Partido Tudeh: O Irã à beira de transformações potencialmente devastadoras

Consequências das políticas internas do regime teocrático no poder, combinadas com o impacto das sanções dos EUA sobre os meios de subsistência da população, colocaram o país em uma situação difícil.

Partido Tudeh: O Irã à beira de transformações potencialmente devastadoras
Reprodução: Getty Images.

Por Partido Tudeh do Irã

É preciso afirmar claramente, mais uma vez, que o surgimento da atual onda de protestos e sua expansão ao longo dos últimos 15 dias têm raízes diretas na rápida disseminação da pobreza, da desigualdade e da injustiça flagrante, bem como na corrupção e no acúmulo de riqueza por uma pequena minoria como resultado das políticas econômicas do regime ao longo das últimas três décadas – e não na demanda pelo retorno da monarquia ou pela restauração do governo monarquista.

Além disso, para além da luta heróica de centenas de milhares de pessoas contra o despotismo e a opressão de classe, é evidente que certos elementos e grupos organizados, por meio de atos de sabotagem e violência, estão tentando abrir caminho para a intervenção direta dos Estados Unidos e de seus aliados no curso dos atuais protestos.

Assim, as consequências catastróficas das políticas internas do regime teocrático no poder, combinadas com o impacto devastador das sanções dos EUA sobre a vida e os meios de subsistência da população, colocaram hoje o país em uma situação extremamente difícil.

Os meios de comunicação imperialistas, mais uma vez recorrendo a seus vastos recursos e capacidades, lançaram campanhas de propaganda e difundiram narrativas fabricadas com o objetivo de restaurar a monarquia. Eles tentam surfar na onda dos protestos legítimos do povo e desviar o movimento antiditatorial de seu verdadeiro caminho.

Por um lado, esses meios fornecem um pretexto para que os líderes do regime rotulem a revolta popular como um plano dos Estados Unidos e de Israel; por outro, ao exagerar as correntes monarquistas, buscam criar obstáculos ao processo de construção da unidade e da coordenação na ação entre forças progressistas e patrióticas.

Os acontecimentos internos e externos dos últimos dias demonstram que a corrente artificial e dependente do exterior formada em torno do slogan “retorno da monarquia” não apenas carece de uma ampla base social e de um programa sério para mudanças democráticas, como também é incapaz de alcançar qualquer coisa sem a intervenção e as ameaças dos Estados Unidos e de Israel – exceto sabotar o movimento antiditatorial e os protestos populares.

O pedido vergonhoso de Reza Pahlavi a Trump, em 9 de janeiro, sob o pretexto de “ajudar o povo do Irã”, no qual afirmou: “Você provou, e eu sei, que é um homem de paz e fiel à sua palavra; por favor, esteja pronto para intervir para ajudar o povo do Irã”, é um exemplo claro do comportamento antinacional dessa corrente.

Na prática, tais apelos deram aos líderes da República Islâmica e ao seu aparato repressivo a oportunidade e o pretexto de que precisavam – citando a ordem de Khamenei que rotulou os manifestantes como “arruaceiros” e “agentes estrangeiros” e advertiu que o governo não mostraria qualquer indulgência, além de acusar falsamente o povo, por meio de figuras como Pezeshkian, de ser “terroristas”, “instigadores” e mercenários do “inimigo” – para reprimir violentamente todo o movimento de protesto.

Dadas as ameaças de Trump de intervir no Irã, as ações de Reza Pahlavi e dos líderes da República Islâmica, em conjunto, podem criar condições que abram o caminho para um ataque dos EUA ao Irã.

Nos últimos dias, grandes meios de comunicação ocidentais e alguns políticos do Ocidente, ao exagerarem a corrente monarquista e direcionarem a opinião pública para apresentar o colapso da República Islâmica como inevitável e a intervenção direta “ocidental”, sob a liderança de Trump, como necessária, vêm promovendo e orientando um “projeto de fabricação de alternativa” para o Irã. Por exemplo, desde a noite da última sexta-feira, as redes de rádio e televisão da BBC no Reino Unido exibiram vídeos produzidos pela Organização dos Mojahedin-e Khalq (MEK), realizaram entrevistas com John Bolton e transmitiram programas semelhantes.

Esses meios, assim como grandes veículos na França e nos Estados Unidos, tentam criar uma atmosfera e um contexto para a intervenção nos assuntos internos do Irã. O governo britânico, cúmplice de longa data dos Estados Unidos na promoção de políticas imperialistas, também anunciou no domingo, 11 de janeiro, que busca uma “transferência pacífica de poder no Irã”.

