'Abandonemos o MUP para construir a Universidade Popular Socialista!' (L. Queen)

Minha proposta, camaradas, é que abandonemos o MUP enquanto movimento, porque ele é na verdade uma tática etapista, um movimento amorfo que serve para nos camuflarmos no meio da social-democracia ou, melhor dizendo, para não nos diferenciarmos dela.

'Abandonemos o MUP para construir a Universidade Popular Socialista!' (L. Queen)
"Não temos programa, não temos organização. Na prática o MUP é a UJC muito mal disfarçada, nos leva a uma confusão tática dentro do movimento estudantil."

Por L. Queen para a Tribuna de Debates Preparatória do XVII Congresso Extraordinário.

Camaradas,

Venho refletindo ao longo dos últimos tempos sobre o MUP, esse Movimento amorfo e desorganizado que nos obrigamos a construir ao longo dos últimos anos. Gostaria de iniciar essa reflexão a partir de uma frase que ouço muito em meu núcleo e que diz respeito a uma certa indistinção prática entre MUP e UJC, uma frase que reverbera a reclamação constante de que “o MUP parece uma UJC light”. Na prática, isso significa que vestimos a camisa do MUP nos locais em que a foice e o martelo podem nos causar problemas ou nos embaraçar (seguindo uma lógica anti-leninista de propaganda, para não dizer etapista). É como se fosse uma maneira de convencer aquele professor progressista social-liberal de que somos confiáveis (porque não estamos defendendo uma revolução, mas apenas uma “universidade popular”, seja lá o que isso venha a significar), é uma maneira de não nos fazermos notar por aquele aluno ou professor reacionário. De um modo geral, esse MUP que construímos, que se tornou em meu núcleo essa UJC light, tem muito a ver com a relação que queremos construir com professores em grupos e projetos de extensão sem melindrá-los (apesar de que na prática isso já os melindra). Não temos medo nenhum de aparecer com a camisa da UJC frente aos estudantes. Usamos a camisa do MUP quando queremos falar mais manso.

A falta de um caráter bem demarcado do que é o MUP nos leva ainda a outro problema: o MUP enquanto organização simplesmente não existe. Há mais de seis anos que não há um congresso do MUP, não há uma coordenação nacional que coordene alguma coisa. Quando estive junto à Comissão de Agitação e Propaganda do MUP-Pós Graduação nacional éramos todos da UJC ou PCB e estávamos restritos basicamente aos estados de São Paulo e Minas Gerais. Era francamente ridículo dizermos que representávamos os alunos da Pós-Graduação do MUP à nível nacional. Nosso trabalho era basicamente agitação nas redes. Como consequência à essa inexistência de uma organização de fato, as próprias formulações sobre o que é “a linha da universidade popular” são muito restritas e, sinceramente, rebaixadas.

Quando pesquisamos por “mup movimento universidade popular” no Google, o primeiro link que retornamos é o texto “Movimento por uma Universidade Popular”, do menchevique Mauro Iasi. O segundo link é a página do Instagram do MUP nacional. O terceiro link é um link do Wikipedia com poucas informações realmente relevantes. O quarto link é o manifesto do MUP: Lutar, criar, universidade popular.

Vou dar atenção ao primeiro e ao quarto link, que são textos que se propõe a explicar o que é o MUP, de alguma forma ou de outra.

Começo pelo texto do camarada Imp porque o considero importante. Justamente por ser um texto pequeno, que se propõe a delinear em linhas gerais o que é o MUP e que está em destaque na internet, é um texto que para muitas pessoas deve ter sido uma introdução ao MUP, como foi para mim a partir da primeira vez que ouvi falar do movimento. Na tentativa de explicar o que o MUP se propõe, Iasi diz:

A universidade que temos, seus limites e contradições, não são apenas limites e problemas de um modelo universitário – o que implicaria na proposição de saídas técnicas, administrativas e pedagógicas que nos levassem na direção de outro modelo – mas, expressão dos limites da emancipação política própria da ordem burguesa, ou seja, é o máximo de emancipação que podemos chegar “dentro da ordem mundana até agora existente. (...) Bom, se a Universidade como aparelho privado de hegemonia, local de reprodução do saber, da formação profissional e da ideologia dominantes, é um instrumento da hegemonia burguesa, qual o papel de um movimento por uma Universidade Popular? Não Pode ser a pretensão de que se altere este caráter no âmbito universitário sem que se altere seus fundamentos, ou seja, as relações sociais de produção e as formas de propriedade próprias da ordem do capital. Neste sentido o movimento por uma Universidade Popular é um movimento contra-hegemônico.

Portanto, Iasi coloca que o modelo de universidade atual é também expressão da ordem burguesa e das relações sociais de produção capitalistas – afirmação que dificilmente podemos discordar. Dessa constatação decorre outra que também não temos como discordar: de que não podemos ter pretensão de alterarmos o caráter da universidade sem alterar as formas sociais de produção e propriedade.

Porém, qual o caráter dessa universidade que queremos construir? Como seria a Universidade Popular? Essa Universidade Popular é um modelo que pode ser aplicado individualmente à cada autarquia universitária no país ou trata-se de uma nova forma social para a educação superior no Brasil? Iasi continua:

(...) Não podemos impedir que a burguesia e seus aliados expressem seus interesses no fazer diário da Universidade, mas temos o dever de apresentar ali os interesses dos trabalhadores. Devemos afirmar, parodiando Brecht, que ali onde a burguesia fale, os trabalhadores falarão, ali onde os exploradores afirmem seus interesses, os explorados gritarão seus direitos, ali onde os dominadores tentarem mascarar sua dominação sob o véu ideológico da universalidade, os dominados mostrarão as marcas e cicatrizes de sua exploração.Na prática isso significa uma defesa intransigente do caráter público da universidade contra suas deformações mercantilizantes e privatistas em curso; não uma convivência formal entre ensino, pesquisa e extensão, mas sua efetiva integração; a recusa em aceitar uma formação profissional rebaixada convivendo com as ilhas de excelência, mas tomar de assalto o templo do saber e dotar de toda a complexidade e riqueza do conhecimento como condição de execução das diferentes frentes de ação profissional; romper os muros universitários não para levar conhecimento aos “menos favorecidos”, mas para constituir uma unidade real com a classe trabalhadora e suas reais demandas como o sangue vivo das necessidades que deve correr nas veias da busca pelo conhecimento que garanta a reprodução da vida e não a boa saúde da acumulação do capital.

Assim, na prática, o que Iasi propõe como universidade popular é uma universidade que: 1) seja radicalmente pública; 2) integre efetivamente pesquisa, ensino e extensão; 3) universal, ou seja, sem a distinção entre ilhas de excelência (universidade públicas, universidades privadas de ricos como PUC, Mackenzie, etc) e centros de formação profissional rebaixada (universidade privadas de massa); e 4) que construa unidade real com as demandas da classe trabalhadora.

Destes quatro pontos, destaco, os três primeiros são possíveis e reais em diversos países capitalistas. O próprio texto faz referência ao movimento de Córdoba, na Argentina, um país capitalista, como um histórico e referência para a criação do MUP. Talvez somente para o quarto ponto é que seria necessária a existência do socialismo, em especial no caso brasileiro.

Aqui devemos lembrar que a realidade brasileira atual é de um país cujo domínio do capital se expressa de maneira brutal sobre a educação – principalmente após os governos petistas que inflaram as burguesias deste setor através de absurdos programas de financiamento estudantil, deixando muitos trabalhadores endividados para ter a sonhada qualificação profissional que supostamente garantiria uma melhor qualidade de vida. Assim, não consigo discordar que, no caso do Brasil, essa universidade universal, pública e extensionista, que talvez fosse possível em outro país capitalista, só será possível em terras tupiniquins após uma revolução socialista.

