O atravancamento das tribunas e o atraso do debate político

As tribunas de debate estão atravancadas, acumulando-se enquanto esperam uma “avaliação rigorosa” e resposta para só então serem publicadas. A morosidade mata a política pela burocracia… Respondemos: faz menos mal uma tribuna incorreta no tempo certo, do que uma tribuna correta no tempo errado!

O atravancamento das tribunas e o atraso do debate político

NOTA EDITORIAL

No espírito partidário e com o objetivo de organizar a polêmica pública, publicamos o texto a seguir, intitulado “O atravancamento das tribunas e o atraso do debate político”. O texto apresenta uma crítica severa ao funcionamento do Conselho Editorial e à periodicidade das publicações na Tribuna de Debates. No entanto, a contribuição demonstra um profundo desconhecimento do atual estágio organizativo do Partido e das atribuições reais do Conselho Editorial.

O autor reduz o trabalho de triagem e avaliação a uma "leitura superficial", ignorando que a função do CE, conforme estabelecido no V Pleno do Comitê Central, não é apenas de um "filtro burocrático", mas de um organismo de direção ideológica. O Conselho Editorial tem o mandato de garantir que a polêmica pública seja organizada, científica e que contribua para a unidade de ação, o que exige tempo para análises que evitem a publicação de textos que possam ser prejudiciais à estratégia revolucionária em momentos sensíveis.

A contribuição atenta contra a própria Normativa para o Editorial de Tribuna de Debates em pontos fundamentais de sua conformação e aplicação para a imprensa partidária. Ao defender que "faz menos mal uma tribuna incorreta no tempo certo do que uma correta no tempo errado", o autor subestima o impacto político de posições minoritárias ou equivocadas sobre o desenvolvimento da unidade e da clarificação ideológica do Partido. A normativa é clara ao afirmar que a polêmica deve ser organizada para robustecer a ação, e não para criar instabilidade por pressões temporais.

O texto tenta impor uma dinâmica de "clube de debates" ou "fórum livre", desconsiderando que a Tribuna é um instrumento subordinado à tática e ao calendário político do Comitê Central. A crítica à "morosidade" ignora as prioridades de intervenção na luta de massas que o Partido estabelece para cada período. A crítica aos prazos de publicação é legítima e deve ser encaminhada via canais orgânicos (relatórios de organismos ou cartas diretas ao Comitê Central), mas a utilização da Tribuna de Debates para publicizar insatisfações de caráter administrativo-burocrático, sem o devido acúmulo político, é considerada irrelevante e prejudicial à organização neste momento de consolidação do Sistema Nacional de Formação Política.

Considerando que a contribuição baseia-se em premissas que desconhecem o funcionamento interno das instâncias e propõe uma subversão dos critérios editoriais aprovados coletivamente, o Conselho Editorial decide pela sua publicação como um exemplo a não ser seguido.


Por Diego Vieira

O abismo numérico: da vividez à paralisia

Durante o período congressual, tivemos 732 tribunas publicadas em 292 dias, o que gerou uma média de 2,5 tribunas publicadas por dia. Em contrapartida, neste período desde a reabertura das tribunas — ou, mais especificamente, o lançamento da primeira tribuna, em 24/03/2025 até o momento em que começo a escrever, 22/12/2025, totalizando 273 dias, houve apenas 13 tribunas, o que nos dá uma média de 0,048 tribunas por dia.

Num intervalo de tempo semelhante, o período congressual teve 52 vezes mais publicações, ou representou uma diferença de 5.108,33% em relação ao período atual. Ou seja: a diferença entre a quantidade relativa de publicações é abismal, e nossas discussões de hoje são completamente mortas se comparadas à vividez do período congressual.

Seria ingênuo e completamente equivocado afirmar que isso se dá simplesmente por não estarmos mais em congresso ou pelas posições partidárias estarem já definidas e aprovadas. É claro que isto é um fator, mas a magnitude da diferença entre antes e agora exige de nós uma explicação mais complexa. Não tentaremos, porém, realizá-la aqui, apenas apontar algumas de suas causas: a morosidade com que as tribunas são publicadas e a falta de direcionamento que convoque a militância a escrevê-las.

O processo de unificação ideológica (e clarificação e aprofundamento das divergências) não terminou no congresso, como reconhecido pelo documento que reabriu as tribunas: “O XVII Congresso (Extraordinário) serviu, bastante a contento, para estabelecer alguns princípios gerais, que remetem a essa unidade ideológica, mas ainda estamos muito longe de tê-la conquistado” (Sobre a abertura da Tribuna de Debates).

É fundamental, portanto, a continuação desse processo em discussão aberta, o mais livre possível (desde que não prejudique a unidade de ações definidas), tanto para pôr a limpo as limitações e erros das resoluções aprovadas, assim como para aprofundá-las teoricamente e defendê-las.

O problema de publicar somente após resposta

A disputa entre Theo Dalla e Gabriel Lazzari será de interesse para nós: em 07 de agosto, o c. Theo publicou a tribuna “PCB Revolucionário – nós merecemos este nome?”, que teve, me parece, ampla repercussão dentro do partido, positiva e negativamente. Logo depois tivemos um longo intervalo (de um mês) entre as tribunas seguintes, até, ao final de outubro e começo de novembro, subitamente várias publicações de uma vez. Uma das últimas deste “lote” foi a tribuna do c. Lazzari, em resposta àquela, intitulada “Partido Comunista Brasileiro Revolucionário — sim, merecemos o nome que o XVII Congresso nos deu”.

