Nota Política: Construir a unidade entre a esquerda revolucionária, rejeitar as vacilações ao social-liberalismo

O CC do PCBR, reunido em 30 de agosto, reafirmou a tática eleitoral que o Partido vem construindo, ajustando suas posições para intervir no período de campanha eleitoral apresentando a posição proletária independente, seu programa socialista e contribuindo para a unidade dos revolucionários.

Nota Política: Construir a unidade entre a esquerda revolucionária, rejeitar as vacilações ao social-liberalismo

(Posição do PCBR diante das eleições burguesas de 2026)

Até o momento, as campanhas eleitorais de 2026 estão marcadas pela falseada polarização entre a extrema-direita bolsonarista e a frente ampla social-liberal em torno do atual governo Lula-Alckmin, ambos expressões da política burguesa que não questionam o reacionário sistema capitalista que nos governa e, de formas distintas, representam uma continuidade da política de austeridade fiscal, precarização e privatização dos bens públicos, retirada de direitos da classe trabalhadora, e saque do fundo público para manter e expandir as taxas de lucro da burguesia.

Entre os setores da esquerda, tanto o campo majoritário do PSOL quanto aqueles que compõem a autodenominada Bancada da Esquerda Radical, estão submetidos ao jogo político da Frente Ampla, sob o pretexto de derrotar o fascismo. Tais posições contribuem para difundir ilusões e confundir a classe trabalhadora, ao relegar a derrota da extrema-direita ao campo eleitoral e ao apoiar um governo que tem gerido de forma eficiente o capitalismo dependente brasileiro, à custa das péssimas condições de vida da maior parte dos trabalhadores do campo e da cidade. 

Como alternativa à barbárie capitalista e aos projetos burgueses, apostamos na construção de um programa e de uma candidatura unificados entre as organizações da esquerda revolucionária (PSTU, PCB e UP). Apesar de nossos esforços, não foi possível a apresentação do projeto socialista de forma coesa, sob uma plataforma unitária para o Brasil, como destacamos em nossa última nota política. Contudo, também compreendemos que a unidade não se forja de forma abstrata, sem uma construção programática condizente com a realidade brasileira. Assim,  reforçamos que tal tarefa precisa estar no horizonte imediato de nossos partidos e saudamos o lançamento das candidaturas aos pleitos majoritários e proporcionais apresentados em diferentes estados do país por tais organizações. A alternativa socialista é a única capaz de libertar a classe trabalhadora e a humanidade da destruição capitalista, cabendo-nos reivindicá-la de forma coerente e organizada e projetá-la em todos os espaços.   

Nesse contexto, o Comitê Central do PCBR, reunido em 30 de agosto, reafirmou a tática eleitoral que o Partido vem construindo, ajustando suas posições para intervir no período de campanha eleitoral apresentando a posição proletária independente, seu programa socialista e contribuindo para a unidade dos revolucionários. Após profunda análise programática e estabelecimento de critérios definidos, o CC também definiu os apoios que o Partido construirá nas campanhas eleitorais por todo  o Brasil.

Sobre as eleições presidenciais

Repetindo o cenário das últimas duas eleições presidenciais, o debate público gira em torno da ideia de que haveria uma grande polarização entre duas candidaturas “opostas”, estabelecendo de um lado a continuidade do atual governo Lula-Alckmin e sua frente ampla social-liberal, e de outro, a extrema-direita bolsonarista, agora representada por Flávio Bolsonaro.

Para os trabalhadores, porém, não há dois polos antagônicos, mas formas distintas de gestão do  capitalismo, em benefício da mesma classe burguesa. A extrema-direita visa abertamente à implantação de um regime mais reacionário e autoritário, reduzindo ainda mais as liberdades restritas da democracia burguesa para implementar, com toda força, a ofensiva capitalista contra os trabalhadores, retirando direitos e orquestrando uma ampla política de privatizações e autorizando o saque indiscriminado do fundo público pela burguesia nacional e internacional. 

Apesar de tudo, a extrema-direita mantém sua popularidade pela propaganda de polarização e rejeição ao atual governo, pela ideologia reacionária amplamente difundida pela mídia e pelas igrejas, e pelo uso indiscriminado do aparato público dos Estados e Municípios para garantir a adesão e consenso em torno de seus candidatos.

