'Orientalismo: um pouco da problemática envolvendo um sentimento "anti-amarelo"' (Amanda T.)

O mito do perigo amarelo começa no século XIX, com a Inglaterra e outros países imperialistas que já tinham colônias no sul, leste e sudeste asiático. Isso vai refletir em políticas nos EUA e no Brasil, por exemplo.

'Orientalismo: um pouco da problemática envolvendo um sentimento "anti-amarelo"' (Amanda T.)

Por Amanda T. para a Tribuna de Debates Preparatória do XVII Congresso Extraordinário.

Camaradas, eu gostaria de trazer a minha pequena contribuição sobre as discussões sobre orientalismo e como ele é bastante presente no cotidiano e muitas vezes dentro de nossas fileiras, passando muitas vezes de forma despercebida. 

O intuito é trazer um certo histórico e instigar uma certa reflexão acerca do tema.

1. O Perigo Amarelo 

O mito do perigo amarelo começa no século XIX, com a Inglaterra e outros países imperialistas que já tinham colônias no sul, leste e sudeste asiático e uma grande influência econômica na região. A ideia do Perigo Amarelo estoura com as guerras do Ópio, onde há uma grande propaganda anti-chinesa, que vende os povos chineses como uma verdadeira ameaça para os interesses ocidentais. Isso vai refletir em políticas nos EUA e no Brasil, por exemplo. Inclusive no Brasil teve um debate no senado, do período imperial, onde os senadores debatem se devem tentar trocar a escravidão dos povos negros por um regime de semi-escravidão chinesa, semelhante do que ocorreu em alguma escala nos EUA, e o argumento era que se trouxessem chineses era baseado no racismo e no orientalismo, tratando os povos chineses como inferiores, "havemos agora de voltar atrás e introduzir nova raça, cheia de vícios, de físico amesquinhado, de moral abatido, que não tem nada de comum aqui e não tem em vista formar uma pátria e um futuro?", fala do senador Junqueira (BA)¹. Essa fala reflete um pouco do pensamento eugenista que se reflete até os dias atuais.

O Perigo Amarelo entra em uma nova fase quando tem uma onde imigratório japonesa e se agrava mais ainda durante a Segunda Guerra Mundial, com um discurso antinipônico. Existe um discurso muito grande que os japoneses vão manchar o ocidente, discurso muito semelhante ao anterior citado. A motivação para ir contra os nipônicos não vem só pelo que o Japão estava defendendo na IIGM, o discurso vem recheado de orientalismo e xenofobia. 

Nesse período, por exemplo, os EUA colocam à força milhares de japoneses e descendentes em espécies de campos de imigrantes. Enquanto no Brasil, os japoneses e seus descendentes são proibidos de praticar qualquer coisa relacionada à sua cultura, ensinar o idioma, falar japonês e até algumas práticas de religiões locais.

O Ocidente recria o Perigo Amarelo com os resultados positivos principalmente da revolução socialista chinesa, com receio do que poderia acontecer e de como a China poderia atrapalhar os interesses imperialistas ocidentais, ao estar em uma experiência socialista, endossada apoiada pela URSS, vale lembrar que países como a França e a Inglaterra ainda possuíam e brigavam por colônias em regiões muito próximas, como Hong Kong, esse período também recebe o nome de Perigo Vermelho.

Em todas as vezes que o perigo amarelo é revivido pelo ocidente, traz consigo uma série de implicações políticas e de ódio e repressão contra amarelos, principalmente os que vivem no dito ocidente.

2. O mito da Minoria Modelo 

Após a Segunda Guerra Mundial, quando o Japão não é mais visto como uma forte ameaça e "coincidentemente" recebe dinheiro de políticas de auxílio econômico dos EUA, surge o mito da minoria modelo e o japonês, de imigrante indesejável, vira um imigrante desejável. 

É colocado que, principalmente os nipônicos, são um povo ideal como imigrante, já que vivem para o trabalho e não reclamam das suas condições de vida e de trabalho, além de que só se relacionam entre eles (o que tem um fundo eugenista). No Brasil, isso é muito reforçado devido à grande onda imigratória que aconteceu, antes mesmo do surgimento da minoria modelo. Esse mito traz um reforço muito grande da estrutura racial, de como a branquitude utiliza de uma "raça" para reforçar o discurso de meritocracia, exaltando os amarelos em certo nível, para continuar subjugando negros e indígenas.

Desse mito da minoria modelo vem as ofensas diárias que se escuta como "para passar na USP é só matar um japonês”, o que é uma mentira dado que a maioria dos estudantes da USP são brancos.

3. Tentando entender a complexidade do leste asiático. 

É muito importante tentar entender o contexto cultural e político que se passou na região, que mudou nas últimas décadas, mas que explica grande parte do orientalismo que temos e sob qual ótica vem os preceitos que enxergamos o outro, exemplo: os diferentes imaginários que criamos de chineses e japoneses. 