O c. Lazzari quando escreve que, em relação à tribuna de Theo, “Seria um equívoco uma Tribuna como essa ficar sem resposta – eu, inclusive, avalio que teria sido melhor já tê-la publicado com uma resposta do Conselho Editorial ou do Comitê Central – justamente porque, nela, o camarada propõe revisar uma série de concepções que estão na base das decisões do XVII Congresso”. Se, em geral, concordamos com seus pontos apresentados na tribuna e concordamos que seria um equívoco que o c. Theo ficasse sem resposta após sua tribuna recheada de retórica abstrata — por outro, não poderíamos discordar mais da concepção que “teria sido melhor já tê-la publicado com uma resposta do Conselho Editorial ou do Comitê Central”, quando esta concepção se traduz justamente na situação que temos hoje: empilham-se tribunas trancadas aguardando a longuíssima “triagem” e “resposta” para serem publicadas.

O receio de que posições contrárias ao congresso (que proponham revisá-lo) — que devem ser combatidas — se publicadas sem uma resposta satisfatória seriam um problema, algo negativo para a vida partidária, é simplesmente infundado e gera mais problemas que soluções.

Primeiro, toda posição contra as resoluções (que representam as “maiorias” [1] do partido) é uma posição que deve ser combatida [2]. Não há nada de especial, nesse sentido, na tribuna de Theo que a destaque das outras publicadas que também revisam o congresso. Não importa se são divergências contra as resoluções internacionais (não foi a concepção internacional um dos catalisadores do racha?!), contra a categorização do proletariado brasileiro, contra o estatuto etc.

Segundo, a própria tribuna de Theo Dalla não teve efeito prático negativo nenhum contra o partido. Não foi um chamado ao boicote, não foi um atentado à unidade de ação. Vários camaradas que inclusive concordaram entusiasmadamente e trataram a tribuna como uma “grande contribuição” continuaram seguindo normalmente suas tarefas, refletindo sobre o partido sem deixar de segui-lo. Não gerou desconfianças sobre o partido, sobre o Comitê Central nem prejudicou o andamento normal dos trabalhos. E a tribuna cumpre rigorosamente os requisitos: não fez agitação anti-partido. Pois posições minoritárias não são, de forma alguma, iguais às posições anti-partido.

Os problemas que houveram, neste ano de 2025, de insubmissão e desvios de camaradas de alguns estados não foram consequências da tribuna; seria preciso bastante esforço para fazer esta ligação. Pelo contrário, são frutos (assim como a tribuna) das divergências que não foram sanadas no congresso e pela unidade ideológica ainda em processo de forja. Com tribuna ou sem tribuna, teriam acontecido. Com tribuna ou sem tribuna, não estaríamos em melhor estado (arrisco até dizer que estaríamos em pior estado, pois então não haveria tido a resposta do Lazzari). Mesmo, inclusive, que a resposta de Lazzari tivesse saído um dia depois da tribuna do Theo, duvido que teria tido grande efeito para “impedir” as táticas incorretas de disputa utilizadas. E, acrescento, estaríamos pior caso tivesse sido segurada até a resposta (gigantesca) estar pronta para publicação.

Ilustramos isto com outra tribuna, contrária também às posições majoritárias do PCBR, que não foi nem comentada nem tratada com um problema por Lazzari (nem nenhum outro camarada). É a tribuna “A China e o marxismo-leninismo-keynesianismo”, que defende que a China é um país com capitalismo completamente restaurado, em contraposição direta às nossas resoluções (que tratam a China como tendo um capitalismo ainda não completamente restaurado). O c. Doni critica abertamente nossas resoluções e afirma que são incongruentes e incorretas na categorização do capitalismo chinês.

E então: qual foi o alvoroço em torno dela? Quais foram os problemas práticos que decorreram de sua publicação? Nada. Nenhum. Ela passou completamente batida, mesmo até hoje nunca tendo sido respondida, nem por Lazzari nem por nenhum outro camarada.

Não podemos tratar algumas tribunas que representem algumas posições minoritárias como especificamente problemáticas, enquanto outras posições minoritárias sejam tratadas como inofensivas; o critério é: não cumpram agitação anti-partido. Ou está tudo bem ir contra o congresso nas resoluções sobre a China, mas não está tudo bem pôr em cheque questões organizativas/táticas (ou uma fusão de ambos, no caso da tribuna do Theo Dalla)? Qual é a ordem de importância nos nossos documentos, então — alguns podem ser contrariados, enquanto outros não?

É claro, o que dá mais peso à crítica é seu conteúdo e seus direcionamentos, assim como sua relação, também, com a conjuntura: uma tribuna no começo de 2025 criticando nosso programa sobre a escala 6x1 poderia ser muito mais espinhosa do que lançada agora. Uma tribuna que proponha reavaliar as categorias estratégicas e critique a definição dos bancários como estratégicos seria muito mais “prejudicial” durante a campanha sindical que ocorrerá em 2026 do que agora. Tribunas contra a disputa da UNE durante o CONUNE seriam muito mais graves do que lançadas agora. E por aí vai.