Já o governo social-liberal de Lula e Alckmin constrói uma frente ampla contra a extrema-direita unindo os setores da aristocracia operária e frações da burguesia, que consideram a gestão petista do capitalismo brasileiro mais eficiente no atual momento — o que não descarta mudanças para o bolsonarismo, a depender das suas necessidades. Sua promessa é apresentar uma forma mais “humana” de gestão do capitalismo. Porém, nos 4 anos de governo, demonstrou que essa gestão “humanizada” também esmaga os trabalhadores e, para manter sua “frente ampla” afastada da extrema-direita, busca demonstrar que são os mais eficientes generais da ofensiva burguesa.

O governo da frente ampla foi marcado pela austeridade do “Arcabouço Fiscal”, que coloca em risco a conquista mínima dos pisos constitucionais da saúde e da educação, a “eficiente” aprovação da reforma tributária do consumo, pela manutenção das contra-reformas trabalhista e da previdência e uma enorme onda de privatizações de ativos federais e serviços públicos. Além disso, por mais que apresente a “soberania nacional” como palavra de ordem, o governo mantém o país submetido ao capitalismo dependente e à sua integração subalterna ao sistema imperialista. A entrega da exploração mineral e das “energias renováveis” aos capitais internacionais — sobretudo chineses e estadunidenses —, a falta de uma política estatal de produção tecnológica e a manutenção do envio de remessas bilionárias de capital produzido no Brasil para o exterior, são exemplos da posição do governo em relação à condição dependente do Brasil na divisão internacional do trabalho.    

Nessa medida, não existe “polarização” entre alternativas de projeto de país, mas apenas formas distintas de aplicar a mesma receita neoliberal para manter e expandir as taxas de lucro da burguesia. Não interessa ao proletariado nenhuma alternativa de gestão do capitalismo.

Nesse pleito, os demais candidatos da burguesia à presidência buscam se apresentar como “terceira via”, a exemplo de Romeu Zema, Augusto Cury, Renan Santos e Ronaldo Caiado. Mesmo sabendo que não vencerão, buscam conquistar certo prestígio e vender “mais caro” os votos de seus apoiadores para um dos lados no segundo turno, a fim de galgar espaços em governos e  ministérios. Porém, nenhum deles rompe os compromissos com a ofensiva burguesa. Nos debates, vemos apenas propagandas mais variadas das formas como seria possível melhor implementar as privatizações e reduzir direitos dos trabalhadores. Nenhum deles rompe a polarização ou representa qualquer alternativa para a classe trabalhadora. 

Sob o pretexto de combater o bolsonarismo, a frente ampla pressiona, através de inúmeros meios materiais e ideológicos, as organizações de esquerda e o movimento operário a submeter suas propostas de classe e aderir ao governo como única alternativa para os trabalhadores. Diversas organizações que dividem trincheiras com os comunistas cederam a essa pressão e estão apoiando, desde o primeiro turno, um projeto burguês, o que apenas contribui para reforçar a dispersão e fragmentação de nosso movimento e a submissão dos trabalhadores à tutela da burguesia “progressista”.

Por isso, apesar de lamentarmos a falta de unidade do campo, que permitiria reforçar a intervenção e contribuiria com a tarefa de unidade do proletariado socialista, saudamos as organizações revolucionárias que não cederam às pressões da frente ampla e apresentaram candidaturas independentes e que defendem uma posição socialista nas eleições burguesas: Edmilson Costa, do PCB; Samara Martins, da Unidade Popular; e Hertz Dias, do PSTU.

Mas, mesmo reconhecendo a importância de todas as candidaturas, avaliamos que a candidatura do PSTU apresenta um programa revolucionário mais coerente e próximo do Programa Socialista do PCBR, é mais firme na oposição a todos os governos burgueses e se apresenta como uma base mais sólida para a construção da unidade dos revolucionários e de uma alternativa proletária independente da frente ampla. 

Além disso, a proximidade da candidatura ao Programa do PCBR se expressa nos seguintes aspectos:

  • Caracterização adequada do objetivo tático eleitoral dos comunistas;
  • Oposição explícita e estruturada ao governo da frente ampla;
  • Caracterização qualificada das contradições capitalistas no Brasil, gerando um programa com mediações imediatas que tensionam as relações de classe e apontam possibilidades concretas para a construção de uma revolução socialista;
  • Acordo com os setores estratégicos do proletariado, realizando mediações programáticas que expressam tal posicionamento; 

Por isso, o PCBR apoiará e construirá a campanha de Hertz Dias, do PSTU, de forma independente, não integrando comitês de campanha, mas realizando atividades conjuntas. 

