'Autocrítica: a defesa do trabalho artesanal, do formalismo e do Partido de “retaguarda”' (N. Sanchez)

Caso a vida do Partido não desenvolva uma dinâmica fomulativa comum e de captar a realidade, de forjar pelo fogo o centralismo ideológico e a literatura comum, não teremos condições de dar conteúdo à nossa forma.

'Autocrítica: a defesa do trabalho artesanal, do formalismo e do Partido de “retaguarda”' (N. Sanchez)
"Um partido leninista tem de ser intrinsecamente de captação da realidade, sobretudo, de desenvolvimento da própria realidade."

Por N. Sanchez para a Tribuna de Debates Preparatória do XVII Congresso Extraordinário.

Este escrito não pretende ser um estudo de trajetória. A autocrítica não é um pedido de desculpas. Estarei analisando fenômenos que acompanharam meu exercício. Na UJC estive em diversas tarefas de direção, na Coordenação Nacional (CNUJC) e na Coordenação Regional (CRUJC-RS), na qual ainda sou Secretário de Formação Política. Neste texto perceberemos que infelizmente, assim como muitos dos meus contemporâneos, mais busquei desenvolver a “melhora” do trabalho artesanal, do que de fato a superação deste.

Em junho de 2022 havia sido eleita, por meio da etapa estadual do Congresso da UJC, uma nova Coordenação Regional da UJC-RS (CRUJC-RS). Nessa nova CR estava uma expectativa de mudanças do nosso funcionamento [mas perceberemos neste texto, sem mudança efetiva do caráter político]. Podemos perceber hoje, desde lá, um desvio que persiste no pensamento atual da militância, a concepção formal da teoria organizativa.

É verdade que a etapa regional do congresso da UJC-RS foi marcada pelo plano de fundo do debate de “liberdade para criticar”. Onde a direção anterior proibia (enfaticamente proibia) a circulação de críticas entre a militância. 10 meses antes da etapa estadual, uma série de militantes do Rio Grande do Sul foram acusados de fraccionismo, [em que a perseguição pesou sob Juliana Guerra e Leonardo Silvestrin], por terem um grupo de whatsapp juntos, o qual consistia unicamente em um grupo de amenidades. Mais se aproximava de um “grupo de amigos”, nunca articularam nenhuma política por aqueles meios. A antiga CRUJC-RS, assim como o antigo CRPCB-RS era característico de diversos desvios controleiros, chega a usar qualquer relação “extra-militante” (até encontros de uma sexta-feira a noite) entre os militantes como um espantalho à perseguição.

Esta articulação, conhecida como Contexto da Circular 36/21 da CRUJC-RS, iria perseguir a militância por diversas esferas, mais tarde culminando num acordão entre Edmilson Costa e Juliana Guerra. Sobre o acordo abordaremos isso posteriormente, o que nos interessa para a cronologia dos fatos é que a etapa regional do congresso da UJC desmantelou a antiga CRUJC-RS e suas práticas. Assim, também, deixado o CRPBC-RS com uma fratura exposta. A UJC-RS e o PCB-RS distanciaram-se. A militância gaúcha não mais “aceitaria tudo de bico calado”, germina em si a intenção [enfatizo enquanto só uma intenção] de ser um corpo pensante ao invés de um corpo pensado. Desmanchamos o CRPCB-RS e sua influência controleira, contudo, não desenvolvemos (no processo, nem depois dele) nenhum conteúdo para ser a substância da nossa militância. Nosso congresso e nossa crítica era formalista.

Na nova CRUJC-RS Túlio Lisboa ingressou na tarefa de Secretaria Regional de Formação Política. Junto dele, eu e Laura Lucca configuramos a primeira composição da Comissão Regional de Formação Política (CRFP-RS). Realizamos ao todo: “1. Reunião da Comissão de Formação; 2. Reunião com as Sec’s Form’s de cada núcleo; 3. Produção do Drive Estadual de acúmulos das formulações nucleares; 4. Reunião de orientação as funções básicas das assistências estaduais; 5. Produção de: ‘Formação Política das Assistências Estaduais”. Essa última tarefa sobre as Assistências foi basicamente um repasse do que “consta nas resoluções” para a militância da CRUJC-RS, não houve nenhum debate político para produzir nada. Menciono todas as tarefas que a CRFP da época tocou. Em seis meses não foi capaz de fazer nada que não fosse um exercício mecânico e superficial. Não houve nada na CRFP.