Temos momentos em que determinadas seções se tornam mais cruciais que outras, determinadas resoluções ganham maior peso na conjuntura. Não temos ilusões de algum formalismo que desconsidere o movimento real e mecanicamente iguale-as a todo momento. Mas aí retornamos ao debate acerca da unidade de ação, que deve sempre ser a régua pela qual publicaremos ou não as tribunas. Tribunas que não prejudiquem a unidade de ação, mas que sejam feitas em momentos críticos, devem ser respondidas rapidamente, mas não atrasadas para que não vejam a luz do dia. Isto é vencer (ou impedir) uma polêmica pela burocracia, não pela política. Voltaremos a isto em breve.

Queremos agora, então, ir diretamente ao problema dos atrasos. Reproduzimos abaixo o excerto de uma carta — enviada oficialmente pela Coordenação Regional do PCBR no Ceará ao CC e OC — que expressa, em termos gerais, nossa posição:

[...] Um dos problemas mais agudos é a incapacidade do OC de lidar com os textos que vêm da base -- ou, pelo menos, é o que sentimos [...] Nossas tribunas [...] demoram semanas para acusar recebimento e meses (!!!) para serem publicadas -- se é que são publicadas, pois temos caso de algumas tribunas de um camarada [...] simplesmente não terem qualquer resposta durante meses e então a única resposta ser uma recusa à publicação porque havia passado o "timing"; e outro camarada que aguarda há meses uma resposta da triagem. Não é razoável que uma tribuna não seja publicada porque o OC não conseguiu avaliar a tempo. Já não é razoável que uma tribuna tenha que demorar meses pra ser publicada. São situações que vão totalmente contra a própria lógica de termos tribunas abertas, e só fazem incentivar a publicação delas fora da imprensa partidária, já que esta não dá conta. É óbvio: é frustrante escrever um texto e demorar meses pra simplesmente ser publicado, sem justificativa, perdendo qualquer chance de ter uma discussão enquanto as coisas acontecem. Ao mesmo tempo, camaradas com maior destaque, como Jones, podem a qualquer momento iniciar uma discussão fora da imprensa partidária e dialogar com o conjunto do partido e da classe. Nunca superaremos o desnivelamento de alcance (natural) dentre as figuras do partido se não pela imprensa partidária, cada vez mais robusta.

Isso se agrava quando analisamos qual é o papel que o OC deve ter na análise das tribunas:

"Art. 4o – O Conselho Editorial é responsável por avaliar as contribuições enviadas e vetar a publicação de contribuições que atentem contra as deliberações do XVII Congresso (Extraordinário), utilizem métodos desonestos de disputa ou cuja publicação seja irrelevante ou prejudicial à organização.

"Parágrafo único – Em caso de veto, o autor tem o direito a receber resposta do Conselho Editorial, informando e justificando o procedimento, podendo reapresentar sua contribuição se os critérios apresentados forem atingidos."

Ou seja, o papel do OC é o de vetar posições contrárias ao congresso e prejudiquem suas deliberações (aquelas que utilizem o boicote ou outros métodos não permitidos de disputa) e cuja publicação seja irrelevante ou prejudicial. Não é, deve-se admitir, um grande trabalho de triagem, que seja demorado ou oneroso. Uma rápida leitura superficial de cada tribuna consegue distinguir facilmente se ela está ou não de acordo com os critérios apresentados. O que mais pode gerar polêmica é a relevância ou não daquela tribuna, porém nem isto deve ser de tanta demora. Não faz qualquer sentido termos tanto tempo de demora para publicação de tribunas — isto na verdade prejudica o andamento possível de debates a serem travados em tempo real entre nós quanto entre outras linhas e organizações. [...]

Na normativa de envio de tribunas, não há qualquer exigência que determine a obrigação de encaminhar uma resposta no próprio texto, apenas que “As posições minoritárias terão seu espaço na imprensa partidária, por meio da Tribuna de Debates, e serão apresentadas como tal, contrapostas inclusive pelas posições majoritárias, especialmente quando se tratar de questões de princípio”. Ou seja, devem ser contrapostas (não se diz como nem quando), e esta forma atual “de análise rigorosa” deixa o processo mais lento e mais burocrático.

O resultado disso é que as tribunas, hoje, são impedidas de cumprir um papel vivo no debate político.

O fator tempo da disputa política

Um exemplo concreto, se estamos avaliando o “timing”, é o das tribunas publicadas fora de tempo: a última tribuna que enviei, “A arte de dar nome aos bois: a polêmica e a (falta de) unidade na esquerda radical”, foi escrita quase que imediatamente após o vídeo do Jones sobre a tática eleitoral. Mesmo não sendo uma posição minoritária — que exigisse uma resposta —, demorou tanto para ser sequer recebida pelo OC que, após o lançamento do artigo da Sued Carvalho (UP), fiz uma emenda de resposta à ela. E, entretanto, só quase dois meses depois é que foi lançada! Apesar de não ter caducado completamente, perdeu-se completamente o período incendiário onde esta discussão estava na ordem do dia, e só pôde estar no debate quando nem mais se falava da questão. Não pôde sequer ser apreciada pelo CC antes de seu pleno que definiu nossa tática eleitoral (embora este não fosse o tema central da tribuna).