Contudo:

Por tudo isso, a universidade que queremos construir é mais que pública (precisa ser radicalmente pública, mas é insuficiente), é popular, com toda a imprecisão que o termo traz e que precisamos polir até chegar à construção contra-hegemonica que contraponha os interesses da burguesia com a sólida afirmação da independência e autonomia dos interesses dos trabalhadores. Por isso, por sua intencionalidade e sua direção, a luta por uma Universidade Popular é uma luta anticapitalista e socialista, ou seja, ao se defrontar com os limites da emancipação política burguesa apresenta a necessidade da emancipação humana. (IASI, 2011 – grifos meus)

Aqui temos uma compreensão que considero equivocada e ilógica. Vejamos o argumento de Iasi: A luta pela Universidade Popular é uma luta socialista por conta de sua intenção e direção (mesmo que o inferno esteja cheio de boas intenções); ela também apresenta a necessidade do socialismo porque, através dessa luta, enxergaremos os limites do capitalismo. Por outro lado, o termo “popular” se trata de um termo impreciso que precisamos “polir” (ou seja, formular sobre seu significado). Em outras palavras: a luta pela Universidade Popular é uma luta socialista porque ela se 1) declara assim (mesmo que o significado de popular não esteja bem definido por nós) e 2) porque através dessa luta iremos observar os limites da universidade burguesa, o que nos levará ao socialismo.

Camaradas, tal afirmação grotesca, mas retoricamente bem construída, se trata do mais profundo etapismo e oportunismo academicista, que quer um movimento para chamar de seu. É a ideia de que precisamos lutar pela universidade popular para chegarmos ao socialismo ou, ainda pior, é a ideia de que somente através da luta pela universidade popular é que veremos a necessidade da emancipação humana, o que é um completo absurdo.

E digo mais, creio que essa concepção etapista perpassa todo o MUP que temos hoje, a partir das determinações históricas que o levaram a se constituir como hoje se apresenta.

Aqui cabe um parêntese sobre um documento mais antigo, a cartilha do MUP - ORIENTAÇÃO À CRIAÇÃO E FUNCIONAMENTOS DE GRUPOS ESTUDANTIS DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA, de 2009. Vejamos o que ela diz:

Da necessidade do movimento estudantil de discutir uma estratégia que o norteie, na direção de uma universidade transformadora, criadora de indivíduos críticos a essa sociedade capitalista, o MUP surge com o enorme desafio de compreender a situação histórica de nosso povo, e o papel que a universidade pode potencializar para a transformação.

Ou seja, essa concepção etapista está presente no MUP desde sua criação. É a fábula acadêmica de que a universidade, quanto este ente reificado, é um potencializador da transformação social[1].

Vejamos então o que diz um documento mais recente, o já citado Manifesto do MUP: Lutar, Criar, Universidade Popular!, publicado em julho de 2020, no começo da pandemia. O primeiro ponto é dedicado a uma análise de conjuntura, que faz um apanhado geral do que acontecia com a classe trabalhadora no Brasil à época e como a pandemia afetou sua vida. O segundo ponto, chamado “CONTRA A SUBSTITUIÇÃO DO ENSINO PRESENCIAL NAS UNIVERSIDADES E INSTITUTOS FEDERAIS” é uma mera defesa do caráter presencial do ensino, em que se faz um apanhado de informações a respeito do acesso à internet da classe trabalhadora no país. Este ponto até faz críticas justas à maneira como foi conduzida a transição do ensino presencial para o ensino à distância durante a pandemia, focando um bocado no governo Bolsonaro, mas são reivindicações que qualquer movimento social-democrata poderia ter colocado em seu programa.

Neste documento a palavra socialismo aparece uma única vez, como uma palavra de ordem ao final deste segundo ponto:

Não iremos rebaixar nossas bandeiras! Há mais de um ano o movimento estudantil brasileiro impõe denúncias e derrotas ao projeto de destruição da educação coordenado por Bolsonaro, Mourão, Guedes e seus aliados, e novamente daremos nosso recado em defesa da educação pública, gratuita e de qualidade, firmes na luta pelo acesso universal e pela universidade popular, na construção do socialismo!

