'Os desvios anti-partido e a destruição do PCB-RR em curso no Distrito Federal' (Rhuan Maciel)

A chave de toda discussão aqui é justamente essa, é o congresso quem define nossa diretriz política, e, portanto, le dirigente deve seguir o que foi definido nesta instância máxima de organização partidária.

'Os desvios anti-partido e a destruição do PCB-RR em curso no Distrito Federal' (Rhuan Maciel)
Esplanada dos Ministérios, Distrito Federal, 03 de setembro de 1959

Por Rhuan Maciel para a Tribuna de Debates Preparatória do XVII Congresso Extraordinário.

Introdução

Saudações camaradas, meu objetivo aqui era tentar fundamentar minha crítica a vários desvios que estão ocorrendo no DF, para assim dar um esclarecimento maior a quem não é daqui e também defender minha posição frente a polêmica. No entanto, tinha me planejado para escrever cinco tribunas para isso, só que acabei ficando preso no RS nas últimas duas semanas e não consegui dar execução a meu planejamento. E como o prazo está curto para o envio, estarei escrevendo apenas essa daqui de maneira apressada. Pensei bastante em responder diretamente às tribunas públicas do Ouriço Azul ou às tribunas internas que versam sobre a polêmica, mas a posição ruim desse camarada é apenas expressão de desvios que estão presentes há tempos aqui.

De qualquer forma deixarei o meu resumo do que pretendia ter escrito e não consegui por conta do prazo:

  • Os desvios anti-partido e a destruição do PCB-RR em curso no Distrito Federal:

Esse primeiro escrito vai tentar debater alguns desvios sérios que estão entranhados na militância brasiliense, principalmente nos seus quadros dirigentes. Nesse sentido, a ideia é colocar algumas divergências sérias sobre estrutura partidária, relações entre questões políticas e organizativas, papel da direção e sua interação com a base, incompreensão do centralismo-democrático e um certo desprezo pela teoria marxista. 

  • A disputa pela caracterização da China e sua expressão como a disputa pelo conceito de socialismo:
    • Na sequência, é necessário entender a polêmica em torno da caracterização da China, já que ela é apenas a superfície do debate, onde na verdade está em jogo a disputa pela definição de socialismo e determinará a nossa linha para a revolução. Esse debate está repleto de moralismo e uma defesa acrítica do socialismo real, assim como predomina uma falta de formação geral em conceitos bases do marxismo.
  • Capacitismo como estrutural no partido e a tentativa de desmistificar o debate no DF em torno das opressões:
    • Esse, na verdade, é o mais delicado dos textos, já que perpassa opressões partidárias e acusações que surgiram após a Etapa Regional do XVII Congresso. O objetivo é tentar desmistificar algumas questões e colocar na mesa alguns acontecimentos que são sempre deturpados, ignorados ou esquecidos pela militância. Ademais, tentar fazer uma crítica a maneira como a militância tem levado a sua relação com camaradas neurodivergentes.
  • Polêmica num partido leninista e a possibilidade de superação das divergências: para além da lógica de inimigo interno:
    • Esse texto procura dialogar com a atuação de alguns militantes e de um organismo de base em específico, o qual dentro dessa polêmica toda está emaranhado numa lógica de inimigo interno, instrumentalizando opressões e violando a unidade de ação. Importante notar que isso é uma consequência direta de como foi feito o racha no Distrito Federal e, anterior a isso, como o PCB atuava com perseguições e mandonismos.
  • A polêmica em torno do manual vietnamita como formação para o DF:
    • Por último, colocar algumas ponderações e tentar explicar as polêmicas em torno da formação que está ocorrendo no Distrito Federal há alguns meses, já que houveram muitos desentendimentos e espantalhos quando alguns camaradas foram contrários a utilização do livro vietnamita.

Dessa forma, esse seria meu roteiro para o debate, onde coloquei os principais pontos que gostaria de debater. Mas, em virtude dos problemas, esta tribuna presente é apenas a primeira e poderei dar sequência às outras caso a tribuna pública se torne permanente.

Para começar o debate é importante notar que existem duas alas muito bem definidas hoje no Distrito Federal, e, apesar de haver várias diferenças entre les militantes que estão do mesmo lado, é possível enxergar pontos de convergências muito claros que alocam cada militante numa ala dessa disputa, mesmo alguns afirmando que não.

