TKP: Nosso país não está mais seguro agora

Nunca foi possível garantir a unidade e a integridade territorial da Síria por meio de uma coalizão jihadista liderada por um indivíduo treinado pelos serviços de inteligência britânicos e estadunidenses.

TKP: Nosso país não está mais seguro agora
Reprodução: TKP.

Por Partido Comunista da Turquia (TKP)

Na Síria, arrastada para a guerra civil por meio de uma operação internacional que envolveu uma ampla coalizão liderada pelos Estados Unidos, pelo Reino Unido, por Israel e pela Turquia, e posteriormente entregue ao grupo conhecido como HTS, iniciou-se uma nova fase de sangrentos acertos de contas baseados em identidades étnicas e divisões sectárias.

Nunca foi possível garantir a unidade e a integridade territorial da Síria por meio de uma coalizão jihadista liderada por um indivíduo treinado pelos serviços de inteligência britânicos e estadunidenses. Isso agora está claramente comprovado.

O que Israel, o Reino Unido e os Estados Unidos entendem por “integridade territorial” da Síria é a criação de um ambiente que sirva aos seus próprios interesses. Um ambiente desse tipo contém, inevitavelmente, dinâmicas de conflito e fragmentação. Isso é imperialismo.

Já é evidente que o AKP, que dá apoio incondicional à administração do HTS – uma organização que reuniu jihadistas de todo o mundo e inclui muitos elementos com origem no ISIS –, não age em favor da unidade e da estabilidade da Síria, mas para assegurar uma base para seu próprio projeto neo-otomano.

Havíamos afirmado que garantir a unidade da Síria sob o domínio do HTS só seria possível por meio de massacres dirigidos contra as populações curda, alauíta e drusa. Chegamos agora exatamente a esse ponto. Foi precisamente isso que as potências imperialistas que apoiam o HTS pretenderam. A Síria foi removida como obstáculo para Israel, os recursos do país foram apropriados e as hostilidades foram consolidadas por meio do engajamento com todos os atores.

Todos se acusam mutuamente de serem pró-americanos ou pró-israelenses. Este é exatamente o grande sucesso do imperialismo. A mesma potência arma as SDF, lança o HTS contra as SDF e encoraja o AKP. O imperialismo não busca soluções; aprofunda os problemas e os mantém em um nível que apenas ele consegue controlar. Apesar da profunda crise no sistema imperialista, ficou mais uma vez demonstrado que – ao menos em nossa região – as capacidades dos Estados Unidos e do Reino Unido nesse sentido não diminuíram.

Pela “vitória” que declarou prematuramente na Síria, o governo do AKP fez uma série de novas concessões políticas, militares e econômicas aos Estados Unidos, especialmente em relação à Palestina e à Ucrânia. O custo dessas concessões será imposto de forma pesada ao nosso povo.

Há outras contas sendo apresentadas. Abriu-se um novo capítulo na ruptura emocional vivida pelos cidadãos curdos da República da Turquia. Independentemente do que façam o AKP – que também recebe apoio de setores ditos “seculares”, que sentem profundo prazer com o avanço de grupos jihadistas na Síria – e a liderança do DEM, que ainda pode dizer “esperamos que o processo de paz na Turquia não seja prejudicado”, a “irmandade” foi profundamente ferida.

Não há “processo de paz” a ser prejudicado, porque aquilo que nos foi apresentado nunca foi um processo de paz genuíno. Esse processo foi iniciado em paralelo à mudança de poder na Síria. Um processo que gera problemas na Síria jamais poderia produzir soluções na Turquia.

Foi construído sobre uma base orientada pelo mercado, hostil à República e ao secularismo, e desenvolvido sob a orientação dos Estados Unidos e do Reino Unido e sob as ameaças de Israel. Longe de resolver qualquer problema, criou – e continuará a criar – novos problemas.

A coalizão jihadista que se fortalece na Síria constitui mais uma grave ameaça dirigida ao nosso povo. É inevitável que essa coalizão afete os equilíbrios sociais, políticos e ideológicos da Turquia. De forma trágica, aqueles que são “seculares” na Turquia e “jihadistas” na Síria, assim como aqueles que seguem Sheikh Said ou Said Nursi na Turquia e, ainda assim, defendem o secularismo na Síria, acabam juntos auxiliando o governo do AKP.

Não esqueçamos que, na raiz de todas essas calamidades, está o sistema de exploração que tornou a Turquia, a região e o mundo inteiro inabitáveis. Aqueles que declaram – enquanto as pessoas se massacram – que “empresas petrolíferas americanas investirão na Síria” e apresentam isso como uma conquista simbolizam a decomposição produzida pelo sistema imperialista-capitalista.

Depois de dois supostos “processos de paz” e da mudança de poder na Síria, a Turquia não se tornou um país mais seguro. A segurança da Turquia é a segurança de seu povo e de seus cidadãos. A Turquia deve libertar-se imediatamente desse sistema em que o dinheiro governa.

Não há outro caminho senão levantar-se juntos – por uma república igualitária, pelo secularismo e contra o imperialismo e a exploração. Unamo-nos contra os racistas, os defensores da OTAN e os círculos da TÜSİAD. Isso também abrirá o caminho para a irmandade e para uma unidade genuína. O TKP fará o que for necessário para alcançar esse objetivo.