'O quixotismo como polêmica: sobre Amadeo Bordiga e a “ameaça bordiguista”' (Leonardo CR)

A teoria marxista não funciona como um método científico indutivo em que formulamos hipóteses e fazemos um experimento reprodutível em isolamento para ver se confirma. É chocante que um marxista faça uma pergunta dessas, admito.

'O quixotismo como polêmica: sobre Amadeo Bordiga e a “ameaça bordiguista”' (Leonardo CR)

Por Leonardo CR para a Tribuna de Debates Preparatória do XVII Congresso Extraordinário.

Admito que escrevo essa tribuna-resposta bastante a contragosto. Queria evitar algo tão ridículo quanto ficar escavando a história da vida de Amadeo Bordiga dessa maneira. Entretanto, depois de ser nominalmente citado em dois textos – de autoria dos camaradas Fábio Ornelas e “Glushkovinho” – de conteúdo bastante duvidoso, para dizer o mínimo, senti uma obrigação de esclarecer esse imbróglio.

A própria polêmica em que ela se insere sempre me pareceu irrelevante, que não era bem algo digno de comentário em tribunas congressuais. Agora, mais do que irrelevante, acho ela sintomática de uma tendência perigosa em como alguns militantes entendem a relação entre teoria e prática, revelando sobretudo uma lealdade indevida a um corpus teórico inerte, que antes de permitir à teoria a liberdade de se desdobrar para embasar uma prática real – e não uma pseudo-atividade –, deve prestar sua deferência para com símbolos de uma tradição específica e não fugir do script

Vou usar outras palavras. Falando apenas por mim mesmo, pessoalmente, minha aproximação com o PCB, em 2020, e minha decisão por aderir ao RR ano passado eram motivadas pela impressão de que esses partidos poderiam servir como polo aglutinador para militantes comunistas que se unificassem com base em acordos programáticos, estratégicos e táticos. Em termos mais diretos, nunca dei a mínima para saber se camarada A lê Lukács enquanto eu prefiro Althusser, ou se outro gosta de Gramsci enquanto eu prefiro Bordiga. 

Não que a teoria não tenha teor político. Pelo contrário, acredito completamente no dever da luta de classes na filosofia, nas implicações políticas da prática teórica e na necessidade de operar no campo teórico a ruptura com a tradição herdada das revoluções burguesas – rousseauísmos, democratismos, progressivismos, humanismos, historicismos, etc. Mas isso não se realiza por uma discussão livresca, fechada em si, mas por uma disputa  entre linhas políticas cujos entrechoques force o teor político a se revelar, pelas linhas que cada posição teórica embasa. E, muitas vezes, inclusive pela ressignificação conceitual, isto é, a verdade do texto teórico não é uma e dada para sempre, mas depende da relação que se vai estabelecer entre o militante-leitor e o texto, mediada pela conjuntura. Seria muito “materialismo linguístico”, camarada Ornelas, pensar a sério uma hermenêutica política?

A disputa em torno de Bordiga e do assim-chamado “bordiguismo” foi basicamente o oposto disso. Não que não haja interesse em discutir o sentido de algum conceito na imanência do próprio texto de Bordiga. Mas uma tribuna congressual é o lugar para isso? Uma disputa política? Talvez em outras circunstâncias, uma disputa realizada de outra maneira, não como forma de elencar quais autores são aceitos e quais são rejeitados, quais são verdadeiramente “marxistas-leninistas” e quais não. Essa concepção é um desvio teoricista que nos leva a uma concepção idealista de prática política e é isso, e não a intransigência programática de classe, que nos leva ao sectarismo – isto é, à concepção de que a organização formal ou a teoria adotada pelo grupo militante é responsável pela revolução, que o grupo militante, na prática ou na teoria, é o agente da transformação histórica e consegue subsumir a realidade em si. 

Dito isso, passo à resposta às tribunas dos camaradas Ornelas e Glushkovinho propriamente dita. Começo por uma introdução mais genérica e depois às questões específicas de cada texto. Peço paciência com o que pode parecer uma digressão um tanto tediosa, mas que é absolutamente relevante, já que decidimos nos meter nesse vespeiro.

Escrevi e publiquei em outro lugar um breve relato da atividade de Bordiga de sua entrada na juventude do Partido Socialista até o congresso de Lyon, sua prisão e sua expulsão do Partido Comunista, cobrindo, portanto, o período 1911-1926. Por economia de tempo e espaço, vou apenar remetê-los a esse texto e não me alongar nessas questões aqui. [1]

Em primeiro lugar, nunca existiu uma corrente “bordiguista”. Por dois motivos esse foco desmesurado na figura do homem é errôneo. Bordiga era um militante de partido, não um teórico isolado, desenvolveu a esmagadora maioria de sua obra e de sua vida em ambientes de organização política, com poucas exceções. É fato que muitos historiadores já lhe atribuíram habilidades notáveis de oratória e liderança, que muitos camaradas lhe prestaram homenagens e recordações, e que foi chamado por muitos de incontestável líder do movimento comunista italiano. O próprio Bordiga, entretanto, recusaria todas essas qualificações como panegíricos típicos da imprensa burguesa, com o fedor do personalismo e em tudo contrários ao marxismo. As ideias “de Bordiga” não eram só dele e ele nunca foi um militante isolado ou desconhecido: representavam uma corrente política, numerosa e mergulhada nas lutas de classe de sua época. Tiveram diferentes organizações - Círculo Karl Marx, Fração Revolucionária Intransigente, Fração Comunista Abstencionista, Esquerda do Partido Comunista da Itália, Comitato d’Intesa, Fração Italiana da Esquerda Comunista e, finalmente, Partido Comunista Internacional. Para além de Bordiga, essa corrente teve inúmeros importantes dirigentes e teóricos - Onorato Damen, Bruno Fortichiari, Luigi Repossi, Ruggero Grieco, Ottorino Perrone, Bruno Maffi, Virgilio Verdaro, Francesca Grossi, para ficar só em alguns do período anterior à Segunda Guerra Mundial. 

Essa corrente política, que convencionou-se chamar de Esquerda Comunista Italiana, manifestava, ademais, uma ojeriza absoluta pelo individualismo e pelo personalismo. Não apenas ao “culto à personalidade”, como qualquer liberal, mas desenvolveram também uma concepção de organização que colocava, em todo momento, a organicidade da organização política acima do militante individual, bem como colocava a classe acima do teórico individual. Seus textos eram, em maioria, apresentados em reuniões e trabalhados coletivamente antes de serem publicados; adotaram medidas de anonimato revolucionário; Bordiga, que decidiu não deixar um testamento, escreveu, no entanto, um pequeno texto no qual declarava seu ódio pela propriedade intelectual e pelos direitos autorais e dizia que seus textos deveriam poder ser divulgados livremente, com uma única condição: não deveriam levar seu nome.