Concomitante a isso, desenvolvo minha crítica à Victor (Pelotas), Secretário de Finanças da CRUJC-RS, quem defendia uma concepção de “Caixa Global” para o Rio Grande do Sul. Tese de Victor em que a CRUJC se coloca, exclusivamente, como um banco, em que transfere e cobra dívida. Victor não buscava dinamizar os militantes do RS numa mesma atividade financeira, numa mesma dinâmica; apenas diria que teriam o mesmo fundo de reserva. Esse debate, o qual foi enviado como Boletim Regional para toda UJC, nunca teve retorno; mas foi a primeira vez em que se debateu o federalismo no Rio Grande do Sul. O documento nunca teve resposta, tampouco tornou-se objeto de crítica dos núcleos.

Link:https://docs.google.com/document/d/1HzDiWOIQiYa-iC15uUGGCiL45C04LEhaqIBaG87aqI0/edit?usp=sharing

“o que me parece é que o camarada não entende muito bem o que é uma federação” (p.5, N. Sanchez), ao analisar o documento hoje em dia era nítido que eu também não o sabia. Enquanto Victor defendeu deixar a atividade nuclear a bangu e não os relaciona como um corpo só, eu os reduzi ao RS. Fiz do Rio Grande do Sul a totalidade. Como poderemos pensar numa profissionalização de fato sem pensar o exercício a nível orgânico e de organização nacional? O documento de cabo a rabo não debate efetivamente a realidade e a disposição da relação da organização com as forças sociais. Tratei, assim como toda militância gaúcha, as Finanças no ecletismo apolítico. Esse excesso e fixação pela realidade particular leva-nos aos erros mais inocentes. Nesse sentido, pensamos captar toda uma ciência por meio de um único átomo. Pensamos em compreender uma árvore sem olhar a floresta.

Não culpo os meus excessos e os de Victor como algo individual. Como se debate um objeto sem estar relacionado com ele? Isto é, como se formula sobre a forma que a UJC-RS irá atuar, se não está profundamente imbuída na dinâmica de captação do conteúdo que a define? A dinâmica Regional, a particularidade do RS, era o único debatido pois era o único que efetivamente estava sob a luz do dia.

Em certo momento do documento recém citado, digo: “Estamos sempre esperando a corda chegar no pescoço.”, no sentido de dizer que não tínhamos planejamento, de que sempre nos pautamos para “apagar incêndio”. Isto é, somos e sempre fomos pautados pelo espontaneísmo. Nunca nos propomos a dirigir a realidade, sempre fomos conduzidos por ela. Não nos propomos a organizar a luta de classes, fomos verticalmente organizados por ela. Não pensamos a realidade, fomos pensados pela sociedade civil. Em termos leninistas: nunca nos organizamos como vanguarda, mas como retaguarda. Sempre na cauda do movimento espontâneo.

Um partido leninista tem de ser intrinsecamente de captação da realidade, sobretudo, de desenvolvimento da própria realidade. Caso a vida do Partido não desenvolva uma dinâmica fomulativa comum e de captar a realidade, de forjar pelo fogo o centralismo ideológico e a literatura comum, não teremos condições de dar conteúdo à nossa forma. A nossa situação “espontânea”, sem rumo e amorfa, é, na verdade, a situação de retaguarda que a burguesia nos quer. Seremos, assim, eternamente pautades pela burguesia.

Nesse mesmo período eu era assistente do Núcleo UFCSPA. Como diz o próprio Secretário de Organização do núcleo, João Z., “um núcleo historicamente à direita”. Este núcleo junto do núcleo Pelotas configuram na UJC-RS os resquícios de influência do CRPCB-RS. A maior amostra disso, no núcleo UFCSPA, foi quando o núcleo tentou ingressar numa disputa de DCE com uma chapa explicitamente liberal, chapa PLURAIS. Uma chapa que, como ela própria dizia, “não carregava bandeiras de partido” [1]. O núcleo, de maneira assustadora, se contentava em dizer “não é uma chapa comunista”. Nem todo o núcleo, óbvio, mas sua esmagadora maioria. Um ano depois, nos dias de hoje, apenas metade do núcleo aderiu ao PCB-RR. Aproveito para reverenciar o trabalho monumental de João Z., militante muito apagado dos “holofotes” da militância, quem dedicou todas suas horas e toda sua militância na luta ideológica para “fazer do núcleo UFCSPA um núcleo comunista”. Se hoje temos mais de um militante de esquerda na UFCSPA é porque João Z. não desistiu da luta ideológica no núcleo UFCSPA.

