PCM: Lutar contra o imperialismo, desmascarar o oportunismo, fortalecer o caráter de classe da luta anti-imperialista
A guerra imperialista contra os povos não se explica pelos atos de um governo isolado, possui um caráter de classe definido. Não há interesse, portanto, na defesa nacional, pois à burguesia importam só seus interesses econômicos.
Por Comitê Regional do Partido Comunista do México (PCM) na Península de Yucatán
No dia 3 de janeiro desse ano, alguns pontos estratégicos militares e civis na Venezuela foram bombardeados, com o objetivo de abrir caminho para uma operação voltada ao sequestro de Nicolás Maduro, para sua transferência e posterior julgamento nos Estados Unidos. Esses fatos se inserem no marco da agressão sistemática que o governo dos Estados Unidos, então chefiado por Donald Trump, vinha desenvolvendo havia meses contra o Estado venezuelano.
Esses acontecimentos, evidentemente inconcebíveis e profundamente violentos, abriram uma série de debates em escala mundial. É pertinente deter-se em algumas considerações fundamentais que permitam não apenas interpretar o ocorrido, mas avançar rumo a uma conclusão política que aponte para a superação do capitalismo em decomposição, isto é, o imperialismo.
Em primeiro lugar, é necessário assinalar que esses fatos não se enquadram em uma política binacional nem em um conflito estritamente bilateral entre os Estados Unidos e a Venezuela. Eles estão ligados ao conflito interimperialista que hoje ameaça desaguar em uma guerra imperialista generalizada.
O polo imperialista liderado pela China e pela Rússia havia conseguido posicionar interesses estratégicos no sul do continente americano por meio dos chamados governos progressistas. Esse golpe e os acontecimentos posteriores à posse de Delcy Rodríguez permitem observar com clareza o alinhamento geopolítico que se busca impor e reordenar na região.
Em segundo lugar, no México, o sentimento de solidariedade internacional levou a protestos contra a agressão imperialista dos Estados Unidos à Venezuela, apelando ao direito internacional, e, entre os setores mais avançados, colocou em discussão a necessidade de construir amplas frentes anticapitalistas e anti-imperialistas para enfrentar as ameaças do imperialismo contra outros povos do mundo, como é o caso da Revolução Cubana – posição com a qual nós, comunistas, concordamos e para a qual estaremos contribuindo.
No entanto, é nosso dever assinalar que setores do oportunismo estão tentando se aproveitar dessa situação. Diante das ameaças de Trump de intervir no México, eles conclamam a uma suposta defesa da soberania nacional por meio do apoio incondicional à presidenta Claudia Sheinbaum, a quem colocam discursivamente no campo progressista da América Latina.
Contudo, é imprescindível destacar que o Estado mexicano, hoje chefiado por Claudia Sheinbaum, encontra-se completamente alinhado, não apenas no plano ideológico, mas também por meio de tratados comerciais concretos e compromissos materiais, ao polo imperialista liderado pelos Estados Unidos.
Aqui se faz necessário um parêntese teórico. No plano discursivo, é fácil autodenominar-se anti-imperialista, mas, a partir de uma concepção materialista do imperialismo, é indispensável retomar Lenin, que o define como “o capitalismo na fase de desenvolvimento em que se consolidou a dominação dos monopólios e do capital financeiro, em que a exportação de capitais adquiriu importância de primeira ordem, em que se iniciou a partilha do mundo entre os trustes internacionais e se concluiu a partilha de toda a terra entre os países capitalistas mais importantes”. A partir dessa definição, pode-se observar que nosso país também está inserido na fase imperialista do capitalismo.
A chegada da 4T ao governo representou uma continuidade dos acordos interimperialistas que, há décadas, o México mantém com os Estados Unidos e com o polo imperialista por eles liderado: não houve ruptura com o NAFTA, hoje denominado T-MEC; inclusive quando o governo Trump deu uma guinada mais protecionista, o governo Sheinbaum saiu em defesa do “livre comércio”, isto é, da essência desse acordo interimperialista.