Em segundo lugar, não existe nenhuma corrente “bordiguista” ou de comunistas de esquerda no PCB-RR. Ou, ao menos falando por mim, não represento nenhuma corrente desse tipo, ao contrário do que sugeriu o camarada Ornelas. A Esquerda Comunista Italiana tomada em seu fechamento é um artefato histórico, na minha opinião; sua existência correspondia a uma correlação específica do desenvolvimento capitalista com um ciclo de lutas do proletariado, dentro do qual representou uma purificação quase experimental das teses revolucionárias do bolchevismo de tudo quanto fosse acidental, com o intuito de preservar o núcleo do comunismo revolucionário das ondas revisionistas e oportunistas que o distorceram. Porém, essa tentativa condenava a si mesma a ser vulnerável à obsolescência com o fim daquele ciclo de lutas. Acredito que a reestruturação global do capitalismo a partir da crise de 1968-73 impôs uma tal mudança de paradigma, tendo feito decompor a Esquerda Comunista histórica (incluindo aí a Esquerda Alemã e Holandesa, o comunismo de conselhos de Gorter, Pannekoek, Mattick, etc.). De fato, o próprio nome, Esquerda Comunista, era uma referência a um movimento comunista “oficial”, os PCs ligados a Moscou, que não mais existem na forma de então. Muitos legatários da produção teórica da Esquerda Comunista perceberam isso, autores como Jacques Camatte, Gilles Dauvé, Roland Simon, novos grupos políticos, de um amplo campo batizado de “ultra-esquerda”, foram além da Esquerda Comunista, historicizando-a no contexto mais amplo do que chamaram de programatismo. Talvez como confirmação desse fato, o Partido Comunista Internacional, organização a que pertenceu Bordiga de 1949 até sua morte em 1970, implodiu na década de 80, gerando oito ou nove organizações sucessoras.

Quanto a mim, considero, naturalmente, que há muito que extravasa os limites da teoria da Esquerda Italiana. Caso eu aderisse integralmente à doutrina daquela corrente, eu seria militante do Partido Comunista Internacional – quer dizer, de uma das oito ou nove organizações que hoje adotam esse nome. Ao mesmo tempo, até por causa de toda essa transformação histórica, minhas referências teóricas são variadas. O conceito de composição de classe, a respeito do qual o camarada Ornelas me criticou, advém da corrente operaísta, formada na década de 1960, não de Bordiga. Mas a forma limitada e tacanha em que a polêmica tem sido feita mostra o quão infrutífera é essa discussão livresca nos meios que estamos usando, estou na posição de ser obrigado a defender Bordiga contra críticas estúpidas e não de fazer a discussão qualificada que seria muito mais produtiva, que seria fazer explodir o núcleo temporal imanente na produção teórica e na atividade política dessa corrente.

Resposta ao camarada Fábio Ornelas

Em minhas respostas abaixo, espero que fique claro o comentário de conceitos presentes nos documentos da Esquerda Italiana que, me parece, são extremamente relevantes para a reconstrução do partido comunista hoje e justificam que seja lido com atenção por quem tem como prioridade ser um comunista e um materialista, não um “marxista-leninista” fiel a um cânone fossilizado.

O primeiro deles — objeto de um ataque quixotesco do camarada Ornelas — é o de invariância do programa comunista. Vejamos o que diz Ornelas e depois comparemos com alguns dos escritos importantes sobre o tema, em particular textos “A ‘invariância’ histórica do Marxismo” (1952) e “Considerações sobre a atividade orgânica do partido quando a situação geral é historicamente desfavorável” (1965).

De forma bastante conveniente, Ornelas não cita, apenas dá a referência bibliográfica e apresenta sua interpretação, assim:

“Para Bordiga, o princípio da invariabilidade seria algo espontaneamente autoevidente, portanto não necessitando de uma justificativa além da realidade que existe uma luta de classes e existe uma ciência infalível do proletariado, e todo fracasso seria advindo da não admissão do princípio metafisico da invariabilidade.”

É mesmo isso que diz Bordiga? Leiamos, mas agora literalmente:

“A negação materialista de que um ‘sistema” teórico ergueu-se em um momento da história (ou pior ainda, que surgiu da mente e se formou dos trabalhos de um homem, pensador e líder histórico em particular) e poderia irrevogavelmente se aplicar durante todo o curso do futuro histórico, suas regras e princípios, não devem ser entendidos no sentido de que não existem sistemas de princípios estáveis aplicáveis em longos períodos de tempo. Ao contrário, a estabilidade de um sistema e suas forças de resistência contra sua mutilação e até mesmo seu “melhoramento” constituem um elemento primordial na força da “classe social” a qual o sistema pertence, reflete, defende interesses e missão histórica. A sucessão de tais sistemas e corpos de doutrina e práxis não estão conectados ao advento de homens que definem estágios, mas sim a sucessão de “meios de produção”, isto é, as variâncias de organização material na vida de coletivos humanos.”

“Por conseguinte, apesar do legado ideológico da classe trabalhadora revolucionária, diferente das classes que a precederam, não assume a forma de uma revelação, mito ou idealismo, mas de ciência “positiva”, precisa de uma formulação estável de seus princípios, até para suas regras de ação, que possuem o caráter e eficácia de dogmas, catecismos, tábulas de lei, constituições e livros guias como os Vedas, o Talmude, a Bíblia, o Alcorão ou a Declaração Universal dos Direitos Humanos uma vez possuídas e realizadas. Os erros profundos em relação à forma e substância nessas compilações não os impediu de seu enorme poder organizacional e social (primeiro um poder revolucionário, depois poder contrarrevolucionário, em sucessão dialética); em muitos casos esses “desvios” contribuíram precisamente para a criação desse poder. ”

Bordiga textualmente nega a ideia de que exista a invariância de uma verdade absoluta. Nega, inclusive, que o programa comunista corresponda a uma verdade necessária e universal no sentido da ciência burguesa. O que é, com efeito, a invariância para Bordiga? No mesmo texto ele explica: trata-se da doutrina e do programa em que se encontram a luta real de uma classe em seu contexto histórico com suas tarefas objetivamente postas para alcançar sua vitória. Isto porque a concepção materialista não admite o comunismo como criação arbitrária ou livre de uma ideia na cabeça de um indivíduo, mas como negação determinada da sociedade capitalista que, ao mesmo tempo, implica na negação de toda a história da sociedade de classes, como tarefa objetiva de uma classe que persegue esse programa ao perseguir seus próprios objetivos parciais, de classe. O marxismo, portanto, aparece para Bordiga como expressão teórica do programa de uma classe entendida historicamente, não como uma ideia bonita.