Enquanto isto, continua-se o fato de que camaradas que têm à disposição outros espaços públicos (canais do youtube, blogs, páginas em redes sociais etc.), têm toda a liberdade de incidir nos debates no momento em que lhes interessa e que o debate está em alta. Jones, por exemplo, pôde logo em breve fazer outro vídeo ainda sobre o tema. [3]

Veja a situação: o camarada faz a disputa de suas posições políticas preferencialmente fora da imprensa partidária (indo de encontro às nossas resoluções), não escreve tribunas nem se dá ao trabalho de transformar seus vídeos em tribuna (em menos de 10 minutos é possível transcrever o vídeo e passar para uma IA limpar o formato, e voilá, está pronta uma tribuna que só precisaria ser revisada em mais 10 a 20 minutos); e os camaradas que seguem as resoluções e preferencialmente fazem a disputa política na imprensa partidária a partir da tribuna de debates são, então, prejudicados com a maior morosidade possível e têm sua capacidade de influência no debate político imediato reduzida a zero.

Pior ainda é esse “timing” esbarrar na unidade de ação: tribunas serem canceladas e negadas quando não foram publicadas durante o tempo em que algo estava em debate, e o OC só conseguir dar uma resposta e publicá-la quando a ação já está em curso e já não se pode mais criticar — ou seja, não se pode mais publicar.

Isto torna muito mais natural que, se há interesse de disputa, as publicações  sejam feitas fora do partido, como Jones faz em seu canal, e como uma série de camaradas faz, por exemplo, no twitter, no medium, em seus instagrans… Isto é péssimo para a construção da literatura comum.

Também fortalece os camaradas com mais contatos pessoais, que conseguem escoar estas publicações por fora da imprensa partidária. Outro exemplo concreto: escrevi uma tribuna acerca das teses que lançamos para congressos estudantis, intitulada “Por teses que falem ao povo: o papel das teses da UJC nos congressos estudantis” e enviei em outubro (mais de 2 meses atrás), tendo em vista que se aproximavam o ENG e logo mais o CONUBES. Como tive contato direto com camaradas da subcomissão de movimento estudantil secundarista e também inclusive camaradas que tinham como tarefa escrever as teses, pude enviar diretamente a eles. A demora do OC de acusar recebimento novamente foi tão grande (só tive resposta que passou para triagem após perturbar semanalmente minha assistente) que pude fazer emendas no texto e, até agora, já foram lançadas as teses para o ENG, e mesmo assim a tribuna está lá, talvez aguardando o comentário do OC (embora nem represente teses majoritárias nem minoritárias, pois é sobre algo que sequer foi discutido no congresso).

Por mais que os exemplos sejam individuais (porque são os únicos que temos acesso), é mais que uma mera questão de frustração individual (que, embora exista, é menos importante) dos camaradas com a imprensa: é também prejudicial ao próprio andamento do debate político. Para se disputar uma posição política no momento em que ela está na ordem do dia, o que nosso OC incentiva, querendo ou não, é a publicação fora do partido, como Jones faz constantemente por meio do seu canal no youtube. Os camaradas que têm acesso a outros meios de divulgação terão esta possibilidade; outros terão que buscar outros métodos, pois a imprensa partidária simplesmente não dá conta.

Não é, e certamente isto não pode ser visto como polêmico, “imediatismo” político afirmar que as discussões possuem temporalidades bem definidas. Muito antes da internet sequer existir, quando não se podia querer acusar alguém de “seguir o ritmo frenético das redes sociais”, já se sabia da importância de conseguir acompanhar a tempo a conjuntura: tanto é que os órgãos centrais bolcheviques sempre buscaram a maior frequência possível, tentando sempre chegar à frequência de semanais, apesar de todas as dificuldades (eram impressos no exterior e altamente perseguidos quando entravam na Rússia); e, quando viável, a agitação diária com seus órgãos populares (inevitavelmente menos diretamente “revolucionários” por conta da censura czarista). Se isto é tanto mais verdade para o Órgão Central, onde atrasar um comando em uma semana pode significar uma derrota tática, não deixa de ser também verdade para as tribunas de debate — que têm até mais pressa, pois estão limitadas a incidir no debate, em geral, antes da ação ser definida para não atrapalhar a unidade.

Notas editoriais

Com tudo isto, não faz o menor sentido o OC estar deliberadamente atrasando a publicação das tribunas sob o argumento de que é necessária uma “avaliação rigorosa”. Além dessa suposta avaliação rigorosa, exige-se ainda que o órgão central formule uma posição oficial e rebata a tribuna por meio de uma nota editorial. Esse procedimento, no entanto, não corresponde à função das notas editoriais.

Notas editoriais cumprem um papel curto e objetivo: contextualizar, corrigir um dado factual ou, crucialmente, fazer um aviso de isenção de responsabilidade, expressando discordância, uma posição política geral, e nada além disso. A nota editorial não debate com o autor, mas situa o leitor naquele texto: elas não são — nem devem ser — o espaço para respostas extensas, réplicas políticas ou elaboração teórica aprofundada. Exigir que toda tribuna venha acompanhada de uma resposta formal do OC é deslocar completamente a sua função. Uma análise rápida da tribuna consegue avaliar se é majoritária, minoritária, nada disso, se é contra o partido ou se apenas inicia um debate de revisão de posições.

