'Sobre nosso nome e nossos símbolos' (Rodrigo M.)

Se vamos ser o partido da vanguarda da classe trabalhadora, o partido que reivindica o marxismo-leninismo e a revolução socialista, pouco importa nossa sigla, desde que estejamos com o povo e entre o povo, que sejamos sua ferramenta para destruir quem nos oprime e construir um mundo novo.

'Sobre nosso nome e nossos símbolos' (Rodrigo M.)
Enzo Mari, foice e martelo, 1972-1973, baseado no original “studio per l’anniversario”, 1954.Fonte: https://www.designboom.com/art/enzo-mari-falce-e-martello-sickle-hammer-galleria-milano-09-25-2020/

Por Rodrigo M. para a Tribuna de Debates Preparatória do XVII Congresso Extraordinário.

Escrevo esta tribuna para introduzir um debate mais "superficial", mas não menos importante que nossa linha política ou modelo organizativo: qual será o nosso nome/sigla e símbolos. Por serem estes os primeiros aspectos pelos quais as pessoas de fora tomam conhecimento da nossa existência, seja através de bandeiras, panfletos ou pela palavra, essa questão é da maior importância.

Primeira parte – Sobre o nome PCB-RR

Acredito que o nome PCB-RR não é consenso entre a militância que aderiu à reconstrução revolucionária. O nome surgiu como a demarcação de uma posição, nosso comprometimento com o aprofundamento da Reconstrução Revolucionária do Partido Comunista Brasileiro, bem como a reivindicação da história do mesmo. Porém, acredito que, se mantermos essa sigla, a confusão gerada será maior do que o benefício de demarcar posições, principalmente quando se trata da classe trabalhadora que não está envolvida com a militância comunista. Para essas pessoas (isto é, a maioria da população – justamente quem nós queremos organizar) PCB-RR pode parecer só mais uma sigla da confusa sopa de letrinhas política. Imaginem, se já era frequente nos confundirem com o PCdoB, dada sua maior projeção nacional, agora teremos que explicar, muitas vezes num diálogo rápido como uma panfletagem em parada de ônibus, que não somos nem o PCdoB nem o PCB, mas um racha do último, o PCB-RR. Para grande parte da classe trabalhadora, a esquerda ainda é sinônimo de PT, e todos os outros partidos da esquerda são apenas variações deste. Agora, não só vamos ter que explicar o projeto político que defendemos, o socialismo, mas também o que é a Reconstrução Revolucionária. Imaginem o diálogo:

– Somos o PCB-RR.
– PCB-RR? O que isso quer dizer?
– Partido Comunista Brasileiro - Reconstrução Revolucionária.
– Reconstrução Revolucionária? Reconstrução do quê?
– Reconstrução do Partido Comunista Brasileiro.
– Mas já não tem o PCdoB e o PCB?
– Sim, mas é que em 1992 quando Roberto Freire tentou liquidar o partido…

E por aí vai.

Dado o momento da cisão ao qual chegamos, em que já está claro que o PCB-RR não é mais um movimento pelo XVII Congresso extraordinário, mas se concretiza como um novo partido (embora não seja nada mais do que a reivindicação das teses do XVI Congresso do PCB), é hora de reconhecermos o novo que já vem há muito se gestando no velho.

Por mais que eu me orgulhe da história centenária do PCB e a reivindique, não sou pecebista, não tenho o mesmo apego formal pela sigla que a fração CC tem. Acredito que o mais importante, antes do nosso nome, é nossa prática. Se vamos ser o partido da vanguarda da classe trabalhadora, o partido que reivindica o marxismo-leninismo e a revolução socialista, pouco importa nossa sigla, desde que estejamos com o povo e entre o povo, que sejamos sua ferramenta para destruir quem nos oprime e construir um mundo novo.

Por isso, camaradas, eu digo que estou disposto a deixar a sigla PCB para trás. Se um dia os dois partidos se unirem novamente, conseguindo acertar nossas divergências e construir uma síntese que possibilite nossa fusão, e assim voltarmos a ser o PCB, ótimo. Mas até lá, acredito que o melhor a fazer pelo nosso trabalho político e crescimento é adotarmos uma sigla nova, uma sigla que seja clara e que não cause tanta confusão quanto a sigla “PCB-RR”.