Aqui o documento repete a fórmula Iasiana de que a luta pela Universidade Popular é parte do caminho ao socialismo (e não a decorrência da tomada do poder pela classe trabalhadora, ou seja, a decorrência DO socialismo). E, novamente, a construção da Universidade Popular se confunde aqui com a defesa da universidade pública burguesa.

O terceiro ponto do documento, “PELA GARANTIA E AMPLIAÇÃO DAS POLÍTICAS DE ASSISTÊNCIA e PERMANÊNCIA ESTUDANTIL” novamente faz uma análise de conjuntura do Governo Bolsonaro e as implicações para a permanência estudantil e termina propondo:

Tendo essas questões como pontos centrais, defendemos e reivindicamos:

- Revogação imediata da EC 95;
- Maior investimento e garantia para o PNAES;
- Redirecionamento das verbas de serviços que estão parados (como restaurantes e ônibus universitários) para as demais áreas ligadas à assistência estudantil ampliando os auxílios;
- Distribuição de produtos de higiene e limpeza para as moradias estudantis;
- Desburocratização no acesso de bolsas das universidades;
- Ampla distribuição de aparelhos tecnológicos e que isso não sirva de chantagem para que os estudantes façam disciplinas remotamente;
- Serviços de atendimento psicológico;

Novamente, nenhuma proposta verdadeiramente revolucionária que coloque o controle da Universidade nas mãos dos estudantes e trabalhadores. Não há uma categorização do que seria uma Universidade Popular. O que temos são propostas importantes, claro, mas que não apontam em nada para a superação do capitalismo e nem sequer para a construção da Universidade Popular em sua concepção mais rebaixada. Mais do que isso, são propostas direcionadas à ação do Estado, que pedem maiores investimentos e a uma atitude mais social-democrata do governo Bolsonaro (o que nos deveria soar um escárnio). Não há nada sobre como os trabalhadores e estudantes deveriam agir para a tomada do Poder, para o controle das funções universitárias, não há nada sobre a organização de uma greve estudantil e sindical dentro da universidade, nada sobre a auto-organização dos estudantes para cumprir com as necessidades de permanência (um exemplo disso e que mencionaremos mais adiante é o movimento que os moradores da moradia estudantil organizaram para preparar almoços grátis aos finais de semanas como forma de protesto contra a não abertura do bandejão da Unicamp aos finais de semana).

O quarto ponto, “CONTRA O PL 3076/2020: O FUTURE-SE 2.0”, se trata de uma pauta defensiva contra o governo Bolsonaro, sem propostas além da negação do PL 3076/2020. Não vale nem a pena reproduzir os trechos.

O quinto ponto, EDUCAÇÃO NÃO É MERCADORIA, DEVE ESTAR ACIMA DO LUCRO!” trata das universidades privadas em particular, realizando inicialmente uma análise de conjuntura que critica as grandes empresas de educação privada. No segundo subtópico o texto fala sobre a luta pela redução das mensalidades nas universidades privadas durante a pandemia, o que poderia até servir de base para uma ação tática da militância, mas que é pouco explorada – mesmo que ainda essa proposta seja bastante rebaixada a uma noção social-democrata, em que se pede apenas a redução das mensalidades e não a estatização das universidades privadas, nem mesmo o congelamento das mensalidades, que já deveria ser uma pauta mínima dentro de um programa revolucionário.