O que é o programa comunista, que é invariante e carrega a missão histórica do proletariado em obliterar a sociedade capitalista, última das sociedades de classe? Podemos resumi-lo da seguinte forma: o proletariado deve organizar-se em partido, tomar o poder para impor sua ditadura e iniciar a transição ao comunismo, primeiro sua fase inferior, em seguida para sua fase superior. Afirmar a invariância do programa é também afirmar vez após vez os traços elementares da sociedade comunista que surgem pela extrapolação das contradições da sociedade capitalista pelo movimento proletário, até atingir sua negação, ou seja, é fazer como Bordiga fez em repetidos textos e afirmar que o comunismo é a abolição da propriedade, do Estado, das nações, da família, do trabalho assalariado, das classes, da cisão entre trabalho manual e intelectual (e consequentemente do antagonismo entre cidade e campo). 

Por que esse programa é chamado de invariante desde sua descoberta (nunca invenção)? Porque ele não corresponde a uma atividade intelectual livre, mas, sim, expressa a entrada do proletariado na história como classe no sentido enfático da palavra, não apenas como força de trabalho para o capital, como objeto da análise sociológica e demográfica, mas como sujeito político, organizado, com uma tendência e uma bandeira própria. A reafirmação dessa invariância é, portanto, reafirmar que o proletariado, em 1848, rompeu de uma vez por todas com a burguesia, ao lado da qual esteve até então lutando contra o Antigo Regime na Europa, e não devemos mais voltar a andar a reboque dela.

Em outras palavras, afirmar a invariância do programa é afirmar que nenhum congresso tem o poder ou o direito de abandonar o programa da classe, que emerge da luta determinada contra o modo de produção capitalista, lançando as bases da sociedade comunista. Afirmar a invariância é afirmar que os militantes do partido não têm o direito de votar sobre se o comunismo requer a revolução e a ditadura de classe, se será preciso organizar a classe em partido ou se deveremos abolir a produção mercantil. Na hipótese de um militante se convencer do equívoco ou obsolescência do programa comunista, ele deserta as fileiras do proletariado.

Ao contrário de tantos de seus críticos, Bordiga leva a sério uma das mais importantes declarações de princípio de Marx, e um primado verdadeiramente materialista para a concepção da atividade política: “Nós chamamos comunismo o movimento real que abole o estado atual. As condições desse movimento resultam das premissas atualmente existentes”. O movimento real é o encontro da classe com suas tarefas objetivas, afirma-lo enquanto tal significa reconhecer que ele existe fora dos militantes comunistas, como algo que não cabe aos militantes transformar em seu conteúdo histórico. Nenhuma quantidade de encaminhamentos em reuniões, resoluções congressuais ou livros de teoria o muda.

Bordiga retoma o assunto sob um ângulo diferente no outro texto, de 1965, que também nos leva a outro tema importante nos escritos da Esquerda Comunista para o assunto que discutimos acima: o binômio partido histórico e partido formal.

A distinção está em Marx e Engels e eles tinham o direito de deduzir que, estando por meio de seus trabalhos na linha do partido histórico, eles desdenhavam ser membros de qualquer partido formal. Mas nenhum dos militantes de hoje pode inferir dela que ele tem o direito de fazer uma escolha: isto é, de estar claramente com o “partido histórico” e não se importar com o partido formal. 

Marx diz: o partido em seu significado histórico, no sentido histórico, e partido formal, ou efêmero. No primeiro conceito está a continuidade, e dele derivamos nossa tese característica da invariância da doutçrina desde sua formulação por Marx; não como invenção de um gênio, mas como descoberta de um resultado da evolução humana. Mas os dois conceitos não são metafisicamente opostos, e seria bobo tentar expressa-los pela pobre doutrina, “Eu viro minhas costas para o partido formal, enquanto vou na direção do partido histórico”.

Em outras palavras, há uma tensão e uma distinção em Bordiga entre o partido histórico, do qual se deriva a invariância de que ele fala, e o partido formal. Nenhum dos dois é dispensável para o militante comunista, mas também não são idênticos. Bordiga nunca quis dizer que um documento aprovado em um congresso deveria ser perpétuo, nunca modificável, pois o programa adotado por um partido formal não é o mesmo que o programa histórico da classe, este invariante. O camarada Ornelas acusa Bordiga e a mim de economismo (na acepção que Lênin dá a essa palavra em seu O que fazer?) ao sugerir que o “bordiguismo” não dá importância à mediação teórica e ao partido, ficando limitado ao reboquismo. Mas o que acontece é exatamente o contrário: o que se faz é precisar o espaço que a teoria marxista deve ocupar para mediar a relação entre o programa histórico da classe e o desenvolvimento do partido formal, buscando uni-lo ao partido histórico, operar a integração entre teoria e prática, mas não qualquer prática, a prática revolucionária, que avance o programa proletário; não o oportunismo, nem o ativismo que acredita que é melhor fazer qualquer coisa do que nada.

De fato, a acusação de economicismo chega a ser risível para qualquer um que teve o menor contato com os escritos da Esquerda Comunista. Leiam, por exemplo, Fundamentos do Comunismo Revolucionário (1957), um texto no qual Bordiga dedica-se a pormenorizadamente atacar todas as posições economicistas, anarquistas, sindicalistas e reformistas, ataca qualquer corrente que queira marginalizar o papel do partido de vanguarda. Pode-se mesmo dizer que não houve leitor mais atento dos ataques leninistas ao economicismo do que Bordiga.

Inclusive, muitos não gostam de lembrar disso, mas a primeira grande polêmica entre Bordiga e Gramsci foi justamente sobre esse assunto: Gramsci estava então à frente do grupo L’ordine nuovo, o qual tomava uma posição economicista que colocava as demandas econômicas e a ocupação das fábricas por seus operários acima da organização da classe em seu partido político visando a insurreição armada; o grupo L’ordine nuovo chegava mesmo a postular a possibilidade de uma transição ao comunismo sem a tomada do poder de estado pelo partido proletário. (Isso é marxismo-leninismo, camaradas?) Contra essas posições, Bordiga defende posições rigorosamente leninistas em seus textos dessa época, É a hora de formar sovietes? (1919), Tomar o poder ou tomar as fábricas? (1920) e Pela constituição dos conselhos operários na Itália (1920).