Inclusive, o militante que hoje milita no Comitê Regional da RR, Gabriel Pack, compactuou com a chapa Plurais, [alguns podem dizer que foi mais “omisso”, não me façam rir]. Pack é, sem dúvida, uma grande figura da UFCSPA, “toca muita tarefa”, “sabe muito da UFCSPA”. Mas e quando falamos do histórico em debater o conteúdo, a necessidade política? Mesmo eu tendo uma assistência (de tempo curto, verdade) provocativa, Pack não saiu para o debate real. Por quê estou citando Pack de maneira tão enfática? Crítica individual? Não! Mas é que Pack sempre foi o militante de “referência” do núcleo, atravessou diversas gerações do núcleo, o mais antigo e mais ativo. Assim como Pack, todo o núcleo UFCSPA se desenvolveu em “águas mornas”, nunca na forja do fogo.

Certa vez comentei com o núcleo UFCSPA, “não confundam a luta de classes com a luta de setores”. Disse isso pois todas suas pautas do núcleo eram de “como reformar X coisa na UFCSPA”. A vida nuclear reduzia o estudo de continente numa ilha. “Mas nós falávamos do quilombo e da Retomada Gah Re”, claro! Na intenção de mudar o discurso da Universidade, de humanizar a UFCSPA e fazer algumas doações para esses espaços, mas não para desenvolver a luta de classes. Inclusive, um militante comentou-me que uma das minhas falas numa reunião, justamente criticando a concentração reformista do núcleo, sobre o exemplo da experiência soviética em arrastar a sociedade virou motivo de piada. Piada é resignar-se da luta de classes. Nunca tratamos [me incluo], por exemplo, de como a realidade indígena e quilombola compartilham organicamente a mesma realidade da UFCSPA, portanto, a mesma luta. Ademais, nunca nos relacionamos como classe, mas como setores vizinhos. A luta de classes enquanto luta de setores.

Isso se conecta com o que percebemos em todo o PCB. Nossa atividade política é um montante de Centelhas isoladas que não incendeiam-se em unidade, que não formam um brasil. Isso vemos até hoje na UJC, houve greve na USP, mas a CNUJC não desenvolveu nenhuma forma de expandir essa centelha. Nossa tarefa é fazer brasil de qualquer centelha, em especial, fazer brasil de cada centelha. As lutas locais não passam de fenômenos de cauda, não representam luta de classe. Nos nossos desvios, a luta local é sempre uma luta política per si, nunca uma luta econômica, pois não se relaciona numa luta de toda a classe.

Me arrependo amargamente de não ter promovido a polêmica com o núcleo UFCSPA para todo o RS. Enquanto Secretário de Formação Política do RS eu tive os meios mais fáceis para fazer isso de maneira qualificada, não publico(infelizmente), mas tinha os meios. Estive com os olhos vendados.

Em meados de novembro começo minha atividade na CNUJC, onde me direciono para a Comissão Nacional de Formação Política (CNFP). Naquela época eram Gabriel Lazzari, Andrey Santiago, Igor Dias (como Secretário de Formação), Leonardo Silvestrin e eu. Hoje só sobrou eu da antiga composição. Abordaremos isso mais tarde.

Santa Maria (SM, cidade ao centro do RS), núcleo em que Túlio e Laura Lucca militavam, passou por diversos processos extremamente conflituosos, o tema de toda a crise em SM envolveu um debate sobre Métodos de Direção, em um contexto de diversas denúncias de violência sexual. O que aconteceu em Santa Maria acontece em diversos núcleos do Brasil. Muito do que Natália Silva (Secretária Política do CNMO) fala em seu texto A Violência de Gênero nas Esquerdas se traduziu de maneira cristalina em Santa Maria. Em SM os abusadores continuavam participando dos espaços e coagindo as vítimas. Acabava que os “Processos Disciplinares” protegiam mais os abusadores do que a vítima.

Além disso, o Comitê Regional do PCB da época foi extremamente mandonista e vertical. Todos os PD’s eram conduzidos pelo partido, quando a violência tinha acontecido na Juventude. A CRUJC-RS foi expressamente proibida de intervir de qualquer maneira, “os assuntos de SM respondem ao Partido e a célula de SM” - era assim que o CRPCB nos censurava. E nós da CRUJC respeitamos a ordem como um bom cãozinho. No fundo também sinto que havia na CRUJC o alívio de ter “um problema a menos” a lidar. Inaceitável. Quão fraco ideologicamente é uma instância regional que aceita ser alienada? Dá pra ver que superamos muito a CRUJC da última gestão! [a última frase é uma ironia] Não culpamos apenas a instância regional! Os núcleos não polemizaram para CRUJC tomar coragem e disputar o Partido, nem mesmo a CN.