Propostas

Em uma conversa com um camarada sobre o tema desta tribuna, ele sugeriu a sigla PCBR, Partido Comunista Brasileiro Revolucionário, pois ainda demarca uma posição, mas simplifica as coisas. Eu argumentei que já houve um PCBR, um racha do PCB de 1968. Esse racha foi provocado, principalmente, por divergências em relação à questão da luta armada, e encabeçado por Jacob Gorender, Mário Alves e Apolônio de Carvalho. Cito um trecho da Wikipédia:

As origens do PCBR remontam aos primeiros tempos após 1964, quando seu principal dirigente, Mário Alves, jornalista e intelectual de forte prestígio na Executiva do PCB, começou a se opor às posições de Luís Carlos Prestes no Comitê Central, formando a chamada Corrente Revolucionária. Após ter suas propostas derrotadas no VI Congresso do PCB, iniciou-se o debate para a constituição formal do PCBR, que se deu em abril de 1968, no Rio de Janeiro.

A proposta geral do PCBR consistia na constituição de um novo partido marxista que reformulasse a linha tradicional do PCB a respeito da necessidade da aliança com a burguesia brasileira, sem no entanto abraçar a bandeira da Revolução Socialista imediata. Quanto à estratégia, a peculiaridade do PCBR consistia na sua defesa de uma combinação entre guerrilha rural e trabalho de massas nas cidades, com vistas à formação de um "Governo Popular Revolucionário". Este governo cumpria tarefas democráticas e antiimperialistas, que abririam caminho para a Revolução Socialista. [1]

Não entro no mérito de debater a justeza da linha do PCBR, pois isso fugiria do objetivo desta tribuna. Na conversa com o referido camarada, este argumentou que não via prejuízo em adotar uma sigla que já existiu, pois “ninguém se lembra do PCBR”. Nesse ponto eu tendo a concordar com ele. E entre PCB-RR e PCBR acho a segunda preferível, é menos confusa, mas ainda assim mantém o problema da distinção do nosso partido com os demais “PC's”. Inclusive, fica fácil sermos confundidos com o PCR, embora esta seja uma sigla quase desconhecida pela grande massa.  

E então, qual a minha sugestão? Aqui, vou ter que decepcionar vocês e admitir que não tenho uma. Encaro esta tribuna não como uma proposta nova, mas como um ponta-pé para o debate. Acredito que este é um tema essencial e precisa ser aprofundado, e conto com a colaboração da camaradagem.

Segunda parte – Nosso símbolo

Aos que ficaram com um pé atrás com um debate sobre “símbolos”, podem relaxar. Não vou dar uma de Roberto Freire e propor aposentarmos a foice e o martelo por uma estética mais “palatável”. Na verdade, não tenho grandes discordâncias com o design atual, mas gostaria mesmo assim de fazer uma proposta.

Tem um debate, ainda incipiente, sobre a necessidade de uma estética comunista nacional. Um bom exemplo é o vídeo do camarada Jones Manoel, “Precisamos criar uma estética comunista brasileira” [2]. Na mesma linha do camarada, defendo a necessidade de avançarmos numa simbologia que represente as particularidades nacionais, o que não significa negarmos o passado.

Tem bons exemplos de partidos comunistas que fugiram da tradicional foice-e-martelo soviética, como o Partido Comunista da Venezuela, que usa um galo como símbolo. A imagem do galo tem vários significados: reflete o caráter majoritariamente camponês da classe trabalhadora venezuelana na época do surgimento do PCV, além de simbolizar a bravura e o futuro. Tem também o caso da Unidade Revolucionária Nacional Guatemalteca, ou URNG-MAIZ, cujo símbolo é uma espiga de milho, também refletindo o campesinato.

Também tem casos mais moderados, que ainda preservam a foice-e-martelo porém com adaptações. O mais emblemático é o símbolo do Partido dos Trabalhadores da Coreia, que adiciona um pincel de caligrafia entre a foice e o martelo, representando uma terceira classe ao lado do operariado e do campesinato, os samuwon [3]. Essa classe é particular à análise de classes da Coreia Popular, e agrupa escriturários, pequenos comerciantes, burocratas, professores e etc.

Na mesma linha da Coreia Popular, proponho uma variação da tradicional foice-e-martelo, mas adicionando um terceiro elemento, uma flecha. Segue abaixo a imagem do símbolo que proponho:

*Descrição da imagem: Uma foice e um martelo atravessados por uma flecha. O corpo da flecha está alinhado com o cabo da foice e com a parte de cima do martelo, apontando para cima num ângulo de cerca de 45 graus. A flecha atravessa a lâmina da foice, de modo que a lâmina ao mesmo tempo parece um arco.