Construção ou reconstrução do partido 

Nesse primeiro momento, é preciso entender que existe uma disputa das alas em torno do futuro do partido, e, infelizmente, isso só ficou claro para mim após a Etapa Regional do XVII Congresso. Com certeza era possível de perceber isso antes a partir de vários discursos e defesas, onde apareciam várias negações de algumas questões organizativas simplesmente por serem do velho partido. 

Na primeira reunião ordinária do CR, uma dirigente tenta fazer a distinção dessas duas linhas, a qual se resume nessas definições: 

  • Construção: construir coisas completamente diferentes, foco no sul global ao invés do norte global, experimentar coisas novas, formações novas, referências teóricas novas e relações diferentes de camaradagem.
  • Reconstrução: assistências que funcionam, uma direção que funciona, um congresso que funciona, formação adequada do marxismo-leninismo e até mesmo do Álvaro Cunhal.

Totalmente sintomático que nenhum des camaradas presentes façam uma crítica a essa separação e nem mesmo nenhum outre camarada que tenha lido essa ata, porque é uma separação que traz concepções problemáticas para o desenvolvimento dos nossos trabalho. A linha da construção é feita totalmente em um espírito aventureiro que não tem firmeza teórica alguma, já que fica nessa ânsia de querer ser algo totalmente novo sem qualquer base sólida. É possível justificar essa vontade pelo fato da incapacidade política e amadorismo das organizações partidárias no Brasil e a falta de formação marxista desses militantes, dessa forma ficando apenas numa negação pela negação, sem qualquer horizonte. Além de colocar a distinção entre sul e norte global de uma maneira tosca e com pouco ou zero rigor.

Agora, se as linhas postas são essas duas, minha posição é negá-las. E como um dos “representantes” da reconstrução, posso dizer que foi criado um espantalho do que seria a Reconstrução Revolucionária. Recomendo a leitura da tribuna da UJC-RS para tentar entender minimamente que existe um processo histórico por trás desse movimento e também (algo que deveria ser obrigatório a todes militantes do PCB-RR) do Manifesto. É preciso entender para além dessa imagem criada do que seria reconstruir, mas então o que seria isso? Reconstruir diz respeito a reivindicar todo passado de lutas e revoltas, e não apenas do PCB, mas de todas as organizações partidárias, todos os movimentos e todas iniciativas que visavam a superação da sociedade atual. Até mesmo os problemas e decisões erradas. Reivindicar todas as lutas e, o principal, entendê-las. Queremos reconstruir e ter pela primeira vez um Partido Comunista no Brasil. Isso tudo perpassa por aproveitar toda a estrutura e acúmulo do PCB antigo, assim como das outras organizações, jogar fora o que não serve e se apropriar do que for necessário. Inclusive, para esses camaradas que defendem a construção, qual era exatamente o motivo de estarem compondo o PCB anteriormente ao racha? Esse questionamento é relevante pois, se entendermos que devemos negá-lo completamente, não faria sentido algum estar militando nesse partido antes.

Questões organizativas X questões políticas

Mas para defender uma construção ao invés de uma reconstrução é necessário dar algum embasamento que justifique isso, mesmo que de forma totalmente equivocada. E, para isso, temos como expoente máximo a defesa do camarada Boto Vermelho, a qual irá correlacionar o conceito marxista de infraestrutura com a estrutura partidária, enquanto o resto será a superestrutura. E realmente, se essa correlação fizesse sentido, a negação da estrutura pcbista seria a via correta de luta para a superação dos nossos problemas. Entretanto, isso é apenas uma incompreensão desses conceitos da literatura marxista. No prefácio do Contribuição à crítica da economia política, Marx diz:

“O resultado geral que se me ofereceu e, uma vez ganho, serviu de fio condutor aos meus estudos, pode ser formulado assim sucintamente: na produção social da sua vida os homens entram em determinadas relações, necessárias, independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada etapa de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade destas relações de produção forma a estrutura económica da sociedade, a base real sobre a qual se ergue uma superestrutura jurídica e política, e à qual correspondem determinadas formas da consciência social. O modo de produção da vida material é que condiciona o processo da vida social, política e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, inversamente, o seu ser social que determina a sua consciência.” [Marx

Dessa forma, a infraestrutura diz respeito às relações sociais de produção e às forças produtivas, e em nada tem haver com a estrutura partidária, entretanto continua existindo uma insistência em colocar o partido e seu funcionamento dessa maneira.