Claro, isso não significa que tudo o que Gramsci escreveu e fez se resuma a este pequeno episódio. Mas se eu fizesse como fazem os críticos de Bordiga, é o que eu diria.

Fiquei bastante curioso e me divertiu a menção do camarada Ornelas ao meu uso do conceito de composição de classe - em um texto que publiquei apenas no meu substack pessoal, para autoesclarecimento, apesar de eu ter já publicado uma tribuna em que esse conceito aparece. Em síntese, Ornelas acredita que o conceito de composição de classe é economicista, limita os comunistas ao mero reboquismo. 

Acredito que ele tenha interpretado errado. As teorias da “consciência de classe” e da “composição de classe” são duas formas clássicas de solucionar um problema deixado por Marx: o de como reconciliar dois conceitos distintos de classe, um econômico e outro político. O próprio Marx deu um pontapé inicial na famosa passagem de A miséria da filosofia em que fala da “classe contra o capital” e da “classe para si mesma”. É possível que Ornelas tenha entendido que por “composição de classe” eu me referia apenas ao aspecto chamado “composição técnica” da classe, que é como a classe é organizada pelo capital - como os trabalhadores são geridos no trabalho, como seu tempo é organizado, que habilidades são exigidas deles, como são divididos e classificados, como são distribuídos na cadeia de produção, etc. Já adianto que não é o caso e que a teoria da composição de classe é, justamente, uma teoria de como a composição técnica tem uma relação dialética com a composição política da classe: como os trabalhadores reagem, que relações estabelecem entre si, que demandas e ideias ganham tração em seus espaços, que táticas e formas de organização se mostram férteis. O objetivo dos teóricos “composicionistas” foi sempre unir os dois lados, produzir o encontro entre eles em uma teoria rigorosamente materialista, ao contrário da teoria da consciência de classe, na qual não vou me aprofundar aqui, por fugir ao escopo da discussão.

Há a possibilidade, ainda, que o camarada Ornelas tenha entendido que a correspondência entre composição técnica e composição política fecharia o ciclo e não permitiria a atuação do partido de vanguarda. Outro engano aqui. A teoria da composição de classe não torna a atividade dos militantes, da minoria revolucionária, supérflua: apenas a informa, a deixa consciente de suas condições, determina o campo de possibilidades e eficácia de suas táticas. O objetivo da teoria da composição de classe é justamente permitir que a minoria revolucionária conheça a classe, entenda suas formas de luta e possa, assim, inserir-se na luta. Por isso, em sua origem, o conceito de composição de classe estava intimamente ligado à prática da enquete operária, da pesquisa das condições de trabalho e das relações produtivas no chão de fábrica. Com o tempo, porém, expandiu para fora da fábrica propriamente, incluindo também as condições mais amplas de reprodução da classe trabalhadora: as relações nos bairros, na família, na saúde e na previdência, na escola. Mas aqui já é outro assunto.

A crítica que Ornelas fez está respondida pelo próprio texto que ele critica. Será que não viu as partes em que discuto como Sergio Bologna coloca o problema do conselhismo como luta meramente imanente e uso justamente Bordiga para ressaltar a importância do partido como elemento transcendente, de ruptura? Não leu o trecho em que opus as concepções imanentistas da luta de classes - em que luta imanente, econômica, se converte automaticamente em luta política, transcendente - às concepções transcendentes, repetindo quase ao pé da letra a crítica de Lênin ao economicismo?

A largas pinceladas, podemos localizar na história do marxismo duas grandes formas de lidar com esse problema. As imanentistas pensam na possibilidade de que a luta parcial converta-se automaticamente em luta transcendente ou, dizendo de outro modo, de que o comunismo floresça do desenvolvimento mesmo do capitalismo, como germinação no seio dele, o comunismo já está aqui, basta liberta-lo ou expandi-lo. Essa é a categoria mais larga a que pertencem todos os economicismos - pensemos aqui no economismo criticado por Lênin no Que fazer?, mas também nas demandas transicionais de Trótski, no autonomismo tardio de Antonio Negri e nas ideias “intersticiais” de nomes como Holloway, e, de modo geral, em todos os que viam na racionalização da produção no capitalismo o projeto ou diagrama da produção socialista: sempre que um “marxista” falar que a produção racional e apenas o mercado é irracional; ou, no outro sentido, que a produção é ditatorial e é preciso democratizá-la - Althusser bem apontou que esse pensamento, característico do stalinismo era economismo do mais puro.

A insurreição de que falava Bologna é o momento da transcendência, da ruptura, da negatividade que não admite ser, a priori, contida na positividade do movimento. Assim, a análise crítica de Bologna já se aplica também contra o imanentismo de modo geral, se bem que poderíamos passar em revista um número de marxistas que se colocaram contrários a ele, de Bordiga a Dauvé, mas, como coloca o próprio Bologna, o momento extremo e essencial da insurreição é o leninismo. Lênin é o maior pensador revolucionário da transcendência. A arma dessa transcendência? O partido de classe.

Continuo citando do meu próprio texto:

Como dissemos, o proletariado deve converter-se de classe-objeto, estática, sociológica, em classe-sujeito, dinâmica. Contra o conceito de consciência de classe, tomamos o de composição de classe. A composição de classe estrutura a classe em períodos específicos e determina as formas e práticas adotadas no combate durante um ciclo de lutas. A composição determina também o microssistema de relações que formam a classe enquanto classe, não enquanto uma massa de indivíduos numa poça amorfa. O Estado burguês, no entanto, formula variadas estratégias justamente para dissolver essa composição de classe, para tornar o proletário um mero cidadão; se não for possível, satisfaz-se em separar a classe em setores e locais de trabalho: sindicatos absorvidos pelo Estado, comitês de fábrica para conciliar empregados e patrões, etc. O partido em seu sentido histórico é aquele que, subjacente a toda a história da luta entre proletariado e burguesia, por meio do programa, oferece o momento conceitual de transcendência, é a condição para a ruptura, para a cisão com todo o projeto iluminista burguês, com o que podemos rejeitar o humanismo, o legalismo, etc. É sempre em torno desse programa que gira o marxismo. 