Esse símbolo pretende incorporar os povos indígenas, uma parcela da população fundamental para a revolução brasileira e cuja luta os comunistas brasileiros em grande medida ainda desconhecem ou ignoram. Os povos indígenas que ainda preservam seus modos de vida tradicionais não se enquadram nas duas categorias clássicas do proletariado – binômio operariado e campesinato –, mas o seu papel para a revolução brasileira é tão vital quanto o daquelas.

O símbolo foi criado por mim em 2022 quando militava no núcleo UFRGS da UJC, durante a campanha de DCE da federal do Rio Grande do Sul, para ser o logo da chapa “Retomada Popular: Radicalizar para Avançar”. Nessa campanha, formamos uma chapa abertamente comunista com o Coletivo de Estudantes Indígenas (CEI) e, para a surpresa de todos, ganhamos a eleição. Os acúmulos sobre o envolvimento da UJC e do PCB em Porto Alegre com o movimento indígena vale uma tribuna à parte, mas aqui, vou dar apenas um contexto breve.

Na época, havíamos recém rompido com a gestão do DCE que compúnhamos com o Juntos, Alicerce e Correnteza. A gestão era basicamente hegemonizada pelo Juntos, e em nada se aproximava de nossa proposta de universidade popular. Era uma gestão extremamente rebaixada, despolitizada e não trazia nenhum benefício concreto para nós. Vale destacar que a decisão do núcleo de romper com a “social democracia amarela” não foi bem recebida pela CN da UJC na época. Por fim, formamos uma chapa com o Coletivo de Estudantes Indígenas da UFRGS, coletivo com o qual havíamos nos aproximado nos últimos meses, desde que o CEI ocupou um terreno da UFRGS reivindicando uma casa do estudante indígena. Esta luta, por sinal, foi uma aula de radicalidade num contexto de uma reitoria interventora nomeada por Bolsonaro e de uma esquerda universitária desmobilizada. Depois de quase um mês de resistência, o CEI, numa conquista histórica, arrancou da reitoria a casa do estudante indígena.

Embora esse símbolo represente atualmente a gestão DCE UFRGS 2022, acredito que ele é perfeitamente adequado para um partido comunista brasileiro. Ele reivindica a luta dos povos indígenas, uma luta anticapitalista de mais de 500 anos. Também reivindica a construção de um marxismo genuinamente brasileiro e demonstra que a solução para a luta dos povos indígenas e da classe trabalhadora de modo geral é a mesma: o fim do capitalismo. Admito que o símbolo peca em não contemplar a luta quilombola, outra luta que está umbilicalmente associada com a história do Brasil (embora se possa argumentar que a flecha também pode representar uma lança, historicamente associada com o movimento negro, à exemplo do símbolo do Movimento Negro Unificado). Outra ressalva, apontada por uma camarada ao ler o rascunho desta tribuna, é a contradição entre nossa falta de inserção e acúmulos à nível nacional sobre o movimento indígena, bem como a composição racial do nosso partido, que até onde eu saiba contém uma baixíssima quantidade de militantes indígenas. É uma crítica muito justa, mas ainda assim mantenho a proposta, porque meu intuito com esse símbolo não é refletir o estado atual do nosso partido, mas demarcar uma leitura de Brasil e explicitar nosso compromisso político com as lutas das populações tradicionais.

Conclusão

Espero que essa tribuna possa incentivar o debate sobre uma questão tão fundamental como a nossa identidade enquanto partido. Claro que um partido comunista não é feito de autoproclamações ou de foices e martelos, o que não falta na história e no presente são revisionistas, social-democratas e social-liberais que se escondem atrás de uma estética comunista. Um partido comunista é feito, antes de tudo, da sua práxis, da sua capacidade de ler a realidade e intervir nela, da sua capacidade de penetrar na classe trabalhadora e mobilizá-la para a luta de classes. Mas para isso, precisamos de uma identidade, para que possamos ser reconhecidos pelo nosso povo. O que vem depois disso, é a prática que dirá.


Referências Bibliográficas:

1. https://pt.wikipedia.org/wiki/Partido_Comunista_Brasileiro_Revolucion%C3%A1rio

2. Manoel, Jones. Precisamos criar uma estética comunista brasileira. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=V3Kejtw-AVo

3. Cumings, Bruce. Korea's Place in the Sun: A Modern History (2nd ed.). New York: W.W. Norton and Company, 2005, p. 498. Disponível em: http://library.lol/main/7B8B83A4D17A910B451359A03B464BC6