O ponto termina com mais propostas:

Por isso que, além de lutarmos pela redução das mensalidades, que é direito dos estudantes, defendemos:

- A suspensão imediata das mensalidades, sem que haja cobranças posteriores ao período de suspensão das aulas;
- O fim da aplicação de aulas à distância na modalidade online em caráter de obrigatoriedade;
- A manutenção dos salários integrais a todos os trabalhadores durante todo o período de fechamento das instituições, que os grandes acionistas arquem com os custos da crise;
- A anulação dos critérios de frequência e aprovação para manutenção de bolsas e financiamentos, não podemos tolerar um ensino que cobra da mesma maneira, mas que não ensina da mesma maneira;
- O congelamento das taxas de juros sobre o financiamento via FIES ou outros programas privados;
- A manutenção do pagamento de bolsas e auxílio financeiros durante o período de pandemia, e a liberação imediata dos estudantes em estágios obrigatórios sem prejuízo;
- A isenção de taxas de trancamento de matrícula durante o período que perdurar a pandemia;
- A manutenção de bolsas em casos de matrículas trancadas no período da pandemia e reabertas após seu término;
- Programa Emergencial de Assistência e auxílio para os estudantes de universidades privadas.

Novamente, propostas que não apontam nem para a organização dos estudantes e trabalhadores, apelando em abstrato para atitudes estatais ou das empresas. Ou seja, num contexto de governo Bolsonaro essas propostas são completamente infrutíferas sem um movimento de massas. Mas nada se fala sobre isso. E ainda assim, nada neste texto aponta realmente para uma perspectiva revolucionária, nem mesmo para a construção da perspectiva mais rebaixada de Universidade Popular. Novamente são propostas defensivas que não avançam sobre a perspectiva burguesa de universidade.

O último ponto, “CONSTRUIR A UNIVERSIDADE POPULAR É PRECISO!” é na verdade o mais importante, porque é onde o documento tenta explicar o que é a tal da Universidade Popular e contrapô-la ao que chama de “projeto de educação defendido e executado pela extrema direita”.

O primeiro parágrafo diz:

O projeto de universidade que defendemos e precisamos é aquele capaz de compreender e transformar realidade [sic], articulando o tripé ensino, pesquisa e extensão com objetivo de atender às reais necessidade da nossa classe, que sente ainda mais os impactos das contradições em períodos de crise como esse. Os esforços das instituições de ensino precisam se voltar para o combate à crise sanitária em defesa da vida. E isso pode ser feito por meio do fortalecimento e ampliação das atividades que hoje já acontecem nas universidades, que resistem às inúmeras tentativas de sucateamento e desmonte. São exemplos as universidades que hoje realizam testes de COVID-19, que, com maior financiamento, poderiam contribuir dentro de um programa de testagem em massa, fundamental para evitar o avanço da pandemia. (grifos meus)

A primeira frase é um absurdo. Explico: a Universidade burguesa compreende e transforma a realidade (sob os interesses da burguesia, mas o faz). Ou alguém dirá que os pesquisadores da Unicamp que desenvolveram o iFood não compreenderam muito bem o momento atual do estágio de desenvolvimento capitalista e souberam transformar a realidade brasileira profundamente? O texto subestima e tanto o poder da universidade burguesa e a capacidade que ela tem de moldar tanto a estrutura, como a superestrutura da sociedade capitalista.

Mas certo, entendemos que, para além de compreender e transformar a realidade, a Universidade Popular precisa também articular “o tripé ensino, pesquisa e extensão com o objetivo de atender às reais necessidades da nossa classe”. Esta proposta é necessária para a Universidade Popular, mas ela não basta, a Universidade Popular precisa também ser gerida e controlada pelos trabalhadores e estudantes que a integram. Essa proposta consegue avançar até os limites do manifesto de Córdoba – talvez um pouco além, por demarcar uma posição de classe –, mas não consegue apresentar o que de fato é a Universidade Popular socialista.

Como um exemplo dessa perspectiva voltada para “atender às reais demandas da nossa classe [a trabalhadora]”, o texto fala sobre fortalecer e ampliar atividades que a universidade burguesa já exerce, sem fornecer uma perspectiva socialista ligada à organização das massas estudantis e trabalhadores para a tomada do poder burguês e controle da universidade.

O parágrafo seguinte diz:

Nossa luta é pela universidade que luta pela garantia de quarentena com dignidade para seus estudantes e trabalhadores, concentra seus esforços no combate à pandemia ao lado dos trabalhadores brasileiros, direciona seus recursos humanos e tecnológicos para produção científica que responde às necessidades de quem constrói esse país.

