizar determinados setores da produção onde existam condições mais favoráveis para a inserção: seja pelo tamanho da força de trabalho, seu grau de estabilidade ou nível de conflituosidade existente. Essa concentração permite acumular experiência, consolidar núcleos de militância e gerar exemplos práticos de intervenção eficaz.

Levando em consideração esses elementos, nosso III Congresso aprovou que os subsetores nos quais o PCTE concentrará seus esforços organizativos durante esses anos sejam os seguintes: indústria automotiva, indústria química, indústria alimentícia e cadeias de distribuição, transporte ferroviário e aéreo, grandes plataformas logísticas, saúde, educação e serviços sociais, TIC [1] e defesa.

Paralelamente, é imprescindível reforçar a formação de quadros. A vontade política, sendo necessária, não é suficiente. Nossos militantes devem estar preparados para intervir nas lutas operárias com conhecimento das condições concretas e das dinâmicas sindicais. Devem ser capazes de distinguir entre as tarefas próprias do Partido e as que correspondem ao âmbito sindical, bem como avaliar, em cada momento, como a intervenção sindical pode contribuir ao desenvolvimento partidário, algo que não está isento de dificuldades.

Em relação ao exposto acima, é fundamental contar com uma tática clara em relação ao movimento sindical. Isso implica estabelecer critérios sobre a participação em estruturas existentes, sobre as formas de intervenção dentro delas e sobre os limites dessa participação. Sem uma orientação definida, cada conflito corre o risco de ser abordado de forma improvisada, o que dificulta a acumulação de experiência e a construção de uma linha de trabalho coerente. Nosso Partido conta, desde 2020, com os documentos aprovados na III Conferência de Movimento Operário e Sindical, que orientam nosso trabalho neste sentido e que criaram dois mecanismos de organização e desenvolvimento do trabalho interno: as comissões setoriais, para planificar a presença organizada do Partido nos setores prioritários, e as frações vermelhas, para organizar o trabalho comunista dentro das diferentes organizações sindicais.

Por fim, é imprescindível reforçar a conexão entre o trabalho nos locais de trabalho e a intervenção nos bairros operários. A organização comunista nos locais de trabalho precisa apoiar-se em redes de socialização, solidariedade e vida coletiva que se desenvolvem nos espaços de moradia da classe operária. Isso se traduz em tarefas concretas: presença territorial organizada, trabalho em torno das condições de vida, articulação de redes de apoio e vinculação dessas lutas com as que se desenvolvem no âmbito produtivo.

Em conclusão, dadas as condições iniciais, o “giro operário” é uma necessidade estratégica cujo desenvolvimento exige tempo, esforço e uma orientação clara, mas constitui uma condição indispensável para que o Partido recupere seu caráter de vanguarda organizada da classe operária e possa contribuir de maneira efetiva à luta pelo socialismo-comunismo.

 Notas:
[1] Setor de Tecnologia da Informação e Comunicação.