Qual o conteúdo que nos define? Qual a necessidade política que nos guia? Vamos arrastar essa pergunta adiante. Voltemos aos eventos.

Lucca, Túlio e Aline (todos de Santa Maria) se desligam da UJC, Helena continua. Assim, eu assumo a Secretaria de Formação Política da CRUJC-RS e saio da assistência do Núcleo UFCSPA. Vale destacar que Túlio sempre foi um militante extremamente problemático no sentido de organicidade, resposta e desenvolvimento de crítica. Além que muitas das suas “críticas” eram mais ficções para criar argumento político. Destaco aqui quando Túlio se desligou da Executiva da CRUJC-RS (sem avisar a Comissão ou o pleno Regional) por dizer que estava sendo “oprimido” pelos outros membros da Executiva por possuir uma outra linha política. Quando, em reunião, questionamos de que maneira se dava essa opressão (perguntei genuinamente, não sabia de nada até porque não estava na Executiva) Túlio não respondeu. Os militantes da Executiva [na época, Mari Padilha, Theo Dalla, Juh Guerra, Laís e Victor] inscreveram-se e mencionaram que o grupo da Executiva “era deserto”, ninguém conversava, não havia possibilidade para hostilização. Túlia seguiu sem dar resposta. Voltando à ordem dos fatos:

A Secretaria de Formação Política Regional tem seus primeiros meses muito produtivos. Em janeiro é criada a L-FPRS (Lista de E-mail dos Quadros de Formação Política do RS) [3]. A Circular 021/23 da CRUJC-RS faz uma síntese de como pensamos a “FPRS” e a L-FPRS:

Como nasceu a FPRS?

1. A concepção da FPRS se deu em dois eixos, na necessidade de criar:
Plataforma orgânica de desenvolvimento da Formação Política
2. Centro de Formação de um núcleo duro de intelectuais da UJC

O primeiro eixo é a linha da nossa costura. A necessidade de uma Plataforma Orgânica é a aniquilação do federalismo (o desenvolvimento ensimesmado “das Formações”) e do abandono da FP nos núcleos, mais do que outra coisa, é a elevação da Formação Política ao nível de Ciência. A L-FPRS (Lista da Formação Política RS) é a expressão sólida dessa necessidade. Nela os quadros compartilham experiências, discutem, criticam, criam, inspiram-se, além de organizar o esqueleto de toda FPRS.

O segundo eixo é uma preocupação percebida com a situação brasileira, com a incapacidade dos trabalhadores pautarem sua realidade. Uma síntese da preocupação foi feita pelo camarada Jones Manoel no seu texto “Para uma teoria de vanguarda revolucionária”, destaca como estamos refém das intelectualidades alheias. Somos nós os responsáveis por desenvolver a teoria do nosso tempo. Nesse sentido, desenvolvemos a FPRS como o primeiro círculo de estudos[2], um Centro de Formação da UJC, um núcleo duro, um porto seguro contra o praticismo, contra a inércia, contra a alienação.

Notem que a questão para nós sempre foi de melhorar as nossas práticas da Formação Política no RS, não de desenvolver uma teoria que desenvolvesse toda a disposição do partido. É sempre um movimento de salvar a particularidade e ignorar o debate do movimento, da tendência da coisa. O “combate ao federalismo” sempre é dentro do Rio Grande do Sul, nunca além disso. A própria “crítica” ao federalismo era federalista. Abordaremos isso mais tarde.