Se for um erro grave, embora sem agitação anti-partido, basta inserir uma nota editorial curta de que não concorda com a visão e que uma resposta será feita e pronto, publicamos. Por exemplo: “A Redação publica o artigo do camarada X como material de discussão, embora não partilhe da opinião do autor sobre a questão Y e voltará a este tema em tribuna (ou brochura, ou nota política, o que seja) posterior”.

Se os camaradas discordam politicamente de um texto, eles devem se apressar a responder escrevendo, não segurar a tribuna até que consigam responder (já falamos sobre essa forma de “vencer” o debate…). Isto será significativamente melhor para a clarificação ideológica do nosso partido.

Vejamos concretamente as tribunas que receberam notas editoriais até agora: “O Conune e algumas coisas mais”, “A defesa da ‘planificação comum’ em nosso programa partidário não é suficiente” e “Os comunistas e os grandes atos tradicionais”.

Na primeira, a resposta editorial é fraquíssima. Não “responde”, apenas fala que o argumento central do camarada “está incorreto. Nosso partido não rompeu com a defesa da Universidade Popular”. E então cita dois documentos partidários sem esforço de coesioná-los numa resposta adequada. Compare isto com a resposta que Lazzari deu a Theo, destrinchando ponto por ponto com exemplos concretos, expondo a abstração vazia deste. Assim veremos que a nota editorial, na prática, nem derrubou a argumentação (apenas disse: está errado porque eu digo que está errado) nem conseguiu servir para avançar a militância em nossa linha para o ME; vários e vários outros pontos que ocupam a maior parte da tribuna não são citados pela nota editorial (nem teria como!). Mesmo a tribuna de Lazzari, que nem é principalmente sobre o ME (embora discorra em grande parte), serve mais como “resposta” do que a nota editorial.

Na segunda, temos um cenário um pouco melhor. Porém agora o que prejudica a resposta é sua insuficiência. A escolha de ter respondido como uma nota editorial (que consciente ou inconscientemente os camaradas devem inferir que não deveria ser longa ao tamanho de uma tribuna), limita gravemente a argumentação: não é explicada o que foi a NEP, nem é utilizada a discussão como oportunidade didática de clarificar à militância uma leitura mais de acordo com nossas resoluções acerca da URSS e seu desenvolvimento econômico. Novamente, comparemos com o que Lazzari fez em sua tribuna ao discutir tática, contextualizar citações de Lênin e aprofundar sua concepção da construção do partido comunista e veremos tudo que faltou na “resposta”.

Na terceira, fazem uma “crítica”, em “pleno debate”, que é simplesmente uma citação formalista de um parágrafo das resoluções, francamente após distorcer ou não entender o conteúdo final da tribuna, e dão-se então por satisfeitos: a resposta ataca um espantalho. Qual o pleno debate que surge dessa nota? Nenhum. Não há discussão concreta sobre os atos, apenas um truísmo de que “não podemos nos descolar das massas”. Mas quais massas estamos falando? Quais táticas utilizaremos? Se hoje temos avaliação negativa das nossas participações em atos, em que estamos errando — supondo que devemos sempre, como escravos da tradição, sermos arrastados à participação? Como falar sobre isolacionismo se é proposto justamente a unidade? A participação espontânea supera a planificada? Assim, a própria tribuna, em opinião nossa, por si só, enterra a nota editorial equivocada. É perdida então a oportunidade de uma resposta que tente pensar mais profundamente a participação em atos e as táticas que usamos, tal como a tribuna se propõe. Mais uma vez, uma tribuna como a de Lazzari em resposta teria sido 10 vezes mais eficaz e colocaria os termos do debate mais claros, mostrando onde exatamente estão os dissensos das posições.

Essa é uma concepção equivocada do papel da nota editorial, repetimos. Ela não deve ser uma refutação meia-boca prévia. Quem deve (tentar) refutar a tribuna são outras tribunas (ou, de maneira mais ampla, outros artigos que possam aprofundar e tratar o problema como deve ser tratado, saindo na mídia mais adequada).

Simplificando a triagem

Não pode acontecer de segurar um artigo sob o argumento de que “é preciso avaliar melhor a linha política”, pois “precisamos primeiro escrever a resposta”. Esse método simplesmente trava tudo. O funcionamento se torna moroso, os camaradas não conseguem se organizar a tempo para responder, e o artigo enviado hoje passa a levar meses para ser publicado porque precisa, obrigatoriamente, sair acompanhado de uma resposta oficial.

Novamente, não foi um “erro” ter publicado a tribuna do Theo Dalla, por pior que fosse sua posição. Voltemos à normativa: a tribuna chamou ao boicote? Foi um debate sem importância? Não para as duas perguntas. Muito melhor ter sido publicada, sem atrasar o debate morosamente por meses a fio, e depois ter sido respondida diretamente por um membro do nosso CC. Mas só foi respondida um trimestre depois. Imagine ter que esperar isso tudo só porque o CC está elaborando uma resposta e tem medo de soltar uma posição sem a resposta já pronta! Não faz o menor sentido, camaradas.