O partido formal, a seu turno, é a ferramenta pela qual a classe se torna sujeito político, é a organização ativada da composição de classe segundo o programa comunista. Longe de ser supérfluo, é a perene tarefa da minoria revolucionária. Ela já nasce pronto? Não, sua construção é à qual devem convergir os vários núcleos da seção mais avançada da classe. Quando ele estará pronto? Somente quando ele superar a contradição com o partido histórico, quando incorporar o partido histórico, avançando o programa e arrastando atrás de si, com a iniciativa decisiva, a classe. [2]

Em outras palavras, o objetivo do meu ensaio era partir do conceito de composição de classe, tematizar o antagonismo entre momentos imanentes e transcendentes da luta de classe, justamente para formular teoricamente a necessidade insubstituível do partido de vanguarda. Não era nenhum fechamento do ciclo na ação e reação entre composição técnica e composição política da classe, mas mostrar, ao contrário, que o bolchevismo, a revolução, é justamente a explosão da imanência, o momento transcendente. E eu o quis fazer explorando as condicionantes do campo de possibilidades formais da organização da minoria revolucionária, das táticas dos militantes. Meu texto era um ataque duplo contra o economicismo e contra o voluntarismo, contra o partidismo (forma mais geral do pecebismo) e contra as visões que negam a necessidade do partido de vanguarda. Essa operação teórica do texto ocorre justamente juntando os teóricos composicionistas com Bordiga, mas ele vêm de lados contrários.

Assim como os conceitos de invariância e partido histórico em Bordiga, o conceito de composição de classe do operaísmo é um remédio contra o narcisismo do movimento comunista brasileiro, que faz mirabolantes discussões em abstrato sobre tática e estratégia, acreditando que suas decisões, por seguirem certo método ou rito, terão qualquer validade para a classe. Os comunistas brasileiros estão presos em discussões culturalistas da luta de classes, o que também gera aberrações políticas, como a ideia de que se pode disputar a classe lançando candidaturas evangélicas, por exemplo; de que precisamos nos identificar com o “povo” – no qual o proletariado se afoga. É o abandono total da posição classista, revolucionária, do proletariado em nome de uma disputa burguesa e eleitoreira no pior sentido: disputa-se o cidadão abstrato, indeterminado. A teoria da composição de classe nos diz para olhar para como a estrutura do capitalismo hoje condiciona as formas de luta eficazes do proletariado, volta nosso olhar do “cidadão” e do “povo” de volta para o proletariado, nos põe de sobreaviso contra as tentativas de reestruturação produtiva – e contra o sensacionalismo tecnofetichista dos apóstolos do capital – como momentos da luta de classes. Em outras palavras, é justamente contra o reboquismo que a teoria da composição de classe atua, porque é a busca das formas organizacionais e de luta que correspondam ao nosso ciclo de lutas sem retornar ao pensamento social-democrata de acumulação de força pelo crescimento eleitoral, lançando palavras de ordem a um público incerto: o partido deve ser a organização de combate da classe, não uma agremiação de políticos burgueses pedindo votos para chegar ao leme da máquina estatal.

Os comentários do Ornelas sobre centralismo orgânico só denunciam uma ignorância quase completa do assunto, tanto que faz críticas incoerentes umas com as outras. Bordiga fica caricaturado como algum tipo de defensor da democracia direta e da consulta das amplas massas, alguém cético do exercício da autoridade e que fica ao lado das “massas” contra os “líderes”. E, ao mesmo tempo, alguém que acredita que a mera adesão absoluta a uma doutrina metafísica será a salvação. Nada mais errado. A Esquerda Italiana rigorosamente não acreditava que o problema da decadência de um partido estava na “traição” dos líderes, nem que o problema poderia ser sanado consultando as bases; contrários, sobretudo, à ideia de que fórmulas “constitucionais” poderiam  servir de garantia contra o oportunismo ou o revisionismo, não acreditavam nos métodos democráticos, do voto, como também não colocavam em dúvida, nem por um momento, que o centralismo é o princípio inviolável do bolchevismo.

Aliás, como Ornelas mencionou o problema do obreirismo, talvez seja bom citar que a Esquerda Comunista foi uma determinada inimiga dela. Inúmeras vezes em textos de Bordiga e outros foi reafirmado que o obreirismo é um desvio imediatista - contrário à mediação - e que o partido inevitavelmente e necessariamente é composto por pessoas de diversas origens sociais.

De facto, a rede de "dirigentes" e "hierarcas" destas organizações é a mesma que a do partido e, em geral, nem sequer é composta exclusivamente por trabalhadores. E mesmo que fossem, a História ensinou-nos a infeliz verdade de que o ex-trabalhador que deixa o seu emprego para trabalhar na burocracia sindical é geralmente mais suscetível de trair a sua classe do que alguém oriundo das classes não proletárias. Exemplos? Poderíamos dar milhares deles.

Todo este palinócio é geralmente apresentado como um movimento em direção a, um estabelecimento de laços mais estreitos, de ligações mais próximas, com as "massas". Mas quem são as massas? São a classe operária privada de energia histórica, isto é, sem um partido que a coloque no caminho revolucionário histórico; uma classe, portanto, amarrada e resignada ao seu estado de sujeição e amarrada à forma como se distribui no organismo social burguês. E, em certas situações históricas, as massas podem incluir também as camadas semi-proletárias que transbordaram da "classe" operária. [3]

O centralismo orgânico não é um modelo. Não é nem uma alternativa ao centralismo democrático. É, na verdade, uma formulação dos mesmos princípios bolcheviques, em termos e de tal forma a excluir todas as interpretações vulgarizadoras; é uma operação de interpretação que ressalta os elementos necessários e principais, despindo os acidentais e acessórios. Nos anos 20, a Esquerda Comunista usava as frases “centralismo democrático” e “centralismo orgânico” alternativamente; quando abandonam o primeiro é por constatar que havia sido corrompido por associação com uma interpretação deturpada que tornava o bolchevismo um prática organizacional democrático burguesa, formalista, reproduzindo no interior do partido comunista a mesma lógica dos parlamentos burgueses e do eleitoralismo. Em certa medida, foi algo similar a qual Lênin defendeu que era hora de abandonar o nome “social-democracia”, porque este era cientificamente incorreto e havia sido corrompido pelo revisionismo e reformismo da social-democracia europeia.

Eis a segunda: a segunda parte do nome do nosso partido (Social-Democratas) é também cientificamente incorrecta. A democracia é uma forma de Estado, enquanto nós, marxistas, nos opomos a qualquer tipo de Estado.

Temos de olhar para a nova democracia emergente, que já está a deixar de ser uma democracia, pois democracia significa o domínio do povo, e o povo armado não pode dominar-se a si próprio.