A L-FRPS teve algumas contribuições à militância. Até hoje é uma das poucas atividades que desenvolveu de fato a militância gaúcha. Sempre busquei enfatizar com les camaradas, “esse espaço é para vocês disputarem o que é a Formação Política”. Alguns podem dizer, “este mecanismo é o ecletismo! como se disputa a Formação Política sem desenvolver as críticas das necessidades políticas?”. Em realidade eu sabia bem disso, sabia que a L-FPRS não poderia organizar o papel da polêmica. Sabia que a L-FPRS não seria capaz de abraçar a crítica à totalidade. Mas vejam, numa realidade em que não existe espaço de crítica, fizemos o que melhor nos cabia. De todes militantes da UJC-RS que publicaram tribunas, quase metade está na L-FRPS (F.Zoppo, Lilo Jardim, Laura Leão, Lucas Zafalon, L. Paulo, N. Sanchez). O trabalho intelectual, o trabalho de crítica não era novidade para esses camaradas. [4]

O pensamento da FPRS sempre foi de construir as bases, entregar à militância os recursos básicos para criar esse “núcleo duro” de quadros críticos. O segundo eixo “Centro de Formação de um núcleo duro de intelectuais da UJC”, por mais que não fosse a proposta basilar, foi conduzido por materiais de cursos online. Nos reduzimos quase de maneira exclusiva ao curso “Introdução a Filosofia de Marx”, de Glauber Ataide. Por mais que tenhamos feito encontros a parte deste, desenvolvemos produções escritas sob os temas da filosofia de Marx. Hoje sei que deveríamos ter feito mais, contudo, não tínhamos material humano para tal. O grande saldo é ter eliminado de um número de quadros a visão mecânica da dialética, o simplismo “tese-antítese-síntese”, fundamentar a crítica ao ecletismo, desenvolver o corpo consciente daquela fração de militantes.

O estudo direcionado que tenho feito até então tem contribuído muito não só para o meu entendimento teórico de dialética ou de conceitos da filosofia mas tem refletido muito na minha militância cotidiana. Sendo o primeiro e talvez mais impactante desses efeitos o “remédio ao vício tarefista”. Realmente, ter o estudo como prioridade na militância está aumentando a qualidade das minhas contribuições e não só, proporcionando um sentimento de engrandecimento muito contrastante em relação ao costumeiro sentimento de desgaste e sobrecarga que muitas vezes eram um empurrão em direção à posições imediatistas ou espontaneístas.

Outro efeito é o entendimento do marxismo como uma prática que é forjada com base em uma teoria da emancipação. Uma teoria em que sementes de revolução estão necessariamente contidas em si, uma vez que essa teoria não aparece do nada simplesmente, assim como revoluções não brotam espontaneamente. As ideias revoltosas são uma das expressões das contradições imanentes do sistema.

(Lilo Jardim, militante do núcleo secundarista de Porto Alegre)

Claro, é difícil acreditar uma superação do ecletismo de fato num contexto de estudo e crítica parcial da realidade, como fizemos na FPRS. E de fato, não assumo que “superamos”, mas que embasamos a nossa crítica de alguma forma.

Um dos textos que desenvolvi por meio de crítica aos militantes do Núcleo UFRGS também foi colocado para a FPRS. Esse texto possui em si diversos problemas, o principal foi pular diversas análises econômicas (a relação orgânica do proletariado com a realidade, por exemplo), mas também desenvolver os interesses para além de “a burguesia nos quer assim” o assado. Contudo, é uma ponta de lança relevante para pensar o Partido como Sujeito Coletivo. Link:https://docs.google.com/document/d/1T0n0os2Zxu7IU4m2tzxHkT9C8jUUA9QBCzZsb2TpGjs/edit?usp=sharing . Ali podemos perceber que surge na militância, não só em mim, uma necessidade de vencer aquele constante movimento de “sem ir pra lugar nenhum”.

Os quadros da Formação Política da UJC-RS foram os primeiros a conhecer o debate para além de uma esfera reduzida a nível nuclear. Se exercitam minimamente (é verdade que não foram muitas as vezes que a L-FPRS desenvolveu um debate constante) na atividade formulativa.

Dois meses antes dessa crítica ao UFRGS, minha militância pisou no freio. Já não tocava as tarefas com “aquela gana”, sendo “aquela máquina”. Em realidade, a cada dia deixava de me importar. Isso se dá por dois motivos: 1) a frustração com a UJC, assunto do qual o texto recém mencionado trata; 2) Eventos de ordem pessoal que, por mais que sejam fundamentais para entender minha condição de militância, não virará objeto de análise desse texto. Desde ali ficou muito dar conta de qualquer questão da UJC e da minha vida “fora dela”, inclusive.

Com o advento do CONUNE o estado do RS entrou em calamidade, como todos sabíamos que iria acontecer. Grande saldo que conseguimos, não é mesmo?! Ninguém discordou, todos sabiam que os quadros já estavam “quebrados”, só iriam “quebrar” os outros. Nesse texto já citado, eu faço uma menção nítida sobre isso.