Os militantes (e a classe) têm capacidade de avaliar o quanto as tribunas desviam ou não do que foi tirado em congresso (e do quanto isto é positivo ou negativo), podem eles mesmos responderem, em primeiro lugar, se concordam ou não. Perdoem-me o sarcasmo, mas não são somente militantes iluminados os detentores da sabedoria acerca do que foi realmente o congresso. As resoluções estão aí para todos lerem, um número grande de delegados e suplentes participou, e, em breve — esperamos —, sairão a público as atas do congresso. Nem são esses iluminados necessariamente os que estão dentro do próprio CC, já que houve camaradas eleitos que nem sequer puderam participar do congresso (o que não é nada necessariamente anormal), e os critérios para eleição do centro não foram — recordamos infelizmente apenas de memória enquanto não temos as atas — as posições tomadas durante a etapa nacional do congresso (se este delegado era ideologicamente majoritário ou não), mas sim o trabalho prático prévio (e, claro, também ideológico) a partir das avaliações de cada delegação e seus indicados; fazendo uma espécie de “média” e então resolvendo as divergências e problemas ao final do congresso.

Assim como sabemos que há camaradas no CC que discordam de uma ou várias posições tomadas no congresso, como também é normal. Que há divergências na própria interpretação das resoluções. Pois há sempre uma proporção entre maioria e minoria (ou maiorias e minorias) nos centros dirigentes (nos organismos em geral) de um partido não monolítico. Se é tarefa destes camaradas levarem a cabo as decisões majoritárias do congresso na ação prática e no Órgão Central, não quer dizer que seja tarefa sua serem paladinos (usando o termo de Theo) do congresso nas tribunas de debates.

Não é dever da minoria tornar-se maioria; mas sim submeter-se a esta.

A régua é: garantir a unidade de ação em torno das resoluções congressuais, resguardada a liberdade para as posições minoritárias quando esta não a prejudicar.

Se não fosse o caso da militância ter capacidade cognitiva e ideológica de avaliar tribunas, tendo discordância ou sendo convencida, imaginem, não poderíamos sequer ler notas de outros partidos se não houvesse uma resposta do nosso, pelo receio de isto prejudicar nossa ação. Não poderíamos sequer ler artigos de fora da nossa imprensa… Temos tido no último período críticas diretas às nossas resoluções ou decisões (o livro do POR e artigos do PSTU/Rebeldia), que até agora não obtiveram resposta, e nem por isso o partido está “ameaçado” ou em maus lençóis.

Dizer que uma opinião é minoritária tudo bem, agora segurá-la até surgir uma resposta adequada é equivocado. Não defendo, também, a ausência de resposta, que fique claro. Ao invés de segurar a tribuna, deve ocorrer o inverso: acelerar a resposta, como tarefa a militantes destacados, não como voluntarismo de camaradas que se interessarem em responder. Como inclusive deve ocorrer também com as críticas de fora, que devem ser respondidas.

Faz menos mal uma tribuna errada no tempo certo, que pode ser analisada em tempo real e julgada por todas (não é porque está publicada que necessariamente vai ter influência sobre a militância, ainda mais com o status de tribuna e numa seção específica do nosso site!); do que uma tribuna correta no tempo errado, que perde totalmente sua capacidade de incidência.

Uma distinção necessária: o órgão central e as tribunas de debate

Existe ainda uma questão crucial: o local de publicação. Atualmente, existe um espaço específico, separado, destinado à “luta ideológica”, que circula apenas entre quem já está interessado, que vai atrás desse material. Ele não tem o mesmo alcance, nem o mesmo peso político, nem o mesmo caráter formativo que um jornal centralizado, dirigido às massas e ao conjunto da organização, que o lerá obrigatoriamente em cada organismo.

Não podemos concordar, entretanto, com a visão de que tudo e qualquer coisa é o OC do partido; que, se está relacionado com o partido, é imediatamente OC, como se este fosse sinônimo de toda e qualquer forma e espaço de imprensa partidária. Não cabe aqui esta discussão (e escreveremos nos próximos meses uma tribuna para aprofundá-la especificamente), mas é óbvio que o caráter especial das tribunas (e seu espaço delimitado) mostra à militância que são posições em debate, não posições guias ou oficiais. Militância esta que consegue distinguir entre notas políticas e tribunas.

Há, portanto, uma diferença qualitativa fundamental entre: um site ou espaço específico de debate interno, onde se enviam textos de discussão; e a publicação dos textos no jornal, no órgão central propriamente dito. Isto deve ser considerado, pois é mais um fator determinante no peso que essas tribunas podem ter e consequentemente na neutralização de receios de grande prejuízo por publicação de tribunas levemente incorretas ou mesmo francamente minoritárias mas que resguardem a unidade de ação.

Por uma literatura planejada

Aliás: o problema atual vem justamente pelo voluntarismo com que as tribunas são tratadas. Temos, grosso modo, 5 grandes tipos de publicação literária hoje: matérias, artigos de opinião, notas políticas, tribunas e brochuras.

Brochuras (nacionais) são 100% planejadas e são tarefas de camaradas específicos (que inclusive estão atrasadas em relação ao cronograma inicial); matérias são um misto entre planejadas (as que vão para o impresso) e o trabalho voluntário da militância (as que vão para o site); notas políticas são um reflexo da conjuntura, nem exatamente planejadas nem exatamente voluntárias; artigos de opinião e tribunas, no entanto, são 100% voluntários.

