'A importância de uma vanguarda negra no movimento comunista brasileiro!' (Carlos Angelo)

Nosso presente é o reflexo desse passado escravocrata. Para mudarmos é preciso que entendamos a necessidade de quebrar esse ciclo de branquitude no movimento, exercitando-o em diversidade, indo rumo as periferias, indo rumo aos becos e vielas.

'A importância de uma vanguarda negra no movimento comunista brasileiro!' (Carlos Angelo)
"Como pensar em emancipação do trabalhador se nos prendemos aos muros de um espaço que se chama acadêmico [mas que é instrumento de perpetuação do poder branco e burguês], possui sua estrutura de exclusão desses jovens periféricos, trabalhando com uma minoria, se resumindo a uma minoria, como se fosse um grupo ao lado, não na direção da própria vanguarda."

Por Carlos Angelo Oliveira Coelho Junior para a Tribuna de Debates Preparatória do XVII Congresso Extraordinário.

Esses tempos, através da leitura de curso e outros que percebo, me percebo na necessidade de falar sobre raça, gênero e classe. Tantas vezes nossa militância foi cercada por falas de acusação, como se todo o movimento apenas. Se se baseia em pessoas brancas, de classe média, etc., mas será que não? Após reuniões, encontros, eventos e outros, teço uma crítica que me perturba há algumas noites por participar de tarefas e tentar me concretizar nessa militância revolucionária! Mas em quais partes precisamos nos ater a teoria, como perceber o movimento e prática, como isso se choca com raça, gênero e classe?

“O Que fazer?” de Lenin (2019), nos remete a frase singela e citada num continuum de afirmação, "Sem teoria revolucionária não pode haver movimento revolucionário", de se unir estas duas esferas do "Ser revolucionário". Mas me deixa 'encucado' o fardo de quem [o sujeito] o globo catalisador do movimento revolucionário tende a direcionar seus planos de formação e militância. Como nos distanciamos do proletariado, e permanecemos como alvos inacessíveis, acadêmicos, e branco, elitistas? Não é como se não houvesse lutas e demandas negras que reivindiquem esses espaços, como o Minervino, mas me preocupa o fato de nos situarmos, com direcionamentos e lideranças, que mesmo que possam pensar nessa questão [do povo marginalizado], em muitas circunstâncias não se possui experiência vivida da vida do negro [indígena, quilombola, etc.] enquanto proletariado, enquanto agente que sofre, como as autoras, Ana Maria Urpia e Kelly Santos (2021) bem lembraram ao citar Fanon (2008), a perca da sua capacidade de falar por si só, como se tivesse que esperar tudo advindo da branquitude [intelectuais brancos], onde suas demandas, direitos e deveres devem ser decididos por esses que governam já o próprio controle da memória e se privilegiam do Pacto da Branquitude, que Cida Bento (2022) tanto repercute com seus textos. Preocupa-me o fato de mais jovens negros, indígenas e outros de povos originários não tomarem esses espaços na própria militância, dentro das dirigências do movimento, se resumindo, ao que faz parecer, ao Minervino. Como pensar em emancipação do trabalhador se nos prendemos aos muros de um espaço que se chama acadêmico [mas que é instrumento de perpetuação do poder branco e burguês], possui sua estrutura de exclusão desses jovens periféricos, trabalhando com uma minoria, se resumindo a uma minoria, como se fosse um grupo ao lado, não na direção da própria vanguarda.

Somos marcados por muito tempo de teóricos brancos que pensam nos 'melhores' condicionamentos dos revolucionários para a revolução. Pensar na revolução é super interessante, mas pensar em quais trabalhadores precisam ser inseridos, e não falo isso de uma forma idealista, como se somente servisse como uma base, a base da militância, mas pensarmos como possíveis possuidores dessa liderança. Uma vez que nossa sociedade, me refiro a brasileira, possui sua estrutura focada na exclusão desses, é inegável que não os perceber, nos perceber, como agentes importantes dessa manifestação do mais puro ódio organizado se torna uma negação da materialidade conjuntural da sociedade brasileira.

Então como resolver um problema desse cunho?

Fui instigado a pensar a frente, ou melhor, de uma maneira material, que conduza quase um ‘pente fino’ nas possíveis proposições que poderiam fomentar esse giro de interpretação da própria epistemologia do movimento comunista, enquanto militância. Antes de mais nada, é preciso entender o contexto que a militância se encontra, mesmo já tendo explicado de forma simplória no início do texto minha percepção sobre o ambiente acadêmico. Ademais, sigo que devemos, enquanto militância, perceber os ganhos políticos e sociais que pessoas abastadas possuem na sociedade, e isso me referindo a própria parcela da classe proletária que tem seus contatos políticos e financeiros em diversos ramos — que possibilitam vantagens — da educação, política, saúde etc. [‘peixada’]. Isso gera um desenvolvimento do sujeito desigual, é o que Cida ainda chama de pacto da branquitude e Silvio Almeida também chamará de racismo estrutural. Bordieu (1989) explica que existem diversos tipos de capitais, obviamente gerados pelo sistema atual, que vão condicionar e manutenir a vida, mas também o próprio ensino, como cito:

“A cultura “livre”, condição implícita do êxito em certas carreiras escolares, é muito desigualmente repartida entre os estudantes universitários originários das diferentes classes sociais e, a fortiori [por maior razão], entre os de liceus e os de colégios, pois as desigualdades de seleção e a ação homogeneizante da escola não fizeram senão reduzir as diferenças.” (pp. 7)

Bordieu (1989) se refere então a pragmática rotina escolar de pregação do discurso homogeneizante que encobre diferentes no tratamento epistemológico das diferentes classes sociais que participam desse universo. Mas isso se reflete, literalmente, na própria faculdade. Não seriamos, nós, militantes, condicionadores deste pragmatismo também? Uma vez que não se percebendo a militância que se quer tem, não conseguimos ir além destes muros acadêmicos que nos prendem dentro de uma instituição que é, em suma, branca e elitista? Reflito que se rompermos com a casualidade do cotidiano, indo junto a sindicatos, bairro, etc., possivelmente conseguiremos uma maior adesão. E seria nossa maior necessidade a permanência da UJC, e não o MUP? MEP? Quais sujeitos estamos formando nos coletivos, e quais estamos deixando de formar e buscar? Vem-me à mente certos discursos que nossa militância sofre constantemente, e não é difícil de não concordar. Se possuímos uma militância, em grande parte branca, por que não pensarmos em formas resolutivas para agregar e formar pessoas negras, quilombolas, indígenas nos seios do coletivo? A autocrítica nos possibilita enxergarmos o erro e reavaliarmos as possíveis soluções para se permitir seguir em rumos diametralmente diferentes do pensado antes da crítica.

Agora saindo desses ‘lances’ teóricos, me pego tentando entender como materializar o que penso? Para isso, é cabível que a organização comunista pense em formas de se organizar e produzir espaços de fomento formativo fora dos muros da universidade, isto nos possibilitaria uma maior visibilidade, um alcance maior; posteriormente, é preciso pensar em formas de criação de possíveis amparos financeiros para uma militância que carece de tempo, onde se vem sufocados pela própria forma empregatícia do capitalismo, que não veem outra saída a não ser: ter que trabalhar diariamente e estudar nos intervalos — acredito que possamos pensar e vendas, etc.; desenvolvimento de uma formação de cunho racial e de gênero, é preciso de formações que mostrem as possíveis distorções geradas pelo sistema capitalista que dificultam e violentam gêneros e raças diferentes da hegemonia [branca, heterossexual, cis, etc.]. E neste último, é importante uma formação que rompa essas possíveis ideias de que somente o ‘mano preto’ tem que falar sobre violência de raça. A autora Barbara Carine fala sobre isso no seu livro “Como ser um educador antirracista” (2023), onde ela explica que ‘já está na hora’ de começar a falar sobre quem praticou o racismo, que herda a “herança cultural” escravocrata e privilégios de sociedade racista, assim, elucidando os possíveis camaradas que não tem esta forma de se ver o mundo. Mas para além de qualquer proposta de intervenção na militância, é preciso que nos ouçam!

Não precisamos que falem, não precisamos de voz, apenas deixem seus ouvidos atentos e alerta para toda epistemologia que pode surgir do conhecimento negro, indígena, quilombola, etc. Não há somente a necessidade de citarmos intelectuais que se distanciam em cronologia, história, tempo e espaço, quando se possui conhecimentos materiais que podem conduzir melhor, ou contribuir diametralmente na própria práxis teórica do movimento. Nosso presente é o reflexo desse passado escravocrata. Para mudarmos é preciso que entendamos a necessidade de quebrar esse ciclo de branquitude no movimento, exercitando-o em diversidade, indo rumo as periferias, indo rumo aos becos e vielas que possuam todo e qualquer jovem, adulto, etc., que precise apenas de uma formação educativa sobre os processos que penetraram sua vida e o exploram em prol do lucro.

Como nos lembra Grada Kilomba (2019, p. 33) nos remetendo à máscara que cobria a boca de Anastácia: “a boca é um órgão muito especial. Ela simboliza a fala, a enunciação. No âmbito do racismo [e do sexismo], a boca se torna o órgão da opressão por excelência [...] e também da libertação."


REFERÊNCIAS:

KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Tradução de Jess Oliveira. Rio de Janeiro: Cobojó, 2019.

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Renato de Silveira. Salvador: Edufba, 2008.

URPIA, Ana Maria de Oliveira Urpia; SANTOS, Kelly Barros Santos & CARNEIRO,

Sarah Roberta de Oliveira Carneiro. “O imperativo de contar”: uma pesquisa-ação com mulheres e crianças quilombolas.”. Educar em Revista, Curitiba, v. 37, e75599, 2021.

LENIN, Vladimir I. O Que Fazer? BOITEMPO, 2019.

BORDIEU, P. A escola conservadora: as desigualdades frente à escola e à cultura. Educ. Rev. 1989.