Novamente o texto apresenta uma perspectiva rebaixada de qual universidade lutamos. Não há direção de como os estudantes e trabalhadores podem construir a Universidade Popular, eles são meros expectadores críticos da burocracia universitária. A universidade aparece como um ente reificado, desprovido de um movimento de massas e de organização da classe trabalhadora, desprovido das contradições de classe.

Por fim, fica a dúvida, como lutamos por essa Universidade Popular (por mais rebaixada que ela tenha se mostrado até agora)? Jamais saberemos, porque o documento termina da seguinte forma:

Nosso projeto de universidade passa necessariamente por um projeto de poder popular!

É o momento de fortalecer o movimento estudantil e as nossas entidades para resistirmos ao projeto de educação defendido e executado pela extrema direita, e apresentar o nosso projeto de construção da universidade popular e a luta contra os retrocessos na educação brasileira!

Ou seja, depois de 18 páginas de análises de conjunturas focadas no governo Bolsonaro e propostas politicamente rebaixadas, que em nada falam sobre a construção de uma Universidade Popular Socialista e em cujo texto a palavra socialismo aparece somente uma vez como mera palavra de ordem, o nosso ‘Manifesto’ dá dois curtos parágrafos de instruções, não sobre como construir a Universidade Popular, mas sobre como defender a universidade que já temos enquanto simplesmente NÃO FOMOS CAPAZES de apresentar nas 18 páginas anteriores do manifesto NENHUM projeto de Universidade Popular.

Camaradas, realizo estas críticas a este Manifesto não por discordar das propostas ou por um desvio esquerdista que ignora as mediações táticas necessárias. As realizo porque, se tratando de um Manifesto, este texto deveria nos fornecer um programa e mediações táticas consequentes com a proposta de construir uma Universidade Popular. O texto deveria deixar explícito para todos que o leem do que se trata a Universidade Popular em sua concepção socialista. Contudo, minha constatação é que nenhuma dessas propostas realmente nos leva a construção da Universidade Popular e que este texto é um texto insuficiente se estamos falando de um manifesto de uma organização que se propõe revolucionária.

Portanto, camaradas, os dois principais textos de apresentação da nossa organização não apresentam de fato o que significa a construção de uma Universidade Popular Socialista e coloca em segundo plano a Revolução Socialista. Temos aqui um etapismo disfarçado de tática.

Minha proposta, camaradas, é que abandonemos o MUP enquanto movimento, porque ele é na verdade uma tática etapista, um movimento amorfo que serve para nos camuflarmos no meio da social-democracia ou, melhor dizendo, para não nos diferenciarmos dela. Não temos programa, não temos organização. Na prática o MUP é a UJC muito mal disfarçada, nos leva a uma confusão tática dentro do movimento estudantil, nos leva a gastar inúmeros esforços inúteis na construção de um movimento natimorto que se propõe a lutar por algo que só pode ser conquistado com o socialismo, sem colocar a luta pelo socialismo em primeiro plano.

Quantos esforços poderíamos ter nos poupado se simplesmente fossemos o que somos, a UJC, e pronto? Até mesmo a ideia de que o MUP é mais ‘palatável’ aos professores, para eventuais parcerias em projetos extensionistas, é falsa. Quando um professor aceitava trabalhar com a gente e botava fé nos nossos projetos (como foi o caso de uma professora da Faculdade de Engenharia Civil, que não nomearei para não a complicar), pouco importava se estávamos vestidos com a camiseta do MUP, da UJC ou do PCB. Acabou que os professores que trabalharam conosco sabiam que éramos comunistas e confiavam em nós por nossa prática, e não pela camisa que usávamos.

Contudo, houve casos mal sucedidos. Cito o exemplo de quando nos aproximamos de professores da medicina que já realizavam extensão no acampamento Marielle Vive do MST, esta aproximação feita através do MUP e com grande apoio das direções do acampamento. Esta aproximação foi completamente mal sucedida, por mais que tivéssemos tentado camuflar o comunismo na escrita do projeto e por mais que gozássemos de muito respeito dos camaradas do MST. Nossas propostas para o projeto de extensão foram todas recusadas e fomos colocados de escanteio pelos professores.