O termo democracia não é apenas cientificamente incorreto quando aplicado a um Partido Comunista; tornou-se agora, desde março de 1917, simplesmente uma venda colocada nos olhos do povo revolucionário, impedindo-o de, corajosa e livremente, por sua própria iniciativa, construir o novo: os Sovietes de Deputados Operários, Camponeses e todos os outros Deputados, como o único poder no "Estado" e como o prenúncio do "definhamento" do Estado sob todas as formas.

No momento em que essa revolução começa, em que dá os seus primeiros passos hesitantes e tacteantes, passos que traem uma confiança demasiado grande na burguesia, nesse momento a maioria (esta é a verdade, este é um facto) dos dirigentes "social-democratas", dos deputados "social-democratas", dos jornais "social-democratas" - e estes são precisamente os órgãos que influenciam o povo - abandonaram o socialismo, traíram o socialismo e passaram para o lado da "sua" burguesia nacional.

O povo foi confundido, desviado e enganado por esses líderes.

E nós ajudaremos e seremos cúmplices desse engano se mantivermos o velho e desatualizado nome do Partido, que está tão deteriorado como a Segunda Internacional! [4]

O “centralismo orgânico” é um horizonte para não se deixar enganar pelos procedimentos estáveis, pelas normas congeladas, é um lembrete de que as formas políticas são transitórias e se formam e se desmancham segundo as necessidades concretas da luta de classes, das relações de forças e do conteúdo do programa comunista. É, também, a certeza de que a verdadeira unidade de combate do partido só se realiza pela formação de uma organicidade do partido, pela integração de todos os militantes em um trabalho centralizado conjunto, em que os militantes se reconheçam como camaradas pela experiência da atividade conjunta, não pela obrigação formal dos estatutos.

Então, repito, o centralismo orgânico não é um “modelo”, nem um “esquema”, nem uma alternativa ao “centralismo democrático”. É antes uma mutação deste último segundo as pressões que lhe foram impostas pela história, em uma tentativa de retirar de cima dele os escombros do revisionismo, reorganizando o que é essencial e o que é acessório, afiando a crítica marxista da democracia.

Resposta ao camarada “Glushkovinho”

Mas a ignorância do camarada Ornelas é sabedoria quando comparada à preguiça mortal que exala do texto do “camarada Glushkovinho”. Pensei bastante se esse texto, que demonstra uma absoluta falta de seriedade e respeito entre militantes, merecia sequer uma resposta. Serei, portanto, o mais breve possível.

Com o Google, uma pessoa de inteligência mediana e um pouco de curiosidade é capaz de encontrar praticamente tudo o que Bordiga escreveu; boa parte já traduzida para português, quase a totalidade traduzida para inglês ou espanhol.

A Esquerda Comunista não parou sua história com o processo de “bolchevização” - na verdade, stalinização - entre 1923 e 1926. Reconstituiu-se como Fração no exílio, ao longo dos anos 30 e 40; uma parcela de seus militantes foi combater na Guerra Civil Espanhola, onde muitos caíram; em 1943, retornaram à Itália, para reconstituir o partido com a esperança de atuar na onda de greves selvagens que derrubou o regime fascista. Nos anos 60, encontramos a Esquerda engajada, sobretudo, na organização de trabalhadores imigrantes no sul da França, bem como em sabotagem contra o esforço militar francês na Argélia. Nessa época, surge um núcleo argelino que publica em árabe e francês o jornal El-Oumami. Nos anos 1980, por meio do jornal O Proletário, militantes da Esquerda estão ativos no ABC Paulista, durante a intensa movimentação grevista do período.

Bordiga nunca “reclamou da União Soviética não ter imediatamente abolido o dinheiro ou a produção mercantil”. Pelo contrário, ele apoiou a NEP e sustentava que o objetivo da ditadura do proletariado na URSS, após o refluxo  da onda revolucionária de 1917-1921, deveria ser o de preservar a todo custo o caráter político da ditadura do proletariado, mantendo sua aliança com o campesinato, enquanto organizava um capitalismo de Estado, o qual permitiria a superação da produção pequeno-burguesa e camponesa, principalmente no campo - condição necessária para a grande produção centralizada e planejada. Escreveu, nos anos 50, uma enorme obra de mais de mil páginas sobre o assunto, Estrutura econômica e social da Rússia de hoje, com foco sobretudo nas transformações na estrutura fundiária e na agricultura. Suas pesquisas e conclusões também foram expostas em obras mais curtas: Diálogo com Stalin, Lições das contrarrevoluções, A Rússia na grande revolução e na sociedade contemporânea, entre outros.

Sobre a suposta conversa que ele teve comigo, acerca da abolição do salário. Em primeiro lugar, eu jamais defendi que os bolcheviques deveriam ter  abolido o salário por decreto, o que seria uma ideia ridícula. Ao mesmo tempo, qualquer comunista que negue a abolição do salário simplesmente não é um comunista. Foi Marx que disse:

Em vez do lema conservador de: "Um salário justo por uma jornada de trabalho justa!", deverá inscrever na sua bandeira esta divisa revolucionária:"Abolição do sistema de trabalho assalariado!".[5]

Digo o mesmo sobre a abolição do dinheiro. Obviamente, suspeito que o camarada tenha apenas se expressado mal e não querido dizer que concebe um comunismo em que nem o salário, nem o dinheiro tenham sido abolidos. Em todo caso, é impossível que eu tenha dito “isso é para os trabalhadores decidirem!”, porque não tem o que decidir: a abolição do dinheiro e do salário se dá pela gradual imposição da contabilidade geral, com o atrofiamento do trabalho abstrato após a troca, isto é, o isolamento das unidades produtivas ter sido abolido pelo planejamento social centralizado da produção e reprodução social. Essa contabilidade transitória pode tomar diferentes formas, como o voucher de trabalho que Marx sugeriu como exemplo. Mas soa algo antiquado para a era da internet e da tecnologia da informação, admito.

O “camarada Glushkovinho” confia bastante na wikipedia pelo visto. Ou, talvez, não respeite suficiente seus “camaradas” para fazer uma discussão minimamente qualificada. Certas coisas são melhor mantidas em tweets, fica meu conselho.

Agora, às perguntinhas que ele fez.

P: “Bordiga se diz Leninista. Contudo, Bordiga foi alvo de polêmica de Lênin a respeito da sua posição contra a participação de parlamentos burgueses, além de aparentemente criticar a NEP e outras políticas soviéticas. Quais são as discordâncias de Bordiga com Lênin?”

