'Questão racial no complexo partidário' (Contribuição anônima)

Não tenho grandes proposições a fazer, mas acredito que nesse processo de reconstrução é urgente, que levemos a sério o debate anti opressão, a discussão sobre negritude nesse partido, nas análises que fazemos, na formação da militância e na nossa atuação.

'Questão racial no complexo partidário' (Contribuição anônima)
"Escolhemos ser comunistas até os ossos… quais são as nossas armas?"

Contribuição anônima para a Tribuna de Debates Preparatória do XVII Congresso Extraordinário.

Camaradas,

Como todos devem saber, o canal do camarada Jones Manoel contribuiu para a aproximação de parte da juventude negra à esquerda e militar na própria UJC. Entretanto, camaradas, ao entrar nessa organização não temos formação, estudos profundos sobre o debate anti opressão. Digo pois no meu estado, durante a aplicação do Sistema Nacional De Formação Política E Apostila De Formação Política, não se discutiu plenamente o caderno sobre Marxismo e Combate às Opressões. Ou até mesmo, nós, enquanto conjunto da militância, não conhecemos igualmente os acúmulos que os coletivos partidários (Minervino de Oliveira, Ana Montenegro e LGBT Comunista) produzem. E isso está explícito em diversas tribunas (do último congresso da UJC e também no site Em Defesa do Comunismo) e no próprio balanço do meu núcleo que fizemos em 2021, no qual constatamos pouco avanço no debate anti opressão.

Essa breve introdução vem no sentido de expressar um incômodo pessoal e também de simpatizantes da organização os quais tenho contato. E que incômodo é essa? Militantes brancos/as da organização se autodeclarando pretos/as e pardos/as. Camaradas, escrevo essa tribuna porque nenhuma pessoa dessa organização soube me dar uma resposta sobre como lidar com essa situação. Quando tratei com a assistência do meu núcleo sobre, o mesmo, um homem branco, disse que também se autodeclarava pardo por ter sofrido, na verdade de xenofobia (leitura minha) e que não sabia como conduzir a questão.

E aí, ao contestar essas pessoas, a postura é defensiva, de certeza tão absoluta de que sua “autodeclaração” estava certa, que aponta mais uma vez uma indisposição de ouvir pessoas negras. Afinal, essas mesmas pessoas “estudadas” vêm muito preparada para argumentar.

Vejam, camaradas, será que se nós, pessoas negras escolhêssemos mudar de cor, alguém acharia razoável? Quem de nós pode ESCOLHER a racialidade? É no mínimo ofensivo essa atitude, num país onde as piores estatísticas são sempre compostas por nós, a qual a dinâmica da estrutura capitalista nos empurrou a ocupar.

Então, camaradas, a escolha por escrever anonimamente é de preservar minha saúde mental, mas também de mais uma vez não me sentir errade em exprimir ao que, como falei de início, não fere só a mim. Não só a mim, porque simpatizantes e amigues da organização provocaram essa discussão num espaço informal, a qual por acaso estive presente.

Camaradas, escrevi essa tribuna mais como um desabafo do que como uma grande formulação. Não tenho grandes proposições a fazer, mas acredito que nesse processo de reconstrução é URGENTE, que levemos a sério o debate anti opressão, a discussão sobre negritude nesse partido, nas análises que fazemos, na formação da militância e na nossa atuação. Afinal, mesmo que minha motivação inicial para a escrita desse texto seja “errada”, pouco acesso (financeiro a materiais ou de espaços formativos) a esse debate aconteceu nesses anos que sou militante.

Os capitalistas todos os dias nos oferecem alternativas muito mais simples e sedutoras: empoderamento, representatividade, black money, etc. Escolhemos ser comunistas até os ossos… quais são as nossas armas? Quando as socializaremos usaremos?