Além disso, testemunhamos ações deploráveis de algumas figuras iranianas conhecidas. Entre elas estão Shirin Ebadi, advogada e laureada com o Prêmio Nobel da Paz; Mohsen Makhmalbaf, escritor e cineasta; e Abdullah Mohtadi, secretário-geral do Partido Komala do Curdistão Iraniano.

Em alinhamento com Reza Pahlavi, eles escreveram uma carta a Trump pedindo sua intervenção nos assuntos do Irã, incluindo ação militar. Será que Shirin Ebadi desconhece as visões fascistas, a ideologia reacionária, misógina e racista, e as políticas agressivas e hegemônicas de uma figura como Trump e de seu cúmplice criminoso de guerra, Netanyahu?

No marco dos planos dos Estados Unidos e de seus aliados para o nosso país e para a região, tais apelos e o recurso à intervenção estrangeira nos assuntos internos do Irã servem, na prática, como instrumentos para conter e neutralizar qualquer possibilidade de organizar um movimento popular e formar uma força iraniana capaz de resgatar o país da atual ditadura governante e conduzi-lo a transformações revolucionárias nacionais e democráticas.

Essas políticas imperialistas intervencionistas se repetiram muitas vezes no Irã ao longo do último século. Os Pahlavi desempenharam um papel central na implementação dessas políticas, beneficiaram-se delas e, em troca, concederam grandes concessões às potências interventoras, contra os interesses nacionais – inclusive durante o golpe de 19 de agosto de 1953 contra o governo nacional do Dr. Mohammad Mossadegh, após a nacionalização da indústria do petróleo.

Após a derrubada da ditadura dependente do exterior da família Pahlavi, há mais de quatro décadas, na revolução popular de 1979, a ditadura teocrática rapidamente abandonou os ideais da revolução e, para preservar a dominação do “islã político” e proteger a riqueza astronômica das elites ligadas ao poder, colocou-se contra o povo trabalhador e os interesses nacionais. Durante anos, esse regime tem sido um obstáculo a mudanças nacionais e democráticas fundamentais.

A situação agora se deteriorou a tal ponto que a sociedade vê todas as vias de busca por justiça, igualdade e liberdade bloqueadas e – apesar da repressão – chegou a um estágio explosivo de protestos de rua em massa para recuperar seus direitos. Em condições tão graves, com um governo fraco, corrupto e repressivo no poder, o Irã enfrenta novamente ameaças perigosas dos Estados Unidos, de Israel e de seus agentes infiltrados.

Após sucessivos protestos populares no Irã ao longo das últimas décadas, está claro que o regime teocrático perdeu agora a capacidade de conter ou equilibrar as legítimas revoltas da maioria da sociedade e já não é capaz sequer de reparar ou administrar parcialmente a profunda ruptura entre o povo e o Estado.

As declarações feitas no último domingo à noite por Masoud Pezeshkian [o presidente], em seu chamado “diálogo televisivo franco e amigável com o povo” sobre a crise econômica e de subsistência e a eliminação das taxas de câmbio subsidiadas, não passaram de uma repetição de retóricas antigas, entediantes e infrutíferas, e não trarão nenhuma mudança real para o povo. Sua ineficaz “terapia pela conversa”, reconhecendo as raízes econômicas dos protestos recentes sem oferecer qualquer solução efetiva, não terá impacto na opinião pública. O povo trabalhador sente esses problemas na própria pele e aprendeu, pela experiência, que os funcionários e autoridades do regime não têm vontade nem capacidade para resolvê-los.

No mesmo dia, Mohammad-Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento, não teve nada a dizer além de repetir bravatas perigosas e irresponsáveis que podem ser claramente interpretadas como tambores de guerra. Ele afirmou: “No caso de um ataque militar, o Irã, no marco da defesa legítima, considerará Israel e os centros militares e de transporte marítimo dos EUA como alvos legítimos”.

Ebrahim Azizi, general de brigada da Guarda Revolucionária Islâmica e chefe da Comissão de Segurança Nacional do Parlamento, foi ainda mais longe nessa postura insensata e perigosa, afirmando, em referência aos protestos recentes, que “no futuro, a República Islâmica considerará legítima qualquer ação contra os Estados Unidos e Israel por causa desses acontecimentos”.