O MUP, camaradas, é um engodo que confunde a militância e a base estudantil, desorganiza nossos trabalhos e é incapaz de fornecer um programa revolucionário para a construção de uma Universidade Popular. Não devemos ter medo de abandonar as velhas táticas que deram errado. Este é o momento de nos livrarmos de todo etapismo e oportunismo, de toda influência pequeno-burguesa academicista e o MUP, camaradas, é isso tudo desde sua formação inicial.

Para que fique claro: abandonar o MUP não significa parar de lutar dentro do movimento estudantil pelas políticas de permanência, pelo aumento do financiamento público ou pelo fim do vestibular. Significa que precisamos dotar essas lutas de um caráter revolucionário e apontar para a classe trabalhadora num geral (e não apenas para a comunidade universitária) que uma universidade 100% pública, gratuita, de excelência e para toda a classe trabalhadora só é possível sob o socialismo. Significa demonstrar que o poder político e econômico da burguesia (vamos lembrar que o maior grupo privado de educação é brasileiro e foi gestado durante os governos do social liberalismo petista) está em contradição direta com o modelo que a classe trabalhadora almeja. Significa que precisamos, acima de tudo, construir e organizar a luta dos estudantes e trabalhadores para a tomada do poder, para a construção dos mecanismo de controle operário dentro da universidade.

Em que momento nestes documentos coloca-se a necessidade mais geral de um movimento de massas organizado em TODA a classe trabalhadora para a tomada do Poder? E a necessidade mais específica de se organizar os estudantes e trabalhadores universitários (terceirizados ou não) para uma greve geral e realizar as conquistas que apontem para a tomada do poder dentro da universidade?

Em quais documentos do MUP é citada a paridade de votos nas eleições universitárias? (Parece até que os textos foram escritos por professores universitários...) Em quais documentos reivindica-se a gestão das moradias estudantis pelos próprios moradores, com autonomia administrativa E FINANCEIRA (ou seja, os recursos alocados podendo ser usados de maneira livre pelos moradores)? Em quais documentos se fala sobre a gestão dos recursos e a administração da universidade ser feita por TODA a comunidade universitária e não apenas pela burocracia docente? Em qual momento os documentos falam de utilização de recursos da agricultura familiar e agroecológica para a alimentação dos estudantes, totalmente subsidiada e em todos os dias da semana? Em que momento agitamos pela estatização completa de todas as universidade privadas do país e da construção de uma grande rede de educação pública gerida pelos próprios trabalhadores? Da reestatização dos diversos setores que foram terceirizados? Da construção de moradias capazes de atender a todos os estudantes? Do abatimento das dívidas dos estudantes das universidade privadas?

De um modo geral os documentos do MUP tratam a Universidade como um ente reificado, sem considerar a própria luta de classes interna à Universidade e os agentes que a constroem. Parecem considerar também a universidade em abstrato como sendo a universidade pública. Onde se encontra a luta de classes dentro das universidades?

No caso da universidade pública, é claro que os professores universitários não são todos burgueses (embora alguns de fato sejam!). Mas, num geral, a pré-disposição desta força social de lutar pelos interesses burgueses é grande. São eles a maior parte da burocracia dentro das universidades públicas. Há algumas semanas na Unicamp um aluno sofreu uma tentativa de esfaqueamento por um professor, num dia de paralisação estudantil. O uso da violência física pode parecer um ponto fora da curva (e de fato o é), mas nos demonstra que os professores num geral estão dispostos a violentar seus alunos, seja fisicamente ou, como de costume, de maneira moral e emocional, para mantê-los restritos dentro dos conformes da ordem burguesa. Estamos tentando lutar contra esta força social dentro das universidade públicas? Tensionar para que eles se desloquem, arrastados à força, para posições proletárias? Ações como o constrangimento de professores fascistas são boas, mas estamos constrangendo os reitores e burocratas que adotam o discurso neoliberal de corte de gastos e construção de superávit no orçamento universitário? Estamos conseguindo constranger professores que realizam cursos de extensão voltados ao mercado? Ou gastamos nossos esforços em tentar convencer eles de que somos bonzinhos e que lutamos pela nobre causa da universidade popular (e não do socialismo, que fique bem claro!), enquanto somos desgastados pelas infinitas disputas do movimento estudantil?