O organismo que aceita e/ou delibera um estado de Inconsciência, pelo tempo que for, tem o mesmo efeito de uma Cirurgiã que resolve desligar o próprio cérebro para que o sangue possa concentrar-se nas mãos. Igualmente absurdo é quando após a Organização "desligar o Cérebro" fica surpresa com o óbito, seja o óbito do paciente, seja o suicídio do organismo.

Lembro de ter enviado à CRUJC-RS três e-mails sobre minha situação, lembro de ter sido enfático em cada ponto e vírgula que minha “negligência” às tarefas do CONUNE eram, em realidade, o fato da UJC não ter conteúdo político de viver . Além disso, essas quest~eos pessoais que dominavam todo meu exercício, claro.

Lembro-me de receber uma crítica do camarada Theo Dalla, nos informes e balanços de uma reunião da Executiva da CRUJC-RS. O camarada reconhecia que e havia dialogado com a instância, que e havia exposto toda minha situação. Contudo, Theo não fez uma crítica política. Apenas aponto: o camarada N. Sanchez não aderiu a terafa que nos centralizamos. Para Theo a questão era mais individual do que política.

Além disso, esses argumentos de "individualismo" são, em muitos casos, argumentos praticistas. É a reclamação de um não-fazer prático de algum militante. É a crítica em análise individual à conduta de um ou vários militantes. Um dos problemas de quem faz essa crítica é não perceber que para haver o fazer-militante é necessário, em construção concomitante, haver o Ser Militante. Se as atividades práticas não fazem sentido e não são percebidos em essência, acarreta ao conjunto de militantes uma relação imediata de Alienação. Quando o trabalho a ser executado desvincula-se do processo de construção consciente do Militante (um Ser sem Consciência), o Militante é desvinculado da sua própria relação existencial para e como Sujeito Coletivo.

(N. Sanchez, Resposta a Ric, Nath, Leon e introdução aos fundamentos da Formação Política)

Na época eu tive acordo com a crítica de Theo, hoje não tenho mais. Tive um processo clássico de “quebra”. A diferença é que eu mandei três textos tentando desenvolver o motivo desse meu distanciamento. Ademais, enviei três textos pedindo ajuda. A camarada Mariana Padilha e Gabriela del Ponte foram, efetivamente, foram quem buscaram desenvolver essas formulações comigo. Tanto é que foi num debate na cozinha de Gabi que eu retomei minha “segunda vida” na militância.

O camarada Theo buscou, antes de fazer uma crítica ao Centralismo-burocrático e ao rendição da UJC-RS, fazer uma crítica individual ao meu desvinculamento da UJC no seu praticismo. O camarada mais buscava meu trabalho manual do que minha crítica política.

***

Alguns camaradas passaram pela CRFP (Comissão Regional de Formação Política), a maioria se afastaram ou se desligaram da instância. A CRFP é, assim como a maioria dos “quadros de formação” de todo o país, branca e majoritariamente masculina. A CRFP sabia disso, assim como eu, nunca fez nada para mudar.

Poucos camaradas se efetivaram de maneira contínua e prolongada na tarefa, salvo o camarada F. Zoppo. Camarada este a quem devo boa parte dos meus alívios dentro da UJC, quem - por inúmeras vezes - foi espada e escudo da Formação Política no RS.

Eu e Zoppo buscamos, por diversas vezes fazer plano e programas que “ressuscitassem” o Rio Grande do Sul. Sempre nos reduzimos a análise e desenvolvimento particular. Criamos o plano de estruturação da Formação Política no RS, ao invés de pensar a nossa crítica total à expressão partidária na luta de classes que impedia a Formação Política existir no RS, assim como em todos os locais do Brasil. Mais uma vez, vejam, como fomos federalistas. E o federalismo é uma expressão do trabalho artesanal

“Ora, N. Sanchez, mas não tu não era militante na CNFP?”. Exatamente, o que piora tudo. Negligenciei mais do que qualquer coisa minhas tarefas na CNFP. Além de que a CNFP nunca produziu nada, de fato. Sempre me reduzi, reduzi minha prática.[...]

** camaradas, infelizmente esta minha autocrítica terá que terminar por aqui. Meu desligamento torna-se uma necessidade imediata. São motivos pessoais. Por sorte, daqui em diante o camarada F.Zoppo tem todas as condições de escrever um texto expondo os fatos seguintes, e uma crítica qualificada a nossa atuação na UJC.