Enquanto isso, segundo a mais recente alegação de Trump, a República Islâmica solicitou o início de negociações, e Abbas Araghchi também anunciou na segunda-feira, 12 de janeiro, que “a República Islâmica está pronta tanto para a guerra quanto para as negociações”.

A realidade é que tanto as forças e facções poderosas dentro da estrutura da ditadura governante quanto as forças dependentes da América de Trump buscam a continuidade de algum tipo de ditadura no Irã.

O primeiro grupo persegue esse objetivo seja preservando a estrutura existente centrada no governo absoluto do Líder Supremo – embora sua vida útil esteja se aproximando rapidamente do fim –, seja por meio de mudanças limitadas destinadas a salvaguardar os interesses do grande capital a qualquer custo, mantendo a atual economia política dentro de um marco neoliberal.

O segundo grupo avança essa abordagem dentro dos planos estratégicos da administração dominadora e coercitiva de Trump, em coordenação com o belicista Netanyahu, para redesenhar o mapa geopolítico da região. Hoje, o Irã está no centro dessas mudanças em sua condição política, econômica e social mais fraca e frágil.

Ao longo do último século, esta é mais uma vez uma situação em que nosso país, devido à imprudência de seus governantes e ao desprezo pela vida e pelos meios de subsistência do povo trabalhador, caiu na instabilidade e entrou em um caminho de mudanças cruciais. Infelizmente, desta vez, assim como durante a revolução de 1979, as forças políticas progressistas e patrióticas carecem da preparação necessária para uma unidade eficaz e prática em torno de um programa mínimo comum, o que torna o futuro dos acontecimentos atuais profundamente preocupante.

Mais uma vez, certos círculos tentam impor um “líder” ao movimento a partir do exterior. A fragmentação das forças progressistas é tal que, até poucas semanas atrás, algumas organizações e indivíduos, em vez de se concentrarem no diálogo construtivo, na coordenação de ações e no apoio mútuo (inclusive e especialmente no apoio a forças e figuras proeminentes dentro do país, como Mir-Hossein Mousavi ou Tajzadeh e 17 ativistas civis que declararam que “a transição da República Islâmica é o único caminho para salvar o Irã”), estavam ocupados com entrevistas e escritos abstratos, desconectados das realidades do país e das ameaças externas, redefinindo “a esquerda” e acertando contas com forças progressistas.

Enquanto isso, o movimento de esquerda e o Partido Tudeh do Irã estavam sob pressão e ataque do aparato de segurança-midiático do regime e de meios ligados ao campo Pahlavi e a potências estrangeiras. É evidente que essa fragmentação, divisão e inação servem efetivamente aos interesses da ditadura teocrática e das correntes monarquistas.

O Partido Tudeh do Irã, por meio de seus apelos, documentos oficiais, artigos no Nameh Mardom e contatos diretos com outras forças progressistas e patrióticas, enfatizou repetidamente a necessidade de diálogo construtivo e cooperação na ação em torno de um programa mínimo na luta contra o regime autoritário governante.

As forças progressistas precisam formular um programa conjunto que possa ser apresentado ao povo e preparar o movimento para lidar com a atual situação crítica. Com tal instrumento, há esperança de que os acontecimentos possam ser direcionados para servir aos interesses nacionais e às demandas populares. Infelizmente, até agora, essa oportunidade não foi aproveitada para organizar uma luta unida e eficaz contra a ditadura.

Ainda assim, apesar das duras condições que prevalecem no país e da incapacidade das forças patrióticas progressistas de moldar efetivamente o curso dos acontecimentos, acreditamos que a luta antiditatorial e a defesa da paz e da soberania nacional continuarão por razões objetivas e reais.

Do ponto de vista do Partido Tudeh do Irã, um marco conjunto para diálogo e acordo entre forças progressistas de esquerda e nacionalistas na atual etapa da luta pode incluir os seguintes objetivos fundamentais:

  • Avançar para o estabelecimento de um governo nacional-democrático, com a separação completa entre religião e Estado, incluindo todas as instituições governamentais e executivas, a legislação, o Judiciário e todos os aspectos do planejamento social;
  • Paralisação total dos programas econômicos neoliberais nos setores centrais da economia nacional;
  • Defesa da paz, da soberania nacional, compromisso com a integridade territorial do Irã e oposição a qualquer forma de intervenção estrangeira nos assuntos internos do país;
  • Liberdade para todos os prisioneiros de consciência e para os presos sindicais e políticos.

A urgência do momento exige que, para salvar o país da ditadura, unamos imediatamente as mãos e atuemos sem demora.