Temos uma possibilidade muito boa hoje que é a de transformar artigos de opinião e tribunas em brochuras (e vice-versa), ou que tenham papéis complementares, e simplesmente não usamos! O OC não tem feito sua indicação de temas para discussão, o que avançaria muito mais no direcionamento das tribunas, assim como poderia garantir que as posições partidárias fossem aprofundadas. Exemplo: tivemos o debate sobre tática eleitoral e o OC ficou em silêncio, não chamando um mês inteiro de debates sobre eleições e convocando a militância a escrever suas contribuições não como “cartas” ao CC, subsidiando sua discussão, mas como tribunas, o que seria muito mais adequado.

Outros exemplos são possíveis: em março teremos, como sempre, o dia da mulher trabalhadora. Por que não estabelecer uma campanha nacional de incentivo a publicações acerca do feminismo marxista ou acerca do aborto e direitos reprodutivos em março por meio das tribunas? Claro, virão tribunas defendendo pontos não aprovados no congresso, mas também virão tribunas defendendo nossas posições e poderemos recuperar um pouco da vividez que tínhamos antes; por que não, inclusive, direcionar camaradas específicos para terem como tarefa redigir tribunas que aprofundem a linha do partido e sejam enviadas para discussão, podendo depois serem transformadas em brochuras [4]?

São ideias muito fáceis de serem executadas, desde que o OC não continue a burocratização e o atravancamento das tribunas.

Conclusão

Por último, cabe dizer que sabemos que o problema da publicação não é somente a triagem, mas a própria falta de camaradas para fazê-la. Nem acreditamos que o CC tenha intenção de matar polêmicas pela burocracia. Com intenção ou sem intenção, entretanto, o que a burocracia tem feito é limitar a polêmica pública e portanto a capacidade do partido de conquistar sua coesão às claras. [5]

Talvez inclusive o problema nem esteja, atualmente, na escrita das respostas, mas seja ainda mais fundamental: o de sequer alguém estar definido para avaliar se precisam de respostas as tribunas (e, devido a problemas contingentes, este foi de fato um dos motivos). E essa rigorosidade em ter que avaliar onde está o erro ideológico da tribuna e preparar a maneira de respondê-la (por mais meia-boca que seja), torna ainda mais crítico o problema.

Sendo um ou outro, não importa. Ambos levam à mesma conclusão: é necessário simplificar a triagem.

Talvez, se tivéssemos um punhado a mais de militantes destacados, pudéssemos dar conta tranquilamente de triar profundamente e responder todas as tribunas que chegam sem que nenhuma atrase (não em notas editoriais, entretanto). Mas não é este o caso.

E se o OC já não consegue dar conta enquanto temos uma quantidade ínfima de tribunas, imagine conforme recuperarmos o vigor do embate teórico e voltarmos a publicar as dezenas de tribunas mensais? Será impossível uma tal triagem.

Assim, a triagem no OC deve voltar mais estritamente à sua própria normativa: vetar as que prejudicam o partido (anti-partido ou contra a unidade de ação), mas com liberdade para as posições, mesmo minoritárias, serem expostas.

E, avançando, devemos começar a destacar camaradas específicos para escreverem tribunas planejadas e começar as campanhas temáticas, de modo a direcionar e qualificar o espaço das tribunas, incentivando o conjunto da militância a cada vez mais utilizá-lo.

Propomos, em síntese, os seguintes encaminhamentos:

  1. A tribuna de debates, como parte da imprensa partidária e elemento fundamental para a unidade de ação e liberdade de crítica, deve ser reafirmada como um importante meio para a organização da polêmica em nossa militância. Só no combate aberto, qualificado e organizado nós iremos conseguir avançar na nossa coesão. É pertinente a crítica ao desprezo que o CC e OC vêm apresentando a seu respeito: as tribunas foram atravancadas e represadas na "triagem" pela segunda vez desde sua abertura. É necessário despender mais esforços para que haja um fluxo constante e rápido de publicação das tribunas.
  2. Este fluxo, no momento, só será alcançado a partir da simplificação da triagem: seguindo estreitamente a normativa da tribuna permanente, apenas proibindo tribunas que sejam contra a unidade de ação ou que preguem o boicote, e, menos frequente, que sejam sem relevância. Tribunas que cumpram com os critérios, mesmo que apresentem posição minoritária ou contrária às resoluções, devem ser publicadas. Em caso de desvios graves às resoluções (embora sem agitação anti-partido ou prejuízo à unidade de ação), deve ser feita curta nota editorial e publicada mesmo assim; ao mesmo tempo, deve ser delegada a algum camarada a responsabilidade de formular resposta à altura o mais rápido possível.
  3. Como uma das formas de aprofundar nossos pontos programáticos, ao longo de 2026 o OC deve estruturar campanhas temáticas para a tribuna de debates, orientando os militantes a escreverem prioritariamente para elas durante seu período. Estas podem estar ligadas ao lançamento das brochuras, seja com brochuras tornando-se tribunas ou com tribunas tornando-se brochuras.