É usando essa argumentação com um suposto fundo marxista que essa tese é sustentada aqui no Distrito Federal, e ainda utilizando uma arrogância de chamar isso de “beabá do marxismo”. E torna-se muito preocupante que essa concepção seja hegemônica, já que sua decorrência lógica é que devemos procurar as melhores estruturas organizativas possíveis para funcionar enquanto partido. O que está acontecendo é justamente uma confusão de quem determina quem, e a ala construtora acaba trocando o determinador pelo determinado.

Político como determinador do organizativo

Foi utilizada como analogia para sustentar essa tese a reconstrução de uma casa, onde não devemos utilizar os mesmos tijolos quebrados para reconstruí-la, portanto irei devolver a analogia: não devemos reconstruir uma casa sem saber a quantidade de espaço que precisaremos, sem saber o quanto de peso ela precisará aguentar e sem saber para o quê ela irá servir, pois a estrutura da casa é apenas a casca que precisa aguentar determinado conteúdo e cumprir seu papel de acordo com o objetivo traçado. É nesse sentido que a nossa estrutura partidária serve para dar vazão a nossa linha política definida em congresso e nunca o contrário. E não que a estrutura não seja importante, ela o é, mas nunca pode ser considerada como o determinante do resto.

Para tentar tornar claro o argumento, irei utilizar alguns exemplos que a ala construtora utiliza para expressar o problema organizativo e tentar responder qual é o problema político que está por trás: 

1) Os coletivos partidários eram utilizados como refugos, já que o partido não se apropriava dos debates e acabava por escantear pautas raciais, da juventude, femininas e lgbts - isso geralmente é visto apenas da forma organizativa, mas isso acontecia não por acaso ou por termos uma estrutura viciada, e sim por isso refletir o que o PCB entendia como relevante para a revolução, ou seja, por exemplo, o debate do feminismo classista não era considerado como crucial para o entendimento político do que seria a atuação revolucionária, e isso, mesmo que não explícito, é um problema na linha política da organização. 

2) Não existia espaços para a polêmica - isso é literalmente pela divergência sobre a conceituação do que seria centralismo-democrático, onde no PCB existia uma unidade forjada que não contemplava a mais ampla polêmica, e é possível relacionar essa visão a obra de Cunhal1, que possui uma visão limitada de unidade e do funcionamento orgânico de um partido para a construção da unidade. Tanto isso é verdade que as tribunas internas nunca foram implementadas, pois apesar de isso ter sido definido em Congresso, não refletia no entendimento de centralismo-democrático do Comitê Central.

3) Perseguições, mandonismos e instrumentalização dos PDs - isso pode ser explicado por diversas vertentes diferentes, mas com certeza é uma expressão clara do que era o entendimento dos dirigentes de centralismo-democrático, não sendo uma concepção leninista e utilizando o partido como um instrumento para algum fim determinado, o que também é uma consequência da linha política.

Esses três são alguns exemplos claros que sempre aparecem e parecem justificar que o problema é organizativo, porém é o erro que sempre incorrem de não perceberem a motivação política por trás, sendo o organizativo apenas o ferramental para a justificação dessa motivação.

Soluções organizativas que surgem no DF

Nesse viés, várias soluções técnicas e formalistas surgem no Distrito Federal,  e elas não conseguem cumprir o seu papel como solucionadoras, uma vez que elas só conseguem ser isso quando em consonância com o verdadeiro problema de fundo, o qual não se resume a questões organizativas apenas. É por isso que colocar o Clockify para registrar as horas que gastamos militando não irá solucionar a sobrecarga des militantes. É por isso que colocar o Trello como ferramenta para organizar tarefas não irá solucionar a ruim divisão do trabalho e dar um melhor monitoramento delas. É por isso que restringir a apenas duas circulares por mês não irá solucionar a sobrecarga de tarefas e trazer dinamicidade de ação dos organismos subordinados. Quero deixar claro que essas mudanças poderiam sim proporcionar avanços e ganhos para nós, entretanto o problema em si está em serem as balizas para os encaminhamentos, já que de forma alguma elas garantem qualquer coisa quando aplicadas per si, e somente quando entendidas como aliadas a um objetivo político concreto.   

O racha no Distrito Federal

Em relação a tudo isso, é importante colocar alguns pontos sobre a questão do racha do PCB e como isso é entendido no Distrito Federal. Porque essa noção do organizativo como precursor do político (ou mesmo em pé de igualdade) é consequência direta do mandonismo, dirigismo e perseguições que foram a principal razão do racha no DF. Dessa forma, os excessos que ocorriam foram determinantes para condicionar a linha política desses militantes, retirando o caráter de fundo e as verdadeiras razões para esses excessos ocorrerem. Assim, uma consequência clara disso é quando, no nosso Congresso, temos dirigentes afirmando que rachamos apenas por questões organizativas, pois realmente isso realoca o problema para a utilização da forma partido e não sua derrocada ideológica. Então os problemas do PCB são entendidos como os problemas da estrutura partidária, e isso irá levar à elaboração da tese de que o organizativo irá determinar o resto.