O próprio Obrador, na Cúpula de Líderes da América do Norte de 2021, convocou seus homólogos dos Estados Unidos e do Canadá a reforçar seu bloco imperialista diante do avanço do bloco imperialista liderado pela China capitalista. Tanto o governo Obrador quanto o de Sheinbaum se recusaram a romper relações com o Estado genocida de Israel, sob o argumento ridículo de que isso dificultaria a extradição de Tomás Zerón, priorizando assim seus acordos interimperialistas com Israel em detrimento da solidariedade com o povo palestino. Como, então, a social-democracia pode falar em “anti-imperialismo” se hoje é a principal defensora dos acordos interimperialistas com os Estados Unidos?
Em consequência, uma verdadeira frente anti-imperialista teria de ser uma frente contra os monopólios, tanto estrangeiros quanto mexicanos, e inclusive contra os monopólios regionais que operam dentro do território nacional. Não se pode ignorar que esses monopólios não apenas contam com o respaldo do governo federal, como também ditam as políticas de desenvolvimento a partir dos acordos que suas câmaras e confederações empresariais estabelecem com os diferentes níveis de governo.
O imperialismo, como nos ensina Lenin, não é apenas uma política de agressão externa, mas uma fase histórica do capitalismo em que o aprofundamento da exploração e a lógica da acumulação exigem uma expansão para além das fronteiras nacionais. A violência imperialista não é uma anomalia nem o resultado do caráter individual de um governante, mas uma consequência necessária do desenvolvimento monopolista do capital.
O oportunismo, valendo-se de um discurso aparentemente radical, tenta justificar essa exploração deturpando o conceito de anti-imperialismo. Ataca uma figura política em particular enquanto oculta deliberadamente os monopólios que estão por trás desse governante e que são, na realidade, os verdadeiros concentradores do poder. Esses setores buscam a conciliação de classes apelando à defesa nacional, mas isso não apenas não é anti-imperialismo, como constitui um engano direto à classe trabalhadora.
É fundamental demonstrar que a guerra imperialista e os ataques que violam a soberania dos povos não se explicam pelos atos de um governante isolado, mas possuem um caráter de classe claramente definido. Não existe um interesse real na defesa nacional, pois à burguesia não importa o bem-estar da classe trabalhadora, mas sim a garantia de seus interesses econômicos.
Lenin ensinou que um dos princípios fundamentais do anti-imperialismo é opor-se à guerra, não de maneira abstrata, mas opor-se à guerra imperialista e trabalhar a favor da guerra entre classes, isto é, da luta revolucionária que liberte o proletariado das correntes que hoje o aprisionam. Daí a necessidade de elevar o princípio do internacionalismo proletário. Enquanto a classe trabalhadora não conseguir erradicar o capitalismo de seu país, ela não tem pátria e é explorada da mesma forma no México, na Venezuela e em qualquer ponto do mundo capitalista.
Portanto, é a classe trabalhadora que deve se organizar em uma frente antimonopolista e anti-imperialista que não se limite a se opor aos ataques de um ou outro polo imperialista, mas que enfrente o imperialismo como fase monopolista do capitalismo; somente assim ele pode ser arrancado pela raiz.
Não se deve permitir que o oportunismo deturpe a luta dos povos contra o imperialismo nem que disfarce ou “lave” o caráter dos Estados capitalistas que se proclamam de esquerda. A soberania nacional é, para os capitalistas e para o Estado, um conceito útil, pois coloca a classe trabalhadora em uma suposta unidade com a burguesia – unidade que serve apenas para proteger os interesses dos monopólios.
É necessário compreender que, para a classe trabalhadora, é indiferente a defesa abstrata da nação se ela não transforma sua situação imediata, se não põe fim à miséria em que vivemos nós, que produzimos tudo.