Por outro lado, apesar de compartilhar boa parte de sua história conosco, o programa do PCB aponta a construção de um “governo popular”, não realizando uma caracterização adequada do objetivo eleitoral dos comunistas e retornando ao etapismo que havia superado em seu XIII Congresso; não elenca os setores estratégicos do proletariado; e, não se coloca claramente como oposição ao governo petista, tendo seguido nos últimos 4 anos uma posição de “independência”, sob o pretexto de que haveria um “governo em disputa”, o que criticamos frontalmente ao defender a manutenção do caráter revolucionário do Partido no processo de cisão.  

O programa da UP/PCR, apesar de caracterizar adequadamente os fins eleitorais e seus limites, não elenca setores estratégicos; não se coloca explicitamente como oposição à frente ampla; é excessivamente difuso, não elencando elementos centrais para as mediações de curto prazo, e aquelas para uma transição socialista.

Em adendo, ambos PCB e UP rejeitaram abertamente qualquer tentativa de unidade do campo revolucionário e adotam posturas corporativistas e de autoconstrução que reforçam a fragmentação do movimento revolucionário e prejudicam o desenvolvimento de uma alternativa proletária independente e revolucionária.

Apesar da fragmentação das candidaturas, seguiremos trabalhando pela unidade dos revolucionários não apenas nas eleições, mas em todos os espaços da luta de classes, trabalhando ativamente para reforçar a hegemonia política do proletariado e sua independência de classe, formando uma Frente Anticapitalista e Antiimperialista que unifique, na luta socialista revolucionária todos os movimentos operários e populares que se choquem contra o Estado capitalista e a dominação burguesa no campo e na cidade. 

Sobre as demais candidaturas e os apoios do Partido

Nas eleições majoritárias para o governo e para o Senado, construiremos ativamente, em cada Estado, o apoio aos candidatos da esquerda revolucionária. Os critérios fundamentais para a decisão do Partido por construir determinadas candidaturas são: a) sua independência política diante dos projetos burgueses em disputa, seja das expressões da extrema-direita, seja da Frente Ampla e do governismo; b) sua proximidade programática com as posições defendidas pelo PCBR e sua capacidade de contribuir para a elevação da consciência política da classe trabalhadora; c) sua posição concreta diante das lutas da classe trabalhadora, sua defesa do socialismo e sua capacidade de contribuir para superar, e não reproduzir, os limites políticos da administração capitalista.

Conforme uma discussão de todo o Partido referendada pelo Comitê Central, apoiaremos majoritariamente candidatos da UP, PSTU e PCB conforme a coerência política e programática em cada Estado.  Particularmente no Rio Grande do Norte, apoiaremos tanto os candidatos do PSTU como Sônia Godeiro que, apesar de estar concorrendo pelo PSOL, não se submeteu à pressão da frente ampla e apresenta uma posição independente e revolucionária, rejeitando a composição com o governo Lula-Alckmin e criticando abertamente as decisões do diretório nacional do PSOL.

Em relação às candidaturas proporcionais, compreendemos que devemos evitar qualquer forma de pragmatismo eleitoral que leve a desorientação e ambiguidades no seio da classe trabalhadora. Consequentemente, não apoiaremos qualquer  candidatura que esteja fazendo campanha para a coalizão burguesa Lula-Alckmin no primeiro turno. A despeito das boas intenções de algumas candidaturas do PSOL, que apresentam propostas condizentes aos anseios da classe trabalhadora, suas posturas vacilantes em relação à degeneração petista e às formas de lutar contra as novas expressões fascistas, afastam-nos de qualquer forma de apoio a tais pleitos. 

Devemos reforçar o espaço eleitoral como um momento privilegiado de disputa de consciência, no qual o projeto socialista deve ser condizente com nossas alianças. Retroceder em nosso discurso para alcançar a eleição de mandatos, contradiz a nossa postura em relação ao parlamento burguês. Dessa forma, a partir das análises realizadas, indicamos o voto em candidaturas do PSTU, UP, PCB e nos candidatos do PSOL que negaram-se a ser coagidos pela posição majoritária tomada por essa frente e não estão realizando campanha para Lula no primeiro turno. Em cada canto do país, os militantes do PCBR estarão utilizando o momento eleitoral para propagandear o programa revolucionário e apoiar os candidatos do proletariado nestas eleições.