Importante notar que, apesar de haverem motivações menores e locais, a Reconstrução Revolucionária é um processo histórico que sobredetermina de muitas formas inúmeras questões e de forma alguma as questões gerais podem ser colocadas em pé de igualdade com as questões particulares.

Além do que foi colocado, existe um outro desvio que será um resultado direto dessa má compreensão sobre os motivos do racha, que é o basismo presente no DF.

O que é basismo

Num primeiro momento, poderia se dizer que basismo é algo muito próximo de outro ismo, o democratismo, mas isso seria uma resposta com um argumento quase circular e que não expressa nada de concreto. Então o que seria o basismo? Esse conceito diz respeito a uma tendência de que as decisões políticas tomadas devem ser fundamentalmente centradas na base. Nesse sentido, o polo de força motriz do partido deve sempre vir de baixo para cima, estabelecendo o poder político nos organismos de base.

Basismo presente no Distrito Federal

Para demonstrar a existência desse desvio, irei me basear em algumas fontes.

Numa tribuna interna, João Elias (Harpia Dourada) destaca que a visão de que aqueles que estão imersos nas situações específicas são os mais qualificados para compreendê-las e propor soluções. E é por isso que a base sabe melhor a linha que deve ser seguida, uma vez que vivencia na prática sua atuação particular. No entanto, essa abordagem parece ignorar totalmente as discussões sobre ideologia na literatura marxista, adotando uma visão quase essencialista. Por exemplo, o marxismo define que as condições materiais da vida determinam a consciência, não o contrário, o que levanta dúvidas sobre a validade de atribuir um conhecimento privilegiado aos indivíduos dentro de um contexto específico, como se essencialmente por estarem ocupando aquele espaço saberiam exatamente o que ocorre e como proceder. A consciência coletiva também é influenciada pelas condições materiais de vida e pode ser alienada, assim como a consciência individual. Portanto, idealizar o conhecimento dos organismos de base pode não corresponder à realidade.

Em outro momento, João Elias destaca a importância de priorizar a autonomia dos núcleos em relação à CR. No entanto, essa ideia, se levada ao extremo, poderia questionar a relevância da forma-partido marxista-leninista, já que a direção se tornaria irrelevante se não conseguisse dirigir os núcleos em conformidade com a luta definida em seu programa. Portanto, sugerir a autonomia completa dos núcleos pode ser considerado problemático, pois enfraquece o papel da direção na condução do movimento e destroi a verticalização partidária das instâncias.

Outro ponto foi durante a Conferência Distrital, onde houve um debate acalorado sobre a unificação de células e núcleos, e quando chega a hora de discutir unificação de alguns organismos, o camarada Boto Vermelho fez uma fala completamente absurda. Essa fala utilizou como recurso argumentativo uma piada (o que não é um problema, pois é uma tática válida para o convencimento). Na piada, duas pessoas estão conversando pelo telefone e estão prestes a concordar em algo importante. No entanto, antes de finalizarem o acordo, uma delas faz uma pausa e pergunta: "Você não está esquecendo do consentimento de alguém?". Esta pergunta aparentemente inocente introduz um elemento surpresa, porque é revelado que o "alguém" cujo consentimento está sendo mencionado é o Barack Obama, que está secretamente ouvindo suas conversas telefônicas. Para tornar claro o seu sentido, essa argumentação foi utilizada para fazer um paralelo com a realidade, pois esses organismos possuíam a vontade de se juntar e estávamos discutindo com todo o pleno se isso deveria ocorrer.

Essa piada expressa uma concepção extremamente limitada de como um Partido Comunista deve funcionar, já que admite que basta os organismos de base concordarem com a unificação, relegando o debate com o pleno para uma posição impotente e irrelevante para a decisão. Essa abordagem levanta uma questão fundamental: se os organismos de base podem operar com essa autonomia, qual é exatamente o propósito da discussão? A conclusão lógica é que isso sugere a abolição do centralismo em favor do federalismo dentro do partido. Assim, o que o Boto Vermelho está defendendo é um total absurdo frente a ideia de partido leninista.