R: Qualquer um que tivesse sequer lido o Esquerdismo do Lênin saberia responder. Nesse livro, Bordiga é mencionado em dois contextos, a duas luzes: por um lado, é elogiado por Lênin por ser o principal agitador por uma ruptura decisiva com a social-democracia e pela fundação do partido comunista na Itália; por outro, é criticado por defender o abstencionismo.

Uma coisa é verdade, o grupo a que pertencia Bordiga se chamava “Fração Comunista Abstencionista”. Isso quer dizer que eram defensores em princípio do abstencionismo, que recusavam em qualquer situação participar em eleições ou no parlamento? Errado. Desde antes da Primeira Guerra Mundial, Bordiga havia sempre atacado e criticado o abstencionismo por princípio, associado aos anarquistas e anarcossindicalistas: com efeito, em 1913 ele havia publicado um texto chamado Contra o abstencionismo, no qual critica o apolitismo dos anarquistas e defendia a necessidade, naquele período, da participação em eleições.

A defesa do abstencionismo em 1919 se devia, em primeiro lugar, à leitura que essa Fração fazia da conjuntura italiana, do contexto concreto, que, para eles, era uma situação revolucionária em que a tomada do poder estava na ordem do dia, em que a insurreição armada era uma possibilidade próxima. Acreditavam, portanto, que o parlamento havia se tornado objetivamente obsoleto. Assim, faziam analogia com a situação da Rússia de 1908, quando os bolcheviques aplicaram o boicote à Duma com sucesso. A posição da Fração era de que havia, portanto, uma contradição já viva entre o parlamento e o poder soviético. Bordiga estava defendendo o mesmo que os bolcheviques, quando estes dissolveram a Assembleia Constituinte para entregar o poder aos sovietes. Pode-se dizer que Bordiga entendeu mal a Revolução Russa, que os bolcheviques participaram de eleições em 1917, entre Fevereiro e Outubro; mas então seria não entender que na Itália, ao contrário da Rússia, não havia revolução burguesa, só havia a revolução proletária, ou seja, não havia mais o bloco para concluir a revolução burguesa sob a liderança do proletariado, como na estratégia bolchevique. Em outras palavras, não fazia sentido o proletariado atuar em órgãos burgueses que, no momento, serviam uma função contrarrevolucionária, em um momento em que a tomada do poder estava na ordem do dia, ao contrário dos parlamentos burgueses na Rússia de 1917, que serviam uma função revolucionária. Tanto Bordiga tinha razão que o erro dos alemães de permitir a “coexistência” de conselhos operários e parlamento levaria à sanguinolenta e histórica derrota da Revolução Alemã.

Em segundo lugar, a bandeira do abstencionismo era, para a Fração, uma forma de tornar impossível a convivência de reformistas e revolucionários no mesmo partido. Na época, o Partido Comunista ainda não existia, a ordem de Lênin era para fundá-lo e, para tanto, era preciso operar a cisão total com a social-democracia. A defesa do abstencionismo foi a forma que a Fração encontrou de pressionar as discordâncias até tornar qualquer coexistência impossível, precipitar a ruptura. Tanto por isso que, durante o Congresso do PSI em Bologna, Bordiga propôs a Serrati abandonar a bandeira do abstencionismo se os reformistas fossem expulsos do partido. Citemos Lênin, que percebeu isso:

Tive demasiado poucas possibilidades de conhecer o comunismo «de esquerda» na Itália. É indubitável que o camarada Bordiga e a sua fracção de «comunistas boicotistas» (comunista astensionista) não têm razão ao defender a não participação no parlamento. Mas há um ponto em que, parece-me, ele tem razão, tanto quanto posso julgar por dois números do seu jornal Soviete (Il Soviet, números 3 e 4, 18.I e 1.II.1920), por quatro fascículos da excelente revista do camarada Serrati Comunismo (Comunismo, números 1-4, l.X - 30.XI.1919) e por números soltos de jornais burgueses italianos que pude ver. Precisamente o camarada Bordiga e a sua fracção têm razão quando atacam Turati e os seus correligionários, que permanecem num partido que reconhece o Poder Soviético e a ditadura do proletariado, permanecem membros do parlamento e prosseguem a sua velha e perniciosíssima política oportunista. Naturalmente, tolerando isto, Serrati e todo o Partido Socialista Italiano incorrem num erro que ameaça com tão profundo prejuízo e perigo como na Hungria, onde os senhores Turati húngaros sabotaram de dentro tanto o partido como o Poder Soviético. Essa atitude errada, inconsequente ou falha de carácter relativamente aos parlamentares oportunistas, por um lado, engendra o comunismo «de esquerda» e, por outro, justifica até certo ponto a sua existência. É evidente que o camarada Serrati não tem razão ao acusar de «inconsequência» o deputado Turati (Communismo, n.° 3), pois o inconsequente é, precisamente, o Partido Socialista Italiano, que tolera oportunistas parlamentares como Turati e Cia. [6]

Em conclusão, a diferença entre Bordiga e Lênin sobre a questão parlamentar na época era tática, conjuntural. Eles concordavam quanto aos princípios, mas discordavam sobre a situação concreta em curso na Itália em 1919-20. Para comprovar o que digo, leiamos os documentos da Fração Abstencionista:

7. A participação em eleições para os órgãos representativos de democracia burguesa e a atividade parlamentar, mesmo que se apresentando a todo tempo como um contínuo perigo de desvio, pode ser utilizada para propaganda e a formação do movimento durante o período em que ainda não existe a possibilidade de abater o domínio burguês e em que, como consequência, a tarefa do partido é restringida à crítica e oposição. No período atual, aberto pelo fim da guerra mundial, pelas primeiras revoluções comunistas e a criação da Terceira Internacional, os comunistas colocam como o objetivo direto da ação política do proletariado em todos os países, a conquista revolucionária de poder, fim para o qual toda a energia e todo o trabalho preparatório devem ser dedicados. Neste período, é inadmissível toda a participação nestes órgãos que funcionam como um poderoso instrumento defensivo da burguesia, destinado para agir no próprio seio do proletariado. É precisamente em oposição à função e à estrutura destes órgãos que os comunistas sustentam o sistema dos conselhos de trabalhadores e a ditadura do proletariado. Por causa da grande importância que a atividade eleitoral assume na prática não é possível conciliar esta atividade com a afirmação de que esse não é o meio de alcançar o objetivo principal da ação do partido: a conquista do poder. Também não é possível evitar que ela absorva toda sua atividade do movimento, desviando-o da preparação revolucionária. [7]
6. Possibilidades de propaganda, agitação e crítica poderiam ser oferecidas pela participação em eleições e na atividade parlamentar durante aquele período em que, no movimento proletário internacional, a conquista do poder não parecia ser uma possibilidade num futuro muito próximo, e quando ainda não se tratava de uma preparação direta para a realização da ditadura do proletariado. Por outro lado, num país onde a revolução burguesa está em curso de progresso e está a criar novas instituições, a intervenção comunista nos órgãos representativos pode oferecer a possibilidade de exercer uma influência no desenvolvimento dos acontecimentos, a fim de fazer com que a revolução termine em vitória para o proletariado. 