Nas universidades privadas, qual o papel dos professores? Não saberia dizer ao certo, mas tendo a crer que é diferente a depender do caráter da universidade privada. Uma PUC da vida me parece ter mais gerência dos professores e a formação de uma burocracia universitária meio que aos moldes da universidade pública. Por outro lado, as privadas de massa me parecem ter professores em um perfil um pouco mais proletarizado (embora, talvez, mais engolido ainda por uma ideologia liberal empreendedora).

Mas os documentos do MUP simplesmente não versam sobre isso. Não tratam da correlação de forças interna à Universidade. Parece as vezes considerar que a universidade (pública) burguesa atual quer muito ser popular, mas o que vem DE FORA não a deixa.

Quando iremos adotar uma postura proletária na nossa agitação e propaganda no movimento estudantil (que é muito mais amplo do que o movimento estudantil da universidade pública)? Paremos de defender o caráter meramente público da universidade atual e passemos a exigir o controle de todas as universidades e faculdades do país, privadas ou públicas. Paremos de tentar convencer professores de que não somos comunistas e passemos a colocá-los contra a parede por suas posições burguesas e suas ações que violentam e dificultam a vida dos estudantes e trabalhadores.

Podem dizer que isso não apresenta mediações táticas consequentes, mas é fato que há inúmeras mediações táticas que podem ser feitas e que apontam para a organização da classe trabalhadora em detrimento de uma espera pacífica na benevolência das reitorias, pró-reitorias e diretorias. Meus exemplos serão focados na universidade pública, pois é de onde eu venho.

Aqui na Unicamp temos o já citado Bandejão da Moras, uma iniciativa dos estudantes (que infelizmente não participamos de sua execução, pelo menos de início) para cozinhar comida para os moradores da moradia estudantil (e também os de fora da moradia) aos finais de semana, quando o bandejão da universidade não abre. Esta iniciativa por si só poderia ser meramente assistencialista, mas ela foi dotada de uma agitação em torno da necessidade de termos um bandejão funcionando aos finais de semana. Para além disso, ela também demonstra que os estudantes podem se organizar e administrar seus interesses dentro da universidade de maneira eficiente, já que o Bandejão da Moras conseguiu cumprir ao que se propôs.

Recentemente, com o avanço de uma greve estudantil, os estudantes arrancaram da reitoria a abertura do bandejão aos finais de semana (ou pelo menos um documento assinado pela reitoria em que há uma promessa para que a abertura do bandejão aos finais de semana seja realizada até o final do ano).

Também foi durante a greve que os estudantes colocaram uma rampa de acessibilidade no Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC). Outra demonstração da capacidade que os estudantes e trabalhadores tem de gerir seus próprios interesses. É um importante momento da elevação da consciência de classe, da compreensão de que a organização da classe estudantil e trabalhadora é capaz e necessária para construirmos a tal da Universidade Popular.

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Há muitas outras mediações táticas capazes de realizar a elevação da consciência de classe que não poderei citar aqui. O importante para mim é: precisamos abandonar o MUP e seu programa rebaixado, construir um programa comunista e revolucionário para construir a Universidade Popular Socialista, mas que forneça orientações concretas sobre como construir as mediações táticas necessárias à tomada do poder dentro da universidade, sem trocar a agitação e propaganda marxista-leninista pela agitação de um programa etapista e abstrato de Universidade Popular, que é confuso até mesmo para a nossa militância.

Saudações comunistas!