Ademais, no Congresso, apareceram alguns destaques que colocavam a necessidade de dirigentes estarem na base para não perderem a conexão com elas, o rodízio de dirigentes e duração máxima de um ano para cada um.

Primeiramente, é absurdo pensar que les dirigentes devem estar compondo um organismo de base para não perder a conexão e reinar um descolamento da direção, isso porque a participação desse dirigente no organismo de base NÃO garante de forma alguma isso, uma vez que sua experiência será de acordo com aquele organismo específico, e não com a totalidade da base em si. Acho que nesse aspecto falta o entendimento de que le dirigente deve pensar no todo, e não no particular, ou seja, elu deve fazer uma síntese das diversas frentes e direcioná-las conforme o que foi definido em CONGRESSO. A chave de toda discussão aqui é justamente essa, é o congresso quem define nossa diretriz política, e, portanto, le dirigente deve seguir o que foi definido nesta instância máxima de organização partidária. E não me entendam errado, não estou relegando a base uma posição subserviente, e ela deve sim cobrar seus dirigentes para cumprir nossas teses congressuais, só que para isso não faz sentido alguma a participação desse dirigente na base.

De maneira geral, essa defesa vai contra a especialização do trabalho e endossa a sobrecarga des militantes que precisam estar compondo mais de uma instância.

Sobre a estrutura partidária

Para debater um pouco sobre a estrutura partidária, é preciso entender que ela é verticalizada no que diz respeito à centralidade das decisões. Essa estrutura organizativa não é uma invenção da roda pelo PCB-RR, mas sim uma estrutura que advém de contribuições marxianas e leninianas. Isso aparece pela primeira vez quando Marx e Engels reformulam a maneira organizativa da Liga dos Comunistas (antiga Liga dos Justos), a qual anteriormente regia um modelo blanquista. Nesse sentido, Engels mostra a configuração da Liga:

“No Verão de 1847, teve lugar em Londres o primeiro congresso da Liga, em que W. Wolff representou a comuna de Bruxelas e eu as de Paris. Procedeu-se aí, antes do mais, à reorganização da Liga. O que ainda restava dos velhos nomes místicos do tempo da conspiração foi agora também abolido; a Liga organizou-se em comunas [Gemeinde], círculos [Kreise], círculos directivos [leitende Kreise], autoridade central [Zentralbehörde] e congresso [Kongress] e denominou-se a partir de então: «Liga dos Comunistas» [«Bund der Kommunisten»]. «O objectivo da Liga é o derrubamento da burguesia, a dominação do proletariado, a superação da velha sociedade burguesa que repousa sobre oposições de classes, e a fundação de uma nova sociedade sem classes e sem propriedade privada» — assim dizia o artigo primeiro.” [Engels]

Dessa forma, supera-se a forma anterior adicionando uma questão democrática à organização, onde o Congresso era a instância máxima de decisão. Além disso, para Lênin:

“O movimento deve ser dirigido por um pequeno número de grupos, os mais homogêneos possíveis, e de revolucionários profissionais respaldados pela experiência. Mas no movimento deverá participar o maior número de grupos, os mais diversos e heterogêneos possíveis, recrutados nas mais diferentes camadas do proletariado (e de outras classes do povo). [...] Devemos centralizar a direção do movimento. Mas devemos também [...] descentralizar o quanto possível a responsabilidade ante o partido de cada um de seus membros individualmente, de cada participante no trabalho, de cada um dos círculos do partido ou próximo dele.”[Lênin]

O motivo de colocar essas citações não é para utilizar um argumento de autoridade, e sim para demonstrar que nosso modo de se organizar não é nada novo sob o sol, e que são formas que possibilitam a política da teoria marxista-leninista. Mas agora, por quê se organizar assim? É importante perceber que a forma organizativa é determinada pela teoria política, ou seja, essa forma de se organizar é uma consequência do centralismo-democrático, além de ter alguns aspectos que dizem respeito à luta na clandestinidade e especialização dos trabalhos. Nesse sentido, o centralismo do partido impõe que cada organismo de base não possa fazer o que bem entender, pois o objetivo é unir todas as instâncias do partido em torno de um programa único, que é a única maneira que o proletariado tem de, enquanto classe, enfrentar a ordem burguesa com sua potência máxima. Entretanto, ao mesmo tempo, é necessário que existam espaços de deliberações com a mais ampla democracia, uma vez que o “marxismo perfeito” não irá sair da cabeça de nenhum indivíduo, mas só a partir da crítica (no sentido contraposto a ideologia) e do debate, para assim desmascarar a farsa burguesa. Esse espaço é o Congresso. 