Agradeço por tudo.

Estarei incorporando nesta tribuna um fragmento do texto que escrevi ao último BID do RS, além disso, mandarei mais duas tribunas na mesma leva : “Inserção embrionária e a UJC na "retaguarda" a UJC-ES, as Greves em SP e BA e a questão Palestina”[em que enviei no pleno da CN] e “O Partido e o Sujeito Coletivo: notas de um debate sobre Formação Política.”[enviado para o UFRGS]

Linhas Fundamentais para preparação do Congresso no Rio Grande do Sul A concepção liberal de Liberdade para Criticar e o debate formal do RS”

Camaradas, é uma pena que para este BID tenhamos de escrever de maneira relâmpago. Teria muitas mais palavras e de melhor qualidade. Contudo, é necessário garantir alguns confrontos logo no embrião desse novo Comitê Regional.

“Não podemos cair no engano de entender o nosso amadorismo enquanto apenas uma má formatação organizativa. A organização é uma cristalização do conteúdo, sua expressão formal; e, da mesma forma, essa forma política constrange e possibilita nosso conteúdo.”

(Thomaz [UFRGS], resposta ao Protonmail O Espelho, 2023)

Comecemos pelo que está mais recente na nossa militância:

“1. Neste final de semana (30/09 e 01/10) o CR PCB-RR/RS irá se reunir em um momento de mais fôlego para fazer um debate político sobre o estado e iniciar sua reorganização geral”[grifo meu] recebi este informe no dia 26 de setembro, pela Marcela, no núcleo UFRGS.

Meus camaradas, não tenhamos ilusão, 1) não haverá debate político (muito menos de fôlego). O que se aplica, também, a um dos problemas que configurou o nosso Ativo Estadual (16 e 17 de setembro) é que não foi antecedido por uma atmosfera de debate, não foi forjado pelo fogo. Por isso todas as falas eram abstrações isoladas, não conversavam entre si e não possuíam finalidade. Ademais, o problema é que não estamos rumando para a formulação política. Não proponho que larguem tudo e deixemos nossa organização sem forma, mas que tomem como prioridade o debate político, prioridade número 1, não façam (como vou provar que assim temos feito) da análise de necessidade política alguns episódios abstratos e isolados.

Quando menciono as falas abstratas do Ativo é impossível não enfatizar que isso se dá, também, pela concepção liberal de liberdade para criticar no qual o espaço foi construído. No nosso ativo estadual conseguimos eleger um novo Comitê Regional de identidade de esquerda, contudo, sem desenvolver no Rio Grande do Sul um debate da luta econômica e da luta política, ou seja, sem desenvolver uma concepção. O nosso ativo foi um espaço em que o ecletismo foi preponderante, instaurou-se um debate abstrato sobre “forma organizativa” sem ter princípios políticos. Iniciamos uma “reconstrução” sem construir nada de novo. Mas por qual motivo?

Quando digo “concepção liberal de liberdade para criticar” estou sendo muito preciso. Muitos poderão dizer "Mas nós temos a liberdade de criticar, ué! É nossa grande diferença com o PCB-formal”. Ei, calma lá. A concepção de liberdade de crítica que compôs o atual CR é liberal. Vejamos como foi construído o Ativo: "Todos os indivíduos são livres para dizer o que pensam!”. Uma maravilha que todes possam ter direito a voz, mas em que condições? Sem incendiar a militância em debate prévio? Apresentando uma carta que “muda os rumos do debate” sem poder ser maturada e desenvolvida pela militância, sem poder ser objeto de crítica? Sem ser antecedida pelo papel da polêmica? [o foco da crítica não é a carta ou ao processo clandestino] Ahh! Liberdade para criticar! Que grande liberdade é essa que é induzida! Induzida pois havia, naquele espaço, apenas um grupo que estava numa constância de debates. Que grande liberdade é essa que não permite preparação e formulação?