Notas

[1] Usamos as maiorias entre aspas aqui simplesmente porque acreditamos que não há qualquer grupo bem estabelecido em nosso partido que mereça ser chamado de maioria contra outro grupo estabelecido que mereça ser chamado de minoria, pois não há um aglutinador ideológico comum. Na história russa, foi principalmente em torno do §1 do estatuto que se formaram os bolcheviques e mencheviques, que consolidavam grupos que se uniam em torno de algo — isto pelo menos no caso dos bolcheviques, que eram unidos por um programa e visão de partido comuns; enquanto os mencheviques eram um amálgama dos iskristas da minoria (estes sim o núcleo menchevique) e os anti-iskristas no segundo congresso. Na história recente do pecebismo, a maioria se unificava claramente em torno do XVII Congresso (Extraordinário) enquanto a minoria se unificava em torno do Comitê Central e da manutenção da Conferência. Apesar das características, de certa forma, se inverterem (pois no nosso caso tivemos uma maioria difusa, tendo rachado por diversos motivos, como vimos durante o período pré-congressual e no próprio congresso; e uma minoria um pouco mais homogênea — consequência do chamado racha “pela negativa”, uma escolha política dos dirigentes do processo), ambos os exemplos dão conta de unificar grupos nitidamente opostos em torno de algo.

Nosso congresso, entretanto, não gerou alas ideologicamente definidas (ainda). Portanto nos parece completamente incorreto afirmar que existe em nosso partido uma maioria e uma minoria; existem, para cada seção e tema espinhosos, maiorias e minorias, mas que não necessariamente se unificam durante o congresso para se chocarem. Existem as posições que são majoritárias e as que são minoritárias e há um limbo que permeia algumas: como esta tribuna, que é impossível dizer, a priori, se representa uma posição majoritária ou minoritária acerca das tribunas, pois nossas resoluções acerca do tema são muito sintéticas e sequer temos as atas disponíveis para verificar se lhes é possível alguma exegese que as aprofunde.

[2] Isto não quer dizer, deve ser óbvio, que as posições sejam infalíveis ou necessariamente as mais corretas. Serem as majoritárias quer dizer apenas isto: que são as majoritárias. Porém só na aplicação prática delas — e a defesa vai nesse sentido, em garantir que sejam aplicadas praticamente — é que veremos se foram corretas, limitadas ou simplesmente incorretas. Se agora podemos já iniciar debates interessantíssimos, só no próximo congresso é que poderemos passar a limpo e ver qual é a avaliação da maioria do partido a partir da experiência concreta com elas. É um movimento dialético.

[3] Fazemos a seguinte emenda: é nessa velocidade de publicação, nesta liberdade de publicação, podemos dizer, que verdadeiramente está a diferença de estrutura entre os influenciadores e os outros militantes do partido. Não em meios técnicos ou na forma que a estrutura assume. A melhor solução para isso não é criar estruturas paralelas ou regionais; mas fortalecer a estrutura central: destravá-la e liberá-la finalmente. Noutra tribuna trataremos melhor desta e outras divergências com a posição da UCL RMPOA+ acerca da comunicação no partido.

[4] Isto é bastante tangencial, mas vale a pena discutir, pois desde que construímos a política de livretos, que posteriormente se tornaram nossas brochuras, temos sido muito quadrados com elas. Há alguns artigos de opinião e notas políticas que lançamos que poderiam perfeitamente serem lançadas como brochuras, que inclusive é o que temos feito aqui no Ceará: transformando artigos do jornal, tribunas, determinadas notas em livretos.

Do outro lado, não acreditamos que faça sentido manter textos ótimos como o da luta pelo fim da escala 6x1 e o da universidade popular acessíveis apenas pelo material físico, pois não me parece que seja razoável pensar que são formas concorrentes — imagine se tivessem sido lançados também como tribunas, que beleza! Ou na nossa própria seção de marxismo-leninismo, por que não?

A própria experiência dos livretos, quando os criamos e vendemos, mostrou isso: fizemos livretos de textos disponíveis gratuitamente na internet, facilmente acessíveis, e nem por isso tivemos menos vendas. Não é pela exclusividade do conteúdo que iremos vender mais livretos.

[5] Outra emenda: em grande medida, a publicação da tribuna dos camaradas da UCL RMPOA+ é fruto deste próprio atravancamento e, portanto, do próprio CC por ter empurrado com a barriga a disputa ideológica. Exatamente como escrevemos ao longo do texto: essa postura de atravancamento só impulsiona a publicação fora da imprensa partidária. Camaradas individuais já o estão fazendo (com publicações no Medium), e não tardou para que organismos começassem a fazê-lo. O maior culpado desta situação é o próprio CC.

Se há algo, ao menos, que o racha deveria ter ensinado é: represar a disputa ideológica faz o tiro sair pela culatra. Direcioná-la é a única forma de conseguir seus efeitos positivos e amortecer seus efeitos negativos.

É mais frutífero, contudo, pressionar o CC a reabrir as tribunas e garantir sua fluidez o mais rápido possível (entre outras medidas editoriais que devem ser feitas na nossa imprensa como um todo) do que iniciar uma verdadeira desorganização do debate onde cada camarada publica no seu medium ou cada CL/UCL publica em seu instagram, que é o pior dos cenários em termos de polêmica partidária. Nada disso contribui para organizar o debate de maneira a avançarmos em uma literatura comum.