Além disso, a questão das células e da sua existência que não depende de nenhum organismo horizontal é consequência da luta clandestina que impunha o máximo de desacoplamento entre esses organismos, pois se houvesse a captura de um deles, não prejudicaria a existência do outro. Outro motivo para as células serem do jeito que são é para a aplicação da linha política definida no Congresso, sendo sua função tocar esse trabalho concretamente de maneira especializada. É dessa forma (de uma maneira muito simplificadora e que com certeza não esgota o debate) que é explicada a nossa maneira organizativa. Portanto, quando les camaradas defendem que algum militante deva ir para o Congresso porque elu irá se formar enquanto quadro, e não porque le camarada é um dos quadros mais avançados e que poderá contribuir para o avanço da linha do partido, estamos tendo uma má compreensão da função do Congresso enquanto engrenagem organizadora dos trabalhos nos próximos anos, enquanto diretriz política, enquanto balizador dos trabalhos. É somente essa falta de compreensão que explica les camaradas internamente não compreenderem que a crítica ao basismo é uma tentativa de resgatar os princípios centralistas do marxismo-leninismo. No entanto, se a crítica for ao centralismo, o que faria mais sentido ao meu ver, seria bom que colocasse nesses termos, para termos clareza do que estamos debatendo para além dos espantalhos.

Novas referências

Existe ainda um outro panorama de fundo, onde já apareceu um certo desprezo pelas referências marxistas, um camarada chegou a ironizar escrevendo “São Marx” e “Lorde Lênin”. Bem camarada, sinto muito em avisar a todes que estamos em um partido marxista-leninista, porque isso implica numa linha marxista-leninista coincidentemente. Não sei se existe a possibilidade de disputa de uma linha não marxista dentro desse partido, mas caso queira tentar, vamos debater teoricamente isso, e não apenas em cima de acusações infundadas. E é preocupante ouvir internamente com ironia que temos um “programa divino máximo”, já que ele é definido da forma mais democrática que possuímos no Partido Comunista, consolidando nosso estatuto, tática e estratégia.

Outrossim, também já nos deparamos com alguns militantes afirmando que Marx e Lênin não são suficientes para explicar a realidade de hoje. Se fossem outras circunstâncias, eu concordaria. Porém estamos numa conjuntura distrital que parece ir além desse argumento para renegar pontos basilares da teoria marxista. Então, para clarificar, enquanto a dominação social perdurar nos moldes do modo de produção capitalista, os princípios marxistas continuam de sua maneira geral válidos. 

Com certeza absoluta eles não são suficientes e precisamos sempre ir além, mas quando les militantes falam isso ao mesmo tempo que apresentam desvios sérios, percebo que estamos debatendo em cima de paradigmas errados e o nosso rumo será qualquer coisa que não um Partido Comunista na prática.

Centralismo-democrático

Para finalizar, parece que uma das balizas para os problemas é o entendimento do que seria centralismo democrático, uma vez que o centralismo é totalmente deixado de lado em favor de um democratismo ingênuo que não contempla as necessidades e potencialidades do partido vanguarda da classe trabalhadora.

Nosso centralismo é em torno da instância máxima partidária que é o Congresso, e isso não quer dizer que não podem haver críticas a essa posição, pois podem (e devem) sim. Porém a questão principal é entender nossas resoluções e respeitá-las no sentido de não quebrar nenhuma unidade de ação possível. A polêmica deve ser máxima e incentivada dentro do partido, já que é a única maneira possível de tentar caminhar para a unidade, mas tudo isso é costurado pela direção máxima que foi respaldada por toda base num momento anterior. Sem isso nos tornamos um clube do livro ou um grupo de amigos.

Conclusão

Finalmente, considero essa tribuna ruim e insuficiente para cumprir o seu papel como foi idealizado, que era contribuir para um esclarecimento e crítica aos desvios do Distrito Federal. Escrevi de maneira corrida e em alguns momentos apenas adicionando textos antigos de outras tribunas minhas que foram feitas internamente. Entretanto prefiro um texto fraco que consiga pelo menos pincelar algumas coisas que estão debaixo dos panos, do que ela não existir. Espero que as tribunas públicas sejam definidas e que les camaradas possam responder esse meu escrito me criticando.

Também, não considero que o título seja muito tensionador (como Xavier pontuou para mim) ou um chamativo apenas, mas que é uma síntese do que acho que pode acontecer aqui no Distrito Federal caso todos esses desvios não sejam combatidos e liquidados do partido.