– “Que magnífico Congresso é este!”, Respondi-lhe, “Uma luta aberta e livre! As opiniões são ventiladas. Os matizes de opinião se revelam. Manifestam-se grupos. Levantam-se as mãos. Uma decisão é anotada. Deixa-se para trás uma etapa. Para a frente! – eis do que eu gosto. Isto é a vida. Não se trata de uma interminável e aborrecida discussão em que tudo são palavras de intelectuais e que se encerram não porque se tenham resolvido uma questão, mas simplesmente porque as pessoas cansaram de falar…” (Lênin, 2020, Traduagindo)

Não tivemos nenhuma dessas características que Lênin elogia, tivemos? Ao invés de “manifestam-se grupos”, tivemos uma plenária na cauda de uma inércia e do debate sem-forma. Percebam que nossas falas não conseguiram desenvolver as experiências particulares na compreensão da “tendência” que fundamenta essa particularidade, ficamos nessa grande neblina. Isso se dá, é claro, porque não temos polêmica no RS (que nem a Provisória-RR do RS, nem a CRUJC-RS, nem nenhum núcleo ou célula fez), es militantes não foram forjados para possuírem princípios políticos! Mas fico preocupado, em especial, porque nosso ativo não tomou corpo de debate (de qualquer aspecto que não as narrativas de qualidades isoladas e abstratas que “um partido deve ter”) as “críticas” aos desvios do PCB-formal não se traduziram em críticas à concepções políticas, em análises maduras. Nesse sentido não avançamos um passo.

Mantivemos boa parte da UJC conosco, várias células também, contudo, não elevamos o estado de pensamento da militância do RS. O fato de mantermos tantos militantes na RR, no RS, é, em especial, por 3 motivos: 1) O CRPCB-RS formal era nitidamente incompetente em tudo que se propunha a fazer, tinha quase nenhuma influência sob as bases. Como seria num contexto em que tivéssemos uma instância oportunista com mínima presença? 2) As movimentações do PCB-RR a nível nacional foram de fato qualificadas, as tribunas abertas, as publicações de Jones Manoel, todo o respaldo do lavrapalavra construíram um cenário excelente para munir e desenvolver a disputa, inauguraram um processo de debate em todo complexo partidário. 3) O “gap geracional” que temos na militância gaúcha e constituição majoritária do complexo na Juventude. Mas não podemos dizer que se deu pelo debate, que foi forjado pelo fogo como as polêmicas a nível nacional.

Infelizmente não podemos dizer que o atual CR-RS eleito, assim como as ideias promulgadas, no Ativo Estadual é forjado pelo fogo, mas por águas mornas. O que temos atualmente é um grupo com identidade “mais” revolucionária [e eu faço parte desse grupo ainda “identirário”!]. Mais do que as polêmicas, tivemos o movimento de uma cúpula “mais democrática”. Por enquanto essa democracia e essa vocação revolucionária são apenas verborragia e identidade, quando tiveram a oportunidade de escolher entre a polêmica e a política de cúpula, escolheram pela política de cúpula. “mas deixamos para fazer a polêmica quando já estivéssemos consolidados no estado, com um bom número de militantes alinhados conosco é mais seguro”, é exatamente a política de cúpula.

Sei que muitos podem dizer “perfeito! porém, nicolas, estás ignorando que é um CR provisório, o verdadeiro CR virá na etapa congressual, os debates iniciam agora! Não crie tanto caso!” Não é criar caso, são apontamentos fundamentais que mostram que não nos “emancipamos”, nem nos colocamos efetivamente no processo, em quase nada da concepção que o PCB formal carregava. Nossa militância estava em inércia no PCBformal (inclusive, é impressionante pensarmos que a UJC-RS na sua maioria concorda com o RR, mas não fazia a polêmica com o PCBformal [vejam, é uma autocrítica]). Igualmente, saliento essa nova configuração de militância como 10 vezes mais frutífera que a nossa antiga condução. Como ainda estamos nas abstrações e no ecletismo, não diria que demos um salto, nem que demos algum passo, mas sim que passamos a olhar “por onde andávamos”. Por isso, com esse balanço conseguimos perceber: Não vai bastar dar ao militante a “possibilidade de falar”, construir os espaços como episódios, será necessário uma dinâmica contínua que envolva-o nas condições para “elaborar e formular, brigar e agitar”


[1] https://docs.google.com/document/d/1J3iwNN34g-9RO-w2YFzm8X832r8Q3eQ5UaQppkZ-4Dg/edit?usp=sharing

[2] Esse termo “círculo de estudos” é uma referência ao texto “Sobre o Significado do Materialismo Militante”, de Ilich Lênin.

[3] essa lista mudou de nome duas ou três vezes, contudo, aqui chamaremos pelo seu nome final.

[4] a partir deste ponto o texto perde qualidade, uma vez que meu desligamento torna-se uma necessidade imediata. Terminar essa autocrítica, pelo menos a exposição dos fatos, tornou-se uma tarefa a ser “cumprida”.