'Do culto às personalidades' (Camarada Jean)

Nossa política de quadros requer um acompanhamento de quadros e um planejamento de desenvolvimento destes que também requer um Partido forte e com coesão interna, com alta circulação de informações e assistência dos trabalhos nas bases.

'Do culto às personalidades' (Camarada Jean)
"Quadros que cresceram apesar do Partido podem nos ser ainda mais importantes (e podem ter mais fôlego para isso) com o seu trabalho digital coletivizado e organizado"

Por Camarada Jean* para a Tribuna de Debates Preparatória do XVII Congresso Extraordinário.

Camaradas,

Mais uma vez, vemos em nosso Partido o desvio pequeno-burguês de utilizar de forma oportunista o tradicional argumento do “culto à personalidade” para atacar aqueles que pintam um papel importante no processo de mobilização da nossa classe para luta política. Sou militante da UJC desde 2018 (até hoje sem sequer ter sido convidado a uma conversa de recrutamento para o PCB, diga-se de passagem) e sou testemunha do avanço quantitativo e, principalmente, qualitativo dos nossos recrutamentos em função de figuras como o camarada Jones Manoel. Tivemos capacidade político-organizativa de acolher estes quadros? Sou obrigado a atestar que não, o que denuncia o caráter artesanal de nossos métodos de trabalho, isto sim um problema grave em nosso Partido.

Estes métodos, talvez, fossem muito úteis para acolher a um ou dois participantes do grupo de estudos de algum acadêmico satisfeito em ter uns lambe-lattes na sua volta, mas é muito aquém das necessidades de nossa classe e do Partido que se propõe a (se reconstruir e) a construir a Revolução Brasileira. Não falo isto por ataque pessoal, isso é uma escolha política de orientação em direção ao pequeno-aburguesamento das nossas fileiras, tal como era a orientação de recrutar qualquer militante de pós-graduação oriunda do CR-PCB do Rio Grande do Sul até bem pouco tempo atrás.

Pequeno aburguesamento este que reflete uma política de quadros, e esse é o ponto a que quero me atentar: sempre me chamou a atenção o método artesanal com que se organizavam os meios de comunicação das ditas figuras públicas do nosso Partido. O Mauro Iasi tinha uma coluna mensal na TV Boitempo, um canal com 200 mil inscritos, mas a centralização de compartilhar um evento sequer de nossa organização, mesmo com sua participação, nunca descia. A Sofia Manzano ganhou 100 mil seguidores por causa de nosso Partido e da nossa militância de base e a gente não centraliza as redes dela, a gente tocou este meio de informação como tocaria uma assessoria de mídia de um candidato a vereador de Guapimirim: vamos pras eleições, num pique meio desesperado e Deus que nos ajude, depois abandonamos.

Este trabalho artesanal não é à toa, e tem uma base política: a teoria do “culto à personalidade”. É curioso que quem mais traz este argumento convive na estrutura universitária, que, como toda boa estrutura burguesa, se alimenta do culto às personalidades, da automasturbação acadêmica, e das referências de panelinha. Mas ali não existe culto, ali é a gurizada meritória desse reconhecimento, os baluartes do marx(olog)ismo nacional. A gente aprendeu a conhecer dirigente por artigo acadêmico, e com todo o respeito, para luta de classes, esse “paper” não serve nem para limpar a bunda se não ganhar as massas, e costumeiramente, tanto pela forma quanto pelo conteúdo, isso não acontece.

Falar de culto a personalidade é desconsiderar como se narra a história a partir dos vencedores, e é ignorar todo um acúmulo histórico de lutas na classe trabalhadora internacional, muito pautada, sim, em grandes sujeitos que mobilizavam emocionalmente seu povo em prol da revolução. A gente saber acolher essa militância para desenvolver a criticidade contra todo e qualquer equívoco, venha de quem vier, é outros quinhentos, algo que sim deveria ser responsabilidade de nosso CC e do Partido, e ficar apontando espantalho de bigode não vai servir pra porra nenhuma.

Temos de compreender, como disse o camarada Wilhelm Reich, que o nosso Partido vai ser a autoridade (no sentido de uma autoridade que seguimos sem uma base racional) que vai suprimir toda a autoridade, ou seja, temos de saber como usar dessas figuras mobilizadoras de paixões (e aqui não se quer dizer que estas careçam de rigor teórico e debate qualificado) para trazer mais gente para nosso Partido, sem moralismo, sem elitismo para com a nossa classe. Esse elitismo e esse moralismo se manifestam de forma oportunista hoje nos debates sobre política de quadros de nosso Partido. Este é o debate que o MST toca, de forma diametralmente oposta, a partir do conceito de “mística”: símbolos, bandeiras, manifestações culturais que nos unam em prol da luta, para além do convencimento, porque haverá momentos, camaradas, e neste momento de racha acho que isso fica mais claro, em que simplesmente o racional, a justeza de um tese, não vai adiantar para manter todo mundo junto. Nossa classe também precisa ter fé: a fé em João Cândido, em Antonio Conselheiro, em Zumbi, em Dandara e em Prestes como a história de nosso próprio Partido mostra. Convencimento e mística devem andar de mãos dadas.

Eu não duvido que isso assuste aos camaradas do CC porque daí teriam suas páginas “moderadas” (centralizadas) e mesmo suas opiniões censuradas quando estivessem inadequadas, mas camaradas, temos de compreender que a censura de nossa classe é muito mais silenciosa, e se não há adesão à “Economia Política para Trabalhadores” ou ao “Política, Estado e Ideologia na trama conjuntural”, é provavelmente porque essa censura já tá sendo feita, e ela vem da base.

Nossa política de quadros requer um acompanhamento de quadros e um planejamento de desenvolvimento destes que também requer um Partido forte e com coesão interna, com alta circulação de informações e assistência dos trabalhos nas bases (e sinceramente acho muito difícil que isto se realize num Partido fragmentado em 6 como é hoje o nosso, e aqui adianto que temos de rever os coletivos, pois eles não fazem sentido organizativamente falando) cada vez mais profissional. Ela deve estar em constante comunicação com um grande aparato de Agit&Prop e deve ter um planejamento de páginas de quadros, de recrutamentos e objetivos políticos a curto, médio e longo prazo, com constante atualização.

Acredito muito que quadros que cresceram apesar do Partido podem nos ser ainda mais importantes (e podem ter mais fôlego para isso) com o seu trabalho digital coletivizado e organizado, para que ao invés de a gente ficar falando de culto à personalidade em notinha circular, a gente possa ter a autoridade para corrigir um desvio (quando houver) de um trabalho que é nosso.

Viva a Luta pela Paz!

Viva o Marxismo-Leninismo!

Pelo XVII Congresso! Pelo Poder Popular!

*do Núcleo JT UJC-RS.