O Império Japonês teve sua ascensão quase no final do século XIX, devido a uma série de reformas políticas que levaram ao desenvolvimento do país e Japão começa com o seu projeto expansionista sobre outros territórios na Ásia bem no início da década de 1900, com ocupações extremamente violentas na Coréia, Filipinas e outros territórios do Pacífico, também teve os crimes de guerra na Segunda Guerra Sino-Japonesa. 

Na Coreia, o Japão promoveu um verdadeiro genocídio, por onde o Japão passou, ele subjugou povos inferiores e teve práticas verdadeiramente imperialistas, lembrando que o Japão já havia marginalizado os povos originários, os Ainu.

Toda essa marca de guerra e destruição, passando por assassinatos, escravidão sexual, estupros, experimentos médicos em pessoas e outros crimes de guerra, explicam a relação atual de muitos países da Ásia oriental com o Japão.

O declínio do Império Japonês se dá com a entrada do país na Segunda Guerra Mundial, já que o país recua e "perde" a guerra do lado da Alemanha nazista.

É importante recapitular um pouco dessa história para ter uma certa noção de como as relações e percepções imperialistas e orientalistas se moldam até hoje.

4. Sob olhares orientalistas 

Aqui explico melhor os motivos da minha tribuna e de ter feito esse mini resumo de como as coisas se sucederam.

Mesmo não vivendo em um país ocidental e estando na chamada periferia do capitalismo, é muito comum reproduzirmos comportamentos "inventados" e endossados pelas grandes potências imperialistas. Comportamento que vejo também ser reproduzido em nossas fileiras. É bom pontuar que estou falando de um lugar e com uma percepção de uma pessoa de ascendência chinesa e também de um lugar com muitas especificidades, quase uma exceção em relação ao resto do país, São Paulo, historicamente recebeu diversos imigrantes, uma quantidade considerável de japoneses, e nas últimas décadas muitos chineses e coreanos, o que pode mudar um pouco dependendo da região do país, por exemplo, no Rio de Janeiro houve imigração chinesa considerável, o que particularmente me deixa curiosa.

Agora, voltando ao cerne da questão sobre os comportamentos, vejo muitas vezes acontecendo isso através das famosas brincadeiras ou sutilezas que podem passar despercebidas. Em algumas análises percebo certa problematização também, aqui não estou falando do caráter ou do não caráter imperialista e contraditório da China atual e sim de uma visão que nos é passada muitas vezes da coisificação sobre a China e a Coreia, coisa que não noto em análises sobre a URSS e Cuba, por exemplo.

Acho que um ponto bacana de se tocar, mas como atenção mesmo, é de como ignoramos muitas vezes o fator cultural muito latente e de como nos apropriamos muitas vezes sem querer discursos imperialistas tanto ocidentais quanto asiáticos, mas especificamente do Japão, em subjugar o outro como inferior.

Bom, camaradas, eu trouxe essa tribuna, com um caráter mais informativo mesmo, sem me apegar tanto às análises políticas e citações, em uma tentativa de ser mais direta. Estou fazendo isso, pois senti falta de algo sobre o assunto e por parecer às vezes que o óbvio não é tão óbvio assim. Além de que temos camaradas amarelos que também sofrem as consequências disso tudo e, vez ou outra, esses discursos parecem mais latentes, como no recente caso do coronavírus, as situações que trago aqui ultrapassam os limites de nossas fileiras.

Me coloco à disposição para conversar sobre esse e sobre outros assuntos e eu espero que es camaradas também possam contribuir com esse debate.

Alguns textos de embasamento:

DEZEM, Rogério. Matizes do "Amarelo": A gênese dos discursos sobre orientais no Brasil (1878-1908). São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2005. 312 p.

KEMI. A origem do Perigo Amarelo: colonialismo e a hegemonia euro-americana. [S. l.], 26 mar. 2017. Disponível em: https://outracoluna.wordpress.com/2017/03/26/a-origem-do-perigo-amarelo-orientalismo-colonialismo-e-a-hegemonia-euro-americana/. Acesso em: 4 abr. 2024.

SAID, Edward W. Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia de Bolso, 2007. 528 p.

TAKEUCHI, Marcia Yumi. O Perigo Amarelo: imagens do mito, realidade do preconceito (1920-1945). São Paulo: Humanitas, 2008. 288 p.

WESTIN, Ricardo. No fim do Império, Brasil tentou substituir escravo negro por “semiescravo” chinês. [S. l.], 2 set. 2019. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/especiais/arquivo-s/no-fim-do-imperio-brasil-tentou-substituir-escravo-negro-por-201csemiescravo201d-chines. Acesso em: 3 abr. 2024.