7. O atual período histórico foi aberto pelo fim da Guerra Mundial com as suas consequências para a organização social burguesa, pela Revolução Russa que foi a primeira realização da conquista do poder pelo proletariado, e pela constituição de uma nova Internacional em oposição à social-democracia dos traidores. Neste período histórico, e nos países onde o regime democrático conseguiu a sua formação há muito tempo, não há possibilidade de utilizar a tribuna parlamentar para o trabalho revolucionário comunista, e a clareza da propaganda, tal como a eficiência da preparação da luta final para a ditadura, exige que os comunistas conduzam uma agitação para um boicote eleitoral por parte dos trabalhadores. [8]

P: “A wikipédia diz que vocês defendem que no dia 1 da revolução, será abolida o dinheiro e a mercadoria. Onde está a formulação positiva do que vocês vão colocar no lugar da mercadoria e do dinheiro? Não vale dizer que são os trabalhadores que vão decidir isso ex nihilo somente no dia da revolução. A wikipédia está errada e isso é uma grande mamadeira de p*roca?”

R: Já respondi acima. Sim, é uma mamadeira de piroca. Não confie na wikipedia. 

P: “Que parada é essa de “Centralismo Orgânico”, qual o problema do “Centralismo Democrático”?”

R: Já falei na resposta ao Ornelas.

P: “Como o Bordiguismo é relevante para a revolução Brasileira?”

R: Já respondi na resposta ao Ornelas e na introdução.

P: “O Marxismo-Leninismo é insuficiente? É fundamentalmente errado? Quais são suas teses?”

R: Depende do que você entende por “marxismo-leninismo”. O seu “marxismo-leninismo” depende de sanção oficial pela URSS e segue os manuais moscovitas? É aquele marxismo-leninismo codificado pelo stalinismo? Ou o seu marxismo-leninismo é aquele amplo e cheio de controvérsias em que cabem, ao mesmo tempo, Althusser e Lukács, ambos auto-intitulados marxistas-leninistas?

Pessoalmente, não me importo com o “marxismo-leninismo” como cânone fossilizado e parado no tempo, de autores permitidos e autores proibidos. Minha lealdade é para com o comunismo e o materialismo histórico. Já falei disso, o movimento real é o que me importa. Se você discorda, melhor parar de ler Marini (influenciado por Trótski e Thalheimer, militava em organizações hostis aos PCs oficiais), por exemplo; ou Benjamin, que professava o mais absoluto desprezo pelo “marxismo” oficial do stalinismo, o qual ele critica diretamente em suas Teses sobre o conceito de História. O PCB-RR tem, aliás, militantes destacados que referenciam Mark Fisher(note-se, um pensador completamente fora da ortodoxia “marxista-leninista”), e aqui, penso, o conceito de espectrologia (hauntology, que ele pega emprestado de Jacques Derrida) serviria para pensar melhor essa obsessão com a tradição ossificada que não sabemos reviver para o presente.

P: “O que o Bordiguismo fez depois de perder a disputa pelo Partido Comunista Italiano? Alguma consideração sobre práxis? Alguma luta avançou com as teses do Bordiguismo? Bordiguismo tem validação na prática?”

R: Aqui, remeto ao meu breve texto “Bordiga e o Partido Comunista da Itália (1911-1926)”, já referenciado acima, nota de rodapé 1. A Esquerda não “perdeu” a disputa, a stalinização forçada do Partido ejetou-os da liderança, violando o centralismo do partido. Todo tipo de manobra escusa foi utilizada, ao ponto de Gramsci ter se tornado líder do partido em 1924, por ordem da Comintern, não obstante a Esquerda ter a amplíssima maioria dos votos na conferência de Como (a ala de Gramsci recebeu 8 votos, a direita recebeu 10 e a Esquerda, 41). No Congresso de Lyon, em 1926, feito na clandestinidade e na ausência de um grande número de delegados, em virtude da repressão fascista e da falta de verbas para a viagem, os votos de todos os delegados ausentes foram atribuídos automaticamente às teses de Gramsci e Togliatti. Assim é muito fácil ganhar uma disputa, não acha?

Sobre o que fizeram depois, já respondi mais acima.

Consideração sobre práxis? Muitíssimas. Alguma pergunta mais específica?

Validação na prática? A teoria marxista não funciona como um método científico indutivo em que formulamos hipóteses e fazemos um experimento reprodutível em isolamento para ver se confirma. É chocante que um marxista faça uma pergunta dessas, admito. Que tipo de validação qualquer um de nós tem? Por acaso vivemos no comunismo? Esse tipo de pergunta é o que qualquer liberal, apologeta da sociedade burguesa pode lançar contra qualquer comunista. Num mundo em que a URSS apodreceu e colapsou, em que a China não passa de outra potência capitalista imperialista, quem de nós pode falar com confiança de uma “validação prática”?

Encerro reiterando meus votos de que dediquemos nosso tempo a discussões mais produtivas que as de interesse meramente livresco nas vésperas de um congresso do partido. Espero, também, que sejam poucos os camaradas com a pouca seriedade do “Glushkovinho”. E, ainda, espero que sejamos capazes de reconhecer a necessidade de abandonar as fórmulas prontas e ler o marxismo marxisticamente, mais leais ao impulso crítico do materialismo histórico do que aos nomes e tradições do passado.


Notas:

[1] https://open.substack.com/pub/janitzio/p/bordiga-e-o-partido-comunista-da?r=21yeyu&utm_campaign=post&utm_medium=web

[2] https://janitzio.substack.com/p/o-partido-contra-o-partidismo?utm_source=profile&utm_medium=reader2

[3] https://www.marxists.org/archive/bordiga/works/1957/fundamentals.htm

[4] https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1917/tasks/ch12.htm

[5] https://www.marxists.org/portugues/marx/1865/salario/cap14.htm

[6] Esquerdismo, seção VII, última nota de rodapé.

[7] https://www.international-communist-party.org/BasicTexts/Portugue/20TeFrac.htm

[8] https://www.international-communist-party.org/BasicTexts/Portugue/20_2CoIC.htm#5